UM OLHAR OUTRO

10 de Julho de 2022

«Alguns portugueses ainda vão à bruxa, porquê?

Uma criança de 3 anos terá sido sequestrada como represália e para tentar cobrar uma dívida por “trabalhos” de bruxaria. A menina terá sido depois assassinada. O recurso ao oculto em Portugal».

«Bruxaria, astrologia, religião: Portugal lidera a Europa nestas crenças».

Estes dois excertos, colhidos nos media há cerca de duas semanas, despertaram-me para voltar a este assunto, já por várias vezes abordado, dada a minha sensibilidade - confesso-o, mais revolta até - àquilo que deve ser a ação pastoral da Igreja, isto é de continuar a missão de Cristo, que veio trazer uma mensagem de Liberdade. Não, o medo que tolhe os humanos não pode prevalecer sobre a atitude de confiança pessoal com Jesus. As relações do divino com o humano não podem ser outras que não as de uma filiação, que aproxima e liberta.

A esta situação, que ocupou os noticiários durante dias - uma mãe, com filhos de vários pais, sob a alçada da proteção de menores, que entrega uma filha que vai morrer às mãos de uma bruxa que se vinga sobre ela para se «cobrar» de serviços de bruxaria - podemos juntar uma outra, que nos toca a nós barcelenses. Dias antes alguém encontrou, no Monte do Facho, o «maior bruxedo de sempre», que equivaleria a «mais de 500 euros de material». O relato falava de carne, atum, maços de tabaco, whisky, licores...

Helena Vilaça, socióloga, declarou em O Observador: «A bruxaria é muito popular no Sul da Europa e Portugal lidera em algumas crenças. Portugal é o país mais religioso da Europa Ocidental. E há dados que demonstram que 60% dos portugueses acreditam no destino (é líder na Europa Ocidental e cerca de 30% acreditam na astrologia, um número semelhante ao de Espanha».

Claro que diante destas notícias eu perco um pouco da minha paciência. E não perco uma oportunidade para deixar muito claro que a nossa prática religiosa tem de passar a ser libertadora dos medos e purificada de superstições. São muitas as vezes que, na homilia diária, procuro deixar elementos para a formação da consciência cristã, sempre necessitada de purificação. Como posso eu tolerar, diante da libertação que a mensagem de Jesus sempre promoveu, que haja ainda pessoas que até vão à missa todos os dias e também vão à bruxa, às vezes pagar grossas quantias que bem falta fazem para o pão dos filhos? Só porque não teve quem lhe fizesse ver que o verdadeiro Deus, alvo da nossa fé, não quer ninguém subjugado, muito menos subjugando os outros, abusando da sua boa fé, das suas deficiências e debilidades?

Até porque Jesus foi bem claro no seu tempo para com todos aqueles que se serviam da sua posição para esmagarem os outros, até abusando do nome de Deus. «A verdade vos tornará livres», disse Ele e morreu na cruz para que todos pudéssemos viver em fraternidade, como irmãos e filhos do mesmo Pai.

De facto, temos de reconhecer que muitas religiões contribuem para alimentar medos. Mas quem se afirma cristão tem o dever de formar a sua consciência no correto entendimento da mensagem de Jesus. A fé em Deus libertou dos cultos pagãos. E aos cultos pagãos temos voltado, Compreendamo-lo: no tempo de Jesus, os grupos religiosos, pretensos cumpridores da Lei de Moisés, levaram Jesus à morte. Porque Jesus, na Palavra e nos gestos, libertava da religião do tempo, que impunha um «deus» de leis e regras que oprimia, em vez de libertarem.

Não será já tempo de, passados dois mil anos, entendermos verdadeiramente a Palavra e os gestos de Jesus para, todos, sermos agentes da Verdade e da Liberdade de filhos de Deus? Ora essa é a missão da Igreja diante de ideologias, do nosso tempo e de todos os tempos, que subjugam e «divinizam» práticas muito interesseiras, bem deste mundo, propondo-as como vindas de Deus.

Para mim, o que vai acontecendo neste campo de superstições e bruxarias põe em causa a ação da Igreja: não temos nós sido capazes de propor a verdadeira mensagem de Jesus, como libertadora e geradora de sentido? E põe em causa também a nossa própria cultura, hoje alheada e negadora do fenómeno religioso. De que valem tantos «canudos» universitários se até tantos doutores frequentam o oculto?

Vou repetindo: é hoje mais necessário do que nunca passar da religião à fé. Há muita religião mas pouca a fé, esta como relação pessoal com Jesus, o grande Libertador. Acordemos. Já é tempo.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-07-11

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