EM TEMPOS DE PANDEMIA

MISSA DAS CRUZES 2020 - HOMILIA

Começo por repetir o convite a todos aqueles que nos seguem via web: que significa para nós, hoje, estas palavras do Senhor da Cruz, com que termina o texto de S. João acabado de ler: «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância»? O que será vida em abundância no actual contexto social e cultural? Terá ainda sentido falar deste desafio que acompanha a história da Humanidade nos últimos 20 séculos? Terá sentido uma cultura amputada de um dos seus referenciais mais representativos, precisamente Jesus, de onde veio o cristianismo que, queiramos ou não, modelou um modo de ser e de estar na maior parte do universo?

Perguntemo-lo a Pedro e ao próprio Jesus:

1.    Pedro é aquele que privou com Jesus, mas, na hora mais difícil, negou-O, traiu-o. Pedro é também o homem que, humilde, chora de arrependimento. Pedro é o homem que faz directamente a experiência do amor do Mestre que, não só não deixa de acreditar nele, como lhe confia o primeiro lugar no Colégio Apostólico. No texto de hoje vemo-lo cheio de coragem a proclamar, alto e bom som, a verdade que fere os ouvintes: «vós matastes o Justo mas Deus ressuscitou-O». E, sem negar os sinais de fragilidade humana, a sua paixão por Jesus vai levá-lo até dar a vida por Ele. Porque recebeu a Vida do Mestre, a tal Vida em abundância, respondeu de igual modo, morrendo por Ele. Pedro provoca o auditório para uma resposta concreta, que surge aberta ao futuro, desejosa de corrigir o passado: «Que havemos de fazer?», perguntam-lhe. E a resposta é a mesma que há séculos a Igreja repete, anunciando um Deus cuja misericórdia é sempre libertação do pecado, que tolhe e encrava a vida de cada pessoa ou sociedade, e convite a seguir em frente: convertei-vos e peça cada um o Baptismo», responde Pedro. «Vida em abundância» para Pedro é então aderir a Jesus, deixar-se possuir por Jesus, centrar toda a sua vida nele, seguir nos passos dele.

2.  Perguntemos agora ao próprio Jesus o que é a «vida em abundância». S. João retoma o tema do Pastor e das ovelhas, já conhecido do Antigo Testamento. Com efeito, já Ezequiel, que viveu exilado na Babilónia e o fim da realeza de Israel. Considerou os antigos reis de Israel como maus pastores, maus condutores do povo. E fala do Senhor como verdadeiro pastor, atento a cada uma das suas ovelhas. Na pastorícia do tempo, os pastores juntavam os seus rebanhos para serem guardados por um pastor durante a noite. E cada um vinha, no dia seguinte, buscar o seu rebanho. As ovelhas, todas juntas no descanso da noite, logo seguem cada uma o seu pastor, que reconhece pela voz. A força da parábola é clara: Jesus é o Pastor próximo, dedicado, cuidadoso dos melhores pastos e reconhecido pelas suas ovelhas. Mas Ele é também a porta do aprisco. Pela porta se entra e se sai. Entra-se para o descanso em segurança; sai-se para buscar o alimento. Nós, os cristãos, definidos como os seguidores de Jesus, passamos sempre por Ele, que é a porta e seguimos atrás dele, em busca do que é o melhor alimento. É dele e com Ele que aprendemos, no contexto tão diversificado da nossa vida ao longo da existência terrena, a acreditar, a esperar, a amar. Ele afirma-se a Vida em abundância e convida-nos a seguir os seus passos: mesmo que eles nos levem ao Calvário, sabemos de antemão, o que vem a seguir: a ressurreição. Este saber de antemão o que nos espera justifica todo o esforço que nos é pedido de uma vida digna, elevada e comprometida no agir responsável. Esta «sabedoria» de viver a partir de Jesus marca a diferença entre uma vida crente, cristã, e outra vida não crente. Esta mais valia evidente, se bem entendida, deveria ser capaz de atrair tantos que se dizem não crentes. A tal «vida em abundância» exige de todos que não nos contentemos com os mínimos. O tempo de pandemia que vivemos, inclusive, põe a nu os nossos estilos de vida, que se contentam com muito pouco, quase só o que se refere ao biológico ou material. Somos mais, muito mais. Somos destinados a níveis bem superiores, como «imagem de Deus» que somos. Pobre cultura aquela que não desperta ideais elevados mas que nos contenta com, o que é cá de baixo. Compreendamos até aqueles que, dizendo-se sem fé, admiram e invejam aqueles que têm fé. E não é para menos.

