Documentos-Paróquia

Documentos-Paróquia

UM OLHAR OUTRO - CCLVII

Neste «olhar» e no próximo, vou destacar alguns aspectos concretos da organização da Paróquia com as suas comunidades, ainda não referidos anteriormente. Já falei do sentido de pertença, sempre presente na acção pastoral. De facto, ninguém é cristão por si ou para si, desligado da comunidade. A fidelidade ao evangelho de Jesus traduz-se no viver em comunidade, no pertencer a uma paróquia concreta. Esta pertença inclui mesmo o gosto de ter em mão um documento, segundo modelo diocesano, que atesta a sua pertença à Paróquia e os sacramentos recebidos.

Na escolha dos líderes, de zona ou de comunidades, ou para os diversos ministérios, as orientações são claras. Transcrevo do programa da Paróquia de Ocua: «A ter em conta na eleição das pessoas para as comissões e ministérios na comunidade:

- ter vida cristã exemplar;

- exercer, ao mesmo tempo, só um ministério;

- estar no mesmo ministério até ao máximo de 6 anos (2x3 anos);

- receber formação apropriada;

- ser eleito em reunião do Conselho da Comunidade

- exercer o ministério de modo gratuito;

- estar em sintonia com o Conselho da Comunidade, com a Equipa missionária e com o Plano Pastoral Diocesano e Paroquial;

- ter conhecimento do Directório Pastoral Diocesano».

Em cada comunidade, com a sua capelinha, muito modesta aliás mas «espaço físico» para a verdadeira Igreja, há um Animador, que coordena toda a acção dos diversos ministérios e preside às celebrações dominicais da Comunidade quando o Animador da Palavra não está presente, fazendo a ligação com a Equipa Missionária. Há também o Animador da Palavra que preside às celebrações na ausência do Padre, comenta a Palavra de Deus e coordena os que intervêm na liturgia (cantores, leitores..). Há ainda o Secretário da Comunidade (regista e faz a comunicação, envia relatórios à Paróquia…).

Os ministros extraordinários da Comunhão têm uma importância especial neste contexto da Comunidade. Têm de ter, no mínimo, todos os sacramentos da iniciação cristã, idade entre 30 e 65 anos, participar na formação específica e ser investido em celebração pública. Pertence-lhe «levantar a Eucaristia na sede da Paróquia, guardá-la e dá-la em comunhão aos fiéis, sobretudo aos doentes»… assegurar a limpeza e segurança do lugar dos vasos e dos panos… as hóstias não devem ficar mais de um mês. Se guardada a Eucaristia na capela da comunidade «deve visitá-la todos os dias para adoração pessoal e para promover a visita de adoração dos fiéis». Ele «exerce o seu ministério dentro da sua Comunidade».

Há os CAEC’s e o CAEP. Aqueles existem em todas as Comunidades. Este, o Conselho de Assuntos Económicos da Paróquia, existe apenas na sede, representando todos os outros. De facto, normalmente no fim da missa, aquele pequeno grupo se reúne, conta o peditório e regista. Recebe os mapas de prestação de contas dos CAEC’s das comunidades e «presta contas da situação económica da Paróquia à Diocese até ao dia 10 de cada mês, usando mapa de prestação de contas. Duas vezes por ano envia à diocese a «Folha do Inventário» e 10% do valor das entradas mensais da Paróquia. Os Conselhos das Comunidades também enviam à Paróquia 10% do valor das entradas mensais e «um saco de 50 Kg de alimento à Paróquia uma vez por ano». A apresentação de contas nas comunidades é mensal. Tem um mandato de 3 anos, que pode ser renovado apenas uma vez e reúne mensalmente.

Há também a Comissão da Catequese, que «organiza os três itinerários de iniciação à vida cristã garantindo a formação dos catecúmenos e das crianças baptizadas na infância, apresenta ao Conselho Pastoral Paroquial (que reúne três vezes por ano, durante todo o sábado, o que implica chegar na sexta e partir no domingo após o almoço) os catecúmenos iniciados à vida cristã e preparados para receberem os sacramentos da iniciação». Organiza e prepara também a primeira Confissão sacramental dos que foram batizados na Vigília Pascal, prepara os baptizados para o Crisma e «os padrinhos/madrinhas e os pais para assumirem as suas responsabilidades». «O verdadeiro catequista é aquele que procura transmitir a fé da Igreja (através dos seus ensinamentos e comportamentos), que ele acredita, procura conhecer e viver cada vez melhor. É uma testemunha da fé. Deve procurar expô-la em linguagem apropriada e inculturada. Deve participar nos encontros de formação contínua da Paróquia e, quanto possível, fazer o curso básico de catequista». Continuaremos este assunto na próxima semana.

26 de Janeiro de 2020 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


UM OLHAR OUTRO - CCLVI

Este «olhar» vai incidir sobre a paróquia de Ocua, a 552ª da arquidiocese de Braga, a partir de uma parceria estabelecida entre Braga e Pemba. Porque acompanhei durante dois meses a entrada de uma nova equipa missionária e assisti, partilhando com eles, aos primeiros passos de uma entrega generosa, à partida projectada para um ano. O Rui e a Susana, o casal que decidiu integrar o projecto por mais um ano, facilitaram a «entrada» dos novos, o P. Daniel e a Andreia. Também eu beneficiei, e muito, da sua experiência e conhecimento da realidade social, humana e pastoral.

Ainda antes de chegarmos à Paróquia - era sábado, 26 de Outubro - entrámos cedo no Chiúre, a cerca de 30 Km da Paróquia, uma vila que funciona como distrito e aonde nos abastecemos dos bens de primeira necessidade. Era o primeiro encontro das equipas missionárias da região. Éramos mais de duas dezenas, de várias nacionalidades, com predomínio dos brasileiros, entre padres, religiosas e leigos. Presidiu um dos vigários da diocese. Passámos toda a manhã em programação de várias actividades comuns. Destaco, deste encontro, como primeira impressão, o ambiente fraterno entre todos e a partilha das mesmas preocupações. Percebi mais tarde que estes encontros, de nível regional ou simplesmente de zona, ou por comissões, são frequentes, o que permite que em pouco tempo todos se tornem familiarizados uns com os outros. E tal, percebi também, é fundamental no contexto da missão.

A primeira celebração na Paróquia permitiu identificar alguns traços, que viria a confirmar com o tempo:

a) O ambiente de festa permanente em cada celebração. Canta-se, e até se dança, mas nada destoa do ambiente sagrado.

b) Os diversos ministérios ou serviços na comunidade permitem ao presidente da celebração o «descanso» de quem tem de fazer apenas aquilo que lhe compete: proclamar o evangelho, explicá-lo (a homilia é sempre traduzida por um «ancião»), consagrar o Pão e distribuí-lo.

c) Nunca há pressa: normalmente a missa começa às 8.00, mas o sino convocou para o Terço, animado este, às 7.30. Numa daquelas a que presidi, verifiquei que terminei às 9.45, cedo para o costume deles. Mas, os últimos 15 minutos são para os «avisos»: os líderes da comunidade informam, exortam, dão contas e destacam a presença de algumas pessoas que ou vêm pela primeira vez e se apresentam, ou estão de passagem na aldeia e vêm à Eucaristia, ou até se afastaram da comunidade por alguma razão e decidiram voltar (num dos casos, uma dizia que, abandonada pelo marido muçulmano, nunca pôde praticar a sua religião mas sempre rezava… e sentia-se agora feliz, no seu regresso).

d) Predominam, na assembleia, os homens. Poucas são as mulheres que intervêm. Há mesmo uma orientação dada aos missionários para forçarem o papel das mulheres na actividade e até nas decisões da comunidade, pois que, culturalmente, «os homens é que mandam». Se os homens se fazem ouvir mais na celebração, todos do mesmo lado, as mulheres enchem mais o espaço: elas valem por duas ou três, com os filhos agarrados aos peitos (literalmente) e outros, mais crescidos ao lado, se não se aventuram, por enquanto, a rodear o altar. É maravilhoso sentir-se rodeado – às vezes com dificuldade de nos movermos do altar para o ambão – por tantas crianças que, como os adultos, cantam e batem palmas, «sentem» a música dando ritmo ao próprio corpo. No momento da paz, todas querem apertar a mão do padre (duas ou três ao mesmo tempo).

A visita às comunidades (são 96 na Paróquia) é sempre muito festiva. Quando a Equipa agenda o dia, sabe-se que os líderes da comunidade aproveitam para se mostrarem dignos do cargo que ocupam e do respeito que lhes dedicam. A manhã da visita – chega-se normalmente às 8.00 e a celebração pode durar mais de três horas – é toda dedicada ao encontro/festa da comunidade. Começa-se por atender de confissão os que desejarem. Celebra-se a Eucaristia, cantada e dançada por um grupo ensaiado, com muito sentido do sagrado. Segue-se uma reunião de todos os líderes da Zona, das comunidades, dos ministérios ou serviços da Comunidade com o pároco e a equipa. E termina-se com um almoço, simples e ao jeito deles, normalmente xima ou arroz com frango. Além destas, há as mais importantes, chamadas visitas sacramentais. Depois de um catecumenado ou preparação do Batismo, que dura mais de três anos, todos aguardam que a Equipa agende a celebração sacramental. Também há uma receção especial, com cânticos de versos feitos para a ocasião. Seguem-se as confissões: o líder avisa que «primeiro os que se vão casar e depois os outros». A celebração com batizados, que podem ser 70, 200 ou 300, depois os casamentos e, na altura própria, a comunhão pela primeira vez dos recém-batizados. O Crisma está reservado para a visita pastoral do bispo, com preparação própria. Segue-se a reunião dos líderes e servidores das comunidades e o almoço para a Equipa. Às vezes eles estão organizados para comerem juntos, pois que as distâncias são mesmo grandes e é preciso voltar a pé ou de bicicleta… (o toyota de caixa aberta não dá para todos…).

Terei de voltar de novo ao assunto na próxima semana.

19 de Janeiro de 2020 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


UM OLHAR OUTRO - CCLV

Se, no último número, olhámos para as grandes linhas de acção pastoral da diocese de Pemba, importa, agora, ao voltarmos ao assunto, determo-nos nas propostas concretas para todas as comunidades e paróquias e que os missionários assumem e tentam pôr em prática. Claro que apenas poderemos dar relevo a algumas delas, que julgo mais significativas.

Centralidade de Jesus e da Palavra de Deus: todos os encontros dos cristãos devem começar com reflexão da Palavra de Deus. Intensificar a catequese permanente sobre os sacramentos e incentivar a frequência dos sacramentos da Reconciliação e Eucaristia.

Dinamização da dimensão missionária da Igreja: criar a Infância e Adolescência missionária em todas as paróquias. Promover visitas e bênçãos nas casas, machambas, doentes e presos… e visitas entre as comunidades e paróquias.

Construção de uma Igreja diocesana com rosto próprio: desenvolver em cada cristão o sentido de pertença, criar e fortalecer grupos de oração em todas as comunidades, organizar a adoração semanal em todas as comunidades, introduzir e aprofundar a consciência de auto-sustentabilidade, implementar o dízimo em todas as comunidades, constituir e assegurar o funcionamento de todos os ministérios.

Compromisso com as situações de injustiça: reorganizar a Comissão de Justiça e Paz em cada paróquia para acompanhar e denunciar os casos de violação dos direitos humanos, consciencializar o povo sobre os grandes projectos da Província: agronegócios, mineração, hidrocarbonetos, interagir com as autoridades para a resolução dos problemas que afligem o povo.

Valorização da família como igreja doméstica: Criar Comissão da Família em todas as paróquias, encontros de formação para casais, preparação dos casais para o matrimónio, introduzir movimentos de casais nas paróquias, acolher e inserir os separados e divorciados na vida da comunidade.

Formação de catequistas: Potenciar a formação inicial e permanente, implantar o Directório Catequético, aprender e praticar a Lectio Divina, reforçar a vida espiritual dos catequistas.

Envolvimento e acompanhamento da juventude na vida da Igreja: despertar nos jovens o sentido de pertença, criar e acompanhar grupos vocacionais nas paróquias, recuperar os jovens afastados, trabalhar os temas de casamentos e gravidezes precoces, aborto com adolescentes e jovens, planificar encontros com jovens que são pais e ou que vivem como casados.

Depois destas sete metas com linhas de acção concretas, o documento episcopal dirige-se às Comissões, que já se encontram implantadas, a maior parte em todas as paróquias. Ver o que se lhes pede também nos pode ajudar a perceber que, diante de Jesus Cristo, ninguém pode ficar de braços cruzados, mas antes, se deve comprometer no «praticar e ensinar».

a. Catequese: organizar um curso de teologia para leigos em cada paróquia; encorajar os cristãos a não deixarem a sua religião quando se casam com alguém doutra religião, alerta diante dos novos movimentos religiosos que compram as pessoas com capulanas, comida, estudos.

b. Liturgia: proporcionar formação litúrgica nas regiões, criar o ministério extraordinário da Comunhão, do animador da Palavra e a equipa ministerial de escuta e conselho em todas as comunidades depois de formação oferecida na paróquia ou região.

c. Diálogo inter-religioso e ecumenismo: promover o diálogo e respeito com outras religiões nas aldeias e a Semana de Oração pela Unidade.

d. Dízimo: oferecer formação e garantir o funcionamento da Pastoral do Dízimo e promover troca de experiências.

e. Missão e Bíblia: campanha de divulgação massiva da Bíblia (cada família uma Bíblia), estimular a leitura da Bíblia em família e intensificar a formação bíblica nas paróquias.

f. Juventude: formar grupos de jovens em todas as paróquias, fortalecer a sua presença nos espaços de decisão e realizar jornadas nas Paróquias.

g. Vocações: criar grupos vocacionais nas paróquias, rezar pelas vocações em todas as celebrações e realizar encontros vocacionais nas regiões.

h. Famílias: criar ou fortalecer comissões da família em todas as paróquias, celebrar os aniversários de matrimónios, acompanhar e aconselhar em situações de conflito e promover a semana da família na diocese.

i. Mulheres: formar a Comissão da Mulher em todas as paróquias, incentivar e promover a sua presença nos espaços de decisão.

j. Crianças e adolescentes: criar grupos em todas as paróquias, formar grupos corais infantis e realizar com eles actividades missionárias.

Limitei-me a transcrever do programa de pastoral na Diocese de Pemba. Os leitores terão ocasião de reflectir, certamente verificando o muito que nos é comum e o que é específico de Pemba. Creio que a riqueza de dons existe por todo o lado. E que temos muito a aprender.

12 de Janeiro de 2020 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


UM OLHAR OUTRO - CCLIV

Depois de «olhar» a partir da minha experiência no local, quis confrontar-me com os «papéis», isto é, com as orientações que o bispo local dá para todas as comunidades católicas e que os missionários procuram pôr em prática nos diversos contextos. A primeira nota a destacar é que, tal como entre nós hoje, também por aqui, numa Igreja bem pobre de meios materiais e humanos, não faltam orientações claras para um agir coordenado aos mais diversos níveis, a começar pela Conferência Episcopal de Moçambique.

O plano diocesano de pastoral para o triénio 2018/2020, sob o lema O amor de Cristo nos impele (2 Cor 5, 14), tem como objectivo Ser Igreja, Povo de Deus – rosto, casa, escola, fonte e pés. Nas diversas igrejas que visitei, dei-me de caras com esta proposta, que saiu da XII assembleia diocesana, de 19/22 de Outubro de 2017.

E não resisto a uma citação longa do texto do bispo D. Luís que a apresenta e que bem sintoniza com as nossas preocupações pastorais, em contexto totalmente diferente: «Este tema é muito denso e forte. Não é fácil ser Igreja, Povo de Deus. Para ser Igreja é necessário ter a noção de pertença, ou seja, eu pertenço a esta Igreja e ela me pertence. Por isso, caminho com ela, sofro e luto por ela, defendo-a quando é necessário, tudo o que diz respeito a ela diz respeito a mim. O rosto dessa Igreja é o meu rosto, é o da minha comunidade, é o da minha paróquia, é o da minha diocese. Todas as vezes que damos testemunho, o rosto da Igreja ilumina e resplandece, mas sempre que nos afastamos de Deus e da Sua Palavra, o rosto da Igreja fica desfigurado.

A casa é o lugar da família, da segurança, do descanso, onde me sinto bem. Assim devem ser nossas comunidades. Na comunidade ninguém deve ser estranho, desconhecido. As pessoas devem ser bem acolhidas, apresentadas à comunidade, cada um deve ter o seu espaço, suas obrigações, todos de- vem ser valorizados porque são membros da mesma família, a família de Deus.

A Igreja é escola. Lá é o lugar do aprendizado. Claro que a primeira escola é a família, mas é na comunidade que fazemos o caminho do discipulado de Jesus, com outros irmãos e irmãs. A catequese nos introduz e nos prepara para seguir o Mestre, para dar testemunho dele, através da recepção dos ritos e, depois, quando estivermos preparados, através dos Sacramentos. O bom cristão frequenta a Escola a vida inteira, pois a formação não tem fim. Mesmo depois de recebermos os Sacramentos, continuamos a Formação Permanente através de encontros, retiros, cursos, palestras, estudos bíblicos, etc. A fonte é o lugar onde saciamos a sede. Quanta gente anda com sede de Deus, quanta gente está seca por dentro, quanta gente toma água contaminada por não saber onde está a fonte. A Igreja é a fonte porque seu fundamento é Jesus, ‘a fonte de água viva que jorra para a vida eterna’ (Jo 4, 14) (…) A melhor maneira de conhecer esta fonte é a Sagrada Escritura. Por isso é muito importante que toda a família cristã tenha, em sua casa, a sua Bíblia.

Os pés são a nossa base, o nosso apoio, sem eles não podemos caminhar, ir ao encontro dos outros. Os pés nos lembram que somos uma Igreja ‘em saída’, Uma ‘Igreja missionária’, uma ‘Igreja profética’ que vai ao encontro das pessoas, das realidades de injustiça e lembra a todos o mandato de Jesus: ‘Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância’ (Jo 10, 10)».

No programa aparecem, depois, sete metas a concretizar, com algumas linhas de acção, seguidas pelos desafios propostos a todas as comissões, sejam diocesanas, regionais ou paroquiais (Catequese, Liturgia, Diálogo inter-religioso e ecuménico, Dízimo, Missão e Bíblia, Juventude, Vocações, Famílias, Mulheres, Crianças e Adolescentes (Infância e Adolescência Missionária), Traduções, Caritas, Educação, Saúde, Justiça e Paz, Comunicação, Refugiados e Imigrantes, Conselho Económico, Conselho Pastoral, Inculturação, História da Diocese, Comissão Universitária).

Valerá a pena voltar a este assunto, na próxima semana, para nos dar um «olhar» ainda mais realista e fundamentado desta Igreja diocesana.

5 de Janeiro de 2020 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCLIII

Este «olhar» com sabor moçambicano encerra o ano 2019 testemunhando a feliz experiência missionária que fiz nas terras de África durante dois meses. Tem o jeito de balanço e procura responder a algumas questões que me ocupam há muito tempo. E que me acompanharam, num certo confronto, ao longo de dois meses em Moçambique.

Custa-me confirmar e repetir, uma vez mais, que o nosso modo de ser religioso, também respeitável é certo, deixa muito a desejar. Muitas vezes me sinto «usado» na missão que me foi confiada: pedem-me serviços religiosos mas não me pedem Jesus Cristo. E sinto que a minha missão, prioritariamente, é anunciar Jesus Cristo de modo que as pessoas se deixem «agarrar» por Ele e vivam numa relação crescente de plenitude. A religiosidade existe em todos os povos, mesmo nos pagãos e até nos ateus, que substituem o Deus dos crentes por ídolos ao gosto de cada um. Orgulhosamente podem dizer que não precisam de Deus para nada. Mas, perguntemo-nos: quando o dizem? Porque o dizem? E manterão sempre o que dizem? Sabemos que a vulnerabilidade humana se impõe em todos sobre as nossas auto-suficiências e ninguém escapa às questões de sentido (porque existo, o que me espera, o que acontece na morte…). Será que as afirmações fortes de que Deus não existe se mantêm iguais na velhice ou diante da morte? Por isso se assume que todos os povos são religiosos e se reconhecem, desde sempre, sinais de religiosidade nos povos mais ancestrais.

Mas a fé é bem mais que religião. Não é apenas o crer que há Alguém superior, a Quem chamamos Deus. A fé compromete e transforma a vida de quem crê. Porque verdadeiramente crer é sair de si para repousar em outro. Se creio, então tudo muda de figura na minha vida. Se creio, Deus é Alguém com Quem me relaciono. E tal relação transforma, alimenta e dá sentido à vida.

Também as crenças deste povo macua revelam «necessidades» religiosas e, em certo modo, dão-lhes um código de valores com que se afirmam identificados ao longo dos séculos. Que vem ou pretende o cristianismo fazer, ao serviço de quem surgem, vindos um pouco de todo o mundo, levas de missionários, homens e mulheres, sacerdotes, religiosos e leigos, de todas as idades?

A resposta é apenas uma: o mandato que Jesus confiou aos apóstolos e, neles, a todos os que, pela sua palavra, iriam acreditar em Jesus. Não conta apenas o mandato. Conta, em primeiro lugar, o testemunho de vida: atraído por Jesus, Ele me envia aos outros.

Valerá a pena trazer novas crenças, com o risco de os confundirmos nas crenças deles? Claro que vale. E a experiência o confirma: eles querem a presença dos missionários, eles sentem necessidade de alguém que lhes garanta que são amados por Deus e lhes anuncie que, por eles, Jesus morreu. Mas eles sabem e sentem – não dispensam mesmo – que o anúncio de Jesus implica uma atenção permanente a cada espaço e tempo, no sentido de o tornarmos libertador, cheio de sentido.

A história o confirma e, no terreno, se confirma: o que seria de Moçambique hoje se, no passado, os missionários não tivessem chegado? E porquê ainda hoje a Igreja, com o seu corpo de voluntários no terreno, como agentes de verdadeiro desenvolvimento humano, sócio-económico e cultural, é ainda a voz mais autorizada quando se trata de procurar a verdade no meio de tantos jogos de interesses em que se digladia a classe política que do povo apenas espera o «amén» de um voto que caucione o status quo, já que o povo, mantido na ignorância, não consegue aspirar a novos e mais dignos estilos de vida?

