UM OLHAR OUTRO

10 de Abril de 2022

Das 52 semanas que cada ano contém, nenhuma delas se destaca como a mais «humana» no sentido de trazer à consideração de todos o que é ser humano. Esta Semana Santa, conhecida como a Semana Maior, é uma provocação para todos, de um modo especial para todos aqueles – também nos incluímos nesse grupo - que pensam e sonham um mundo idílico, sem tristeza nem dor, injustiça ou morte.

Os porquês que acompanham a existência humana, tantas vezes ignorados porque incómodos, vêm ao nosso encontro com especial acuidade quando contemplamos o Inocente condenado a carregar uma cruz até ao lugar do suplício, onde, segundo se pensava, terminaria ingloriamente a aventura de um Mestre aclamado pelo povo. Mas não foi isso que aconteceu.

E desde há dois mil anos que neste Crucificado Ressuscitado se projectam todas as perguntas acerca da condição humana. E o povo, na sua fé simples e, por vezes, demasiado simplória, sempre se vai acomodando: «sofremos mas Jesus também sofreu». Nunca foi fácil explicar o sofrimento humano. Nem filosofias nem teologias ou ideologias apresentam discursos consistentes. Precisamos de mais: a fé tem aí o seu lugar. Não para nos tranquilizar e justificar o ficar de braços caídos mas, antes, para nos motivar a uma luta empenhada contra todas as formas de sofrimento que aviltam o ser humano. Dizer que «Deus não quer o sofrimento» não convence muitos dos nossos cristãos. Quanto caminho a fazer para assumirmos que Deus está sempre do lado da vida contra a morte, da justiça contra a injustiça, da verdade contra a mentira.

Situações há em que, por mais que nos custe, o sofrimento bate à nossa porta. E quanto mais próximo de nós, mais nos afecta. Viver em «fuga» não é digno do ser humano, mas antes enfrentá-lo, seja para o «encaixar» em nós, seja para nos levar à acção fazendo-o terminar na vida dos outros.

As imagens televisivas da invasão da Ucrânia, pela intensidade dramática de que se revestem e pela repetição a todas as horas, correm o risco de gerar insensibilidade ao drama que atinge milhões de pessoas, cuja vida ficará indelevelmente marcada por esta guerra que, por mais justificações que se apresentem, resvalará sempre para o «absurdo». Que «poderes» estes para matar, violar, esquartejar, queimar cadáveres para destruir provas...? E porque chegámos a nós, em pleno século XXI a tais horrores? E porque se calam aqueles que têm a missão de denunciar, para se evitarem males maiores a seguir?

Todas estas perguntas fazem parte do nosso quotidiano. E são tanto mais acutilantes quando somos nós, ou os que nos são próximos, as vítimas.

Mas não nos esqueçamos que nada acontece por acaso. O lobo que carregamos em nós, mais forte que o cordeiro que também carregamos, nunca dispensa uma permanente atenção. Daí a educação como processo que deve ser cuidado em todas as fases da existência.

Nesta Semana Santa não podemos deixar de olhar, à luz do Crucificado Ressuscitado, o fenómeno cruel da violência doméstica. O lar, desejado por todos, como espaço primeiro da harmonia, do amor concretizado, do crescimento para uma vida responsável, está hoje invadido de leis que procuram - e bem - justiça e igualdade. Mas revelam-se incapazes de evitar injustiças terríveis. O fenómeno é verdadeiramente desumano e revela quanto as relações humanas estão marcadas pelo sentido de posse. A Semana Santa fala-nos do amor como doação total, que leva a morrer pelo amado. Quando aprenderemos, ao menos nós os cristãos, que o verdadeiro amor é «desposse» e nunca «posse»? Nenhuma pessoa é objecto de posse.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-04-11

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