UM OLHAR OUTRO

1 de Maio de 2022

Foi mais um de muitos episódios semelhantes.

Há tempos apareceu alguém no Cartório a pedir água benta. Dizia que tinha batido já a várias portas, que se lhe fecharam.

Indagando o porquê, a pessoa, que vinha do Luxemburgo e passava por Barcelos, ia-se «descaindo» permitindo saber que era um pedido de alguém que precisava de deitar água benta sobre uma criança três vezes ao dia. E tinha de ser água benta de Portugal. A criança não era batizada, conseguiu saber-se. Porque «o padre daqui não passa os papéis». Já tinha abordado outras paróquias e até tinha passado nas igrejas da cidade. «E os padres criam tantas dificuldades que as pessoas se afastam..».

Claro, os padres são sempre os culpados.

Como eu estava ausente, logo à chegada me foi exposta a situação, que me fez produzir este comentário.

Particularmente sensível a todas as formas e manifestações de superstição, reveladoras de um paganismo crescente, que subjuga as pessoas mantendo-as na ignorância, insurjo-me muitas vezes contra esta mistura fácil e muito repetida de religião e superstição, para dizer que nos custa passar da religião à fé, esta como ato consciente e livre, humilde e responsável, próprio de quem se abre ao mistério do amor de Deus por todos. E que, aberta a esse mistério, a pessoa saboreia uma Liberdade única, que lhe dá felicidade e esperança.

A ignorância religiosa é uma chaga dolorosa no corpo da Igreja, que perturba e contradiz a missão da mesma, a quem Jesus confiou a missão de libertar daquilo que oprime o ser humano. Considero nada mais opressor do que a ignorância, que retira às pessoas a capacidade de decidir entre caminhos diferentes. Muitas vezes foi a Igreja acusada de manter as pessoas na ignorância. É-o ainda hoje, às vezes com alguma razão. Pela minha

parte, tudo tenho procurado fazer para «abrir o entendimento» à verdade da Boa Nova de Jesus e olho para a Igreja como aquela instituição que, no meio de tantas outras, mais assume a missão de ensinar e conduzir para a Verdade, de promover cultura e valores humanos que levam necessariamente a um viver em sociedade com respeito uns pelos outros e assumindo as barreiras

que impedem abusos dos mais esclarecidos e capazes sobre os menos esclarecidos.

São muitos os olhares de suspeição sobre a Igreja, também na sociedade barcelense. Olhares injustos quando se omitem tantas iniciativas tendentes a pôr as pessoas a tomar consciência de si próprias, ajudando-as a crescer por dentro, a juntar-se em grupos de reflexão sobre as grandes causas da sociedade... Uma instituição que tanto investe em energias humanas, já que as de ordem material são escassas. Um olhar também injusto quando apenas se olha para o número dos que vencem as barreiras próprias de uma vida tão cheia que nada mais permite e se medem resultados. Mas esquecem-se os esforços permanentes daqueles que não desistem de «retirar as pessoas da ignorância». É caso para se pôr em causa também a qualidade do nosso ensino, da promoção cultural e dos resultados face aos investimentos. Que haja muitos e novos conhecimentos, que a cultura está hoje bem mais acessível a todos ninguém duvida. Mas estará a geração de hoje mais formada do que a de outrora, isto é, os cidadãos de hoje são mais «libertos» interiormente? Parece que não a julgar por tantas manifestações de superstição e de crendices, de práticas de bruxaria e até cultos satânicos.

Precisamos de voltar às exigências da verdadeira fé no Jesus Ressuscitado e Libertador. Estou convencido de que a acção pastoral da Igreja, sempre necessária e hoje mais que nunca, passa pelo anúncio cuidado da Boa Nova de Jesus e pelo cuidado em separar o trigo do joio, isto é as manifestações de fé contra as superstições. O Cristo que se apresenta e se propõe seguir não pode ser uma qualquer caricatura ao gosto do consumidor, escolhendo apenas alguns aspectos do evangelho mais simpáticos e deixando outros, talvez os principais, de lado.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-05-09

Notícias relacionadas

UM OLHAR OUTRO

7 de Agosto de 2022

UM OLHAR OUTRO

31 de Julho de 2022

UM OLHAR OUTRO

24 de Julho de 2022

UM OLHAR OUTRO

17 de Julho de 2022

UM OLHAR OUTRO

10 de Julho de 2022

UM OLHAR OUTRO

3 de Julho de 2022

desenvolvido por aznegocios.pt