O modo como aqui se vive e o modo como se processa a vida eclesial das muitas comunidades organizadas podem despertar-nos para o que é essencial, já que vivemos numa correria louca, num fazer constante e a correr, sem o tempo de silêncio que leve a contemplar e a dar sentido profundo ao nosso fazer. Vivemos escravos do tempo. Por cá tem-se todo o tempo do mundo. A celebração da fé já vai em três horas… que importa? É festa e esta precisa de tempo. Não há padre para presidir à celebração? Que importa? Preside um leigo de entre os diversos já preparados para presidirem à oração e distribuir o Pão que o padre, na última vinda, deixou consagrado. Canta-se e até se dança na Missa? Mas há ministérios que se ocupam de preparar leitores, cantores e animadores. Morre-se e fazem-se funerais. Mas o padre nem precisa de saber: os leigos organizam-se e rezam. Há baptizados? Sim, e não dispensam o padre, mesmo que este só apareça ao fim dos três ou quatro anos que dura o catecumenado de preparação. E de destacar que os líderes esperam sempre do Padre, do Bispo, da Equipa missionária orientações claras sobre o modo de conduzir a comunidade. Uma verdadeira Igreja ministerial à qual se tem gosto de pertencer e à qual sempre se volta quando a vida, por alguma razão, nos afastou da comunidade de fé.

Pensamos ensinar como ser cristão? Não teremos, antes, de aprender com eles?

29 de Dezembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCLII

Ouvi um dia alguém referir que o específico do Cristianismo, comparado com as religiões, é levar as pessoas a pensar. Confesso que gostei de ouvir.

Ser seguidor de Jesus implica atenção permanente à vida que acontece, aos irmãos que nos rodeiam, às angústias e esperanças que compõem o tecido humano. Aliás, na linha do que Jesus fez: olhou a vida que acontecia e fê-la avançar em caminhos melhores, o que O levou a propor a conversão permanente ao Deus presente na história de cada povo. O Deus que ama é o Deus que intervém para libertar.

Quem lê o Antigo Testamento reconhece que ele está todo pontuado pela atitude corajosa dos profetas, aqueles que vêem ao longe e antecipam as situações, levando o povo a ver de modo diferente. Por isso, tantas vezes são incompreendidos e um espinho cravado nos poderes, que desejam a tranquilidade de um povo submisso.

Muito cedo me dei conta, diante da situação social visível que encontrei, ao chegar a Moçambique, de um subdesenvolvimento chocante nos arredores da capital, que me levaram a interrogar sobre a situação política do país. E percebi, no modo como as pessoas respondiam, um clima de «reserva», uma cautela no falar que se aconselha, ao mesmo tempo que não se acredita no discurso oficial nem nos resultados oficiais das eleições recentes. País adiado? Onde não faltam recursos? Com um custo de vida tão baixo, uma população numerosa, ajudas internacionais…Riquezas naturais ao serviço de todos ou só de alguns?

Quando, dias depois, cheguei a Pemba e pude contactar com muitos missionários, de várias origens e congregações, comecei a perceber um pouco da situação, que não facilita que o povo se desenvolva e o país vá em frente.

Há liberdade religiosa e os missionários estão por aí, evangelizando mas, sobretudo, formando o povo para o exercício da sua dignidade pessoal e colectiva, em liberdade e compromisso. Mas, são tantos os entraves…

Confirmei por cá o que se ouve dizer em Portugal quanto às ajudas enviadas. Se forem confiadas à Igreja, à Caritas, aos missionários… elas chegarão ao povo. Se não… ficarão pelo caminho. Aliás, algum litígio vai aparecendo, aqui e além, face à pressão que as autoridades exercem para que as ajudas do exterior sejam canalizadas para o governo.

A província de Cabo Delgado, no norte, tem sido notícia internacional devidos a focos de violência terrorista. Se, no discurso oficial, que os desvaloriza, eles são fruto de «bandidos», quando não podem acusar a oposição da Renamo, um pouco à deriva e sem força, a verdade é que eles são um sinal claro de que o país não vai bem e de que os recursos naturais estão a ser explorados de modo a beneficiarem só alguns e não o povo.

Voz profética e discordante tem sido a do bispo de Pemba. Conhecendo-o e admirando-o pela sua simplicidade – ele é um religioso passionista brasileiro que esteve em missão nestas terras – fez da sua casa, o paço episcopal, lugar de encontro e de passagem para todos os missionários da diocese, que sempre precisam de vir à cidade, seja para se abastecerem, seja para cuidados médicos ou administrativos. É esse pessoal, religiosos e religiosas de outros países, juntamente com o clero autóctone que com eles se cruza, que passei a admirar pela dedicação total à causa missionária, no meio de dificuldades e entraves. Pois bem, constou no país e no estrangeiro uma campanha caluniosa contra D. Luís Fernando Lisboa, alimentada no interior da própria Igreja por duas ou três pessoas ao que se consta muito ligadas e até subsidiadas pelo partido no governo.

Foi o suficiente para diversas manifestações de repúdio, por parte dos missionários e das comunidades, todos ao lado do seu bispo. Voz incómoda, claro, que até se preocupa, denunciando e agindo, contra a exploração humana que se verifica nas minas de extração de bens preciosos que, ao que parece, abundam neste norte de Moçambique. Porque luta pela justiça, porque segue o evangelho, o bispo, que já promoveu as comissões de justiça e paz, seja na diocese seja nas regiões, com delegados nas paróquias, implanta agora as Comissões das Minas para que a Igreja, ao nível de todas as suas estruturas, esteja atenta ao fenómeno e não permita a exploração das terras que, pertencendo aos que as habitam, delas são «empurrados» fazendo-os sentirem-se «a mais».

Como Jesus, o bispo não se cala. Como os profetas não se calaram. Felizes os povos que têm e escutam os profetas!

22 de Dezembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCLI

A ocasião é propícia. Com o aproximar do Natal, adensam-se as mensagens de paz, de fraternidade e de sadia convivência. Como olhar para elas, a partir desta realidade de África, Moçambique, de onde escrevo?

A fragilidade da criança é, por si só, um apelo a olhar com o coração. Cada um de nós é essa fragilidade, tantas vezes não assumida. Nenhum de nós seria o que é hoje sem o acolhimento da vida, o cuidado permanente da vida iniciada, de modo a que cada vida inocente não se fique pelo caminho. Chegar ao estado adulto, no meio de tantos riscos, é graça, é dom gratuito. Felizes as sociedades que põem acima de tudo a protecção dos frágeis, reconhecendo-lhes direitos especiais. Crescemos e, num processo educativo equilibrado, somos estimulados e ajudados para a vida adulta, de modo que, cada um por sua vez, se torne cuidador da vida frágil. Mas o que vemos nós? A ambição de ser maior que os outros e o orgulho de quem se julga capaz de tudo sozinho geram um mundo violento e agressivo à nossa volta. Dominar-se a si próprio, canalizando as energias próprias para o serviço aos outros, julgados como irmãos e não como rivais, é tarefa de que nenhuma sociedade se pode dispensar.

Todos os dias sou confrontado com muitos sorrisos do tamanho do mundo, que aprecio em tantas e tantas crianças que rodeiam a sede da missão de Ocua. Pode-lhes faltar tudo, roupa, comida, escola. Podem andar todo o dia roendo alguma manga verde que cai das árvores. Mas aquele sorriso de um salama (olá) que me dirigem, ou aquele estender a mão sem entraves mas confiante lembra-me que o mundo seria bem melhor se não matássemos a criança que está em nós.

Muito embora nos possa chocar uma certa inércia própria de gente acomodada à sua sorte, ao tem de ser, ao viver de mão estendida esperando compaixão, a verdade é que o ritmo cal mo, a ausência de relógio, porque basta o sol a amanhecer e a escurecer para marcar o ritmo da vida, provoca-me a pensar: será o meu ritmo que está bem ou será o deles?

Em condições de clima tão adversas – o calor é excessivo e, quando chove, aumentam os mosquitos que provocam a malária – começamos a entender o ritmo dos outros, a sintonia com a natureza e a falta de sonho ou de ambição. Com pouco, muito pouco até, eles manifestam que são felizes. Que dispensam os luxos «ocidentais». Até porque são muito poucos aqueles que deles têm conhecimento. Sem luz pública, sem televisão, a felicidade está na presença uns aos outros e uns para os outros. E onde estará a nossa quando nos atropelamos uns aos outros, comandados pelo relógio dos compromissos de manhã à noite?

Como evangelizar neste contexto? Terá sentido uma mensagem que provoca, que desinstala, que desafia a sonhar de mãos dadas, que nos faz acreditar que é possível um mundo novo e diferente, aberto à novidade criadora de Deus? Em tantos contactos havidos com os missionários que estão no terreno, entendemos que não são precisos objectivos quantificáveis, com prazo de concretização e critérios de eficácia. O testemunho crente, próprio de quem se doa, sacrificando projectos pessoais vantajosos financeiramente, é, por si só, a marca que, com o tempo, tem a melhor eficácia. É, de facto, admirável como as congregações religiosas no terreno afirmam a fidelidade ao próprio carisma, diferente de umas para as outras, mas o mesmo no quer toca ao amor a este povo, a quem se quer oferecer um estilo de vida outro que, incultura- do, o faça tomar consciência da sua dignidade e da necessidade de não se deixar explorar pelos muitos poderes em jogo.

15 de Dezembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCL

Questiono-me sobre a fé da gente que me rodeia.

Tinha e tenho consciência clara de que evangelizar não é impor hábitos e maneiras de estar que julgamos serem os melhores do mundo. A Igreja fala de inculturação do evangelho, isto é, de levar o evangelho de Jesus, como Boa Nova, a uma cultura concreta. Ou seja, não se trata de substituir mas de propor e ajustar a novidade de Jesus ao que já existe num povo concreto, com seus hábitos e costumes.

Quando, em contexto de serviço à emigração portuguesa em Paris, contestava a «integração» das comunidades portuguesas nas paróquias francesas, eu seguia a orientação do Cardeal Arcebispo de Paris que, ao contrário de outros bispos, olhava para as comunidades portuguesas como uma riqueza para a diocese a sua diferença na expressão da fé. Integrar é viver uns com os outros, num enriquecimento mútuo. Faço a experiência de me acautelar nos juizos que, para serem honestos e justos, precisam de tempo. Vivo, isso sim, de coração aberto, apreciando as expressões da fé deste povo macua, cuja língua não compreendo, mas cujos gestos me deixam a pensar que são pessoas de fé e que olham para a equipa missionária com respeito e apreço. Têm sede de Deus, de aprender, de fazer festa à volta do altar. E fazem-no com gosto, sem pressas e o que diz a equipa missionária torna-se referência a seguir.

Nas reuniões em que tenho participado, reconheço a humildade com que nos olham e com que aceitam o que dizemos. E querem sempre mais, o que é bom. Ainda hoje, numa reunião, escutei a ousadia de pedirem que, em vez de um padre, estivessem dois na Equipa. Lembrei-me de tantas das nossas paróquias que, anexadas a uma vizinha, reivindicam a presença de um pároco próprio. Provavelmente darão agora mais valor à sua presença quando não o têm. A razão destes é certamente bem forte: a maior parte das 96 comunidades da paróquia não chegam a ter a presença da equipa missionária, agora empenhada em passar pelas 17 zonas pastorais em que aquelas se agrupam.

São de facto muito pobres. Esperam a época das colheitas para poderem vender alguns produtos agrícolas, que cultivam nas machambas e, assim, disporem de algum dinheiro para gerirem durante o ano todo. Certamente que a realidade social nas cidades é um pouco diferente. Mas não pensemos em empregos, horários de trabalho, escolas a funcionar em pleno. Muitas das crianças, que deveriam frequentar ao menos o ensino primário, encontramo-las todos os dias em grupos a brincar. Já é tempo de férias, é verdade. Como poderemos falar de escolaridade obrigatória se não há escolas a distância razoável, nem professores… em número capaz de uma população numerosa, dispersa e longe dos grandes centros?! Como exigir a uma criança, ou à sua família, ter de se deslocar vários quilómetros para chegar à escola? Encontramo-las, sim, na celebração dominical, o dia de festa para elas: é belo ver como são elas as primeiras a entrar no ritmo dos cânticos e das danças. Sem pressas e sem se manifestarem incomodadas. Estão lá e estão em festa. Todas juntas à volta do altar, quase «invadindo» o espaço destinado ao sacerdote que preside. Cantam, rezam, batem palmas: é festa com Jesus.

A própria equipa missionária tem no seu programa as idas à cidade como fundamentais. Exceptuando algum mercado ocasional à beira da estrada – quando alguém tem algo para vender vai para a estrada «oferecê-lo» a quem passa – precisamos de andar cerca de meia hora de carro para encontrarmos água engarrafada em grandes volumes (e nem sempre), algum produto congelado, a exigir cautela especial devido ao calor, as cartas telefónicas para aceder à internet móvel, alguns, poucos, legumes, batatas e cebolas, arroz. Sim, o arroz ainda é o produto mais acessível. Todas estas «insuficiências» são o normal de cada dia. E neste «muito pouco» encontram o essencial e são felizes, com sorrisos largos e invejáveis, sobretudo nas crianças.

Confessam-se, alguns. Comungam, não muitos. Casam-se até precocemente, isto é juntam-se pois que consideram verdadeiro o casamento quando o celebram na Igreja. Passam a ser «matrimoniados» e não apenas «casados» porque «têm o sacramento». E, seguindo as normas diocesanas, só quando casam pela Igreja podem batizar as crianças. Se não, estas hão-de frequentar a catequese, após os cinco anos, durante três anos para serem batizadas.

Como a equipa missionária só consegue passar de longe a longe em algumas comunidades, compreende-se que, quando acontece, seja uma manhã toda de festa. Celebram-se os batizados às centenas (adultos e crianças), primeiras comunhões e casamentos. E mesmo o Crisma só acontece de dois em dois anos, na visita pastoral do bispo à paróquia. Depois de um catecumenado de anos (3 no mínimo para o batizado adulto e dois para o Crisma).

Igreja jovem, mas carregada de esperança. Onde surgem vocacionados para o sacerdócio e vida religiosa. Com quem podemos e devemos aprender.

8 de Dezembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLIV

Faz hoje (estou a escrever a 18 de Novembro) um mês que tomei o avião rumo a Mocambique. E dentro de um mês, a 19, farei o inverso. Em mente uma experiência missionária há muito desejada num território cultural e historicamente muito ligado a Portugal e nossa Igreja Católica, mas em vias de desenvolvimento- to, se não quisermos dizer que é um país muito pobre.

Tive o cuidado de deixar a vida da Paróquia orientada para a minha ausência, sabendo e confiando que a mesma estava «em boas mãos»: quer a dos sacerdotes que colaboram mais ainda na minha ausência, com relevo para o P. José Novais e o P. Eduardo Miranda, quer a dos diversos leigos que integram os vários grupos da Paróquia, de modo especial os seus líderes.

No que se refere ao boletim Construir, deixei-o quase pronto para o primeiro mês da minha ausência, de modo que estes primeiros trinta dias foram de verdadeira «inserção» na cultura e na fé deste povo, alheando-me propositada- mente da realidade de Barcelos.

Começo agora a pensar mais na Paróquia de Barcelos. E a escrever para o boletim Construir. De modo que esta coluna – Um olhar Outro – possa mesmo sê-lo de modo totalmente novo porque à distância e a partir de nova realidade. Espero que todos possamos ganhar com esta «distância». Porque também assim o pensei e desejei.

Num primeiro olhar, tão objectivo quanto possível, reconheço que nunca esmoreceu o entusiasmo inicial. Mas com a mesma objectividade reconheço alguns momentos mais difíceis, sobretudo no que toca a adaptação a um clima, demasiado quente e exigente para os meus hábitos. Reconheço e agradeço o dom da saúde, que tem resistido bem às condições um pouco adversas para um sexagenário que sou.

Quer eu, quer a equipa missionária que acompanho, nada recusamos quando se trata de comungar a vida pobre deste povo. Comemos do que nos dão e do modo como eles o sabem fazer. Excepção feita apenas no que diz respeito à água: esta tem de ser engarrafada e de qualidade devido aos riscos que se correm de contrair malária e outras doenças. O que eles compreendem muito bem. Viver pobre no meio dos pobres, procurando valorizar a riqueza que eles possuem, sem nos deixarmos «agarrar» pela sua pobreza material quando esta nos parece atingir a dignidade humana. Promovê-los é despertá-los para a cultura, abrir novos e possíveis horizontes, fazendo-os confiar neles mesmos como capazes. Ajudá-los a apreciar os valores da sua cultura considerando a cultura de outros, sem impor mas propor um caminho próprio que responsabiliza. Por aqui passa o Evangelho de Jesus. Curiosamente, as equipas missionárias que por cá passaram criaram já os alertas necessários para a tendência que se lhes nota de verem o «branco» como o homem do dinheiro, a quem se pode pedir e de quem se pode esperar tudo feito. Este não é certamente o caminho para promover a sua dignidade.

Vejo esta Igreja jovem com um bom nível de organização no terreno. E um bispo verdadeiro pastor, incompreendido e caluniado até quando não se cala diante das injustiças notórias e a corrupção que grassa na classe política e não só. Um bispo de coração aberto para todos e que tem aberto muitas portas à vinda de missionários para o terreno, religiosos e religiosas sobretudo, mas também leigos cooperantes. Pena é que – é queixa geral – o governo do país se aproveite daqueles que dão um pouco da sua vida e do seu tempo, se não mesmo a vida toda, e sejam considerados ao mesmo nível de um empresário que vem para Moçambique para fazer negócio. As congregações religiosas estrangeiras são oneradas pesadamente com as taxas dos vistos que o Estado cobra e as dificuldades inerentes ao processo, moroso e desanimador. Mas, missão é missão: a tal «porta estreita» que Jesus convidou a escolher.

De relevar ainda é a amizade e fraternidade criada entre as diversas equipas missionárias. Juntam-se muitas vezes em reuniões de trabalho pastoral, partilhando o que têm, do pouco ou muito que têm, seja comida seja alojamento. O exemplo do bispo, cuja casa, construída nos tempos coloniais, é ampla para acolher a todos de passagem pela cidade de Pemba certamente que o explica. Ali, no modesto Paço Episcopal, há sempre um quarto disponível, um prato na mesa, um sinal de internet capaz para todos os missionários cuja ida à cidade se torna absolutamente necessária, seja pelo apoio médico, seja pelo acesso aos bens necessários para que o corpo «ocidental» possa resistir às exigências de um clima a que não estávamos habituados.

Este é um primeiro Olhar de cá. Outros se seguirão, semana a semana até ao mês de Fevereiro, tentando dizer a riqueza da pobreza que me é dado contemplar.

1 de Dezembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLVIII

Na hora em que escrevo – estamos a 16 de Outubro - as imagens do que se passa na Catalunha, a ferro e fogo, deixam-nos profundamente inquietos. É bem aqui ao nosso lado… Só que, também é ali ao nosso lado o que se passa na Síria, agora invadida pela Turquia, a somar às incertezas de um Brexit que afectará seguramente todos os europeus.

Enquanto isso, olhamos para o Vaticano e vemos uma Igreja tanto mais inquieta e inquietante quanto corajosa ao voltar-se para a Amazónia, levantando a voz contra terríveis injustiças não só contra os povos indígenas como contra a nossa casa comum, ameaçada por interesses económicos cada vez mais depravados e fortes contra os povos sem voz e contra a terra sem voz. E dizemos que, no meio de tantas contradições, não deixa o ser humano de ousar procuras nunca dantes sonhadas ou urgidas como agora.

Entretanto, uma notícia que não mereceu destaque mas que merece ser valorizada dizia assim: «Portugal registou, em 2017, a mais alta taxa de mortalidade por suicídio entre os jovens com idades entre os 15 e os 24 anos de idade dos últimos dez anos».

Sobre o sínodo, estranhei o editorial do director adjunto do CM, jornal que, perante a anunciada discussão no Sínodo sobre a possível ordenação de padres casados, fala da «derrocada» previsível da Igreja que perde adeptos: «Confirmam-se os piores receios dos que temiam o exercício do ministério petrino do Papa Francisco. Uma Igreja à la carte, onde meia dúzia decide por todos sem ouvir ninguém nem afrontar quem manda. Uma Igreja que vai perdendo referências, que se vai vulgarizando, em nome da modernidade.

Acaba a vocação, extingue-se o chamamento. É-se padre, como se é trolha, banqueiro, arquiteto ou mestre de obras. O espírito de missão, de sacrifício, de devoção desaparece. O sacerdote passa a ser um profissional que aos domingos vai à casa do Senhor celebrar a missa.

Não estranha, pois que os fiéis se afastem cada vez mais desta tragédia, optando por viver a sua fé em solidão, sem intermediários».

Não concordando com esta visão de tragédia anunciada, o escrito do CM fez-me pensar. Porque algumas ideias, restritas a uma visão laica da vida, fazem parte das preocupações permanentes de muitos cristãos. De mim próprio também.

Claro que é bem mais fácil ao crente dizer, como tantas vezes eu digo: Deus é o senhor do mundo e da história. E como ao longo dos dois milénios de vida, passando por momentos dificílimos, semelhantes e até piores que o nosso tempo, sempre a Igreja se reergueu das cinzas, creio também agora que a Igreja vive um processo de purificação único, de onde há-de emergir com renovada imagem e concentrando em si os desejos, de todos, de razões para a esperança.

Sim, creio bem que esta nossa cultura da morte, em que tudo é fácil e está ao alcance de todos, sem espaço para Deus – Ele que é um permanente incómodo – e que se perde na auto-referencialidade, vai voltar a desejar que a Igreja assuma a sua missão no mundo como serviço credível a uma humanidade desorientada.

Talvez não estejamos nós, os cristãos, preparados para a novidade que se avizinha: a autonomia no campo da fé e dos costumes, ao criar o inevitável relativismo, vai exigir renovado esforço de voltar às origens, reconhecendo desvios e procurando definir o que é essencial distinguindo-o do acessório.

A conflitualidade cada vez mais visível, que atinge todos os níveis das relações humanas, vai gerar a ideia de cansaço, de saturação e o desejo de voltar às balizas de um pensamento bem fundamentado, que não ande ao sabor dos ventos. E nós, os cristãos, menos visíveis no palco do mundo, teremos necessidade de afirmar a nossa diferença e de testemunhar o nosso compromisso cristão.

Quando «se bate no fundo», como ouvimos às vezes, um só movimento se impõe, o ascendente para sairmos do «buraco» onde nos sentimos estar. Não faltam sinais de alerta para as mudanças em curso, que têm necessidade de mais e melhores fundamentos para darem segurança à caminhada pessoal de cada cidadão.

Rejeito a via catastrofista daqueles que pensam que o Papa Francisco está a levar a Igreja para o abismo. Como creio que a Igreja é assistida pelo Espírito Santo, revejo-me na Igreja de Francisco como na de Bento XVI, de João Paulo II ou de Paulo V, os papas que acompanharam e acompanham a minha vida. São de esperança fundada e responsável os ventos que abanam a nossa Igreja. Porque a Palavra de Deus nunca como hoje penetrou em todas as periferias da existência humana, capazes de levar esta a uma permanente busca de autenticidade na descoberta do verdadeiro rosto de Deus. Do verdeiro e não dos ídolos, que a sociedade de consumo vai criando para se autojustificar.

