UM OLHAR OUTRO

13 de Fevereiro de 2022

1. É da minha experiência de todos os dias. Até mais do que uma vez. Logo pelas nove da manhã, tenho a graça de presidir a uma Eucaristia para cerca de uma centena de pessoas. E a suposta rotina não acontece. Pelo contrário, sinto imenso gosto e tornou-se algo que me enche o dia todo porque me estimula a um sentido de dádiva recebida de Deus e tornada dádiva para os outros. É deste modo que habitualmente começa o meu dia: a Palavra de Deus mexe comigo na medida em que me sinto devedor para com aqueles que esperam de mim uma Palavra que acolhem como vinda de Deus. E sentindo-me grato por esta missão, apelo à gratidão por este dom maravilhoso da Eucaristia que aquela centena de pessoas saboreia. E como é gratificante partilhar o que aprendo da leitura contínua dos textos sagrados, quais espelhos da vida e dos problemas do nosso dia a dia! Sei que para muitos, pelo menos para aquela centena de pessoas que ali se congregam, sem que ninguém as force, aquele momento é de grande intensidade espiritual. O que me faz pensar, nesta nossa sociedade de consumo, de ritmo acelerado, quais os referenciais que enobrecem e elevam a ponto de percebermos que a beleza da vida precisa de silêncio e do estímulo exterior de uma Palavra que nos bate à porta do coração e se torna luz para a jornada.

2. Sabemos que hoje o «espaço» da Igreja foi invadido por muitos outros interesses, bem mais sedutores e mais rápidos no benefício recebido. Há muitos outros «adros» para relações humanas gratificantes. Atrevo-me a dizer que é chegado o momento de reconhecermos que o «espaço» que a Igreja ocupava era bem ocupado: à falta de outros, não havendo competição pelo mesmo espaço, a Igreja ocupava sozinha o adro. Reconheçamos que ocupou bem no sentido de humanizar e potenciar relações fraternas, sadias e libertadoras, promovendo laços sociais humanizantes, muitas vezes traduzidos em expressões culturais, promotoras de identidade e de comunitarismo. É caso para perguntar: quem ocupou o espaço na promoção de laços sociais sadios e libertadores?

3. A igreja, que dizemos estar a passar por uma grave crise, não deixa de propor novidades e respostas às problemáticas que afligem a sociedade e que criam pessoas «amargas» com a vida. Quem acolhe as propostas da Igreja? Teremos razão quando vemos as pessoas que, marcadas por um comodismo alienante, justificado como excesso de trabalho e de compromissos, não reagem a tantas propostas que aparecem, seja da Igreja seja da cultura e da política mesmo e as condenamos? Tantos esforços para se propor novidade que entusiasme as pessoas a saírem do seu comodismo e... nada, queixamo-nos.

Um exemplo apenas, aqui bem perto de nós: o CESM – Centro Espírito Santo e Missão (Seminário da Silva) - bem inserido no meio e comprometido na promoção das gentes da nossa zona, oferece ao longo do ano vários esquemas de formação, quase exclusivamente a título gracioso, sem qualquer intuito comercial mas exclusivamente para que as pessoas, mesmo não religiosas, possam sentir-se equilibradas e felizes, de bem consigo próprias e com os outros. Pois bem, assume despesas, constitui os programas, gasta na sua divulgação... tudo isso com uma única razão, a da dádiva, a do dom, a da missão. Porque animados pelo Espírito não contabilizam os resultados e continuam mesmo que a resposta seja diminuta.

Há dias, participando em curso sobre o «desenvolvimento humano-espiritual», com académica brilhante e reconhecida, que se continua, dava-me conta da ocasião, maravilhosa e acessível a todos, para um «exame de consciência» à minha felicidade e/ou equilíbrio pessoal. Quem dele não precisa?

Atrevamo-nos a sair das nossas zonas de conforto porque ser feliz no ritmo do nosso tempo implica investir em nós mesmos... caso para dizer, a felicidade que desejo não cai do céu.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-02-12

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