UM OLHAR OUTRO

5 de Junho de 2022

Uma vez mais foi celebrado o Dia Mundial das Comunicações Sociais em dia da Ascensão do Senhor. E, como sempre, o Papa Francisco lançou a sua mensagem apelando à escuta com o coração.

Que ninguém hoje pode dispensar o uso dos meios de comunicação social não precisa de justificação. O simples telemóvel, que trazemos no bolso, é, hoje, o meio talvez mais utilizado para comunicarmos e até para sabermos tudo o que se passa no mundo.

A Igreja não pode viver sem eles. Como poderia ela hoje transmitir a Boa Nova de Jesus e cumprir a sua missão no mundo, se não lançar mão de tais meios? Mais ainda, ela não só dispõe e usa os meios existentes, entrando na lógica dominante dos media, como também é detentora e não se dispensa de usar meios próprios. Entre nós, não podemos ignorar o lugar ocupado pela Rádio Renascença, pelo Diário do Minho, pela Agência Ecclesia e pelos tempos reservados na generalidade dos meios audiovisuais. Sem ignorar as «páginas» em grandes jornais dedicadas ao fenómeno religioso. Sem esquecer que, em grande parte das nossas paróquias, a Palavra de Deus passa pelos boletins paroquiais ou páginas de internet. A Igreja está de facto presente na comunicação social. Seria um erro ou mesmo um crime se não mantivesse uma presença nos grandes meios de comunicação. Com a Internet, hoje a oferta é até, por vezes, excessiva.

E quanto aos conteúdos ou modos de presença? Bem... aí tudo se torna discutível. Há aqueles que pensam, e acusam, de se tratar de uma presença ineficaz por não ser cuidada ou «profissional». E há também aqueles que rejeitam uma comunicação eclesial de «sacristia», mais devocional e com pouca inserção no mundo.

Há juizos para todos os gostos. O que não se torna preocupante. E porquê? Porque, se há verdade na relação com os media, temos de ter em conta que a Igreja está ao serviço de uma mensagem que se diz ser Boa Notícia. Logo, em contraste com a cultura de cada tempo, pelo simples fato de que não é notícia aquilo que é repetido. Ora, um olhar honesto deve levar-nos a reconhecer que a Igreja está no mundo sem ser do mundo e que a mensagem que anuncia tem sempre como objetivo questionar o mundo nas suas estruturas para que se tornem sempre mais justas e ao serviço do ser humano. E isto de resistir a «acomodar-se» é muito difícil e arriscado. Ora a História lembra-nos que, sobretudo nos momentos de crise, a acção da Igreja, anunciadora e denunciadora, é vista, desejada e reconhecida como a mais isenta e até eficaz para levar e criar harmonia entre contendentes.

Por outro lado, quando falamos de Igreja não podemos esquecer que ela assume imensas formas e realidades humanas, situadas no espaço e no tempo. Se olhamos e valorizamos a repetida insistência do Papa Francisco no apelo à paz e que cessem as guerras, não podemos esquecer que na mais remota aldeia, às vezes em paróquias de poucas centenas de pessoas, a Igreja está ali com a mesma missão de sempre, a que Jesus lhe confiou. E nunca foi fácil resistir, denunciar, inovar: é precisa muita coragem, abnegação e fé por parte dos que se dizem cristãos. Só que, também entre estes há inúmeras maneiras de ver a realidade e de interpretar e pôr em prática os ensinamentos de Jesus.

No uso dos media, a Igreja foi, nestes dias, objecto de análise e até de acusação. Para alguns, que olham sempre a partir do seu próprio prisma, por vezes eivado de preconceitos e carregado de «dor de cotovelo», a Igreja ou não sabe estar nos media ou não os sabe usar, ou então fecha-se com medo de se dar a conhecer, acusada de falta de transparência. Infelizmente, tais olhares não são de estranhar. Claro, que todos, fiéis e instituições da Igreja, temos sempre de evoluir. Mas não podemos esquecer que, por mais aberta e transparente que a Igreja seja, ela estará sempre ao serviço do ser humano, misterioso que é, para lhe insuflar o sopro divino libertador. Só no olhar da fé se pode entender o ser e agir da Igreja: no mundo, sem ser do mundo, para transformar o mundo. Por isso, mais que as estruturas que se vêem, importa olhar para o coração, no processo misterioso de abertura ao Transcendente.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-06-05

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