24 de Novembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLVII

Batendo palmas porque outros o fazem, assim nos comportamos muitas vezes. Fazendo coro juntos não destoamos. Situamo-nos na nossa zona de conforto. Infelizmente pouco nos importa a justiça e a verdade da nossa atitude. «Somos como os outros». Mas, como cristãos, nunca o devemos ser, porque devemos ser conformes à vontade proposta por Aquele que nos salva e dá sentido de autenticidade à nossa vida quotidiana.

«A missa é uma seca», ouvimos àqueles que a não frequentam, como desculpa e «ópio» para a sua falta de compromisso comunitário e de coerência entre a fé e as obras. E atira-se para o padre, que preside à Eucaristia semanal, o ónus de ser tudo e o seu contrário, para agradar a todos. Como o não consegue e, tardando em se convencer e decidir por uma linha de orientação, a que lhe é possível e mais conforme à sua formação e missão, em pouco tempo o temos «acomodado» e surdo às críticas díspares que chegam (ou não) aos seus ouvidos.

A verdade é que a missão de um padre na Paróquia não é «agradar» aos paroquianos, mas inquietá-los para que se convertam e decidam no seguimento das propostas de Jesus. Ajudar as pessoas não é alimentá-las no erro, mas despertá-las para a verdade. E isso custa particularmente no nosso tempo em que os grandes valores humanos, individuais e sociais, foram atingidos pelo vírus do imediato comer e gozar, empurrados pela nossa «cultura de morte» para o «inferno» de uma vida rasca, de braços cruzados «porque não vale a pena» e «todos fazem assim», isto é não se faz nada para que a vida tenha sentido de transcendência, sabendo que «um dia todos vamos dar contas a Deus». Até porque «nem só de pão vive o homem…».

São muitas as acusações que se fazem aos padres. Umas com razão. Outras sem qualquer fundamento razoável. Uma delas é que «são chatos». E não faltam orientações, ao gosto de cada um, a dizerem aos padres como hão-de cativar os jovens, não se alongarem nas homilias e atrair as crianças… Só que, a realidade impõe-se: não há dois padres iguais, como não há duas pessoas iguais. As diferenças são riqueza. Custe ou não aceitá-lo. E, humanos como todos, carregam as imperfeições dos seres humanos. Talvez mais que todos: quem não reconhece que o pároco numa aldeia tem também a «função» de ser o bode expiatório dos insucessos e males da comunidade? Precisamos de alguém a quem acusar impunemente e sobre quem descarregar as nossas frustrações e até culpar dos nossos infortúnios. Vem isto a propósito de uma bela notícia que acabo de ler. Ela fez-me lembrar o que por vezes repito: como pode um padre «dar a volta» a numa pessoa que chega à Missa já cansada e «agarrada» pelos infortúnios? Se ela já entra na igreja «carregada», terá o pobre do padre de ser o artista adequado que, na hora certa, consegue «tocar» aquele coração cansado e angustiado para o «aliviar» da carga com que entrou na igreja?

O La Croix de 7 de Outubro passado, um diário católico francês de prestígio internacional, titulava assim: «A Missa que toma o seu tempo» soube seduzir os jovens apressados. O título atraiu a minha atenção e levou-me à questão: se os jovens andam cheios de pressa, como é que eles preferem uma missa sem pressa, celebrada com calma?

Leio e resumo: Esta missa «que exige tempo», que não pode ser a correr, já completou 20 anos em Paris. A sua fórmula didáctica, o que a caracteriza, é a hora e meia que leva para pôr os jovens dos 18 aos 35 anos em contacto directo com a Palavra de Deus. Sob a orientação dos jesuítas, esta «missa que toma o seu tempo» encontrou o seu público especial, quer em França, quer noutros países. Começando do mesmo modo que todas as outras, a missa, dominada pela presença dos jovens, é celebrada à volta de um altar no centro da igreja, estando os fiéis à volta. A meia hora a mais do que as outras é consagrada à escuta do evangelho, à oração pessoal de 20 minutos e de uma partilha das reflexões em peque- nos grupos. Inspira-se nos exercícios espirituais de Santo Inácio e na Escola da Palavra do falecido Cardeal Carlo Maria Martini, arcebispo de Milão, e assemelha-se um pouco ao que conhecemos como Lectio Divina: três pontos de meditação sobre o evangelho do dia para que os jovens possam experimentar o encontro directo com o texto para discernirem de que modo os seus ensinamentos tocam a sua vida concreta. «Nesta missa, temos tempo para nos deixarmos alimentar da Palavra de Deus e percebermos como andamos sobrecarregados de preocupações desnecessárias quando o melhor para nós é dar prioridade à Pa- lavra de Deus e à oração», dizem os testemunhos. «Durante os 90 minutos, os crentes são actores na missa: numa reflexão activa, eles escutam o evangelho e deslocam-se à procura de um lugar tranquilo onde possam fazer uma oração pessoal e silenciosa durante vinte minutos». E, assim, todos os fiéis, sacerdote que preside e assembleia, se sentem iguais, todos «à mesma distância de Cristo», o que lhes permite lembrar o evangelho de cada domingo ao longo de toda a semana. A dimensão convivial também está presente e pode explicar o sucesso desta «missa que toma o seu tempo», já implantada em algumas cidades de França, Inglaterra, Canadá, Itália e Suíça: no final da missa há sempre um momento de convívio que permite o acolhimento mútuo e faz quebrar o anonimato dos participantes.

Diante de tudo isto, quando poderemos nós, barcelenses, sonhar um modo diferente, calmo e verdadeiramente humano de celebrar o encontro com Jesus, Palavra e Pão? Serão necessárias tantas celebrações… com os minutos contados? Até quando?

17 de Novembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLVI

Na Igreja a que pertencemos, o governo exerce-se em comunhão uns com os outros.

Quando, já lá vão mais de 50 anos, o Concílio Vaticano II olhou para os primeiros tempos da Igreja, para as primeiras comunidades cristãs formadas a partir da pregação dos apóstolos, reconheceu desvios na forma de testemunhar o evangelho, corrigiu estratégias, recentrou-se na vida de Jesus e dos primeiros cristãos tomando a comunidade primitiva como inspiração primeira para as formas de governo mais consentâneas com o dom de Deus e com a igualdade fundamental de todos os seres humanos.

Comunidade humana que o é, a Igreja precisa sempre de princípios orientadores, de normas a serem cumpridas por todos, de um governo que se mantenha fiel a Jesus e à sua mensagem, sem descurar aqueles a quem o anúncio do evangelho se dirige: todos os seres humanos sem excepção, despertando -os para o amor de Deus, que os chama à comunhão.

Reconhecemos que as realizações históricas deste governo nem sempre foram correctas. Certamente que o nosso juízo sobre o passado, pretendendo ser objectivo, não o é. Situado no nossos espaço e tempo, ele tende sempre a ser objecto de novas e futuras visões. Nunca os cristãos se podem dispensar de um juízo crítico, de um discernimento sobre a realidade iluminado pela fé.

O Concílio Vaticano II olhou para a Igreja como povo de Deus, onde todos têm lugar e reconheceu que em todos vive e age o Espírito Santo. De modo que todos são chamados à santidade e a fazer render os talentos específicos que o Senhor concedeu a cada um. Porque a própria Igreja é dom de Deus e esta reconhece que o Espírito Santo continua a agir em cada crente, a visão piramidal ou hierárquica foi atenuada para se valorizar mais os carismas, como graças dadas para o bem de todos.

Não se põe em causa a hierarquia da Igreja – porque tudo é dom de Deus e o poder vem de Deus e não nasce do povo – mas sim o modo de estabelecer a harmonia e a paz entre todos, o governo de todos. O poder recebido de Deus pela ordenação sacerdotal não é um bem próprio daquele que o recebeu – o Papa, os bispos, os sacerdotes – de que ele pode dispor como bem entender. A própria missão de governar é já um dom em prol do bem comum de todos.

Do Concílio Vaticano II surgiu uma ideia forte de comunhão e uma obrigação permanente de escutar e interpretar a acção de Deus no seu povo. Desde então, desde o Papa ao bispo, desde a Cúria romana às cúrias diocesanas, desde as paróquias maiores às mais pequenas, desde as comunidades cristãs aos grupos de cristãos, passando pelas diversas congregações religiosas com os seus carismas próprios, não faltam novas formas de governo que impõem o dever de escutar, de consultar, de «ouvir o Espírito» antes de tomar decisão.

Existem assim os chamados Conselhos e os conselheiros que fazem parte das equipas que ajudam no governo de cada grupo ou instituição.

Numa diocese não pode faltar um Conselho de Assuntos Económicos, que ajudam o bispo a tomar decisões em assuntos de gestão. Nem o Conselho Pastoral para o ajudar a traçar as linhas de actuação comuns a todos os diocesanos.

Também numa Paróquia não pode faltar um Conselho Económico e um Conselho Pastoral. Não deveria faltar nunca, mesmo naquelas que são mais pequenas. Às vezes olhados como «travão» à liberdade de um pároco decidir, os conselheiros têm mesmo o dever de ser, na lealdade de consciência iluminada pela fé e suposto o seu amor e compromisso com a Paróquia, travão e motor. O travão evita excesso e acautela o perigo; o motor faz andar ao perceber-se que o Espírito de Deus não quer uma Igreja parada, numa repetição que desgasta, «agarrada» por esquemas e rituais há muito parados no tempo.

Não sei viver, na minha missão de pároco, sem um Conselho Económico, que reúne todos os meses, com agenda própria e acta que regista as decisões tomadas colegialmente. Como com um Conselho Pastoral, que reúne duas vezes por ano, do qual sai um pequeno grupo de conselheiros, dito Secretariado Permanente, que reúne também todos os meses. Não acontece somente agora em Barcelos. Mas desde que sou padre, já lá vão 42 anos.

Éramos 37, no 21 de setembro passado, em Conselho Pastoral. A agenda foi publicada no boletim Construir, de modo a que se saiba o que se reflete e discute. Para o bem da Paróquia, de todos os paroquianos. Dou graças a Deus pelos meus conselheiros e pela sua intervenção, cada vez mais sensata, arrojada às vezes, e sempre marcada pelo amor à Igreja e à Paróquia. Alguns deles mantêm-se como tal ape- nas durante três anos (grupos), outros quatro (juízes das confrarias) ou cinco (Conselho Económico) e mesmo mais repetindo mandatos. Os estatutos permitem continuidade e dinamismo renovado. Reconheço a evolução dos conselheiros ao longo dos anos. Trata-se de uma aprendizagem do ser cristão, experimentando que ser comunidade exige uma grande capacidade de escuta – o que se aprende com a prática –, de acolhimento dos dons de Deus reconhecidos nos outros e um sentido de responsabilidade permanente: os conselheiros não podem limitar-se a dar conselhos ao Prior – o aconselhado – mas a comprometer-se com as orientações e decisões tomadas. A aprendizagem é notória – e dou graças a Deus por isso – quando se assume que nem tudo pode ser dito – a frontalidade altiva não constrói, antes cria desconforto e até sofrimento desnecessário – muito menos sem fundamentos objectivos e dialogados. Notória também na consciência de que é sempre mais fácil falar do que agir e, sobretudo também na consciência bem mais apurada de que a Igreja somos todos nós e de que não é apenas ao Prior que pertence cuidar da paróquia que somos.

Na última reunião perguntava-se que paróquia missionária somos ou devemos ser. E percebemos que a dimensão do «sair para as periferias» implica, antes, «encher-se» de Cristo, entusiasmar-se com Ele, comprometer-se com Ele. Olhámos também a sociedade que nos envolve e diante do processo eleitoral na altura interrogámo-nos sobre o lugar dos cristãos na praça pública: encolhidos e com medo ou conscientes da sua dimensão profética, com uma palavra a dizer, um testemunho a dar, reivindicando o direito de estar, sem medo, no espaço público? E tomámos consciência de que há uma «doutrina social da Igreja», que os cristãos não podem ignorar.

Por último, as linhas de orientação do plano de acção pastoral na nossa Arquidiocese, centrado na Esperança (Levantai-vos e semeai Esperança) fez-nos perceber de que somos Paróquia na Arquidiocese e que o nosso Plano de Actividades se insere na vida arciprestal e diocesana.

10 de Novembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLV

É cruzamento habitual. Percebe-se que há um proselitismo de seitas, que tudo fazem para conquistar adeptos. E confirmo o que vou repetindo: a religião, nesta nossa sociedade de consumo, dita arreligiosa ou sem Deus, vende bem. Há grupos e organizações que até se vangloriam da sua «teologia da prosperidade» e se comparam com os padres, que não sabem pedir.

Aprecio a liberdade vivida no seio da Igreja Católica, a que pertencemos. Na fidelidade a Jesus Cristo, nem sempre conseguida é verdade, a Igreja proclama a «opção preferencial pelos pobres» e dirige a sua mensagem às «periferias» da existência. Os meios materiais de que precisa, como toda e qualquer organização humana, que a Igreja também é, têm de estar ao serviço da evangelização, essa atitude que «atravessa» toda a vida de um missionário.

Sempre que passo pelos grupos de propagandistas religiosos, nas ruas os jeovás, na televisão, os do reino de Deus, nas rádios os grupos evangélicos… me vou interrogando e até comparando: quanto trabalho e quanta dedicação posta ao serviço de uma ideologia religiosa, tanto mais lucrativa quanto ardilosa na manipulação das consciências, no abuso do falar em nome de Deus, e na proposta (imposta?) de uma nova religião, a «única» que é verdadeira, que salva e que vale a pena seguir pois de eficácia quase imediata?!

Diante dos nossos cristãos católicos sempre tão cansados para algum serviço na Igreja ou na Paróquia, quase exigindo uma bênção especial ou favor especial de Deus para a sua suposta dedicação… pergunto-me porquê o aparente sucesso deles e o aparente fracasso nosso. E concluo: sempre foi mais fácil seguir o caminho da facilidade, as soluções baratas e imediatas, sem o ónus do discernimento na procura da verdade. Na nossa cultura, somos preguiçosos para pensar, tardios em decidir e muito orgulhosos e teimosos para não assumirmos os erros. «Politeístas» quanto baste, preferimos «dançar» diante dos ídolos feitos pelo engenho humano, à semelhança do povo de Israel diante de um bezerro de ouro. Os deuses regressaram para o espaço de onde o verdadeiro Deus foi afastado. Não será tempo de reabilitarmos Deus? O verdadeiro, que liberta a pessoa dos ídolos que escravizam?

Vem isto a propósito de duas notícias que, nos últimos tempos, me chegaram às mãos.

A primeira é de Fevereiro do corrente ano de 2019. A segunda é mais recente, dos finais de Agosto. No jornal SOL pode ler-se: Uma mulher e dois homens foram detidos por burlas cometidas alegadamente através de sucessivas acções esotéricas, de cartomancia e de espiritismo, nas quais terão sacado cerca de 100 mil euros à vítima». A notícia fala das diligências da Judiciária, que evitaram que os três meliantes se apoderassem de todo o património da vítima. Esta, fragilizada após a morte de um familiar, passou a ser totalmente controlada pelos supostos «poderes» dos meliantes. A Judiciária chamou à operação a que pôs cobro Vozes do Além. Sim, apesar de serem vozes bem do aquém. No segundo caso fala-se de um televangelista Benny Him, que ganha 100 milhões de euros por ano. Este norte-americano alega ser capaz de curar cancro e sida com apenas um simples toque e o poder de Deus. O fenómeno dos televangelistas é um fenómeno crescente sobretudo na América e um pouco por toda a América Latina, particularmente no Brasil com Edir Macedo e a plêiade de auto-intitulados pastores e bispos, bem preparados para «dar a volta ao texto» e fazerem o texto bíblico dizer o que lhes faz aumentar a conta bancária. Munidos dos seus jactos privados e redes de rádio e televisão próprios – o dinheiro abunda para tal «evangelização»/manipulação em favor de deus, para glória de deus… eles próprios que se põem no lugar de Deus sem que os manipulados se dêem conta – são bons actores na arte da convicção fazendo acreditar que é Deus que lhes dá um poder especial de cura. Claro que, com o tempo a passar para disfarçar o efeito psicológico, torna-se inevitável recorrer ao diagnóstico médico… só que o charlatão já se cobrou de uma grossa quantia. A notícia acrescenta ainda o caso de uma mulher que, julgando-se curada, acabou por recorrer mais tarde ao hospital. Mas, tarde demais, morreu quinze dias depois… da queda em que fracturou o quadril: a perna foi ficando pior e bloqueou-lhe as artérias. «As únicas pessoas permitidas no palco, revelou um dos colaboradores do televangelista, eram as que tinham problemas psicossomáticos ou dores físicas que poderiam ser temporariamente atenuadas pela euforia de acreditar que estavam a ter uma experiência religiosa diante de uma multidão animada».

Diante de tudo isto, e da revolta que tal me provoca por constatar que, em pelo século XXI, a crendice continua a alastrar e, mesmo com tantos cursos superiores, abundam os charlatães, gente sem escrúpulos, bem treinados na arte de enganar e de explorar os incautos. Mais grave ainda, em nome de Deus. É caso para dizer, repetindo: «a religião vende bem». A dos deuses. Não a do verdadeiro Deus. É diante de tudo isto, num regime democrático em que imperam as maiorias, que vemos a verdade subjugada à mentira, o certo subjugado ao errado, a moral subjugada ao lucro fácil e Deus subjugado aos ídolos. Pobre sociedade!

Como fazer então diante desta realidade? Como a religião não se impõe e o Deus verdadeiro age pelas convicções e a liberdade é um direito de todos, resta-nos o investimento na formação. E aqui tocamos o essencial da mensagem e do estilo de Jesus: levar as pessoas a pensar, a criar espírito crítico, para serem capazes de discernir as situações e optar pela verdade. Tarefa difícil na cultura do descarte, no ritmo acelerado em que vivemos, e numa sociedade em que abundam os oportunistas sem escrúpulos que não têm limites no subjugar os mais frágeis, abusando da sua boa fé. E porque todos somos livres, até para nos deixarmos enganar, falta-nos um Estado que cuide dos cidadãos impedindo de serem enganados. Campo difícil certamente mas também aliciante e desafiador para a acção da Igreja.

3 de Novembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLIV

Os aniversários de acontecimentos tornam-se, com o passar do tempo, datas incontornáveis pelo que têm de força simbólica na vida das pessoas ou instituições. Para mim, recuar no tempo e contemplar datas marcantes tem sempre um sentido de acção de graças. Seja pelo que de positivo aconteceu. Seja também pelo que de negativo aconteceu: neste caso, porque contemplo também o modo como o encaixei na minha existência e como ele foi ultrapassado. Há dias completei 15 anos de Prior em Barcelos. Assinalei a data no boletim paroquial, como o tenho feito desde 2005. Foi o suficiente para dali passar para as redes sociais. Certamente que agradeço os comentários recebidos.

Porque um grupo de colaboradores quis estar presente na missa diária, em atitude de acção de graças, senti ser meu dever de gratidão referir-me ao assunto. Sinto sempre certa dificuldade em falar de mim próprio, embora reconheça que a idade nos traz um «estatuto» especial de maior credibilidade quando os discursos dão lugar ao testemunho.

E assim, lembrei-me do dia em que entrei na Igreja Matriz de Barcelos para ser empossado como pároco. Trouxe à memória aquelas primeiras horas de uma missão que já vai em quinze anos. E referi a primeira homilia em que, escrita, logo longa, me apresentei diante de todos: «sou homem de fé. Porque acredito em Deus, acredito também em vós, homens e mulheres de Barcelos». Penso que estas palavras podem explicar muito do que aconteceu ao longo de uma década e meia: o meu agir determinado, às vezes incompreendido, porque amadurecido antes de decidido. Não recuo diante das dificuldades mas prefiro dialogar e propor a impor. Sei que não é fácil escolher agir contra a corrente maioritária, sobretudo quando a reconheço acomodada e incapaz de parar para pensar. Perfilho a ideia de que um povo até avança se formos capazes de explicar bem o caminho de novidade que se lhe apresenta. Recuso-me a aceitar que se diga «o povo não quer» quando é o líder que não quer porque se quisesse teria muito trabalho pela frente: o de se reinventar para explicar as razões de uma proposta nova ser melhor do que a que o povo já tem.

Pouco antes da celebração, uma interpelação na rua fez-me falar de mim e da minha decisão, superiormente aprovada, de partir para Moçambique para uma «experiência missionária de cerca de três meses». Precisamente no dia seguinte à marcação da data de partida e de chegada. À interpelação respondi: «não é verdade que vou para Moçambique. É verdade que vou a Moçambique mas estarei de volta antes do Natal». Na celebração fui mais longe: «Vou a Moçambique. Preciso de ir. É importante para mim ir. E é importante para vós que eu vá. O meu enriquecimento pessoal também vos enriquecerá. Será uma oportunidade para olhar para vós a partir de outros e de novos horizontes. E de pensar na minha acção pastoral entre vós a partir da distância, que nos permite um olhar mais abrangente, objectivo e mais entusiasta. Pois que o tempo cansa e tende a fazer entrar na monotonia. A criatividade vai-se esgotando e precisamos de novas e mais fortes motivações. E vós também precisais da minha ausência. Da experiência de não me terdes por perto. E de testar o vosso compromisso como leigos que encontraram o seu lugar na Igreja. Acredito que será bom para todos».

Escrevi este texto no passado dia 26 de Setembro. Na altura em que vós o ledes já eu me encontro envolvido noutras realidades pastorais numa jovem Igreja, portadora de enorme esperança. Moçambique, a nós tão ligada por laços históricos e culturais, tem uma riqueza única a partilhar connosco, os do Velho Continente: a sua simplicidade de vida que se transmite num enorme sorriso de alegria e de felicidade, apesar da falta de meios materiais. Sim, acredito que a pobreza que lhes atribuímos será a riqueza de que nós precisamos. Como acredito também que só o poderei confirmar ou corrigir com força de testemunho quando de regresso passar a olhar para lá a partir de cá. Qual dos dois olhares, o de lá para cá ou o de cá para lá, será mais evangélico?

27 de Outubro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLIII

Se tudo correr como previsto, quando esta edição de Construir chegar às mãos dos leitores, seja em digital, seja em papel impresso, o que acontece habitualmente ao fim da manhã ou na tarde de cada sábado, já eu me encontrarei bem longe de Barcelos, na cidade de Maputo, após uma longa viagem iniciada pelas 19.00 em Lisboa. É o começo da «experiência missionária» que o senhor Arcebispo me autorizou a fazer «por cerca de três meses». Não serão três, ao menos por agora, mas apenas dois meses, estando de volta antes do Natal.

