UM OLHAR OUTRO

24 de Julho de 2022

Nem sempre, chegada a hora do «fecho» da edição, há assunto pertinente para um «Olhar Outro».

Neste mês de Julho são muitas as festas, de índole diversa, a agitar a cidade e as aldeias. Não faltam propostas de congressos ou Semanas disto e daquilo. O quotidiano de um pároco só aparentemente diminui de intensidade. As férias escolares ou as atividades de catequese interrompidas não chegam para que se possa fazer sentir algum abrandamento: os casamentos agendados, as festas familiares com os emigrantes que regressam de férias, as novenas aos santos dão-nos aquela sensação de que «tem de ser» e o receio contido de que se poderá entrar em novo ano sem uma pausa de descanso suficiente.

Pensava eu escrever sobre a falta de civismo, de educação, de um saber estar conforme as circunstâncias, de regras mínimas de comportamento social. Pensava eu na situação actual de qualquer pároco que, por dever de ofício, deve educar a comunidade para comportamentos sociais, em público, respeitadores da verdade dos atos em que se participa. E acabo por me dar conta de que muitas vezes, sou daqueles que «come do que não gosta», se vê obrigado a «engolir sapos vivos», num dilema interior permanente: devo ou não devo dizer, devo ou não denunciar? E, se sim, como fazê-lo de modo oportuno, eficaz e sem choque?

E dou-me conta da inevitabilidade de uma certa «cobardia» sobre mim mesmo. É sempre mais fácil «fechar os olhos» ou «fazer de conta» pois que é certo que seja qual for o modo de um reparo a chamar a atenção, serei sempre objeto de críticas mordazes, a favor e contra.

Eis-nos em tempo de casamentos: as excentricidades existem e os abusos sobre o razoável também. Devo reconhecer que me sinto bem falar de tudo e com clareza com os noivos, quando os preparo. E penso que é exatamente neste tempo de preparação cuidada, de que não dispenso ninguém, que se abordam as situações mais delicadas. Não tenho encontrado reações negativas. Pelo contrário.

Na escolha dos cânticos por exemplo. Só que... os «artistas» já contratados sabem de música mas não sabem de liturgia e em vez de contribuir para o canto da assembleia, impõe-se sobre ela para dar o seu espectáculo... às vezes estando à espera de palmas no final.

Na cerimónia religiosa tudo se prepara com os noivos para que seja digna. E eles empenham-se: é o seu Dia e até agradecem sugestões para que seja ainda melhor do que sonharam. Só que os convidados não foram preparados e já nem distinguem um local de culto de uma praia, um local que exige silêncio diante de uma Palavra que vem «do Senhor» de um local de compra e venda, uma feira, um mercado.

Num funeral a situação não é mais favorável. Pelo contrário. Ninguém dispensa a Igreja, mesmo que em vida não a tenham conhecido ou reconhecido a comunidade. Todos querem chegar à beira dos «doridos» para um cumprimento que «tem de ser». Mas perderam já a noção, por falta de prática, do que fica bem ou não fica bem numa igreja, num certo momento da celebração, alheios que estão ao que está a acontecer: uma celebração religiosa em que se afirma constantemente que «a vida não acaba, apenas se transforma» e que a morte não tem a última palavra sobre a existência humana. Quando uns ajoelham, os «alheios» sentam-se; quando se faz silêncio para que se ouça a Palavra, para alguns aquele silêncio cheira a «algo estranho», que não entendem: por isso falam, vão cumprimentar ou sobem igreja acima para depor o seu ramo de flores, como se todos os outros não fossem ninguém.

Não será tempo de estabelecermos regras de cortesia para casamentos e funerais, regras de bom senso?

P. Abilio Cardoso

Publicado em 2022-07-26

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