UM OLHAR OUTRO

3 de Abril de 2022

Uma das acusações feitas ao Ocidente, na tentativa de justificar o injustificável, é a do abandono dos valores, que se impuseram ao longo dos séculos e que da Europa atingiram a generalidade dos povos. O presidente russo parece confortado com o Patriarca Cirilo de Moscovo, que o olha como o «salvador» de um mundo Ocidente pervertido. A União Europeia ter-se-ia desviado dos valores que a tornaram berço de civilizações. Terão eles alguma razão?

Provavelmente muitos se têm posto tal questão. Claro que a questão é, no mínimo, discutível. Sabemos como, quando há anos se discutiu uma possível Constituição Europeia, a menção do Cristianismo como «raiz» desta Europa de nações e de valores gerou controvérsia e muitos foram os países contra tal menção, entre eles o Portugal de Durão Barroso. O próprio Papa João Paulo II, que tanto se bateu para tal, acabaria desgostoso e prevendo desvios de más consequências no futuro dos europeus.

Passadas três décadas, eis-nos diante de uma deriva ideológica grave, já denunciada pelo papa Bento XVI, quando insistia no relativismo ético, que se impunha na sociedade: abandonada a ética, a verdade perdia a sua objectividade e a vida em sociedade ficaria à mercê de poderes descontrolados e de ideologias controversas.

E o que vemos nós, hoje, agravado neste conflito que, sendo entre dois países vizinhos, atinge a todos e ninguém lhe fica indiferente? A barbaridade dos atentados à vida, o «massacre» de populações indefesas e a manipulação da informação está a ultrapassar, diz-se, o pior de outras guerras. Até quando?, perguntamo-nos. Até quando a consciência humana continuará a tolerar tanta crueldade? Até quando continuaremos a assistir à impotência das organizações internacionais que, tentando manter-se na via do diálogo, nada conseguem de concreto? Para que existem elas, afinal, se meia dúzia de países conservam o direito de veto, só pela força bélica de que dispõem? E até que ponto podemos aceitar este «estatuto» prepotente de alguns sobre todos?

Voltemos à questões dos valores da Europa. «Quais são os valores do Ocidente nos dias de hoje» face à Rússia, pergunta-se Davide Lovat (FSSPX, News, 23/03/2022)? E começa por responder, apresentando uma pequena lista. Diz ele: «Outrora eram os valores cristãos, mas hoje estes foram todos postos de lado e são até combatidos com agressividade». Hoje os valores do Ocidente são, segundo o autor; «a celebração da memória da Shoah, o orgulho gay para afirmar socialmente a teoria de género, o cientismo, o positivismo jurídico, o sincretismo religioso, o ecologismo, o imigracionismo para alimentar o multiculturalismo, a libertinagem (isto é, a pornografia, a prostituição, o aborto, a eutanásia, as ‘articulações’ e drogas), o estatismo elevado a uma dimensão continental, a contra-cultura ligada ao progressivismo ideológico...».

Reconhecemos, certamente, que tais afirmações precisam de ser atenuadas, embora sem lhes retirar a força de denúncia, que nos deve levar a um pensamento crítico mas atento à realidade. Por exemplo, esta afirmação do autor: «A ciência foi ridicularizada nestes dois anos de pandemia, (...) fazendo triunfar o cientismo, uma abordagem fanática da ciência que dá às contradições mais absurdas um carácter de dogma religioso, (...) um carácter de absoluto a opiniões que são contraditas semanas mais tarde. O método científico, ao contrário, é outra coisa e não permite qualquer dogmatismo ideológico ou politico».

Amando todos a Europa a que gostamos de pertencer e apreciando o clima de paz e de progresso, de que dispomos, não podemos fechar os olhos à força de certas ideologias, que «negam as raízes éticas, históricas e culturais da civilização europeia».

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay (Florença-Itália)

Publicado em 2022-04-04

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