Sei, por experiência própria, repetida algumas vezes, o que é aventurar-me por outra realidade, saindo da minha zona de conforto. Posso dizer que foi a experiência a levar-me a dizer que não é bom, nem para o próprio, nem para a comunidade, permanecer demasiado tempo no mesmo cargo. E assim tem acontecido. Os meus 42 anos de vida sacerdotal foram distribuídos deste modo: os dois primeiros como redactor do jornal diocesano Diário do Minho; os dois seguintes como capelão militar na Força Aérea; seguiram-se dez anos de pároco, durante os quais fiz a licenciatura em teologia pastoral em Madrid; dos cinco anos como director do Secretariado Geral da Conferência Episcopal Portuguesa, dois deles ainda era pároco em Vieira do Minho; seguiram-se sete anos em Paris, acrescidos de mais três nos USA, ao serviço dos portugueses emigrados. Por último, já lá vão quinze anos, como pároco em Barcelos… só com uma diferença: enquanto nas missões anteriores eu era ainda jovem, em Barcelos já me tornei sexagenário. A capacidade de novidade e de mudança vai diminuindo.

Entretanto, eis-me de novo numa aventura, desejada há muitos, muitos anos, e que se tornou agora possível. Como me encontro diante dela?

Na hora em que escrevo, procurando adiantar-me no tempo – estou a 3 de Outubro – encontro-me cansado e a cansar-me cada vez mais, com o desejo de deixar toda a vida paroquial orientada para os dois meses da minha ausência. Quando, preparada a mala ao longo de vários dias, me encontrar no aeroporto, tranquilo porque totalmente confiante em que tudo ficou orientado e vai ser continuado, elevarei o coração agradecido para Deus em louvor por uma nova experiência na minha vida, numa Igreja que amo e que tem as fronteiras do mundo. Poder sair é saborear a liberdade no compromisso. É testemunhar confiança total. Sem receios de surpresas desagradáveis. Porque «minha é a missão de apascentar, não o rebanho». E eu sei que o verdadeiro Pastor vai cuidar do rebanho melhor que eu. E se não for assim, como eu penso? Viverei tranquilo e em paz: Deus cuida.

Não penso em hipotéticos desaires, em perigos inesperados, em dificuldades linguísticas, em falta de segurança, em percalços nas deslocações. Parto confiante e aberto à novidade que o Espírito de Deus porá certamente diante de mim. Não sou, nem pretendo ser, o clássico missionário, preparado para partir para os tradicionalmente considerados territórios de mis- são. Sou um missionário no dia a dia de um pároco, procurando viver o meu Baptismo do modo como o apresento como ideal àqueles me ouvem. Sou aquele pároco convencido da diversidade imensa de dons confiados à Igreja e convencido de que todos nos enriquecemos quando alargamos o nosso olhar para um mundo sempre necessitado da Boa Nova de Jesus. Sou ainda aquela pessoa, única do mesmo modo que todos, com um ritmo de trabalho e de intervenção conhecido de muitos e apreciado diversamente, que reconhece que também me enriqueço quando presencio o ritmo dos nossos irmãos na fé africanos, a equilibrar o ritmo mais acelerado dos europeus.

Não levo comigo planos de intervenção. Exercitarei uma velha máxima: primeiro, ver, depois reflectir e só depois agir. Só me poderei situar no primeiro grau: ver e confrontar-me a mim próprio. Preparado para reconhecer diversidade de dons sem a pretensão de julgar a minha maneira de ver ou de actuar como a melhor.

Dizem-me que as oportunidades serão imensas. De conhecer, de visitar, de parar para contemplar, de rezar de modo diferente, de apreciar uma maneira nova de inculturação do evangelho, de reconhecer o trabalho dos catequistas leigos, que apreciam a presença do padre mas que não dependem dela para crescer na fé. Aberto a aprender esta lição.

De sábado a quinta-feira estarei na capital moçambicana, Maputo. Uma familiar, religiosa doroteia, que ali tem dado a sua vida como missionária, particularmente na promoção das jovens mães, me acolherá. Septuagenária já, ela conhece muito bem Moçambique, até no drama da guerra, pois fez inclusive a experiência de ser raptada pelos guerrilheiros e ver a vida em perigo. Esperarei ali a equipa missionária da nossa Arquidiocese – o Rui e a Susana, que ali vão passar o segundo ano da sua vida de entrega àquele povo de Ocua, correspondendo aos seus dois primeiros anos de casados, o P. Daniel, que os barcelenses conhecem porque fez estágio pastoral na paróquia de Barcelos, e ainda a Andreia, uma jovem técnica de análises de tecidos biológicos – que chegará na quarta-feira. No dia seguinte, quinta-feira, retomamos o avião para chegarmos ao norte, à diocese de Pemba, de onde nos faremos a Ocua (a pouco mais de duas horas de carro), a paróquia que a nossa Arquidiocese de Braga assumiu para evangelizar e ser evangelizada a partir de uma visão eclesial totalmente diferente numa jovem Igreja.

O que irei encontrar? Não sei. Um dia certamente terei ocasião de partilhar convosco novidades e riquezas que o Espírito de Deus continua a fazer surgir na sua e nossa Igreja.

20 de Outubro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLII

Já lá vão uns anos. Quando o ouvi não acreditei. Ou preferi julgar impossível, tão inédito e impensável de acontecer.

Numa cerimónia de Baptismo em que alguém, consciente do seu ser Igreja, participou, apercebendo-se de que o candidato a padrinho, pessoa das sua relações, nem baptizado era, escandalizado com a insensatez ousada dos pais, teve a coragem de avisar o sacerdote. E, pasme-se, ele terá «fechado os olhos».

Há cerca de um mês, alguém na minha ausência passou no Cartório Paroquial. Era uma avó a pedir um papel para que a sua neta fosse madrinha noutra paróquia. Foi-lhe correctamente respondido que o Prior só passa certificados de idoneidade depois de conversar com o próprio e de o preparar para a missão pretendida. Como quem pedia nem paroquiana era e o pedido nem era para si própria, ela terá estranhado e concluído que, afinal, não se tratava apenas de papéis. E lá se saiu com um desabafo: «noutros tempos...até nem baptizado era preciso...». Ao que, estranhando, a colaboradora quis certificar-se ao que se referia. E, segundo a tal avó, a madrinha da candidata nem baptizada era. E o registo lá está, omitindo tal condição que, dando-se como suposta, nem precisa de qualquer indagação.

O fechar de olhos por parte daqueles que têm a missão de vigiar, de orientar, de go- vernar é, para mim, a principal causa da credibilidade afectada a que a Igreja chegou. Com efeito, grupo humano que também é, não pode dispensar orientações certas e seguras, quais elementos identitários de uma instituição inserida no mundo «sem ser do mundo». Ninguém duvida, certamente, de que qualquer grupo que não cuide da identidade dos seus elementos, «balizando» quem é na diferença de quem não é, está condenado, com o passar do tempo, a descaracterizar-se e não exercer qualquer sedução que crie desejo de pertencer. Ora nós somos Igreja por um dom que nos precede e ao qual somos chamados a responder. Não uma vez, a do Baptismo, mas ao longo de toda a vida. E precisamos, nos tempos que correm, de marcar as diferenças daqueles que não o são por vontade própria. Temos esquecido que Jesus Se propôs à liberdade de cada um e esperou a adesão livre à mensagem que propunha.

Tenho para mim que a Igreja católica é o espaço da maior liberdade possível: a obediência primeira é sempre a Deus, que Se exprime numa consciência em constante processo de formação. E a Igreja - pastores e leigos - têm a missão de servir a «adesão» ao Senhor. E quando esta não existe, há que continuar, das mais variadas formas, a apresentar-se a proposta de Jesus, na esperança de que, livremente, a ela se adira. Dar por suposto que todos «têm o direito ao baptismo» revela uma enorme confusão, que alimenta a disparidade de comportamentos. Porque diante de Deus não se fala de direitos, mas de dom. E diante da Igreja, os direitos só se adquirem depois da adesão consciente, que se supõe no Baptismo. Só a partir deste é que se fala de fiéis da Igreja, de associação de fiéis e de direitos e deveres na Igreja.

Quando enviou os apóstolos a pregar, a anunciar o que viram e ouviram, Jesus, deixou estas palavras orientadoras: «quem acreditar seja baptizado». Bastaria isto para nos questionarmos sobre quem deve ser baptizado e nos empenharmos em cuidar do anúncio de Jesus - este sim destinado a todos sem excepção - que deve levar à decisão de se tornar discípulo e, pelo Baptismo, fazer parte do seu Corpo, a Igreja.

Diante das situações referidas e diante de outras possíveis - não estaremos a celebrar funerais com rito católico de pessoas que nem baptizadas são ou até que pertencem a outras organizações religiosas? - não será descabido que, para qualquer acto sacramental ou ritual católico se torne exigível a prova documental de Baptismo. É que no vale tudo que caracteriza a nossa sociedade em profunda crise de valores, a Igreja é associada a um grupo humano apenas, qual empresa de serviços como muitos a olham, esquecidos dos valores transcendentais que a justificam. E assim já vamos assistindo à entrada de «irmãos» em associações religiosas em que os papéis de candidatura até assinalam tudo o que é necessário para a entrada «legal» e estatutária - mas nada de documentos de prova - ou de «idoneidade religiosa e moral», pelo que as associações da Igreja estão de flancos abertos para todos os «interessados», conforme a cor «religiosa» ou «política», «clubística» ou «partidária» de quem, no momento as rege. E, diante de tudo isto, quem deveria agir para «moralizar» cruza os braços e deixa correr.

A Igreja vive tempos de crise, ouve-se à boca cheia. E eu digo: abençoada a crise, que nos obriga a parar para pensar nos desvios e onde nos perdemos do bom caminho. E uma das manifestações da «crise» está nesta expressão tão frequente quanto ridícula: «sou católico não-praticante», a que estamos habituados e incapazes de tomar posição diante de tal abuso. Numa sociedade de gente livre, em que as opções religiosas são possíveis, não tem sentido tentar a «quadratura do círculo»: ou se é católico e se vive como católico ou não precisamos de nos dizer católicos. Claro que compreendemos: às vezes o rótulo é conveniente e até pode dar estatuto. Jesus chamaria a isso hipocrisia.

13 de Outubro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXLI

Tenho consciência de que, na minha acção pastoral, não visito tantas vezes os nossos doentes como devia. Por outro lado, sempre vou insistindo para que as famílias cuidem de interessar na visita do sacerdote. Muito poucas o fazem. Menos ainda no que se trata de pedir os sacramentos, como ajuda espiritual na doença ou velhice.

Hoje, porém, quero falar da riqueza que sempre presencio nas conversas, ainda que breves, com os nossos idosos e doentes, quando os visito em casa.

Gostam de falar. Sem pressas. Precisam mesmo que os ouça. Nem preciso de muitas palavras. Gostam de contar. De voltar atrás no tempo - tempo escravo, dizem, mas de muita alegria. E diante dos «novos tempos» vale a sabedoria que a idade lhes traz de não se queixarem. São muito compreensivos mesmo que o não pareçam, no meio de queixas amargas de um certo abandono por parte dos filhos e netos - trabalham muito e não podem, dizem - juntando à mágoa do lamento a tolerância que desculpa.

Há dias encontrei, uma vez mais, a Maria. Já vai nos 95. Recorda os tempos do pai, que trabalhou na Matriz quando ela era menina e lhe levava o almoço à Igreja, onde assentava a pedra, que hoje nós calcamos. Gosta de fizer que «sem Deus não somos nada». E acrescentava uma estória sobre alguém, um homem rico, que se incomodou quando alguém lhe disse «Deus te acompanhe». «Coitado, pensam que têm o rei na barriga... mas morrem como os outros. E esquecem que vão dar contas a Deus».

Dali a conversa - gosta de conversar a Maria e de «desabafar», qual mestra que partilha a riqueza das suas memórias - evolui para outra estória. A de outro homem que «não dava preceitos à Igreja» e morre. A família fica surpreendida quando o agente funerário lhe disse que o pároco se negava a fazer-lhe o funeral. Porquê? Porque nunca colaborou com a paróquia: se não precisou da Igreja porque há-de agora o pároco importar-se com o assunto? «E foi muito bem feito», acrescentou. «Só que os filhos, diante de tal vergonha logo resolvem pagar todos os anos em atraso. Eram já quinze... E o funeral lá se fez... de mais um bazófia que se julga acima de todos, até de Deus», comentava a Maria.

Eu ouvi. Com gosto, é verdade, contemplando como o sentido de justiça se mantém vivo na velhice. E recordei outras experiências de conversas repetitivas e às vezes sem nexo de irmãos nossos que lá vão exprimindo o que de mais vivo ainda se conserva nas suas memórias afectadas pela doença de Alzheimer. Os que são crentes e rezavam lá vão repetindo monocordicamente pai nosso ave maria, pai nosso ave maria... Outros também são repetitivos... de palavrões e obscenidades que, diante do Padre ou de estranhos, fazem os filhos corar de vergonha. Nada mais natural certamente que se repita o que ficou mais registado.

Há também aqueles que mantêm uma lucidez extraordinária diante das forças que vão diminuindo e que os leva a pensar que a morte os espreita. E até pensam com realismo e até com resignação. Ao contrário dos mais novos que os vão iludindo dizendo que ainda hão-de saltar e correr. Eles até percebem o engano, para não dizer desfaçatez e abuso das fragilidades alheias.

É belo reconhecer as vidas cheias e sábias de muitos que aos noventa e muitos, são capazes de olhar para trás e de dar graças a Deus pela vida que levaram. E até por continuarem a sonhar, sem serem um peso para os que os rodeiam. Muito temos a aprender com eles.

Infelizmente a nossa cultura não valoriza este saber de experiência feito, traduzido às vezes em provérbios e frases curtas muito pessoais, que os filhos recordam e conservam após a morte deles, quais balizas de orientação segura num mundo cada vez mais desorientado no que diz respeito a verdadeiros valores.

Reconheçamos que o tratamento sanitário evoluiu e muito nos últimos tempos. Que, nas leis e direitos reconhecidos, os nosso velhinhos têm lugar. Só que, no tratamento vip que se lhes atribui - nem sempre tal acontece e não faltam testemunhos do contrário - esquece-se do que eles mais precisam: o carinho dos filhos e netos, o calor da fé e até o «desconforto» da sua casinha, menos cómoda certamente, mas o «espaço» das suas memórias. Sim, só a presença afectuosa, grata e tolerante consegue estar à altura das necesidades dos nossos velhinhos.

6 de Outubro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXL

Foi diferente o retomar de actividades na Paróquia, após o período de férias. Depois de uma caminhada orante em tarde de sábado, participada por quatro dezenas de colaboradores, após o recomeço da catequese de jovens e adultos e da catequese das crianças e adolescentes, reunido o Conselho de Pastoral, que analisou o Programa de Actividades, eis que chegou o domingo, o dia «oficial» de início de ano pastoral, situado, como habitualmente, em data próxima do dia 26 de Setembro, a data de entrada do Prior em Barcelos, no ano de 2004.

Houve compromisso de bem servir na Paróquia, conforme a proposta de Jesus a todos os que abraçam a causa do evangelho. O texto ao lado exprime o que foi dito na celebração da Eucaristia das 11.00.

Finda a Missa, os paroquianos que se disponibilizaram para um dia de «família paroquial», em número de 120, dirigiram-se para a Casa Clementina Rosa, em Sandiães, para um almoço de confraternização. O Dia da Paróquia, projectado para 16 de Junho p.p., teve de ser suspenso, dadas as previsões meteorológicas, que anunciavam chuva forte naquele dia. Atempadamente decidiu-se suspender o Dia da Paróquia pois que não havia condições logísticas para um convívio ao ar livre. Desde essa altura se aventava a hipótese de algo parecido no início do ano pastoral. E assim aconteceu. A equipa de voluntários pôs mãos à obra e, pouco passava da uma da tarde, já todos estávamos à mesa, em alegre convívio de «família paroquial». E tudo se passou em local coberto, na Casa Clementina Rosa, agora recuperada da degradação a que esteve sujeita, dando origem a um grande salão capaz de acolher mais de centena e meia de convivas.

Todos admiraram a obra realizada, que enriqueceu mais ainda a doação que o sr. Esteves e sua esposa Gracinda quiseram fazer à Paróquia. E se perguntavam: que uso dar a tão boas instalações?

Partilhando sonhos e dificuldades, ouvimos o senhor Esteves a alargar-se em desejos, mais que legítimos, de ver a casa de seus familiares agora recuperada – ela que tem nas suas origens a marca de um padre, que nela chegou a morar – a servir grupos e actividades, a ser cuidada nas suas potencialidades, agrícolas e frutíferas, mas sobretudo como espaço convivial onde se estreitam laços comunitários. É verdade que a área de cultivo, bem como a área de construção, permitem sonhar alto. Haja interesse de todos, a juntar contributos, financeiros e não só, de modo a dispormos, no futuro, de um espaço único para a actividade pastoral. Todos compreenderam que se justificam apelos à colaboração dos paroquianos para embelezarmos o espaço e o dotarmos de condições para os nossos convívios paroquiais, que continuaremos ali a fazer. Mas poderemos ir bem mais longe. Assim os paroquianos o desejem, se cotizem e dêem sugestões. Assim os grupos paroquiais - de modo especial a pastoral familiar, os escuteiros, jovens e catequese – tenham em conta aquele espaço na programação das suas actividades. Mesmo convívios de famílias… porque não aproveitarem e darem vida àquele espaço?

No apreço da obra feita sobressai mais o que falta fazer do que o que foi feito. Nada de estranhar. Caminhamos ao ritmo das possibilidades da nossa «Casa»: não faremos dívidas e aguardamos pela generosidade de todos. Por- que não as empresas de construção civil darem uma ajuda, se mais não for com alguma equipa de trabalho, impedida, no inverno, de trabalhar e que, ali possa fazer avançar uma obra que é de todos, porque da nossa Paróquia? Estamos bem conscientes das dificuldades financeiras, agravadas pelo facto de a Igreja Matriz, propriedade do Estado, precisar de muitas obras de manutenção que, bem desejadas ao Estado, acabam por ficar ao nosso encargo. Foi bom o convívio desta família, que dá sinais de evoluir na comunhão entre todos. Tal comunhão, sejamos realistas, não é fácil. Pelo que temos, todos, de assumir o desafio do evangelho de Jesus de ir ao encontro dos outros, que são nossos irmãos. Se a comunhão entre irmãos, no seio da mesma família, não é fácil – e mantém-se uma permanente tensão entre os membros da família, que é sadia – compreendemos que não seja fácil para as comunidades cristãs de hoje o testemunho de unidade, de que se fala ter caracterizado as primitivas comunidades cristãs. Mas nem por isso devemos cruzar os braços, pois que «não é o caminho que é difícil; o difícil é que é o caminho».

Como Prior, sonho um dia ver aquela Casa, bem como o terreno que a envolve, a servir a Paróquia sendo desejada como centro de actividades. Oxalá todos nos demos as mãos no cuidado que devemos ter com o futuro da nossa Paróquia, que se deseja centro de dinamização da adesão de muitos à pessoa de Jesus.

29 de Setembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXIX

«Minha é a missão de apascentar, não o rebanho». Esta minha afirmação, que deu título a uma pequena publicação de textos meus no boletim paroquial, provocou e provoca quem o lê, não parecendo evidente o seu conteúdo. E é verdade que ele foi escrito propositadamente para provocar. Assumi e assumo que não sou dono de nada, muito menos das pessoas que, organizadas em grupos ou instituições da Igreja, se sentem com direito a um pastor próprio, a um pároco se se trata de uma Paróquia. Em breves palavras um pastor com o seu rebanho. De facto, na vida da Igreja como na organização da mesma o «pároco é o pastor» de uma comunidade de fiéis.

Quis, com o título provocar a ir mais longe: o ministério sacerdotal é dom de Deus que eu quero continuar a receber e dele ser digno. Julgo, porém, que, para ser digno da missão de pastor, nunca poderei sentir-me dono do rebanho. Porque a missão se destina a todo o povo de Deus como um serviço. Mas o povo, o tal rebanho, é pertença de Deus. Foi por ele que Jesus deu a vida. Eu apenas, como participante do múnus do Bom Pastor, sou chamado a, livremente, gastar a vida pelo povo de Deus, a quem devo levar o evangelho de Jesus. Como servidor, servo e não patrão ou senhor.

Servir implica amar, entregar-se, doar a vida. Implica também inovar, descobrir novos modos de servir, ajustados às pessoas e às suas circunstâncias.

Em razão disso, proponho sempre, após alguma iniciativa não habitual, fazer uma análise: até que ponto tal iniciativa levou as pessoas a aproximarem-se mais de Jesus.

Preocupado que sempre estou com a saúde humana e espiritual dos paroquianos, particularmente dos mais directos colaboradores, dou-me conta, no período após a Páscoa, de um certo cansaço, desânimo e até irritação fácil. Especialmente nos catequistas - quem não reconhece hoje a dificuldade em educar, na catequese como na escola? - o termo das actividades no mês de Junho é bem desejado.

E o que mais nos falta? Não são as estratégias, as reuniões, a partilha de ideias, a dedicação às crianças... O que mais nos falta é, concluí eu, o contacto com a pessoa de Jesus, fonte e termo de toda a acção pastoral.

Pensei assim em convidar os meus colaboradores na Paróquia para uma tarde em caminhada de oração. E lancei o desafio: queres vir rezar comigo?

Foi no sábado passado, o último disponível antes de iniciarmos as actividades do novo ano pastoral. Com uma razão acrescida: dado que me proponho uma experiência missionária em Moçambique, que exige a minha ausência física da Paróquia, pensei em chamar para «descansar» numa caminhada fácil fisicamente mas que permitisse o silêncio para o encontro consigo mesmo na escuta da Palavra de Deus. Neste ambiente de oração pela natureza, desejava ajudar na renovação do compromisso eclesial com a Paróquia. E deixar bem claro que a minha ausência não significaria esmorecer na doação, antes pelo contrário, porque a Paróquia não é o Prior pois todos somos Igreja e, como tal, comprometidos na missão.

Éramos quarenta. Caminhámos cerca de doze quilómetros. Durante quatro horas. Começámos na igreja de Aguçadoura e terminámos no Senhor Bom Jesus de Fão com a Eucaristia para o grupo. Depois foi o convívio à volta da mesa, não menos importante pois que a fé implica a relação de conhecimento uns dos outros, de partilha em contextos diferentes dos habituais.

