UM OLHAR OUTRO

19 de Junho de 2022

Eu estava lá. Fragilizado na sua cadeira de rodas, sabendo todos da sua dor nos joelhos, nada lhe impedia o sorriso cativante e contagiante. O Papa Francisco simplesmente é um homem de Deus, situado num mundo em convulsão, alvo das mais díspares apreciações.

Era a quarta-feira, 8 de Junho. Dia de Audiência Geral na Praça de S. Pedro. Bem cedo para lá me dirigi. Com outros sacerdotes de Barcelos. Em lugar próximo, a uns 20 metros, pudemos ouvir a mensagem firme e segura, determinada e interpelante. Ouvíamos a mensagem mas não só. Ouvíamos também os seus próprios comentários fora do texto escrito, sempre com bonomia e muita seriedade. Como ouvíamos também os apartes dos que nos rodeavam. E também os aplausos de concordância. Nunca os «assobios», como acontecem em circunstâncias idênticas particularmente nos discursos políticos.

E de que falou o Papa Francisco? Da vida, como sempre. Da vida de todos e não só dos crentes. Da vida que interessa a todos, crentes ou não, cristãos ou não. Certamente que todos compreendemos que ele espera, e nós esperamos, que a vida dos que se dizem cristãos corresponda, no seu quotidiano, aos ensinamentos que Cristo nos deixou.

Desta vez, o tema é bem pertinente. Estamos já em tempos de início de férias. De descanso que ninguém contesta. No fim de contas, de buscar sempre novos equilíbrios para que a vida aconteça «com abundância», como é vontade de Jesus.

Leio o que os jornais destacaram daquilo que eu próprio ouvi: «O papa criticou o mito da ‘eterna juventude’, uma «obsessão’ da sociedade contemporânea, que leva a desvalorizar o património da velhice e a ‘descartar’ os idosos. Como é possível que esta cultura do descarte decida descartar os velhos, porque não são úteis? Os velhos são os mensageiros do futuro, da ternura, da sabedoria de uma vida vivida». E acrescentou o Papa: «As rugas são um símbolo da experiência, da vida, da maturidade, de ter feito um caminho... A nossa época e a nossa cultura, que mostram uma tendência preocupante para considerar o nascimento de um filho como uma simples questão de produção e de reprodução biológica do ser humano, cultivam o mito da eterna juventude como a obsessão - desesperada - da carne incorruptível».

Curiosamente o impacte destas palavras, reconheço-o, não é o mesmo ao lê-las como quando as ouvi, lidas pelo próprio com a entoação que lhe conhecemos.

Certamente que reconhecemos este olhar certeiro sobre a cultura do nosso tempo, que idolatra as conquistas da ciência e da técnica sem se dar conta do empobrecimento do ser humano, marcado pela transcendência, pelo mistério, por um devir na esperança que aponta não para a morte no nada mas para uma vida em plenitude. Razão que me leva a repetir, tantas vezes, que a nossa cultura nos empobrece e resfria, enquanto a espiritualidade e a fé nos alarga os horizontes projectando-os para além da contagem dos anos. Uma semana depois, o Papa voltou ao assunto da fragilidade do corpo humano ao dizer quer «é preciso escutar o corpo e aceitar os seus limites». Certamente que entendemos o «recado», que deveríamos ter aprendido e assumido há muito tempo já. Quem não se lembra de algumas discussões sobre o estado de saúde do papa João Paulo II, que mostrou ao mundo, sem esconder nada, a sua condição física, na altura deplorável e até indigna (mais valia renunciar..., ouvia-se)? Numa leitura mais realista e evangélica não faltou quem olhasse aquele corpo fragilizado, doente, gravemente doente de João Paulo II como um grande «sinal teológico»: afinal não foi na dor extrema da cruz que se deu a redenção do ser humano? E não nos ensinou o Mestre que é pela cruz que se chega à ressurreição? Não nos admiremos pois que, na vida do Papa, como na vida de todos os seguidores de Jesus, nada do que é humano deve ser ocultado pois é esta realidade que se encontra no processo de salvação por Jesus.

Não caiamos no olhar «racional e sociológico» apenas quando olhamos para a figura do Santo Padre, para especularmos sobre a sua hipotética renúncia. Já ele nos deu sinais claros que a sua missão não se realiza apenas em bom estado físico.

Porque não olharmos para o seu cuidado pastoral para com as pessoas idosas - o Dia do Idoso foi por ele instituído para ser celebrado a 26 de Julho, dia dos pais de Nossa Senhora, Joaquim e Ana - para um «olhar outro» sobre a riqueza dos idosos na sociedade?

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-06-20

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