UM OLHAR OUTRO

6 de Março de 2022

Já lá vai mais de uma semana. O que julgávamos impossível aconteceu e continua-se: a guerra está na nossa Europa. Os noticiários invadem-nos de barbárie, de poderio bélico que mata sem dó nem piedade, indiscriminadamente. Todos e tudo se torna alvo potencial. Em nome de quê ou de quem? De Deus nunca poderá ser. E é exactamente para Deus que nos voltamos para Lhe pedir contas de um silêncio que deixa livre curso ao sangue de tantas vítimas inocentes, de um e de outro lado, do lado agressor e do lado agredido.

É ao mesmo Deus que todos nós, europeus, africanos, americanos, oceânicos e asiáticos nos dirigimos. E é o mesmo evangelho de que nos dizemos seguidores, o de Jesus Cristo. E é para um Pai Misericordioso que nos encaminhamos todos. Crentes e não crentes temos algo em comum, a nossa Humanidade. E é esta Humanidade que, em múltiplas vozes, forma um coro de protesto contínuo contra as injustiças e os poderes mundanos, que transformam o Paraíso que habita o desejo de todos em vários e horrendos infernos.

Todos irmãos - Fratelli Tutti - olhamos as bombas assassinas e admiramos os gestos heroicos, que julgávamos impossíveis. Todos irmãos, revoltamo-nos e condenamos ditadores que usam da força como se fossem senhores do mundo. Todos irmãos, fazemos juízos e opções, condenamos e solidarizamo-nos. Só que... as bombas caem longe de nós. E ficamos estarrecidos só com a hipótese de elas se aproximarem um dia, um dia que alguns prevêem próximo para os povos vizinhos da Ucrânia.

A questão que Deus dirigiu a Caim, «que fizeste do teu irmão?», assume nova e gritante actualidade nas vozes ucranianas que, diante dos braços cruzados do mundo dito democrata e livre, nos lembram: «hoje somos nós, amanhã, sereis vós».

Entretanto, uma onda de solidariedade varre o mundo livre em rara sintonia: é a Humanidade que grita, que pede que os canhões se calem, que outros poderes assumam responsabilidades e que o povo russo eleve a sua voz, calando ditadores e anseios de imperialismo. E à simpatia para com as vítimas junta-se o «amargo de boca» de quem cruza os braços e diz nada poder fazer. À admiração pela luta heroica de um povo, que apenas exige respeito pelo direito de se organizar e viver em paz na sua terra, deveria corresponder mais, bem mais do que simples palavras.

Por agora, duas coisas se tornaram já realidade: a História vai guardar uma memória horrenda, ignóbil para o agressor; a mesma História foi avivada agora com a dignidade de um povo que resiste uma vez mais a que esmaguem a sua dignidade, a sua história, a sua cultura. Um exemplo para todos, que se tornará referência no futuro.

E Deus no meio disto tudo? E nós os crentes?

Rezamos. E no rezar está o coração humilde e aberto para quem tudo pode. Está o coração que partilha e se compromete com a justiça. Está o dar as mãos a todos, de modo especial àqueles que, escondidos nos bunquers, entre clamores e lágrimas, nos provocam a agir, a não cruzar os braços.

Terá a oração dos crentes, elevada da terra ao céu em todo o mundo, mais força que os tanques ou mísseis russos? Não faltará gente a dizer que é «perder tempo». Só que a História não se apagou e revela-nos que este proceder diante das tragédias humanas é comum a todos. E bem visível nos registos, nas experiências pessoais e colectivas e nos monumentos que assinalam os acontecimentos mais dolorosos de cada povo.

Diante de tanta prepotência e desrespeito pelo ser humano, diante de tanto sangue inocente e da «terra queimada» sem tréguas que as imagens televisivas nos mostram, quem preferimos ou de que lado estamos nós, cada um de nós: do lado da esperança exemplar dos agredidos que não desistem e se voltam para Deus ou dos agressores que se julgam senhores do mundo, reféns de uma racionalidade de números que tenta manipular a História?

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-03-06

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