Os textos da liturgia da semana, especialmente ricos de interpelações, serviram de fio condutor. As parábolas da misericórdia, lidas na liturgia dominical com que terminámos o dia, constituíram a cereja sobre o bolo. Porque nos puseram diante do verdadeiro rosto de Deus, como Pai sempre misericordioso, que nos convida a entrar nas dimensões do amor excessivo, capaz de se impor à lógica interesseira dos homens porque, sem o merecermos, Ele nos ama, mesmo no nosso pecado. Seja este de fuga à sua casa para um mundo de libertinagem, sempre sedutor mas que acaba sempre no meio dos porcos, seja de permanência em casa mas de modo egoísta e alheio ao sentir do pai no desgosto de ver o irmão fora de casa.

As nossas relações uns com os outros, a maledicência entre os membros da mesma comunidade cristã (o Papa tem-no denunciado várias vezes como pecado, que afasta outros da vida da Igreja ou impede os afastados de se aproximarem), o testemunho de uma verdadeira fraternidade porque somos todos filhos do mesmo Pai exigem cuidado permanente para que a nossa Paróquia cresça na comunhão e no testemunho credível.

Numa palavra, procurei fazer o meu exame de consciência no que temos sido e perante o que se espera de nós, pároco e paroquianos. Só Deus poderá fazer a avaliação justa. No entanto, pelos sinais recebidos, atrevo-me a pensar que vale a pena repetir.

22 de Setembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXVIII

Porquê os casamentos não duram? Esta é a minha preocupa- ção de momento. De facto, muito recentemente tomei conhecimento de dois casamentos «desfeitos», aos quais eu presidi. Um deles foi só há três anos. Que se passará para que tal aconteça, sabendo, todos, que as rupturas sentimentais deixam sempre marcas e envolvem muita angústia nas pessoas envolvidas?

Pretendo apenas refletir alto com aqueles que me lêem. De facto, não faltam análises, aos mais diversos níveis, do fenómeno. Nem faltam propostas de solução. Que parecem fáceis para quem as apresenta.

É claro que todos os que se casam pela Igreja se apresentam com as melhores intenções do «para sempre». Quando os provoco: «para quanto tempo é o vosso casamento?», habitualmente, por entre sinais de estranheza, a resposta é única: «para sempre. Só se casa uma vez».

A partir desta constatação, não deixo de imediato de chamar a atenção para os possíveis escolhos que irão encontrar para concretizarem tão bela intenção. E reforço a ideia de que «amar é uma decisão». E repito que se trata de uma decisão: «contigo e só contigo para sempre». Decisão assumida. Com toda a liberdade e a consciência de que, diante das dificuldades, a decisão se mantém. Muito mais forte do que os sentimentos, sobre os quais ela se deve impor. Sempre como acto profundamente humano e livre: quero, estou comprometido e trabalho para que tal decisão se reforce sempre mais com o tempo.

Não faltam documentos e tomadas de posição - fortes e corajosas, insistentes mais ainda nos últimos tempos - por parte da Igreja, que sempre se manifesta atenta diante das profundas transformações sociais em curso. Nem outra coisa se poderia esperar dela. Porque ela carrega o ónus feliz de dizer uma mensagem libertadora, a de Jesus, destinada a «provocar» os charcos pantanosos em que o mundanismo ou materialismo mantém «reféns» os seres humanos. Mas verifica-se que mensagens belas, bem anunciadas até, uma doutrina maravilhosa e até sedutora («não separe o homem o que Deus uniu» e «serão os dois uma só carne») não se têm mostrado suficientes para que os casamentos durem. Constatá-lo é realismo. E não fechar os olhos implica preocupar-se com soluções. Mais ainda com o modo de fazer chegar aos envolvidos tais soluções. Se é que o são porque nem sempre se ajustam às situações reais. Tenho para mim que a mensagem sobre o matrimónio e a família, que a Igreja anuncia, é inultrapassável. Terá ela capacidade para «incluir a fragilidade humana»? O Papa Francisco deu um contributo único nesse sentido. Será que os casais de hoje, sobretudo os que se encontram em dificuldade, o conhecem?

Parece-me que o mais importante está na «arte» de sairmos das «soluções» pensadas para os outros e conseguir a humildade dos implicados para que se deixem ajudar. E não faltam até meios, humanos e eclesiais, para tal. A barreira maior, ou seja o maior obstáculo a uma fidelidade provada está no coração de cada um. E aqui, respeitosamente me curvo: só Deus pode «mover» o coração humano para voltar a acreditar no amor fortalecendo a relação de compromisso, que faz inevitavelmente parte da história pessoal.

Por isso, tantas vezes me sinto impotente de uma ajuda necessária mas impedida pelo orgulhoso pessoal alimentado num ambiente social em que Deus não conta.

OIho com esperança para sinais encorajadores de que as coisas estão a mudar. Porque, acredito, têm de mudar. Sob pena de um desencanto mortífero.

15 de Setembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXVII

Há que reconhecê-lo: nos últimos anos a figura de D. António Barroso «entrou» na alma barcelense. É dever de gratidão a quantos por tal têm lutado, desde as associações à volta do bispo missionário de Remelhe até aos responsáveis pela Causa de beatificação e ao Município de Barcelos. A movimentação em Barcelos parece que não fica atrás de idênticas motivações no Porto, diocese que serviu e que conserva muito viva a sua memória tanto no coração das gentes simples, como no de gente letrada, sensível à intervenção de D. António na diocese, quer no campo religioso, quer no campo cívico como defensor dos pobres e dos direitos da Igreja diante das prepotências do regime republicano na altura recém-instalado.

Têm sido muitas as intervenções a destacarem a figura ímpar do bispo missionário. Para mim, por exemplo, de um desconhecido há quinze anos atrás, D. António tornou-se uma figura inspiradora, exemplar na denúncia profética feita com sensatez e bom senso, aliada a uma imensa coragem, própria de um apaixonado por Cristo e pelo rebanho que lhe fora confiado. Mais que de defesa da Igreja, a voz de D. António levantou-se contra todas as injustiças e em defesa dos mais oprimidos e esquecidos pelos que detinham o poder.

Há dias foi destacada a sua faceta de coleccionador de medalhas, revelando os seus conhecimentos de história e de geografia, bom conhecedor dos territórios extensos por onde andou e deixou marca de missionário clarividente e de diplomata no contacto com povos e culturas muito diferentes. Quem diria que um homem nascido e criado no meio dos campos de milho e de centeio, nas terras de Remelhe, viesse a revelar-se o aventureiro ousado e corajoso, de vistas tão largas que se adiantava aos homens do seu tempo e se tornara precursor de ideias inovadoras, mais tarde consagradas mesmo em documentos oficias da Igreja.

A cruz e a enxada eram as suas armas, sinais de um missionário com critérios assumidos de evangelização e de promoção social, que, quando intervinha, com o seu pensamento bem fundamentado, fazia tremer os colonos para quem os povos indígenas contavam apenas como meios de lucro fácil.

Exilado pelo poder político por duas vezes, a primeira em Remelhe, onde, na capela de S. Tiago, por algum tempo Catedral do Porto, foram ordenados 63 sacerdotes, e a segundo em Coimbra, acusado e condenado por «desobediência civil» - há certas obediências que não passam de autêntica covardia - o bispo Barroso acabaria por adoecer - a fragilidade corporal faz tombar o corpo mas deixa a alma bem elevada - e morrer a 31 de Agosto de 1918 no Porto, aclamado pelo povo da cidade como um santo.

As suas palavras Nasci pobre, rico não vivi, pobre quero morrer revelam bem a grandeza espiritual de um homem que gastou a vida ao serviço dos outros. Um homem que veio do nada, partiu sem nada mas deixou muito, como referiu Cláudio Brochado, curador da exposição de medalhas que D. António doara ao Município e que agora estão expostas ao público.

Somente uma década após a sua morte, a sua querida vila de Barcelos passaria a cidade, dando à data de 31 de Agosto um especial significado para Barcelos.

Em Ano Missionário, com especiais celebrações no próximo mês de Outubro Missionário, importa que as famílias e as escolas de Barcelos descubram esta figura única de barcelense, cujos escritos merecem bem ser divulgados e cuja história deve ser exaltada sem aproveitamentos ideológicos ou políticos.

8 de Setembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXVI

Éramos 40. Para além de alguns, poucos, de Barcelos, vieram das paróquias vizinhas, de Esposende, de Braga e de Castelo Branco. Desde a primeira hora se revelou o espírito de peregrino: abertura aos outros, sentido de procura do Deus Verdade e Beleza, regozijo por confirmar que a fé cristã tem bases sólidas, documentadas e incontestáveis, contemplação de que a obra de Deus se continua na nossa história.

Foram oito dias de intensas descobertas em que as emoções vi- vidas e partilhadas anunciavam vida nova, um antes e um depois da peregrinação na Terra Santa.

Pessoalmente fui surpreendido com a qualidade humana dos participantes, que só conheci, na sua maioria, uns dias antes. Alguns mesmo, apenas no dia de partida.

Costumo correr o risco de não colocar qualquer condicionamento às inscrições. E espero continuar a fazê-lo: para mim a única razão de me «meter nisto», isto é organizar grupos de peregrinos, é dar a oportunidade a todos os que o desejarem de se descobrirem em grupo numa caminhada de fé pelos passos de Jesus. Porque sei, pelo que experimento e pelo que me dizem, que se trata de uma peregrinação única, diferente de todas as outras, sejam viagens mais marcadamente culturais, sejam peregrinações aos santuários da cristandade. Terra Santa é um lugar único. Depois de a percorrermos, nada fica igual na vida espiritual de cada um. Uma outra surpresa, anunciada previamente mas confirmada no lugar mesmo, foi a de mudança dos fluxos de peregrinação: outrora mais volumosos nos meses de férias, são eles agora bem mais fluidos, pelo que confirmei que o mês de Agosto é o de menos procura em Israel, ao contrário do que acontecia há anos. Dizem-me - confirmá-lo-ei em Fevereiro - que a afluência de peregrinos em Israel ou Terra Santa é sempre elevada, o que faz com que a hotelaria pratique preços mais elevados e obrigue a que os grupos se organizem cada vez com maior antecedência. Agora precisa-se de um ano para que haja lugares nos hotéis.

Dou-me conta já que, para a peregrinação de Fevereiro, estão cerca de 30 pedidos de inscrição, o que também me surpreende positivamente, sinal de que a mensagem vai passando e a sensibilidade para os lugares da vida e da mensagem de Jesus vai crescendo. Dou graças a Deus por isso.

Registo, uma vez mais, a intensidade de uma semana, que deixa os peregrinos «cheios» mas muito cansados. Sim, o programa de visitas - que inclui muitas certamente, mas que são só as possíveis porque outras ficam de fora - vai em crescendo, enquanto que a capacidade humana se vai esgotando. A informação é demasiada, as emoções repetem-se, cada dia é sempre diferente, sempre novo e uma semana passa a parecer um dia.

O encontro/desencontro com outras culturas e religiões acaba por nos questionar e ajudar a valorizar a nossa fé, percebendo o que nos distingue e o que o Cristianismo contribuiu, ao longo da história, para uma visão mais optimista e esperançosa para o ser humano. As divisões dos cristãos entre si «palpam-se» naqueles lugares com a permanente questão: porque estão os cristãos ainda tão divididos?

Uma palavra de destaque para uma clássica questão, a da segurança em Israel. Digo e repito que Israel é o Estado que melhor cuida da segurança dos peregrinos. Não facilita nunca. E diante das imagens televisivas de sempre possíveis «escaramuças» entre palestinianos e judeus, tantas vezes sobredimensionadas pela comunicação social, apenas continuo a dizer: é seguro viajar para Israel. Quer a cultura judaica, quer a árabe, em eterno conflito, são respeitosas para com os peregrinos.

1 de Setembro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXV

José foi o nome recebido a 10 de Agosto, quando foi baptizado e agraciado para sempre, na Igreja que o acolheu e a quem serviu ao longo de toda a sua vida. Da família Figueiredo Vale, recebeu o carácter forjado nos campos de Vila Cova, aonde sempre volta, dando largas à sua veia contemplativa e poética, numa simbiose permanente do intelecto com a terra que, incansavelmente, de ano para ano, nos oferece, generosa, os frutos que, primeiro trabalhados, logo nos despertam o apetite para as coisas belas da vida. De Macieira veia costela dos Novais, através do tio que paroquiava Vila Cova.

Ei-lo menino e moço, estudante e poeta, cultivado pelos bons mestres que ensinavam e exigiam resultados, forjando personalidades cultas e fortes, capazes de liderar aldeias e cidades, tornando as paróquias a primeira e mais importante escola de valores humanos e espirituais.

Chegou a padre e gastou a vida ao serviço dos paroquianos. Uma estátua na vizinha paróquia de S. Martinho atesta para o futuro os feitos reconhecidos.

Ei-lo agora, inteligentemente livre e dedicado, no serviço que continua a missão de sempre, que abraçou com gosto quando tinha apenas 23 anos. A 15 de Agosto completou 67 anos desse momento único na vida de um padre, o da ordenação sacerdotal, lembrado ano a ano em acção de graças.

Não é fácil dizer em poucas linhas a vida de 90 anos, há dias celebrados. Muito menos a de uma personalidade multifacetada como é a do P. José Figueiredo do Vale Novais. Familiar e «presente» para várias gerações em Vila Frescainha, é hoje «presente» para Barcelos. Ninguém fica indiferente à sua passagem bem humorada e sorridente, que os anos somados apenas conseguiram acrescentar beleza. Fazendo jus aos escritos assinados por JN, ainda hoje não deixa de exarar, em breves textos que escreve, e que os colegas não dispensam, a sua veia poética e bem humorada, própria de gente que está de bem com a vida e a aprecia com profundidade. Diria que é um artista de categoria superior na arte do bem viver. Um bem viver altruísta, empenhado e generoso, cordial e afectuoso para com todos, de modo especial para com os colegas de missão, com quem sempre gosta de estar, seja à mesa de trabalho seja à mesa convivial.

Bom comparsa e conversador nato, não há tristeza que resista à sua presença. Um boa gargalhada que provoca, ou a resposta pronta de ironia fina sempre respeitosa, manifestam a alma grande, madura e comprometida que não se cansa nem cansa.

Cuidadoso da saúde, estima-a como dom único. Obediente aos que conhecem a «máquina», junta-lhe a sua sabedoria prática e a sensatez de quem sente que «já tem idade para ter juízo». Como estranhar então que, após um bom repasto à mesa com os colegas, novos e menos novos (ele era o menos novo na idade mas parecia o mais novo de todos), seguido da mesa familiar - onde tantos Novais de várias gerações saborearam a boa mesa, regada com o bom verdinho mas abençoada com o rosto feliz, a não caber em si de contente, do «tio padre» - os seus muitos amigos quisessem surpreendê-lo...?! Como? Seria possível surpreender homem tão atento e avesso a homenagens, desejando que ao dia 8 sucedesse o dia 10? Pois bem, no dia 10, o agora nonagenário, de vida e de baptizado, dirigia-se para o programado almoço de trabalho, algures fora de Barcelos, quando, numa primeira estação, encontra uma sala cheia de convivas que aguardavam a sua chegada, qual criança a dar o primeiro passo num «primeiro dia de uma década para o centenário».

Com o P. José Novais, a Paróquia não podia fazer por menos: «enfatá-lo e engravatá-lo» qual noivo que, decidida a escolha, se prepara para o «seu dia».

Habituados que estamos a ouvir, quando lhe pedimos um serviço, «peça dois e não um», confiamos-lhe a missão de nos acompanhar deixando-nos ver a sua alegria de viver, a sua generosidade em servir e a sua confiança em Deus e nos homens, virtudes de que é o nosso melhor Mestre. Obrigado, P. Zé. Até à celebração do centenário.

18 e 25 de Agosto de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXIV

Partilho de uma visão contrastante acerca da Igreja católica no espaço e na cultura do nosso tempo. Se, para o crente, a hora não pode ser senão de esperança, também não podemos ignorar os tempos difíceis por que ela passa.

Num olhar superficial, dizemos que há padres a menos e que as igrejas se estão a esvaziar. Num olhar mais atento, concordo com aqueles que dizem que os padres são os suficientes e que as igrejas continuam a ser procuradas pelos cristãos que desejam alimentar a sua fé.

O que se passa então? A ditadura dos números permite comparações mas não conduz à realidade subjacente. Esta, na ordem da fé, toca o mistério de cada pessoa na sua relação com o Transcendente.

Sem ignorar as responsabilidades dos que conduzem a vida eclesial - padres e leigos - a verdade é que se impõe claramente na sociedade um estilo de vida em que Deus não conta. Se se respira em anti-religião, se a cultura se alheia da dimensão transcendente do ser humano, se um laicismo se impõe varrendo os sinais religiosos da vida pública, milagre seria que as igrejas estivessem cheias como outrora. Não nos dispensemos de olhar à nossa volta. De facto, há novos movimentos religiosos, sinal claro de que as procuras interiores não são dispensáveis em algum momento da trajectória da vida. Há seitas e organizações que parecem estar a ocupar um lugar que ficou vazio. E aqui, sim, a situação é preocupante. Quem não se sente realizado nas suas inquietações mais profundas sempre tem a tendência de procurar seja onde for. Não necessariamente no melhor ou mais verdadeiro. É preocupante, de facto, ver como as pessoas se sentem sós, queixosas, depressivas e com horizontes de felicidade baixos. É preocupante ver a adesão fácil a uma religião light, sem compromissos e em que o produto «deus» é consumido como resposta às fragilidades e emoções momentâneas, ao jeito de uma roupagem exterior que não toca o coração da pessoa. É preocupante ver como aumenta o recurso a bruxarias e esoterismos, bem como aos cultos festivos em linguagem bem mais mundana do que sacra. É preocupante verificar que até mesmo entre aqueles que ainda vão à igreja se repete que a Igreja tem de se adaptar ao mundo, esquecendo que o evangelho se destina precisamente a penetrar no mundo para o «converter» a Jesus Cristo e nunca o contrário. Nada disto dispensa a sempre necessária atitude de avaliação de métodos e de um olhar criterioso sobre a realidade mutável da própria sociedade.

A tentação mais fácil é «deixar correr», não intervir e «cada um que se arranje». Mas será isto evangelizar? Estará aqui a «alegria do Evangelho»? Penso que não.

Dou-me conta, diante das dificuldades em despertar para a novidade de Jesus e para a verdade do evangelho, que as referências religiosas transmitidas em família já há muito se perderam. E hoje encontramos a gente já vazia de tais referências, enquanto as damos como ainda existentes. Muitas vezes o verifico logo a seguir a uns breves minutos de conversa: de valores cristãos já nem o rótulo. A família, que nas últimas décadas sofreu o maior dos abalos numa onda demolidora cujas consequências começam a aparecer em toda a sua crueza, deixou de ser o lugar da transmissão de valores. A Escola, reduzida à função de ensinar, passa por uma grave crise em que aos pretensos direitos dos alunos propalados corresponde uma humilhação permanente dos professores, balizados em mil e uma cautelas diante de homens e mulheres supostamente em formação, mas à rédea solta no que toca a respeito e responsabilização.

E, no meio de tudo isto, não esquecemos que a Igreja vive uma das maiores crises da sua história, fruto, opino eu, de décadas de facilitismo, sem regras orientadoras a respeitar por todos, num discurso repetido de direitos sem deveres e numa salvação que se oferece a saldo, sem qualquer custo. Que fizemos nós da paixão e morte de Jesus? Do seu evangelho, saldado uma e outra vez ao longo de décadas?

Quando olhamos à volta encontramos grupos ditos «conservadores» que se mantêm coesos e disciplinados e em claro crescimento. Ou seminários de vida de oração e disciplina onde abundam vocações. Onde está a «conversão» pessoal e eclesial, supostamente atitude de todos os dias?

4 e 11 de Agosto de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXIII

Uno-me à revolta silenciosa de muitos. Diante do espectáculo dantesco da nossa floresta a arder, ameaçando casas e vidas, faltam as palavras e fica-se o silêncio. Um silêncio de raiva, de impotência, de respeito talvez por tantos, a maioria também silenciosa, que, no terreno, fazem o possível e tentam o impossível. De raiva talvez diante dos discursos repetitivos dos «actores» num palco que, ano após ano, se monta para que se destaquem os «conferencistas de imprensa» a fazerem sempre o último balanço, repetindo que «tudo está a ser feito como programado» e que «os meios são os adequados à situação». No palco ainda actuam comentadores e cronistas, habituados aos palpites do que pode vir a seguir e até de «resultados» previstos nas eleições futuras. Diante do espectáculo repetido ano após ano não faltam os prognósticos nas urnas, medindo-se a in/competência do governo pelo modo como actua ou manda actuar no terreno, independentemente dos milhões, infelizmente já previstos no orçamento, que delapidam o erário público.

É de revolta o sentimento que me invade, agravado pelo «fatalismo» com que se chega ao verão e nos tentam convencer de que não pode haver verão sem incêndios. Que discurso é este que anestesia a opinião pública, que «imagem» de país nos «vendem» a arder atirando sempre as culpas para as condições climáticas adversas, a força dos ventos, as temperaturas elevadas... Só uma razão entre as mais viáveis se torna tabu, totalmente inconveniente por não entrar no discurso politica- mente correcto: o incendiário. Sim, quem inicia o processo e porquê? Quem ganha com os incêndios? A quem interessam? Porquê esta in- justiça terrível sobre os bombeiros que, no terreno, arriscam a vida ou sobre os investigadores e polícia, chamados a dar a explicação objectiva do porquê de um incêndio?

Parece ser proibido falar dos incendiários e das razões que os motivam. Porque será? Os nossos «brandos costumes» não permitem «tocar» em certas matérias da nossa vida política ou das nossas leis penais. Mesmo diante de tantos prejuízos de vidas ceifadas, fez-se algo que facilitasse a investigação criminal ou foram agravadas as penas para os infractores? A facilidade com que tudo se explica por «deficiência mental», que torna inimputável o incendiário não será uma das causas para tantos e reiterados incêndios, nas mesmas zonas e pelos mesmos de ano para ano?

A gravidade do fogo posto fazia parte outrora dos códigos morais e da pregação nas igrejas. E nem se falava, como hoje felizmente acontece, do «cuidado da casa comum», do respeito pela criação. Mas havia enorme respeito pela floresta. O pecado de fogo posto era considerado de extrema gravidade, cujo perdão era «reservado» e sujeito a licença especial. A Igreja era instância de educação, respeitada e necessária, sabendo estar à altura da harmonia social. É caso para perguntar: a quem interessa desligar as pessoas da influência da acção da Igreja?

Mas voltemo-nos para o incendiário: como se «forja» ele? De que ambiente vem? Que estrutura familiar é a dele? Que referenciais o constituem? Que «regras morais» o balizam? O que enche a sua cabeça no dia a dia? Apenas os direitos? A ambição legítima de meios de subsistência? O «direito» a ser mantido pelo Estado? A sedução pelo espectáculo que o pode catapultar para as imagens televisivas, permitindo escassos segundos de fama, ainda que pelos piores motivos?

