UM OLHAR OUTRO

8 de Maio de 2022

Em dia de oração pelas vocações impõe-se-me uma questão: que espaço ocupa na vida dos fiéis das nossas paróquias a vocação ao sacerdócio? E a oração que suplica ao Senhor que «dê sacerdotes à sua Igreja»? Claro que estas e outras questões entraram nas reflexões sinodais. É legítimo esperar que dêem fruto. Darão?

Antes de mais, é mesmo de padres que a Igreja precisa? Para quê? Para «darem missas»? A quem?

Não será, antes, de casais com vocação, isto é que vivem o matrimónio na santidade do dom da vida mútuo e aos filhos? Se dizemos que há poucos padres e que é das famílias que eles surgem... não seria mais justo trabalhar por casais que vivam a espiritualidade conjugal aberta à vida e empenhada nas necessidades da Igreja?

É claro que os padres são poucos. Quando o dizemos estamos a pensar nas mil e uma tarefas que são chamados a desempenhar. Mas será este «descarregar tudo nas costas do padre» digno da missão que Jesus confiou à sua Igreja?

O Concílio aconteceu quase há sessenta anos. Não será já tempo de pormos em prática as grandes linhas de orientação para o futuro da Igreja, tomada esta como Povo de Deus em que todos, padres e leigos, são responsáveis? Não estaremos nós ajustados a um olhar redutor, tão escandaloso quanto injusto, de que a «a Igreja são os padres», numa atitude de total hipocrisia, que leva a olhá-los como «bodes expiatórios» de todas as hipocrisias próprias de quem tudo espera dos outros mas «não mexe um dedo para nada»?

Tantas vezes dizemos que «há missas a mais». E é verdade entre nós. Uma verdade profundamente injusta quando sabemos que há regiões no nosso país de centenas de quilómetros onde o padre, o único, passa de longe a longe. Mas quando se trata de «tirar a nossa missinha» até os mandões da terra que não põem os pés na igreja fazem coro de revolta porque «sempre tivemos a nossa missinha». Já reparamos que quando o padre corre de missa para missa, celebrando três, quatro ou cinco por domingo, em igrejas diferentes mas pouco distanciadas, bastaria pedir um pouco de «sacrifício» a todos para se deslocarem em vez de pedir ao padre que se desloque a todas as capelas?

Há dias pedi, aos grupos sinodais da Paróquia, que concretizassem a análise feita à Comunhão, Participação e Missão na Igreja aplicando-a à nossa Paróquia: como está entre nós a tal Comunhão, Participação e Missão? De facto, este olhar alargado sobre a Igreja no nosso tempo só valerá a pena se se traduzir em novas atitudes pessoais, as de conversão, que nos tornem mais «inseridos» no Mestre e se, a partir dele, procurarmos novos equilíbrios na acção pastoral.

Padres... poucos, cada vez menos, mais cansados e mais velhos... enquanto Leigos de braços cruzados num jogo de distraídos lamentos...

Não faltam tentativas, um pouco por todo o mundo, de colmatar a falta de sacerdotes para um esquema de pastoral que urge pôr em causa. As comunidades têm de se reorganizar e contar com uma colaboração efectiva dos leigos, formados e reconhecidos na comunidade. Mas quem se dispõe à formação? E quem a paga?

O caso de um bispo suíço que ousou anunciar que iria reduzir os padres da sua diocese, dos actuais 345 a 170, correu as páginas dos jornais. Diante do envelhecimento dos padres e da baixa frequência da missa dominical, ousaria ele prescindir dos padres não diocesanos mas que, vindos do terceiro mundo, carecem do conhecimento da cultura local e até contribuem para que se descuide a promoção das vocações locais.

Paróquias confiadas a leigos, ao menos nos aspectos administrativos e até da presidência da oração comunitária, o que impede que tal aconteça entre nós? Não será tempo de confiar mais nos leigos e de avançar nos ministérios laicais? E no diaconado permanente? Vem Espírito Santo, ilumina e ajuda-nos a não ter medo das ousadias de que a Igreja e o mundo precisam.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-05-10

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