UM OLHAR OUTRO

3 de Julho de 2022

No meu passar dominical pelo Largo da Porta Nova e nas traseiras do Senhor a Cruz, louvo a Deus pelos bailaricos que contemplo. De uma maneira tão simples, sem gastos, as pessoas divertem-se, cantam e bailam, celebram a vida, esquecem tristezas, estabelecem relações de amizade. Vou para a missa das 15.30 e volto uma hora depois: ali estão os mesmos e outros mais que chegaram. Dois e três grupos ou até mais, à volta de uma concertina e cavaquinhos ou de um gravador. Há dias, no Corpo de Deus, ninguém contestou quando lhes pedi que terminassem mais cedo porque «a música seria outra».

Aprecio os muitos passeios que se organizam de modo a «tirar as pessoas de casa». Não só os das Juntas de Freguesia, mas muitos outros, que levam o povo a conhecer o nosso Portugal.

Não só aprecio como, por experiência própria, reconheço quanto de bem estas manifestações e passeios conseguem. Bem basta a situação socio-económica, às vezes tão desfavorável para alguns setores da sociedade, para levar ao lamento repetido de uma vida de «vale de lágrimas». Bem hajam aqueles que ajudam o povo a «libertar-se», a dar largas ao que lhe vai na alma.

Gosto, eu também, de passear, de conhecer novos mundos, de me abrir à novidade de espaços e culturas: sai-se de casa e, quando voltamos, estamos mais ricos.

Já lá vão os tempos em que ouvia um colega dizer com graça, ele que fazia coleção de postais dos lugares que visitava: «quando um dia morrer e os meus sobrinhos derem conta dos lugares por onde andei hão-de dizer: «o meu tio é que era esperto, deixou-nos muitos postais para nós sairmos de casa a ver por onde ele andou».

Desde que sou padre e me foi confiado um povo para evangelizar, não reduzi a minha missão a pregar o evangelho e levar as pessoas a rezar. Para mim, o evangelho é um desafio permanente a viver «em abundância». A qualidade de vida passa pela dimensão espiritual mas não só. Todos os bens culturais devem ser procurados por todos. Até porque a beleza da criação, a beleza das relações humanas, o turismo humanizante precisa de gente capaz de abrir o coração para o reconhecimento, precisa de gente capaz de se maravilhar. Ou não é a fé, a vida interior um maravilhar-se constantemente com o que os olhos veem?

Quando saio por uns dias, em grupo que aceita o convite para uma peregrinação religiosa, uma viagem cultural, ou celebração de algum evento social de relevo, não só me valorizo eu, como contribuo para que muitos outros descubram novos motivos para sorrir à vida.

Quando anuncio uma peregrinação - a melhor delas é, assim o digo aos outros, à Terra Santa - ninguém me diz que não o faça e ninguém me diz que não gostaria de ir. Até acrescenta: «Quem me dera!...».

E logo vêm os obstáculos, a começar pelo preço a pagar. Claro que tudo eu compreendo e aceito. Como compreendo que as verdadeiras razões não são as do preço. Quais são então? Eu, que já vi pessoas de condição económica bem modesta a constituir o seu mealheiro de poupanças para ter um gosto na vida, reconheço que as verdadeiras causas estão na incapacidade de tomar uma decisão. Pessoas que se lamentam constantemente, que têm olhar negativo sobre a vida, os eternos queixinhas, aqueles que têm sempre soluções para os problemas dos outros e nunca para os seus próprios, vivem «prisioneiros» de si próprios, permanentemente inseguros e com medo, porventura traumatizados e agarrados ao passado. Reconhecem que seria bom, que lhes faria bem sair, que até têm posses para tal... mas... levam a vida adiando, adiando. Nunca tomam uma decisão. E, depois, acumulam mais traumas ainda tornando-se invejosos e insuportáveis porque viram outros avançar, tomar decisões e virem contar que valeu a pena.

Quando, durante sete anos da minha vida com os portugueses em Paris, centro da Europa com imensas potencialidades, organizei vários passeios de ordem cultural, alguns deles juntando os portugueses de Paris com os de Amsterdam, Luxemburgo, Lyon, Bruxelas... e fui acusado de passear muito, não me faltaram ecos das pessoas beneficiadas a dizer: «não ligue, eles dizem mal por inveja dos que vão». De facto, diz bem o povo: «quem desdenha quer comprar». E acrescento: «se fosse hoje faria ainda mais saídas da comunidade: o encontro com outros humaniza, dá cultura e alegria à vida.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-07-04

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