Situemo-nos aqui, no perfil do causador do incêndio propositado. Mesmo que saibamos todos que nem todos os incêndios têm causa humana, propositada ou negligente.

Pobre país o nosso que há tantos anos desvalorizou a família, em que o Estado tenta sobrepor-se aos pais, as ideologias ateias são favorecidas, a história e a identidade do povo, construídas nos valores evangélicos, são ignoradas, e o progresso se mede apenas pelos números dos indicadores económicos. Esquece-se a dimensão espiritual da pessoa e dos grupos humanos - a inegável dimensão transcendente do ser humano - com a componente da esperança que vai além das fronteiras do espaço e do tempo.

Haja coragem de recuar no tempo. Outrora, sem Siresp e protecção civil, eram os bombeiros, com a ajuda das populações que acorriam de imediato. Todos ajudavam e nunca se chegava às dimensões de hoje. Será esta organização, terrivelmente dispendiosa e envolvente de tanta gente nos comandos e corpos intermédios, mais eficaz do que a simples corporação de bombeiros local?

28 de Julho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXII

– Mons. Abílio Fernando Alves Cardoso, autorizado a fazer uma experiência missionária, por cerca de três meses, na paróquia de Santa Cecília de Ocua, Diocese de Pemba, Moçambique. Os seus actuais encargos pastorais serão assegurados pela colaboração do Pe. José Figueiredo do Vale Novais e do Pe. Eduardo Miranda, C.E.S; Este texto, da autoria do senhor Arcebispo, inserido no chamado Movimento Eclesiástico que acontece todos os anos, foi lido com surpresa e interpretado com alguma apreensão, certamente porque inesperado. Porque assim foi percebido, torna-se oportuna uma palavra de mim próprio, que permita uma interpretação correcta, implicando a necessidade de me expor nas razões profundas da decisão. Faço-o com serenidade e transparência, como convém a quem se situa na Igreja como servidor do Povo de Deus.

Vem de longe, da infância mesmo, o meu apreço pelas missões. E o desejo de as conhecer por dentro nunca morreu ao longo dos meus 42 anos de sacerdócio completados há dias. Quando o nosso Arcebispo assumiu uma paróquia de uma outra diocese - a de Ocua no norte de Moçambique - logo saudei a iniciativa como um enriquecimento para a nossa Igreja de Braga. Já quando em Paris, ao serviço dos portugueses emigrados, cheguei a sugerir intercâmbios entre dioceses, que pode- riam enriquecer os presbitérios.

Como a idade avança fazendo surgir a consciência da limitação das nossas forças físicas, certamente que não me julgo em condições de um compromisso estável com as jovens Igrejas. A esta razoabilidade não posso deixar de acrescentar as surpresas que o Espírito de Deus tem feito surgir na minha vida. E quero permanecer aberto às surpresas de Deus.

Só que o nosso Arcebispo tem insistido com os padres nesta partilha pastoral com a diocese de Pemba. E todos os anos lá vai mais uma equipa de Braga, com um sacerdote do nosso presbitério «cedido» por um ou dois anos. E porque não umas férias em território de missão, acrescenta o Arcebispo?

Ponderada a hipótese, surgem os entraves. O maior: e os compromissos paroquiais? Sabendo de fonte segura a facilidade das comunicações actuais, via internet, logo me pareceu desmoronar o principal obstáculo. Porque não partir ficando?

Exposto o meu pensamento ao senhor Arcebispo e o modo como pensava «partir ficando», logo ele acedeu sem qualquer entrave. E num breve encontro a três - Arcebispo, eu próprio e o P. Eduardo Miranda, que a Paróquia conhece bem e aprecia - logo o Arcebispo propôs tornar pública a autorização que, de bom grado, concedia. Escreveu «por cerca de três meses». Penso aproveitar a autorização para esta experiência missionária lá para Outubro, após a retomada da actividade pastoral na Paróquia segundo o Plano de Actividades que neste momento se encontra em elaboração e que, como habitualmente, será dado a conhecer nos finais de Setembro. Pensei em férias num contexto de experiência missionária. Sei que nem sempre o que se pensa se torna viável. É que espero que a vida pastoral na paróquia em nada diminuirá o seu ritmo e eu próprio continuarei a dinamizá-la à distância. Espero mesmo que se torne uma oportunidade de enriquecimento para todos, de modo especial para os diversos grupos da Paróquia, cujas lideranças sentirão a necessidade de se reforçarem e comprometerem mais ainda. Aliás, creio que tal vai acontecer em Barcelos, de modo semelhante ao que aconteceu em Vieira do Minho nos anos oitenta em que o meu biénio de licenciatura em teologia pastoral em Madrid, bem como mais dois anos logo a seguir ao serviço da Conferência Episcopal em Lisboa não impediram de continuar a acompanhar a vida das Paróquias. Ao olhar para esses anos de intensa actividade dou graças a Deus pelos leigos que encontrei e me ajudaram de modo que a vida paroquial em nada se ressentiu, bem pelo contrário: o compromisso laical saiu fortalecido.

No último Conselho Pastoral perguntei aos conselheiros qual o grau de maturidade cristã na nossa Paróquia. E senti-me confortado em reconhecer que temos um bom grupo de leigos empenhados na comunidade, que agem com espírito de serviço aos outros e porque compreenderam - sobretudo a partir das catequeses de adultos e da pregação constante sobre a adesão a Jesus que se vê no modo como agimos em Igreja - que a missão da Igreja arranca do Baptismo e que, portanto, todos os batizados são chamados à missão.

Somos ou não adultos na fé? A minha relação com Jesus cresce na Igreja e na Paróquia sem estar dependente da presença ou da ausência do sacerdote?

Esta será certamente uma ocasião privilegiada para que os cristãos de Barcelos dêem testemunho de uma Paróquia adulta e «trabalhada» pelo evangelho, comprometida na missão da Igreja e mais responsável diante da falta de ministérios ordenados. Porque lá, em Ocua-Moçambique, as 96 comunidades que constituem a Paróquia estão organizadas e animadas por leigos, independentemente da presença ou ausência do missionário. Não teremos nós de aprender com elas? Eu quero aprender...

21 de Julho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXXI

Não o estranhei. Era mais que expectável. E nem tem qualquer novidade. Assim vem acontecendo desde há muitos anos.

A apresentação do estudo do sociólogo Alfredo Teixeira «Identidades Religiosas e dinâmica social na Área Metropolitana de Lisboa», que aconteceu há dias e se baseou em 1180 entrevistas feitas entre 2 de Junho e 15 de Julho de 2018, destacou que a diversidade religiosa de Portugal se apresenta fortemente concentrada na área de Lisboa, onde se encontra mais de metade da população não crente. Apesar disso, nesta mesma área, a população diz-se católica em 54,9%. E os crentes sem religião somam 13,1%. Ateus, agnósticos e indiferentes somam 21,8%. Ao mesmo tempo, foi notícia o congresso das Testemunhas de Jeová, que terá reunido em Lisboa à volta de 60 mil pessoas. No estudo referido os que se declaram Testemunhas de Jeová andam pelos 1,3%.

Entretanto, na mesma altura foi largamente noticiado que a diocese de Aveiro realizou um estudo sobre a participação na missa dominical, que permitiu concluir que «caiu 44 por cento desde 2001».

Disse no início que não estranhei. Os sinais são muitos e persistentes da quebra da participação dominical, bem como se torna cada vez mais notória a erosão das filiações religiosas. Importa parar para pensar.

Ora é precisamente isso que nos tem faltado, a nós, católicos. Há muito que a quebra se vem acentuando. E não nos parece responsável culpar os outros ou o laicismo agressivo de uma sociedade para quem Deus não faz falta.

Nós, os católicos continuamos a dormir, abusando da acção do Espírito Santo, a Quem pedimos para suprir a nossa preguiça e o nosso comodismo. De todos, padres e leigos. Porque a Igreja é o Povo de Deus e nela todos somos responsáveis. Ouso dizer mesmo que esta «descida» da prática dominical é boa em si mesma: traz-nos para a verdade. A Igreja tem demasiada gente de rol. É necessário «purificar» o rol para que ele corresponda à verdade dos que, crentes, se tornam «praticantes» pois o católico não praticante não passa de uma mentira e de uma hipocrisia que nunca se deveria tolerar. A fidelidade a Jesus, que guia a Igreja como continuadora da sua mensagem, exige a linguagem do sim, sim/não, não. Se a fé é um dom, ela tem de transformar a vida. Tem de se tornar testemunho. E numa sociedade onde a liberdade de opção não se pode pôr em causa torna-se intolerável a tentativa de ser e não ser ao mesmo tempo. Sou católico porque pratico, porque vivo a fé cristã em Igreja.

Também eu, todos os anos, promovo na cidade de Barcelos a contagem das pre- senças nas missas dominicais, igreja a igreja, com excepção da de Santo António. E ano a ano comento os resultados com os meus mais directos colaboradores. E pos- so dizer que a quebra acentuada se passou já há anos, sendo menos acentuada nos últimos anos. Foi grande a quebra na cidade: de 2004 (o primeiro da contagem) até ao ano 2018, foi superior a 50 por cento. Pelos dados a seguir bem poderemos ver onde se situam as maiores descidas e quais as missas mais frequentadas.

                            ANOS ----------

2004

2018

Igreja Matriz - Sábado, 19h 

330

130

Igreja Matriz - Domingo, 11h

600

280

Igreja Matriz - Domingo, 19h

350

110

Senhor da Cruz - Domingo, 9h

520

200

Senhor da Cruz - Domingo, 12h15

400

100

Igreja do Terço - Domingo, 15h30

320

150

Misericórdia - Domingo, 10h

350

230

São José - Sábado, 17h30

150

75

              TOTAL (8 CELBRAÇÕES)

3020

1275

Tomar consciência da realidade é o primeiro passo para uma desejada recuperação. Depois, é preciso pôr em causa o modo como hoje se fala e se anuncia Jesus Cristo. E tomar consciência de que a Igreja é um todo muito diversificado e que as diversas situações difíceis têm consequências necessárias ao nível das comunidades cristãs na base. 

Mas a hora não é de desanimar. Eu até fico feliz porque, quando estas coisas interpelam a opinião pública, a indiferença religiosa, ou o ateísmo, ou as convicções não fundamentadas, ou os ritos e práticas religiosas não evangelizadas são sempre questionados. E todas as crises se tornam purificadoras por natureza.

Eu creio na novidade que o Espírito de Deus está a fazer surgir na Igreja. E por isso repito aos que me ouvem: sede gratos para quem vos transmitiu a fé e vos levou ao Baptismo. Tratai de transmitir aos vossos filhos o que de bom recebestes.

Nem me assusta esta diversidade religiosa, com movimentos e seitas ao gosto de cada um. É o surgir de novos ídolos, dos quais temos sempre de nos libertar para aderir ao Deus verdadeiro. Esta é a missão da Igreja, a tua e a minha: anunciar o verdadeiro Jesus Cristo deixando livres as pessoas para fazerem a sua adesão pessoal, assumindo as consequências das suas escolhas. Mesmo que nos doa ver tantos a serem enganados pelos falsos profetas do nosso tempo.

14 de Julho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXX

Hoje vou falar da minha experiência de peregrino no Caminho de Santiago. Acabo de apreciar e contemplar as paisagens do Caminho Português da Costa, que, embora de recente descoberta e pro- moção, tem merecido a atenção dos caminheiros de Santiago. Recuando no tempo e fazendo memória, registo a minha ignorância sobre o assunto quando, em 2006, um conhecido agente de viagens passou em Barcelos para promover o Caminho e me convidou a integrar o grupo que o acompanhava. Percebi então que se tratava de algo de valor único, cultural e espiritual- mente, bem merecedor da minha atenção pastoral.

Assim, no ano seguinte, 2007, organizei um grupo que seguiu desde Barcelos até Santiago pelo Caminho Português (Central). Éramos 18.

Desde então, não mais interrompi a caminhada pelos Caminhos de Santiago, várias vezes pelo Central e, depois, por todos os outros. Exceptuando um ano, por motivos de saúde, foram, assim, 13 as peregrinações em que participei, sempre com mui- ta gente ao lado, peregrinos como eu, às vezes de bolhas nos pés e suor no rosto, mas sempre desejosos do «encontro» com Santiago. Melhor dito com «o senhor Santiago» como gostam de dizer os espanhóis. Prefiro deixar uma interrogação que, no cimo da torre da igreja Matriz, tenta despertar para o essencial do Caminho: «Santiago procurava Jesus. Tu, peregrino, Quem procuras?» No ano 2013 foi o Município que quis ocupar-se da organização, pedindo-me apoio para a vertente espiritual, o que dei de bom grado.

Pelo Caminho Português da Costa, pude, uma vez mais, interrogar-me sobre o sentido da peregrinação e do valor que os Caminhos de Santiago podem trazer para a espiritualidade de cada um e mesmo para a missão da Igreja.

Reconheço que se tornou moda meter-se pelos Caminhos de Santiago. Reconheço que muitos o fazem sem qualquer intenção espiritual e/ou religiosa. Reconheço também a constatação feliz, se não exagerada, de que quem começa turista acaba peregrino. Prefiro respeitar o mistério de cada caminheiro e fazer silêncio respeitoso sobre as suas reais motivações. Mas afirmo a minha convicção de que se mal não faz, o Caminho pode fazer muito bem. É que, por experiência o digo, o cansaço físico torna-se ocasião para outras vertentes do ser humano se manifestarem. E certamente que reconhecemos que andamos todos muito dispersos e temos dificuldade em parar para pensar, em fazer silêncio à nossa volta para ouvirmos a natureza, que nos leva a perceber as «brisas» suaves do passar de Deus na vida de cada um.

Se a maioria dos peregrinos caminha sozinho ou dois a dois, se não mesmo em pequenos grupos, também começamos a ver vários grupos organizados. Aqueles precisam de ajuda para darem «conteúdo» ao seu peregrinar. Reconheço que a Igreja deveria estar mais atenta e eu próprio me sinto interpelado sobre o assunto. É, no entanto, em grupo que tenho peregrinado. Sempre com a intenção de uma experiência pessoal - o encontro com Deus, que se diz e deve ser diário, precisa também de momentos «especiais», que se devem procurar - mas também comunitária. Se sou padre para o povo de Deus, quando peregrino, faço-o como membro do povo de Deus mas em missão: partilhando, dou e recebo dos outros.

Observei e reconheci a dificuldade que todos sentimos em «parar». Em reflectir. Em levar mais a fundo a percepção da realidade. Em darmo-nos conta do que somos e devemos ser. De nos aceitarmos como valiosos aos olhos de Deus. E como, profunda- mente amados por Ele, somos chamados à missão de nos construirmos como pessoas de relação com Ele e com todos os que nos rodeiam. Mas verifiquei também como, nas últimas etapas, o interior de cada um se abria mais ao mistério de Deus. E, por isso, caminhar em grupo torna-se uma ocasião especialmente favorável para o anúncio do evangelho, para escutar anseios e até reparos e para, no respeito da individualidade de cada um, poder abrir novos horizontes para uma fé amadurecida e libertadora. Numa palavra, os Caminhos de Santiago são uma oportunidade a não descurar na pastoral da Igreja.

de Julho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXIX

Não sou daqueles que se fixam num olhar negativo em relação ao passado, do género «antigamente é que era bom». Privilegio um olhar pela positiva: nos meus 65 anos de vida sou testemunha de uma grande evolução na sociedade. Sim, como crente, só a posso olhar como positiva pois que me pertence a mim, como a todos, a missão de conduzir o mundo na vida da beleza e da santidade. Dado que o apelo à conversão ocupa todas as páginas do evangelho... nenhum seguidor de Jesus pode descansar atirando pedras à evolução e progresso. Quem não reconhece que tantas invenções técnicas, que alteraram o nosso quotidiano, criaram imensas possibilidades de comungar das «alegrias e tristezas» do nosso mundo, de todo o mundo porque o mais longínquo entrou nas nossas casas e foram vencidas todas as barreiras? Quem se atreve a dizer que a internet é coisa má, só porque tornou possível muitos abusos e extremismos?

O nosso mundo é bom, Deus o criou bom e belo. Se não lhe encontramos beleza, o problema está certamente em nós. Precisamos de Um Olhar Outro. A minha questão dos últimos dias, que partilho com os meus leitores, é esta: como vai a nossa democracia actual? Seremos hoje mais livres do que outrora? Se olharmos aos discursos repetidos, se paramos diante dos opinion makers da nossa praça, se nos fixamos nos noticiários diários, porventura engrossaremos o discurso negativista e até saudosista. Que contrasta, aliás, com o mundo cor de rosa que nos mostram os diversos canais televisivos, em constante guerra de audiências, sacrificando todo e qualquer valor. Afunilados na conquista de público, para justificar investimento publicitário, não respeitam limites de dignidade pessoal ou social. Tudo é permitido desde que dê dinheiro. A idolatria do dinheiro atingiu níveis extremos, porventura nunca antes atingidos, sacrificando todos os outros... «deuses» que tentam «aguentar-se» no seu pedestal ameaçado.

Democracia como governo de maiorias sem desprezar as minorias? Não faltam sinais de minorias aguerridas, que se impõem como se fossem maiorias apenas pelo ruído das suas reivindicações. Respeito pelas minorias, claro. Por todas as minorias, sem dúvida. Mas não faltam ruídos que destroem a paz das maiorias e, no modo como se lhes impõem, criam novas e mais terríveis formas de ditadura.

Fala-se de tolerância. Claro, desde que seja para tolerar o diferente de nós, aquele que até pensa de modo diferente. Mas não tolerância para o mal e o erro, sobretudo quando este é objectivamente percebido como tal pela maioria ou por um elevado conceito do que é humano e ético, porque salvaguarda valores comuns, testados ao longo da história. Que tolerância é essa de ter de aceitar o que me impõem contra minha vontade? Não sou eu igualmente livre de ter ideias próprias, visões próprias da realidade?

E no campo da ética ou moral, hoje publicamente evocada no mundo da política, depois do desastre de tanta corrupção, tolerada ou até promovida pelo mesmo mundo da política? Diante de um corpo legislativo que se manifesta cada vez mais inseguro, pouco fundamentado e em constante revisão, onde está a justiça por que todos clamam? E que capacidade não só técnica mas sobretudo ética têm os nossos deputados para criarem leis sem «buracos» por onde hão-de entrar os espertalhões das sociedades de advogados, também eles sem ética para se negarem a defender o indefensável e pugnar pela justiça a que todos têm direito independentemente da sua bolsa?

Já lá vão uns trinta anos em que ouvi um conferencista dizer que a democracia, sendo ainda o melhor regime para o governo das sociedades, iria evoluir para uma outra via, que não a ditadura certamente.

Hoje, perante as máquinas partidárias que fabricam os seus boys, a quem garantem estatuto para o futuro, perguntamo-nos se temos defesa e se ainda podemos acreditar na democracia. O abstencionismo nas eleições europeias não deixam de ser um forte sinal. Que bom seria que os políticos procurassem entender.

Quem defende pessoas e instituições que não sabem ou não querem fazer barulho? Que acreditam que as leis funcionam e que os detentores de cargos públicos servem? Como entender que os partidos agem de um modo quando são governo e de modo oposto quando na oposição? Que princípios os regem? Se é que há princípios ou linhas que não são calcáveis... Neste caso, onde está a coerência e a honestidade? E o respeito pela sociedade que é suposto servirem? E o respeito pela sua própria história como partido?

Eram duas as questões iniciais. Ficaram muitas mais para Um Olhar Outro.

30 de Junho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXVIII

Uma das boas coisas que podemos observar na sociedade civil é o trabalho em equipa, que obriga a programação e a diálogo constante entre os intervenientes. Impensável hoje a acção individual de um médico numa sala de operações ou o acompanhamento de um doente que exige permanente trabalho em equipa. Numa fábrica ou numa empresa são muitos os encontros entre as equipas, que até partilham, porque em turnos, os espaços e as máquinas.

Quando constato tudo isto, naturalmente que olho para o agir na comunidade eclesial, tendo a lamentar tanta acção inconsequente, fruto de um individualismo descomprometido. Ora a verdade é que toda a proposta do evangelho de Jesus se destina a chegar ao coração de cada um em ordem à conversão pessoal e, desta, ao testemunho na comunidade. Nunca uma sem a outra. Até porque Jesus sempre destacou a necessidade de «ir ao encontro» dos irmãos, por onde passa a credibilidade da conversão pessoal. E quando enviou os apóstolos, fê-lo «dois a dois» e com o mandato de «fazei discípulos» que dêem fruto: «pelos frutos os conhecereis».

Desde o seu início, a Igreja foi construindo comunidades em que os aderentes se «reuniam» nas casas e, a princípio, nas sinagogas, dando origem às «assembleias». A própria palavra assembleia revela a «congregação» de muitos reunidos «em nome de Jesus», onde se faz sentir a presença do Ressuscitado.

Como vivem hoje as nossas paróquias, expressão primeira da Igreja de Jesus? Esta questão é inevitável. Porque se a conversão individual à Boa Nova de Jesus que a Igreja propõe responsabiliza o crente, a sua adesão pessoal implica laços afectivos e efectivos com os demais seguidores de Jesus.

Não faltam denúncias de um agir demasiado individualista, que até choca os fiéis. Concordo que seja este, nos nossos tempos, um dos mais graves pecados da acção da Igreja. Tu e eu, que somos hoje a Igreja de Jesus, somos chamados à conversão para um agir comunitário.

Há mesmo, nas leis da Igreja, obrigação deste agir em comunidade ou agir colegial. Se nos entes eclesiais (confrarias e irmandades, associações e grupos apostólicos...) não faltam estatutos que o exigem, mais ainda a outros níveis mais elevados, na hierarquia do agir eclesial. A partir do Concílio Vaticano II, a Conferência Episcopal - como entidade que agrega os diversos bispos, que detêm o poder supremo na sua diocese em união com o Bispo de Roma, o Papa - passou a beneficiar de um estatuto especial numa região específica, com alguns poderes e pronunciamentos exigidos pela autoridade superior.

E mesmo o exercício do poder por parte do bispo na sua diocese passou a sofrer alguns limites que impedem o exercício do poder episcopal em solitário, qual poder absoluto no seu território. Os seus conselhos Pastoral e sobretudo Presbiteral são obrigatoriamente consultados.

