UM OLHAR OUTRO

15 de Maio de 2022

Era expectável a «enchente» de peregrinos em Fátima para a peregrinação aniversária de 13 de Maio. Numa «normalidade» pós-pandémica, os media destacaram a satisfação sentida e há muito desejada.

Numa análise mais superficial, aquela que precisamente desejo evitar com o título desta coluna, foi mais do mesmo: grupos e grupos organizados, levas e levas de peregrinos a pé, muitos estrangeiros, estimativas e contabilidades pela visão de mais ou menos clareiras no recinto, uma liturgia sempre bem cuidada e as manifestações de religiosidade popular bem conhecidas.

Há algo, porém, que estes vários olhares repetidos parecem esquecer. Quando aprecio a hesitação de muitos peregrinos entrevistados pelas câmaras televisivas, pergunto-me: que quer dizer este «não dizer» que, repetido por tantos na mais imprecisa linguagem, deixa surpresos e até incomodados os jornalistas, tantas vezes à procura de sensacionalismo e pouco despertos para a linguagem do coração, onde se situa mais adequadamente a da fé? Será justo, para aqueles que procuram uma linguagem da fé mais «compreensível» racionalmente, esperar dos peregrinos uma linguagem mais ajustada às teologias e mundividências culturais de cada tempo? O que dizem eles neste «incómodo» de se justificarem perante as câmaras deixando respostas incompletas e até não muito «catequéticas»? Ouso responder:

1. Assumo que a vivência da fé cristã, no mundo das peregrinações, é bem mais emotiva e sentimental, por vezes até «desencarnada» da vida. Assumo que as manifestações religiosas carecem de enorme evangelização, isto é, precisam de ser permeadas da Boa Nova libertadora de Jesus. Assumo também, por experiência própria, que se trata de um objectivo muito difícil de atingir, mas que, por isso mesmo, a Igreja nunca pode desanimar dele, sob pena de trair a missão que lhe foi comunicada. O próprio Papa São João Paulo II o denunciou aos bispos portugueses, na sua primeira viagem a Portugal, já lá vão 40 anos, o que deu origem a análises sociológicas, a programas de intervenção pastoral e tentativas várias de inovação de esquemas pastorais. Passadas 4 décadas, seria útil uma análise sobre o que se conseguiu ou não nos objectivos propostos. Apesar de serem tantos e tanto mais urgentes outros assuntos que ocupam bispos, padres e leigos.

2. Na cultura hodierna, em ritmo apressado que esquece a profundidade do ser humano, não faltam sinais claros de forças ideológicas a tentarem criar um ser humano «outro», «fabricado por mãos humanas», supervalorizando a inteligência artificial, dispensado Deus como Criador do ser humano e fazendo este entrar apenas no campo dos «produtos fabricados». Quem não se dá conta, surpreendido, de enormes transformações apresentadas como positivas e inevitáveis, mesmo sem termos ainda tempo para as avaliarmos com isenção? Onde está a antropologia que olha a pessoa no seu todo, isto é nas suas vertentes várias, que a enriquecem, no quadro de uma eternidade capaz de dar sentido ao quotidiano e no quadro de um «fazer-se» em liberdade e comunhão uns com os outros, evitando o determinismo individualista que faz descansar «naquilo que sou («eu sou assim») em vez de promover o «que eu devo ser»?

3. Disse-o e repito-o: a vivência dita cristã, fechada em tradições apenas, que valoriza a religião e não a fé, faz adormecer a pessoa nos seus «hábitos e costumes», agindo por medo, de Deus ou do diabo. Ora isto atraiçoa o Evangelho de Jesus, mensagem libertadora e de permanente novidade, que responsabiliza cada um por si e pelos outros e pela criação que nos rodeia e que somos chamados, todos, a cuidar. As superstições abundam apesar de tantos títulos académicos. E a procura de Deus, do verdadeiro Deus nunca esmoreceu.

4. Aprecio as manifestações religiosas de amor e de ternura especial para com Nossa Senhora. Ela tem sido, ao longo de vinte séculos, o caminho mais directo para o encontro com Jesus, Aquele que salva. Importa fazer a grande acção pastoral que se impõe, imitando Jesus: acolher as pessoas como elas são mas não as deixar iguais: mostrar-lhes um horizonte mais largo e possível, o do encontro com a Bondade, a Beleza e a Verdade de Deus e acompanhar na caminhada aquele que a tal se dispõe livremente.

P. Abílio Cardoso

Publicado em 2022-05-17

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