UM OLHAR OUTRO

31 de Julho de 2022

No contraste permanente que marca a cultura hodierna entramos constantemente em atitudes de clara hipocrisia, raramente denunciadas nos nossos media. Exige-se uma tolerância total à Igreja para com as atitudes permissivas e, às vezes até carregadas de injustiça. Mas condena-se a mesma Igreja por atitudes tolerantes, mesmo passadas em contextos históricos diferentes. Exige-se até demissão de pessoas por actos cometidos há décadas. Como tolerar que pessoas ditas influencers na opinião pública transponham a visão rigorista de hoje para o passado? Esquece-se até que as leis não têm efeitos retroativos.

Quando se fala de Igreja, facilmente, na opinião pública, se quer atingir as «cabeças», o Papa, os bispos e os padres. Esquecemo-nos que a Igreja é o Povo de Deus, um todo do qual fazem parte muitos... talvez só não fazem parte aqueles que a olham de fora. Mas este olhar de fora define a hipocrisia de quem assim se situa: o mal é sempre dos outros. É caso para dizer: basta de hipocrisia.

A questão dos abusos sexuais mantém hoje a Igreja no banco dos réus. Com o Papa Francisco - não foi ele que deu início a esta tolerância zero, que vem já do papa Bento XVI - estamos de acordo que a purificação de que a Igreja e o mundo de hoje precisam não se compadece com tolerâncias: crime é crime e tudo tem de ser feito para que não se continue. Mas não podemos esquecer – e cada vez mais acontecimentos dolorosos, entre eles o suicídio de padres - que no rigor das medidas, muitas outras vítimas passam a ser silenciadas, sem o mínimo direito até de serem ouvidas: a condenação é imediata quando o seu nome aparece nos media.

Tenho para mim que a Igreja, passando por um momento tão doloroso e por um processo de purificação, sairá mais conforme com a vontade de Jesus, que esteve e está sempre com ela. Porque não dizê-lo, mais ainda neste momento difícil? E porque a sua missão é a de ser fermento no mundo, esta «humilhação» pública torna-se um serviço ao mundo, provocando-o para igual processo de purificação. Não vemos sinais de que se deixe inquietar pela provocação? Como crentes, sabemos que Deus «tem a sua hora». E que a semente leva o seu tempo para germinar e dar fruto.

Há muito tempo já - vem da ousadia do Papa João Paulo II – que a Igreja aceita humildemente erros e pecados do seu passado. E pede perdão. Nem sempre as acusações que lhe são dirigidas têm fundamento histórico comprovado. É sempre bom dar-se conta de estudos e mais estudos que põem em causa certas «evidências» históricas que mais não são, assim se comprova documentalmente, do que fruto de imposições ideológicas ateias. Mesmo assim, a Igreja pede perdão. Porque é da sua missão reconciliar. É da sua história. É da sua condição de fermento na massa que é o mundo.

Há dias o Papa Francisco foi ao Canadá. Mesmo debilitado fisicamente, ali se encontrou com os indígenas e reconheceu injustiças sobre eles, com a conivência da Igreja. Disse ele: «Custa-me pensar que católicos tenham contribuído para as políticas de assimilação e desvinculação, que transmitiam um sentimento de inferioridade, despojando comunidades e pessoas das suas identidades culturais e espirituais» e pediu perdão pelo envolvimento de pessoas e instituições católicas nas políticas governamentais «contra as populações indígenas».

Sabe-se que, nos últimos anos, houve campanhas de acusação contra a Igreja a propósito da descoberta de ossadas de crianças. Entretanto, estudo publicado em janeiro deste ano desmascarou a narrativa de que “centenas de crianças” teriam sido mortas e enterradas como indigentes em internatos católicos.

Pergunto-me: o que pensarão de nós as gerações do fim do século XXI? E dos nossos «olhos fechados» para tanta hipocrisia e tanto desmando e injustiça? Acusarão a Igreja de silêncio cúmplice?

Historiador de renome, Jacques Rouillard, em Aleteia de 26/07/2022, ousou pôr em causa aquilo que a comunicação social espalhou pelo mundo. Vale a pena ler o artigo (https://www.paroquiadebarcelos.org/?zona=opiniao&id=1719&pg=1). 

Em nome da verdade.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-07-30

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