O mesmo se diga numa Paróquia ou numa Confraria, chamadas a agir colegialmente. Decidindo conforme os estatutos, nem o pároco ou um juiz de uma confraria se pode dispensar de decidir com, isto é, ouvindo o Conselho (Pastoral ou de Assuntos Económicos) ou a Mesa e a Assembleia de irmãos. Há dias reuniu o Conselho Pastoral da Paróquia de Santa Maria Maior. Foram quatro horas de escuta uns dos outros a partir de algumas questões que o pároco colocou aos quarenta conselheiros que compõem o Conselho Pastoral, que fora convocado mais de duas semanas antes e de que se deu conhecimento público da Agenda de trabalhos. Se a Agenda foi publicada é porque os conselheiros fazem parte de um todo, que é a Paróquia, e a eles se pede que ouçam os paroquianos para se fazerem eco dos anseios da comunidade. E foi bom, muito bom mesmo, mais esta inegável expressão de uma comunidade, que se deseja sempre mais responsável no anúncio de Jesus Cristo em Barcelos. À volta das questões postas foi possível ouvir diversas intervenções que me levaram a concluir: temos uma Paróquia em que cresce a maturidade laical, em que o Pároco pode contar com um bom número de pessoas que não se limitam a um seguidismo do Prior, mas que vivem a sua fé pessoal como adultas, isto é assumem que ser Igreja em missão não pertence apenas ao pároco mas pertence a todos os baptizados.

Foi um bom sinal do ser Igreja de Jesus: ouvir as diversas opiniões, mesmo defendendo as suas em oposição às dos outros, faz-nos crescer a todos. Comungar das dores nesta hora delicada da vida da Igreja é assumir-se cristão adulto.. E mesmo que nem tudo seja um mar de rosas na paróquia, impõe-se a necessidade de maior comunhão e de interacção entre todos. E dou graças a Deus pela «maturidade» conseguida diante de uma vontade reafirmada de que temos muito ainda a construir.

23 de Junho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXVII

Impossível ficar indiferente. Aquele jovem que encontro casualmente na rua e interpelo surpreende-me: «senhor Prior, não vale a pena. Estou desiludido». Em breves minutos tive oportunidade de lhe dizer: «Como é possível que um jovem de pouco mais de vinte anos esteja assim tão caído e morto, sem capacidade de sonhar?» O rapaz tinha andado na catequese de adultos, a princípio até com algum entusiasmo e deixara de aparecer. Tive ainda ocasião para lhe dizer: «parece teres escolhido a via mais fácil e mais negativa, aquela que te enterra sempre mais em vez de procurares alguém que ajude a ver de modo diferente porque todas as vidas têm desafios, que devem ser encarados como oportunidades».

Claro que fiquei a pensar nos porquês daquele jovem. E de tantos «esvaziados» que «arrastam a asa», dependentes economicamente dos pais e «envelhecendo» precocemente porque desresponsabilizados pelo seu próprio futuro. Que sociedade a nossa que «empanturra» a vida dos jovens com coisas e tecnologia de ponta, a um ritmo estonteante que impede qualquer equilíbrio e sensatez, procurando convencer que o ter, em vez do ser, colmata todas as brechas da existência?

Dias depois, uma senhora procurava-me para um desabafo. Viera de longe, confiante nas palavras de outra amiga, que a encorajara a dirigir-se a mim. Viúva recente, sentia enormes dificuldades na «solidão» da perda do marido. Que dizer de reconfortante e gerador de esperança a quem não chegam as receitas psicológicas?

Num olhar mais negativo apetece-me dizer que caminhamos para um abismo, cujo fundo ainda não se descortina. Pior ainda quando vemos que nesta descida ao abismo muitos já vão ficando pelo caminho. Mas, que nos adianta pintar de negro o nosso mundo? Ele continuará a adensar a sua negritude. Poderá um cristão cruzar os braços num lamento, por mais razoável que este se possa apresentar? Não. Nunca.

De facto, os grandes desafios do ser humano destinam-se a tornar-se oportunidades de crescimento pessoal e de aperfeiçoamento colectivo. Ou não será exactamente isto o que deve caracterizar a vida cristã?

Num tempo de desencanto notório e generalizado - a não-resposta das religiões tradicionais é apenas uma das possíveis razões, se não mesmo o bode expiatório da preguiça pessoal e colectiva, que desresponsabiliza cada um ao escudar-se numa culpa atribuída sempre aos outros («não tenho sorte, não tenho jeito, Deus abandonou-me...) - quem se atreve a educar para a responsabilidade quanto ao seu próprio futuro?

Os confrontos diários com a realidade são um apelo constante a despertar o que de melhor há no ser humano, no recôndito mais íntimo onde se alojam forças e dons adormecidos. Diante das dificuldades, aquele que acredita - como é bom e belo acreditar, pois que a fé é a garantia no quotidiano de que nunca estamos sós na luta - sabe onde está a «reserva» de energia necessária para não se deixar cair por terra, desanimado e vencido. Ou não foi precisamente o que aconteceu com Jesus Cristo, responsável pelo maior fracasso da História de todos os tempos? Durante três anos Ele ousou pro- por um caminho novo, diferente, inovador e convidou a aprender com Ele a seguir tal novidade. Em tão pouco tempo e após várias ameaças e tentativas, eis que O matam, convencidos de que tudo terminaria na cruz. A verdade é que a cruz se tornou o princípio de uma novidade com tal força que nenhuma outra força foi capaz de suster. A desgraça transformou-se em graça. A morte deu lugar à vida. A Palavra abafada tornou-se Palavra impossível de calar até aos dias de hoje.

Olhemos à nossa volta. Nunca como hoje encontramos gente caída nas bermas da existência. Desanimados e em lamentos carregados de egoísmo e de peso à espera que outros carreguem. A única esperança é de que os outros «tenham coração» e força capaz de os carregar aos ombros. Se a caridade cristã não pode eximir-se à obrigação de assumir tais «fardos» sem forças para caminhar, a mesma caridade obriga a «desalojar» aqueles que mendigam o pão a partir do poço onde encontraram o conforto «porque ninguém os chateia».

Onde estão os profetas do nosso tempo, com a Palavra forte do evangelho, que desinstala e responsabiliza? Onde estão os audazes denunciadores de um estado social, descansado nas verbas atribuídas para manter os pobres alimentados e vestidos de modo a não incomodarem, «amestrados» ao conforto de um direito de serem alimentados e cuidados sem qualquer esforço pessoal? Ganhar o pão com o suor do próprio rosto dignifica e enobrece o ser humano. E é condição de verdadeira liberdade.

16 de Junho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXVI

O título convidava: Todos os meses nasce uma nova igreja. Sobre fundo negro, certamente não inocente, a jornalista Raquel Albuquerque analisava um estudo sociológico sobre as religiões em Portugal dando conta da sua diversidade e da sua evolução nos últimos tempos.

Lemos logo no primeiro parágrafo: «Qualquer pessoa pode ter um culto religioso sem precisar de autorização do Estado português. A liberdade religiosa é isso mesmo. Mas se uma Igreja, qualquer que seja a sua confissão, quiser ter um número de contribuinte e aceder aos benefícios previstos por lei, tem de se registar. Segundo dados do Ministério da Justiça, numa década e meia, foram admitidos 853 grupos religiosas pelo Instituto de Registos e Notariado».

Fica-nos bem dizer que «somos terra de Santa Maria». E reconhecer que somos um país maioritariamente católico. Mas somo-lo cada vez menos, há que reconhecê-lo. E até assumirmos as nossas responsabilidades de católicos diante de muitos grupos religiosos que se sentem hoje mais à vontade até do que os católicos para se afirmarem no espaço público.

Viva a liberdade religiosa. A fé não se impõe. É dom de Deus, ensina a Igreja. Mas um dom que se deve sempre cuidar. E porque não se tem cuidado adequadamente - a triste e ridícula expressão do «católico não praticante» é disso exemplo - é que chegamos a este ponto de um laicismo agressivo que impõe modelos de vida sem Deus perante os braços cruzados dos cidadãos, que deveriam opor-se a tal totalitarismo do estado, quando este acontece. Que haja campo aberto para a diversidade de expressão religiosa na praça pública é aceitável. Que a Igreja católica há muito faz comunhão com outras igrejas, dialogando e até cedendo espaços, também é verdade.

Mas nem tudo é lícito e é legítimo que se ponham questões sérias diante de tantos grupos ditos religiosos que, a coberto da religião, facilmente manipulam as consciências abusando da boa fé das pessoas.

Diante do título qualquer pessoa se pergunta de imediato: mas, afinal, quantos deuses há? E cada Igreja legitima-se a si própria? Como pode um Estado reconhecer como religioso um grupo só porque ele se afirma como tal? Daí a terrível injustiça que o Estado comete ao considerar igual o que não é igual, considerando ao mesmo nível aquele grupo religioso surgido do nada há umas décadas ou até há uns meses apenas perante as igrejas tradicionais que entraram na alma de um povo, fazem parte da sua história e da sua cultura e continuam séculos depois a contribuir para a paz e bem estar social. É preocupante o que se passa diante deste fenómeno religioso que contrasta com a evolução do ateísmo e as estatísticas que medem tal evolução, sendo notório que cresce o número dos que se dizem alheios à religião, ateus mesmos, negando a existência de Deus. É que o verdadeiro Deus, sendo mistério inabarcável pela inteligência humana, continua a dar sinais claros de atrair para si o ser humano. Sendo Ele único, as vias de contacto com ele são inúmeras pois são muito humanas. Mas ninguém se pode dispensar do esforço de descobrir a Via que mais nos aproxima dEle.

A notícia citada diz que a liberdade religiosa individual quando leva à identidade de um grupo que quer ser reconhecido pelo Estado, este obriga ao registo. E a partir dele surgem as isenções fiscais.

Pois bem, o verdadeiro Deus afirma-se graça, é grátis, não se compra nem se vende. É na dimensão da gratuidade que maior liberdade pessoal se experimenta. Infelizmente a maioria dos grupos religiosos têm muito pouco de Revelação divina, aproveitando-se de partes bíblicas mal interpretadas procurando responder às necessidades religiosas de cada tempo. Porque estas são e serão sempre inegáveis.

É eloquente o título do artigo. Ele revela o estado de uma sociedade que, dizendo-se descrente em Deus, encontra muitos substitutos de Deus para colmatarem as fragilidades humanas. É pena porque a religião verdadeira nunca pode abdicar de ser caminho de liberdade pessoal, levando cada um ao encontro consigo mesmo, com o mistério da sua própria vida que o eleva ao mistério do Transcendente.

Foi-se Deus e vieram os deuses. Foi-se a verdadeira liberdade e vieram as submissões. Perdeu-se Deus e ficamos órfãos. Para colmatar a brecha, a ausência, tudo serve agora. Para que abismo nos dirigimos?

Como Igreja assumamos a nossa parte de responsabilidade: não cuidamos bem da adesão pessoal a Jesus Cristo. Fizemos cristandade. E hoje a RELIGIÃO VIROU SUPERSTIÇÃO. Até quando estaremos nós cristãos a dormir, fechando os olhos à realidade?

de Junho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXV

Chamou-se-lhe Tesouros Artísticos da Igreja Matriz de Barcelos. A exposição, que ocupou o salão nobre dos Paços do concelho, esteve de portas abertas durante todo o mês de Maio.

No domingo passado, foram mais de cem as pessoas que, no fim da missa, quiseram escutar as explicações dadas pelo arqueólogo do Município, Dr. Cláudo Brochado, principal responsável da montagem da exposição, a quem a Paróquia endereça o testemunho da sua gratidão e apreço não só pela disponibilidade pronta para acolher o grupo, como também pelo incentivo entusiasta que deu aos paroquianos para que estimem o seu rico património.

De facto, as pessoas testemunham que ficaram maravilhadas por não fazerem ideia do que a Igreja Matriz conserva como património herdado das gerações que nos precederam. E foi apenas uma ínfima parte a que se mostrou, cerca de 20 peças.

Dado que o espólio da Igreja Matriz não está acessível ao público, nem se encontra devidamente acondicionado, este «encontro com a Matriz» fora dos espaços habituais despertou para a urgência de intervenção nos espaços interiores da Igreja Matriz, e nas peças que ali se guardam. Por duas razões fortes, a primeira sendo a de segurança de pessoas e bens, nomeadamente contra incêndios; a segunda é óbvia: respeitar a nossa história de povo crente implica a conservação do que nos foi legado e é também manifestação de fé para o crente de hoje.

Que é necessário fazer obras na Igreja Matriz nas sacristias e espaços interiores já ninguém duvida até porque há muito o Conselho Económico tem falado do assunto como prioritário. Só que as obras não têm avançado por insuficiência financeira. Esta razão é a mesma invocado pelos organismos públicos que reconhecem que o património se vai degradando mas não intervêm por falta de verbas, assim nos dizem. Passados vários anos de insistência junto das autoridades do património - a Igreja Matriz é Monumento Nacional - eis que continuamos na indefinição dado que temos apenas dois caminhos: ou aguardamos e confiamos nas promessas «até que um dia haja verba», ou metemos mão às obras a partir das nossas parcas economias, do apelo ao contributo dos barcelenses e da ajuda do Município.

Por agora estamos em fase de estudo mas decididos a avançar, começando por dotar a Matriz de um sistema de aquecimento que a torne mais confortável sobretudo no inverno.

Mas que ideia vai presidir à intervenção nos espaços interiores e sacristias, os tais espaços que não estão acessíveis ao público? Depois de várias abordagens e com apoio de técnicos, o Conselho Económico decidiu-se já por espaço museológico, capaz de ser visitado em pequenos grupos e com o objectivo de possibilitar que o rico espólio da Matriz seja apreciado. Tudo isto implica estudos e projectos, apoios técnicos e investimentos específicos em iluminação e segurança, videovigilância, acessibilidade a partir de novas tecnologias, etc.

Quem me dera a mim, Prior, encontrar na Paróquia gente jovem e credenciada nas várias áreas de intervenção!

Em fase de estudo e já orçamentada está a recuperação dos altares em talha do corpo da igreja, havendo já duas famílias que me garantiram assumir a despesa da recuperação de um altar. Mas eles são bem mais... Reconheço que, sem qualquer intenção previamente acordada, o Dr. Cláudio Brochado foi mestre na apresentação que fez das peças expostas e do que se espera da Paróquia em relação ao seu próprio património. Cada uma das peças expostas mereceria um comentário apropriado sobre a sua história e significado, como um voltar atrás aos tempos do fervor religioso inegável outrora nas gentes de Barcelos. Situadas no tempo - culto e cultura a acompanhar a marcha dos povos - e com a sua própria finalidade, tais peças são, por si sós, um catecismo a lembrar como a verdade de sempre, a Boa Nova de Jesus, gerou sempre novas formas criativas de se expor. Eu próprio aprendi algumas leituras só possíveis com um olhar mais demorado e atento e ajuda de alguém que já as tenha estudado.

Sonho - ainda não é proibido sonhar nem se paga imposto por tal - um dia ver a nossa Igreja Matriz digna de ser visitada nos espaços mais recônditos. E com as devidas condições de segurança para que todos, sobretudo barcelenses, possam orgulhar-se da sua história de povo crente.

de Junho de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXIV

Foi uma semana diferente. Todos os anos, no mês de Maio, ocorre, à volta do dia 15, criado pela ONU o Dia Internacional da Família, a Semana da Vida. Ocasião de a Igreja chamar a atenção de todos para o défice de valorização da vida, cada vez mais ameaçada na sociedade de consumo, alheia a valores que exijam sacrifício, doação e sentido de responsabilidade. Sabemos como é bem mais fácil, diante de uma vida gerada, oferecer a possibilidade fácil de a interromper do que a proteger e cuidar. Ou, diante de uma vida que se tornou improdutiva, considerá-la um gasto ou uma inutilidade, adiantando o processo da morte por, ironia das ironias, «compaixão».

Nesta Semana da Vida, que a Pastoral Familiar da Paróquia e o 8º ano de catequese promovem, sintonizamos com todos os grupos e comunidades que, motivados pela Igreja, se empenham na defesa da vida.

Como todas as iniciativas pastorais, também esta, celebrada nos anos anteriores na Igreja do Terço, dava sinais de cansaço e pedia revisão: continuar ou não continuar. Continuar de que modo?

Destas questões surgiu uma iniciativa diferente, capaz de valorizar a Semana e também a devoção mariana própria do Mês de Maio. E assim foi: levar a imagem de Nossa Senhora de Fátima a um aglomerado populacional da cidade, como ocasião de congregar os moradores e de com eles honrar Maria, a Mãe dos cristãos.

Quis começar pela Quinta do Aparício. Sabia que se começaria bem. Tinha dados suficientes para o pensar. Como aconteceu. Aparecerem os líderes naturais a tomar iniciativa. A própria Associação se envolveu. Cuidaram do espaço, ornamentando o campo de jogos, tornado espaço de encontro das pessoas em oração diante da imagem de Nossa Senhora. Esta, adquirida para o efeito pela Paróquia, seria benzida no local no primeiro dia. E presidiu ao encontro de todos os que quiseram ir rezar em comunidade. E ao longo de toda a semana, «pernoitou» em sete casas de moradores, que se ofereceram para receber a imagem.

Se o acto de passarmos uma hora de oração à volta de Nossa Senhora por si já era motivo de congratulação, muito mais o que se passaria a seguir na casa para onde era levada a imagem de Nossa Senhora. As sete famílias que a receberam - muitas outras ficaram com pena de não terem vez - viveram aquelas quase 24 horas com emoção evidente, testemunhando publicamente a «graça» que foi para elas puderem juntar na sua própria casa os familiares, amigos e vizinhos em oração à Mãe. Quem não se lembra da velha pregação, confirmada mais ainda nos nossos tempos, de que «família que reza unida vive unida»?

Não faltaram foguetes e tapetes a condizer com a festa. Porque foi em clima de festa que se presenciou o empenho dos moradores.

Duas observações me parecem ser de destacar. A primeira, na ordem da evangelização, do anúncio da Boa Nova de Jesus e da presença de Maria na vida da Igreja. A segunda, de ordem pastoral, sobre a vida da Paróquia que, organizada e dinamizada pelo Espírito, procura estar ao serviço.

Quanto à primeira, uma insistente catequese mariana procura ir mais longe do que as simples devoções e actos emocionais que, falando-se da Mãe, sempre acontecem. Maria, modelo para a Igreja de hoje de uma fé comprometida, continua hoje a sua missão recebida junto à Cruz de Jesus, quando Este lhe confia a missão de Mãe de toda a humanidade. A terra inteira está cheia de sinais que identificam esta presença materna. Só que a devoção mariana, se não for evangelizada constantemente, pode tornar-se obstáculo para o encontro com Cristo Salvador. E toda a acção pastoral não pode perder de vista este objectivo: levar à conversão dos corações a Jesus. Nunca será demais chamar a atenção para o essencial da fé cristã: somos discípulos, seguidores de Jesus.

E Maria, sua Mãe, é digna de um culto especial porque viveu da «Palavra de Deus». A sua fé, a sua santidade de vida continua a atrair para Jesus. E ser devoto de Maria é deixar-se levar por Ela ao encontro de Jesus. Quanto à segunda, apenas refiro dois acontecimentos habituais. Ali mesmo, no local de oração, fizemos a habitual reunião do Secretariado Permanente do Conselho Pastoral, que analisa e dinamiza o serviço que a Paróquia é chamada a prestar aos barcelenses. E a catequese semanal de adultos foi ocasião para despertar para uma fé adulta e comprometida, que exige a formação constante.

Estão de parabéns os moradores da Quinta do Aparício, a quem o Prior se sente particularmente grato. Oxalá outras zonas da cidade se mobilizem no futuro.

26 de Maio de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXIII

Passou a Festa das Cruzes.

Desde há anos que se afirma na praça pública que a procissão do dia 3 de maio é que dá um carácter único às festas da cidade, atraindo para ela milhares de pessoas. Mais até que nos arraiais e nos concertos com artistas bem pagos.

Diz-se mesmo que «sem procissão, as festas não têm razão de ser». Será assim?

Permitam-me que levante a questão. De facto, tudo tem de ser preparado com tempo, exige reuniões e contactos, compromissos e mesmo contratos, a comunicação social «exige» novidade e o público, felizmente mais exigente de ano para ano, até compreende o investimento financeiro. Gosta de festa, claro. E também compreende que sem a dimensão religiosa a festa fica «coxa» e até não perdoaria a sua ausência. Daí também a outra questão, inevitável: que «dimensão religiosa» nas «festas da cidade»? Ficaria feliz se não ficasse sozinho, eu e os que comigo colaboram, diante desta questão. Se «sem as cruzes não há festa das cruzes»... a questão é de todos os intervenientes e não apenas da Paróquia de Santa Maria Maior, que tem assumido a organização da procissão. Para que fique registado, há um bom grupo de voluntários que faz um trabalho meritório, às vezes no meio de incompreensões, que geram desânimo desnecessário. Merecem a gratidão de todos: trabalham na sombra, longe dos holofotes e das câmaras de televisão, e apenas por amor à sua terra e testemunho da sua fé pessoal em Jesus Cristo, convictos que estão de que as cruzes paroquiais, todas juntas num mesmo acto religioso, tornam-se uma bela expressão do que devem ser as 89 paróquias do Arciprestado, unidas no testemunho do Ressuscitado, hoje mais necessário do que nunca numa sociedade em processo de secularização acelerado. Precisamos do incómodo da cruz de Jesus que, contemplada no espaço público, desperta para o divino, para o transcendente das nossas vidas, tão injustamente «empurradas» para a terra por ideologias ateias, favorecidas pelos poderes públicos. As autoridades civis que promovem as festas, Município ou União de Freguesias, assumem os encargos da procissão através de um subsídio que a Paróquia - entidade que pode, segundo o Direito Canónico, promover procissões religiosas fora das igrejas - gere.

Penso que o público teria sérias dificuldades em entender que as festas, na cidade ou nas nossas aldeias, dispensassem a dimensão religiosa. É que esta é celebração, faz memória, reforça a identidade e cria laços de harmonia e sadia convivência. Felizmente que não faltam escritos de reconhecimento deste vínculo social que a religião favorece. Mesmo entre escritores que se confessam ateus. Li há dias com agrado este texto de um conceituado editorialista, José António Saraiva no jornal SOl (11 de maio), que vale a pena meditar e por isso o transcrevo:

«O país era muito pobre, havia sítios onde se passava fome, mas a religião - neste caso, a católica - servia de travão ao crime e aos instintos assassinos. Inversamente, o recuo da Igreja, a diminuição da fé, deixa as pessoas à deriva e entregues aos seus impulsos mais primários. O pensamento republicano, anticlerical, renegando Deus e repudiando a Igreja, pondo nas mãos dos homens a condução dos seus destinos, teve a virtude de colocar os cidadãos perante si próprios - mas teve o defeito de soltar mais facilmente os demónios que existem nas sociedades humanas. O travão da religião desapareceu, o pecado deixou de existir, o bem e o mal passaram a relativizar-se, e isso teve um efeito devastador nalguns meios. Já não existe o receio do castigo de Deus e isso liberta mais gente para o crime, que aumentou.

