UM OLHAR OUTRO

7 de Agosto de 2022

O tema da morte, dos rituais celebrativos da morte e do luto nunca perdem actualidade. A morte acontece a cada dia. E perturba o ritmo normal do quotidiano.

Sempre que presido a um funeral não deixo de me questionar a mim mesmo: como poderia fazer diferente para que este momento se torne cada vez mais humanizante, envolvente de familiares e amigos em luto, e ocasião de paragem para, em silêncio e calma, mesmo que forçados, possamos pôr-nos a questão do sentido da vida.

Custa a todos «estar diante» da morte. Faltam as palavras, abundam os silêncios e esforçamo-nos por que passe depressa aquele momento incómodo. Os psicólogos lá nos vão alertando para o luto a fazer, com tempo e ritmo, para que se evite algum trauma mais agressivo que pode infernizar o futuro.

O P. Jorge Guarda, Vigário Geral da diocese de Leiria-Fátima acaba de escrever sobre o «aumento dos funerais civis: sinal dos tempos e desafio à acção pastoral». Apoiando-se em dados fornecidos pela Associação de Empresas de Serviços Funerários da Catalunha, refere que «há uma tendência crescente para os funerais laicos ou civis, atingindo já, na cidade de Barcelona, no ano de 2021, 69% de todos os realizados». E acrescenta «já se conheciam estatísticas preocupantes para a Igreja noutras áreas como a prática da missa dominical, os matrimónios, batizados e outras celebrações festivas. Agora, é à volta da morte que surgem estatísticas alarmantes».

Parece-me bem que, entre nós, particularmente a norte de Portugal, estamos longe de tais estatísticas alarmantes. Mas elas chegarão certamente a nós sem tardar muito.

O meu primeiro pensamento diante do título (aumento de funerais civis) foi de aprovação: se não se vive da fé na vida depois a morte, que lugar para um ritual que diz precisamente o contrário? E lembrei-me do desconforto de celebrar uma missa de funeral diante de uma assembleia apática, correndo o risco de se rirem de mim e do que digo porque não «encaixa» nas crenças da maioria. E tal é evidente, mesmo que o sacerdote tente evitar que se note o seu desconforto.

De facto as crenças ligadas à morte e à sobrevivência para além da morte geram sempre esperança e diminuem o desconforto. Pessoalmente aprovo a atitude daqueles que vivendo à margem da Igreja (e até da sociedade, nesta cultura do individualismo) deixam escrito a dispensa de funeral religioso. Salva-se ao menos um valor, o da coerência na morte com aquilo que norteou a vida. Claro que é um desafio para todos os cristãos esta maneira de proceder. Que cuidado temos todos, pastores e fiéis, na promoção de laços comunitários, que sinais de pertença se promovem? Ver grupos de conversadores nas imediações das igrejas, alheios ao que nelas se passa à volta do caixão não é bom sinal. Cumpre-se um rito: está-se presente «porque fica mal não estar» e «a família pode notar a ausência».

Não faltarão da parte de muitos colegas padres semelhantes desconfortos e desafios. Mas, nas actuais circunstâncias, em que uma grande maioria passou a «não praticantes», tendo perdido o calor da fé que anima a esperança de que «a morte não tem a última palavra», que linguagem utilizar, como tornar próxima dos que ainda entram na igreja, a mensagem de que a «vida não acaba, apenas se transforma»?

Por outro lado, que «espaço» na vida de um pároco fica, no meio de tantos afazeres e obrigações, para uma celebração calma da morte para que esta se torne momento evangelizador?

Do Sínodo em curso espera-se um «acordar» de tantos leigos para poderem presidir a velórios e até a rituais funerários. O que exige atempada preparação.

Oxalá «acordemos» todos para a celebração da morte com rituais de fé que sejam verdadeiros.

P. Abílio Cardoso

Créditos: Foto - Pixabay

Publicado em 2022-08-10

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