UM OLHAR OUTRO

17 de Abril de 2022

Sou Padre. Já lá vão quase 44 anos.

Na Semana Santa de cada ano, a quinta-feira é dia especial de tomar consciência da vida e missão, para a qual fui escolhido. Aceitando que fui eleito, fui chamado - Deus sabe porquê e eu não o sei, apenas procurei e procuro continuar a responder - olho para trás e dou graças a Deus. É como padre que vivo e que quero viver. Mesmo que, no dia a dia, o ser padre provoque apreciações diversificadas.

No olhar «sociológico» para onde somos constantemente «empurrados», reconhecemos uma enorme evolução no «olhar» para a vida do padre. Hoje muito menos considerado socialmente do que outrora, apesar disso e até por causa disso, ganhámos em força testemunhal e autenticidade evangélica. Diria até ao martírio, como sempre aconteceu ao longo da história, em contextos tão díspares mas sempre marcados pelo que o Mestre anunciara: «estais no mundo mas não sois do mundo».

Não vão longe os tempos - honestamente todos temos fortes razões para o reconhecer - em que o padre ocupava um lugar de destaque na sociedade, era respeitado pela função que exercia e era dado adquirido que as comunidades viviam à volta da igreja e do seu adro, sendo o padre a primeira figura da aldeia, bem mais considerada que qualquer outra figura. Tudo isso mudou e não faltam análises e conclusões, sempre situadas e marcadas por posições muito personalizadas. Convém sempre ir à História para percebermos as evoluções e os seus ritmos para concluirmos, no hoje, como se mantém ou não o essencial do ser padre: o Homem da Palavra e da acção situado no meio das situações humanas para a todos propor o sentido de Deus.

O Papa Francisco lembrou há tempos, e bem, que tínhamos de nos habituar a considerar as fragilidades humanas e mesmo os pecados e até crimes nos homens e mulheres da Igreja como algo natural, tal como Pedro e os restantes apóstolos, os primeiros enviados em missão, não eram perfeitos e foram escolhidos pelo Mestre no quadro de infidelidades e pecados.

Um pouco «à força», o chamamento universal à santidade acaba por impor-se a partir da humilhação de pessoas outrora tidas como impecáveis e santas. Parece que custa a aprender que estamos todos no mesmo nível diante do Deus Santo e que a obrigação de um agir honesto e digno diante de Deus atinge a todos. O próprio Sínodo, em curso na Igreja, não podia deixar de o ter em conta, até porque o agir sinodal que se pretende parte da igual dignidade de todos os membros da Igreja. Sabemos como, na ordem do agir pastoral, é difícil o compromisso porque a Igreja é ainda olhada como de alguns apenas e não de todos os batizados, ou como de padres e de leigos separados, ou mesmo como «os que mandam» diante «dos que obedecem».

Nos desabafos entre nós, os padres, nota-se uma sensação de impotência diante do «sistema», que «tritura» cada vez mais as pessoas, de modo que muitos caem no desânimo, mesmo jovens, sempre sobrecarregados de trabalho pastoral, sendo-lhes exigido responder a tudo, mesmo que sem condições humanas mínimas. Basta olhar para o «sistema» actual: um padre é «arrumado» por cansaço, desânimo ou por falta de condições de saúde... ou até morre, jovem ou velhinho, e o vizinho terá de assumir todos os encargos que lhe eram atribuídos. E nunca se pede ao povo que simplesmente compreenda que terá de fazer sacrifícios e que muita coisa a que estava habituado terá de «cair». Porque se há-de pedir sacrifícios apenas aos padres e não aos paroquianos? E não será esta maneira de proceder infantilizadora? E não deveremos gastar as poucas forças que restam em preparar o futuro, formando as pessoas para novas responsabilidades?

P. Abílio Cardoso

Publicado em 2022-04-18

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