3.    Uma experiência pessoal marca a minha vida: um grupo de amigos quis convidar-me para um jantar. Foi em Paris. No grupo estava alguém que se dizia ateu. Curioso, logo aceitei a sugestão de um amigo comum. Bem cedo me apercebi do homem inquieto, numa procura honesta e profundo, de um sentido para a vida. Facilmente a conversa se desviava para o tema religioso nos encontros seguintes. E eu confirmava: de facto, Deus seduz, atrai, provoca. Mas facilmente se conjugam demasiados obstáculos, na chamada cultura laicista predominante, para que os inquietos não possam manifestar a sua inquietação profunda. Desses encontros conservo esta ideia: vale a pena dialogar com gente honesta. Aprende-se muito. Evolui-se imenso. Nada fica como antes. Nem para mim nem para ele. E dou graças a Deus por saber hoje o que é dialogar com um ateu confesso mas honesto e sério nas suas procuras interiores. Ao contrário, é desolador «perder tempo» com aqueles que, falando do seu passado religioso, não conseguem evitar traumas não ultrapassados e se mostram cristalizados numa pretensa mas falsa segurança, ufanando-se de uma descrença que, afinal, não lhes traz qualquer segurança.

4.    Olhemos agora para nós, hoje. Que «vida em abundância» encontramos? Ouvimos sempre falar em «qualidade de vida». Parece-me que mais como desejo do que realidade. Desejamos voltar à normalidade. Ouso dizer que a tal «normalidade» do antes da pandemia, eu não a desejo. Seria sinal de nada termos aprendido ou de nos bastar voltar atrás, ao que já experimentamos. Não, eu prefiro seguir em frente, na esperança de que a novidade, que ainda não conheço, será melhor. Porque crente é este o meu desejo, porque alicerçado na confiança de que Deus me atrai sempre para algo de novo, algo mais substancial do que a banalidade em que a minha vida tantas vezes se afunda. Não temos que voltar a essa «normalidade» conhecida em que a «qualidade de vida» se reduz, ou a saúde pública, se reduz ao bem estar físico. O todo da pessoa inclui a dimensão espiritual, a parente pobre da «economia que mata» (Papa Francisco). Espera-se mais desta dolorosa experiência colectiva, marcada, por exemplo, pela solidão afectiva no modo como a morte está a acontecer ou no processo do luto de familiares, reduzido ou mesmo impedido. Marcada também por esta ausência da comunidade com quem se reza e com quem se exprimem alegrias e dores. Marcada por esta pergunta inquietante e insistente: quando abrem as igrejas ou quando é que podemos ir à Missa… «Faz-me tanta falta…», dizia-me ainda ontem alguém que se cruzava comigo. Há também necessidades básicas de ordem espiritual.

5.   A terminar, lembro o convite a celebrar Maria em casa no mês de Maio, com a assinatura do Papa Francisco e do nosso Arcebispo (que sugere um terço de flores em cada casa) e cito as palavras de D. Antonino Dias, bispo de Portalegre/Castelo Branco, bem ajustadas à Festa em honra do Senhor da Cruz, em Dia da Mãe. Diz ele:

Que as crianças nunca fiquem sem resposta na sua curiosidade de saber e aprendam desde pequeninas que todos somos irmãos e devemos dar as mãos em amor e verdade. Cristo morreu em defesa da Verdade. Em honra das mães que sabem falar de Jesus aos seus filhos e dos filhos que gostam de saber e fazem perguntas, recordo o lindo poema de João de Deus, o grande pedagogo e poeta autor da Cartilha Maternal:

 

CRUCIFIXO

Minha mãe, quem é aquele

Pregado naquela cruz?”

- Aquele, filho, é Jesus…

É a santa imagem d’Ele!

E quem é Jesus?” – É Deus!

“E quem é Deus?” – Quem nos cria,

Quem nos dá a luz do dia

E fez a terra e o céu;

E veio ensinar à gente

Que todos somos irmãos

E devemos dar as mãos

Uns aos outros irmamente:

Todo amor, todo bondade!

“E morreu?” – Para mostrar

Que a gente, pela Verdade

Se deve deixar matar”.

 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso

Foto gentilmente cedida por Luís Carvalhido


Publicado em 2020-05-07

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