Não sendo eu católico, vejo que a diminuição da fé e a perda de influência da Igreja trouxeram problemas que não existiam antes. Com todos os seus defeitos, a Igreja pregava o bem, as virtudes, condenava os crimes, falava de concórdia, de saber perdoar, e isso tinha o seu efeito. Os crentes temiam castigo divino - fosse nesta vida ou na outra, aquando do juízo final. Todas as sociedades produzem monstros. A repressão civil tenta contê-los. Antes, os mandamentos agiam no mesmo sentido. Mas hoje as pessoas só têm medo da Polícia - o medo de Deus desapareceu. Só que, enquanto antes pensavam que não podiam enganar Deus, pois este era omnisciente e omnipresente, hoje pensam que conseguem enganar a Polícia». Belo comentário. Mais ainda dito por um não crente.

19 de Maio de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXII

E o tema é... Vocações.

Como acontece desde há já 56 anos, a Igreja dedica uma semana da acção pastoral a reflectir, rezar e propor que a vida dos fiéis seja resposta a um apelo que vem de Deus. PARA TODOS.

E o primeiro «erro» de perspectiva a corrigir situa-se precisamente aqui. Se o chamamento vem de Deus, ele dirige-se a todos. Diante de Deus não há filhos e enteados. No coração de Deus cabem todos e Ele dirige-se a cada um e a cada uma, como se fosse único (a) no mundo. Deus chama a todos. Para quê e a quê?

Habitualmente olhamos o tema reduzindo-o a um grupo de pessoas baptizadas, que ocupam lugar de destaque na comunidade eclesial. O Concílio Vaticano II veio chamar a atenção para a Igreja como Povo de Deus, onde todos são chamados à missão. Porque tudo parte de um chamamento primeiro, após aquele que é comum a toda a humanidade, o da Vida. Chamados, todos, por Deus à vida, cumpre a cada um, no exercício da sua liberdade pessoal e comunitária, orientar-se num caminho concreto, através do qual se realiza a vocação comum a todos à santidade. Se Deus é o Santo e se Deus nos chama à vida, a nossa vida exprime o ser de Deus, traduz-se em santidade. Logo, a santidade como estilo de vida é proposta a todos sem excepção.

Como realizar, na sociedade crente e no meio mundano onde aquela se insere, a vocação comum à santidade?

Partindo do princípio de que todas as vocações ou serviços são igual- mente dignos ao traduzir a santidade de Deus no mundo, segue-se que a «obrigação» de ser santo, de viver santamente, ou, por outras palavras, de corresponder no dia a dia aos apelos que Deus faz a cada um, é comum a todos. Aqui situa-se um outro preconceito a ultrapassar: os padres e freiras têm mais obrigação de serem santos do que os outros. Não. Corresponder na vida aos apelos de Deus é obrigação de todos.

Ultrapassando preconceitos, entremos directamente no tema da Semana das Vocações, situando-o no contexto da vida eclesial, onde os baptizados exprimem de modo especial as suas convicções.

Porquê uma Semana das Vocações? À semelhança do que acontece, com a proliferação porventura exagerada de Dia disto e Dia daquilo, a Semana das Vocações dirige-se a todos, apesar de compreendermos que poderá ter surgido pela escassez de sacerdotes ao serviço das comunidades cristãs. Com o tempo este «reducionismo» acabou por ser ultrapassado. Claro que precisamos de muitos padres, freiras, missionários ao serviço das comunidades cristãs. Claro que a Igreja sofre de penúria de vidas consagradas ao serviço da evangelização. Mas será apenas destes que a Igreja tem necessidade?

Atrevo-me a dizer que a maior necessidade nos nossos tempos é a de casais que vivam o amor conjugal como vocação de santidade, a dois, e como família onde os valores do evangelho permeiam a vida de pais e filhos. É de famílias verdadeiramente cristãs, testemunhando a «alegria do evangelho» que a sociedade e a Igreja mais precisam. Porque é no seio de uma família cristã que se promovem a generosidade e o sentido de serviço aos outros, condições de qualquer vocação.

Como acontece todos os anos, o Papa publica uma mensagem que une a pastoral da Igreja nos seus diversos sectores. A deste ano fala da «coragem de arriscar pela promessa de Deus» e dirige-se sobretudo aos jovens, naturalmente porque são eles que se interrogam sobre «o que fazer da própria vida». E diante de uma sociedade massificante, em que a capacidade de discernir e a liberdade de decidir não são facilitadas, importa, por parte de todos os baptizados, a «coragem de arriscar», a ousadia de propor ideias de serviço que ultrapassem o imediatismo das «estrelas cadentes» ou os momentos fugidios de glória que tanto seduzem. Sabemos que não é fácil propor caminhos de compromisso de vida toda aos jovens de hoje, marcados pela ideia do descartável e da satisfação de todos os anseios sem qualquer esforço.

«O chamamento do Senhor não é uma ingerência de Deus na nossa liberdade; não é uma «jaula» ou um peso que nos é colocado às costas. Pelo contrário, é a iniciativa amorosa com que Deus vem ao nosso encontro e nos convida a entrar num grande projecto, do qual nos quer tornar participantes, apresentando-nos o horizonte dum mar mais amplo e duma pesca superabundante», diz o Papa Francisco.

12 de Maio de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXXI

Foi uma semana inteira. Desta vez, aproveitando os feriados do 25 de Abril e 1º de Maio, pudemos ir mais longe e visitar um dos países europeus de grandes tradições católicas. Intitulei a peregrinação, que propus à Paróquia, Pela França Católica. A ideia há muito me ocupava pois que, por experiência própria, conhecia o alcance cultural e espiritual dos locais mais importantes a visitar.

Aquando da programação senti enorme dificuldade em decidir o que incluir e o que rejeitar. E porquê? Porque pensava poder incluir alguns pontos de interesse, que eu próprio não conhecera, mas que tinha coletado à espera de uma oportunidade. E tal não me foi possível dada a abundância em contraste com a exiguidade dos dias disponíveis.

Éramos quase cinquenta pessoas a percorrerem mais de quatro mil quilómetros pelo noroeste e centro de França. Começando por S. Martinho de Tours, visitávamos a história religiosa de França nos inícios da evangelização da Gália, primeiro centro de peregrinação na Antiguidade, muito antes de Santiago de Compostela. Também anterior ao Caminho de Santiago se situam as peregrinações ao Monte St. Michel, na confluência da Normandia com a Bretanha francesa, de enorme importância nas lendas e costumes medievais.

Mas Teresinha do Menino Jesus, em Alençon, sua terra natal onde nasceu (Janeiro de 1873) e viveu até à morte da mãe, de cancro de mama, ocorrida quando ela tinha apenas pouco mais de quatro anos de idade, e em Lisieux, onde viveu cerca de onze anos até à sua entrada no Carmelo, era a figura principal de uma peregrinação. É que o fascínio que Teresinha, «la petite Thèrese» para os franceses, continua a exercer sobre a generalidade dos franceses, que a consideram de um valor único e motivo de orgulho, de modo que mesmo os intelectuais e alheios à experiência religiosa crente se curvam perante a passagem das suas relíquias, continua a atrair milhares de pessoas do mundo inteiro que peregrinam ao seu túmulo, no Carmelo, ou à Basílica que começou a ser construída pouco depois da sua morte, aos 24 anos de idade (30 de Setembro de 1897). E porquê tal fascínio? A resposta pode encontrar-se na leitura de História de uma alma, uma publicação conhecida em todo o mundo e que se recomenda, pois está traduzida em várias línguas com várias edições, inclusive em língua portuguesa. Diante de leitura tão profunda e de uma espiritualidade única vemos a relação simples e filial de uma jovem mulher que escreve páginas da melhor literatura mística de todos os tempos e nos revela um pensamento elaborado num diálogo de intimidade que nos transcende. Ela sente-se uma florzinha cuidada por Deus e, sem sair do Carmelo, com cartas escritas a missionários, vive intensamente a missão da Igreja, empenhada na evangelização em terras longínquas, o que lhe mereceu ser proclamada padroeira das missões.

Não podemos deixar de referir que a santidade dela nasce no seio de uma família santa, que vivia a preocupação constante de discernir a vontade de Deus. Tanto mais que Luís e Zélia Martin, seus pais, foram proclamados santos em 2015 pelo Papa Francisco, tornando-se a primeira canonização de um casal que viveu o matrimónio em que as cinco filhas que chegaram à idade adulta - quatro dos filhos morreram em bebés - entraram todas na vida religiosa, quatro delas no Carmelo de Lisieux. Mesmo a mais «travessa» e de infância difícil, Leónia, entrou na Ordem da Visitação e deu a volta por cima, morrendo aos 78 com fama de santidade, tendo dado já entrada o processo de beatificação, que deixará pública a sua vida digna de imitação.

Mas a Normandia foi também o palco da difícil batalha de libertação da França, ocupada pelas forças nazis. E os sinais lá continuam, a começar pelos cemitérios, que atestam uma barbaridade que envergonha a humanidade e a «exigirem» a todos, particularmente aos políticos, que saibam ter o bom senso de políticas de diálogo no respeito de todos. Retomado o «silêncio» diante do horror numa aldeia incendiada apenas por vingança, Oradour-sur-Glane, o grupo ainda visitou a cidade das luzes, Paris, a cidade de Limoges com a sua cerâmica bem conhecida, San Sebastian em Espanha e ainda pôde rezar diante dos túmulos de Bernardette Soubirous em Nevers e Catarina Labouré, em Paris. Numa palavra, uma autêntica peregrinação e um enriquecimento cultural e espiritual que todos reconheceram.

de Maio de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXX

De facto, a Semana que precede a Páscoa é mesmo santa, não só pela densidade dos mistérios celebrados, à volta da pessoa de Jesus, morto e ressuscitado, mas também pela densidade de questões que nos pomos nestes dias. Crentes ou ateus, todos nos inquietamos com os dramas que, abrupta e tragicamente ferem a consciência humana. Pelo inesperado e descontrolado, deixam a nu a fragilidade humana. Sobram as perguntas e adensam-se as revoltas.

Diante do trágico incêndio em Notre Dame de Paris, logo no dia a seguir em que os cristãos celebravam na pessoa de Jesus o grande contraste da condição humana, em que o poder e a glória alternam com a cruz e a morte, como diante de uma terrível carnificina em dia de Páscoa no Sri Lanka, surgem imensas perguntas e vontades de revolta e de vingança. Foi verdadeiramente uma sexta-feira negra o domingo de páscoa dos cristãos cingaleses. Celebravam a glória da ressurreição, que foi interrompida para dar lugar a um calvário de dor sem medida. Quase quatrocentos mortos em atentado terrorista em igrejas e hotéis ao mesmo tempo. Foi verdadeiramente «hora de trevas», a daqueles cristãos, o grupo religioso hoje mais perseguido.

Por cá contemplámos a alegria de muitos diante do Compasso, qual despertador na rua de algumas consciências adormecidas e já saudosas de um lugar, o «seu lugar» na sociedade religiosa de outros tempos. Dei graças a Deus, no final da celebração da Vigília pascal, pela comunidade paroquial que somos. Pude sentir a alegria estampada nos rostos, particularmente no daqueles que se empenharam a preparar a celebração. Senti sermos comunidade de irmãos em que a celebração da fé acontecia espontânea e todos se deixavam envolver pelo clima sagrado que os textos, os ritos e sobretudo a música iam alimentando. Nestes dias senti orgulho de ser pároco de Barcelos porque menos preocupado em fazer e fazer bem o que de mim se espera, porquanto numa igreja ministerial que se pretende, o padre preside apenas aos diversos ministérios e promove a corresponsabilidade na acção pastoral. Senti orgulho de pertencer à Igreja católica. E a razão de insistir na atitude de gratidão para com aqueles que nos transmitiram a fé, que nos ensinaram desde crianças a rezar e a confiar em Deus, é por estar convencido, sem margem para dúvidas, da Verdade que a Igreja católica serve, sem desistir de dizer a verdade às pessoas no processo que cada um desenvolve à procura de Deus. Mesmo perdendo fiéis - em tempos de perseguição aumenta a qualidade e diminui a quantidade - a Igreja mantém-se fiel a Jesus, que a fundou, a quis e continua a querer.

Hoje, fundamento este meu amor à Igreja, que recomendo, em três situações muito concretas, reveladoras de que ainda não faltam os profetas no nosso tempo:

1. Diante de um problema tão grave como o dos abusos sexuais por parte do clero, a Igreja, claramente humilhada na praça pública, aceitou rever procedimentos e optar claramente pela defesa da inocência das crianças, condenando veementemente tais abusos. Oxalá as medidas surtam o efeito pretendido. Oxalá também esta consciência de respeito se torne regra em todos os outros sectores da sociedade.

2. Diante de uma catedral em chamas - Notre Dame de Paris - ao coração ferido juntou-se a prece e o cântico religioso por parte de muitos, destacando-se a população jovem. Ou seja, a dor sentida não foi mais forte do que a esperança de renascer. Ora, sabemos e anunciamos que «Deus faz novas todas as coisas» e que Deus sempre Se afirmou na proximidade com o seu povo. Foi assim antes e é-o ainda hoje. Apesar da diversidade de pontos de vista sobre o acontecimento, parece impor-se, felizmente, a ideia de reconstrução, isto é a de não cruzar os braços diante de uma tragédia, antes tudo fazer para ultrapassar os efeitos da tragédia.

3. A Igreja a que pertencemos tem gestos proféticos hoje tão marcantes como os de outrora. Ver um Papa convidar líderes políticos de um país em guerra - o Sudão do Sul - para rezarem com ele, num retiro espiritual e, depois, surpreender o mundo pondo-se de joelhos diante deles a implorar a paz e que não matem mais o seu povo é ousadia que nos transcende e que confunde os analistas. Mesmo com o risco de ser mal-entendido por aqueles que ainda preferem uma Igreja faustosa e com muitas «rendas» que ficam bem no espectáculo de rituais.

28 de Abril de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXIX

Quem não estremeceu, e até chorou, ao contemplar as imagens dantescas de uma catedral em chamas?

Uma desgraça terrível teve a dita de congregar, um pouco por todo o mundo, um coro de dor e de simpatia, que há muito não se via. Nem sequer aquando de tragédias com perda de vidas humanas, como nos atos terroristas.

Também a mim me fez estremecer, porquanto Notre Dame não é apenas um monumento de grande relevância turística, único no mundo. É uma Catedral, a Sé do arcebispo de Paris, o coração de uma Igreja particular, que também já foi minha.

E a tragédia aconteceu no início da Semana Santa, aonde os parisienses se reúnem à volta da celebração dos mistérios principais da fé cristã. Também lá estive durante sete anos em quarta-feira santa, integrando o presbitério de Paris que, em antecipação, celebrava a Missa da Ceia do Senhor, à volta do Arcebispo.

À beleza arquitectónica, que atrai multidões durante todo o ano, juntava-se a beleza litúrgica de uma celebração bem cuidada, cuja nota mais saliente, recordo-me bem, para mim, era a disposição de todos os padres à volta de uma grande mesa na nave central. Raros acontecimentos conseguem sintonia universal. Apreciei a variedade de «olhares» na comunicação social que, um pouco por todo o mundo, destacam que o incêndio, ao consumir madeira e derrocar pedras, fez arder «uma parte da humanidade». Curiosamente não ouvi falar de números, de perdas e danos. Pelo contrário, ouvi falar de milhões e milhões em doações para que a Catedral seja reconstruída no mais breve espaço de tempo possível. E ouvi o compromisso das autoridades ao mais alto nível, ainda sob o choque, em vencer o incêndio com a reconstrução. E parece não haver contestação: da direita à esquerda, a tragédia parece ter unido a todos. Pena é que não reconheçam também que a «alma francesa» está profundamente vinculada aos valores cristãos, ali bem representados pela Catedral Notre Dame. E não são apenas os valores religiosos, postos em causa numa sociedade que pretende prescindir de Deus ou nem sequer O citar. São valores culturais, patrimoniais, históricos, construídos ao longo de séculos, reveladores de uma identidade que, por mais abalada que seja na época contemporânea, não deixa de se impor como verdade, no silêncio porventura esquecido perante a vozearia que impera nas sociedades contemporâneas.

Foi bom de ver - e a comunicação social registou-o, felizmente - a reacção diferente de muitos cristãos que, em grupo, exprimiam a sua dor, certamente igual à de todos, entoando cânticos religiosos com orações. Sim, é esta maneira muito «nossa» de reagir à desgraça: «atirando-nos» com confiança para os braços de Deus Pai.

O incêndio permitiu certamente muitas reflexões, como o estou eu a fazer. Creio que muitos católicos franceses despertaram um pouco da sua fé adormecida e «acomodada» diante de um laicismo agressivo de que enferma a sociedade francesa, desde a Revolução de 1789, exportada no último século um pouco para todo o mundo. Um laicismo que seca, desvirtua a história e a cultura, e se torna terreno fácil para os extremismos ideológicos e políticos. E espero que também os não crentes franceses, herdeiros de um racionalismo de séculos, de que se ufanam, sejam capazes de se tornar mais tolerantes para com o fenómeno religioso, sinal claro da natureza humana aberta ao transcendente.

Não faltarão certamente, passados os dias da emoção, vozes mais críticas à procura de culpados. Ou até «laicos» com a coragem de se regozijarem com o acontecimento. E até raivosos diante dos poderes públicos comprometidos com as verbas necessárias para a reconstrução. Como que dizendo: se é dos católicos, eles que a paguem. Porque tantas vezes tal acontece, até entre nós.

 Reagindo com dor, eis que um colega me escrevia no dia a seguir: «Chorei ao ver o incêndio na Catedral de Notre Dame. Um inferno dantesco, símbolo icónico de uma cultura em chamas, de raízes cristãs consumidas e hipocritamente guardadas como num relicário de ogivas góticas. Como lês esta tragédia? Para mim constitui um enigma a decifrar neste tempo». Também eu procuro decifrar e me contento com a expressão: «desígnios de Deus», ou sinais que nos desafiam. Não tanto a tragédia em si mas a reacção de dor das pessoas.

21 de Abril de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXVIII

Que futuro estamos nós a construir para os nossos filhos?

Esta questão surge muitas vezes e sempre com nova acuidade misturada com algum alarmismo.

Para quem acredita que Deus está «incarnado» no mundo, a um olhar apreensivo tem de se juntar um olhar de esperança. Este é o mundo que Deus ama. Logo, o que que eu devo amar.

Mas há razões para temores. Eles revelam à saciedade que não passa de uma mentira o anúncio de uma felicidade reduzida à barriga cheia, fundada apenas na fruição de bens materiais. Estes, necessários e imprescindíveis, têm ocupado o espaço todo na proposta de realização humana equilibrada e feliz. Erradamente. Cada vez mais errada. O coração humano, pressionado pelo que é material, precisa de se libertar: só os bens de ordem espiritual o satisfazem. E são estes que, supondo aqueles, dão sentido e futuro à existência humana.

Reconhecemos - e bem - que melhorou significativamente o acesso aos bens económicos, à saúde, a melhores condições de vida. Para todos, apesar de reconhecermos que há ainda muitas injustiças e não se poder cruzar os braços diante delas. Quem não fica revoltado diante das notícias que nos dizem que um gestor de empresa ganha seis mil euros por dia? Ou que ganha em média 52 vezes mais que os outros funcionários? Diante destes números - a juntar aos números escandalosos do mundo do futebol - não nos podemos admirar que a insatisfação latente em muitos pode um dia explodir. De facto, tamanhas imoralidades, por mais legais que sejam, ferem a consciência humana e convidam a fazer justiça pelas próprias mãos.

Vamo-nos desculpando com o «sistema», esquecendo que este não pode ser intocável nem idolatrado. Somos nós, humanos, que temos obrigação de atender às «periferias» da existência para as «incluir» pois todos compreendem que a mesa tem de ser para todos.

O nosso «sistema» gera excluídos. A nossa economia mata, denunciou o Papa Francisco. A nossa organização social, ou o nosso Estado social, tende a «controlar» os excluídos dando-lhes de mão beijada o RSI, que não consegue inserir ninguém, trazendo-o para a mesa de todos a partir do seu próprio esforço e da sua autonomia. Alimentam-se os pobres para que continuem a ser pobres, mas contabilizados no orçamento e controlados.

Que há uma insatisfação grande e potencialmente explosiva não duvido. Mas não é só na exclusão quanto aos bens materiais.

Penso que há exclusões piores. O nosso sistema educativo deixou de formar pessoas responsáveis por si e pelos outros. Acumulam-se conhecimentos mas não sabedoria.

Um exemplo recente me levou a estes pensamentos.

Alguém me telefonava, tendo visto o nº de telefone na porta do cartório. Era um jovem que queria falar com um padre. Marcámos para o dia seguinte. À hora combinada lá apareceu.

Um jovem aparentando os trinta anos, aluno do IPCA, há quatro anos em Barcelos, totalmente sozinho, com um subsídio de 400 euros que a mãe, no Algarve com a irmã, lhe enviava. Descrente dos sistemas sociais de apoio, crítico para com os psicólogos e até psiquiatras por onde tinha andado, sentia-se um «erro da natureza»: não gosta de si, nem do seu corpo, não consegue amigos e julga-se um monstro, que merece castigo. Ao ponto de se apunhalar a si próprio.

Tentei a ajuda possível. Escutei. Não lhe permiti automutilação na minha presença. Tentei levá-lo à profundidade de si próprio: se não gostas de ti, como vais fazer amigos ou como vão os outros gostar de ti?

Inteligente acima da média - deu para o perceber - e cheio de sonhos, que não consegue realizar, acabei por convidá-lo a pôr-se em causa e a acreditar que ainda é possível criar um mundo de relações. E levei-o às lágrimas quando lhe disse: «mesmo que ninguém goste de ti, eu te garanto que há alguém que nunca deixou de te amar. Tu também tens lugar no coração de Deus».

A verdade é que este jovem me deixou inquieto fazendo-me perceber que há tantos jovens de coração vazio, desanimados e tentados ao suicídio porque a vida não é para eles... Que «sistema» é este tão evoluído que exclui tantos da mesa da felicidade?

14 de Abril de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXVII

Precisamos, todos, de muita formação. Daquela que, sem o objectivo de um «canudo» final, qual ganha-pão necessário, nos alimenta um pensar correcto e um agir equilibrado, feliz e em harmonia com aqueles que nos rodeiam. Na rapidez sentida com que consideramos o fluir dos nossos dias, impõe-se parar para contemplar, para pensar, para decidir com calma. Quem o não sente? E quem não reconhece que as decisões precipitadas se revelam danosas no futuro?

Sempre que, por razões de ordem pastoral, no meu dia a dia me imponho atender com calma quem me procura, constato e lamento a falta de formação - critérios para opinar e decidir bem - e de informação sobre os mais diversos assuntos, perante os quais surge sempre «esta é a minha opinião» ou «eu sou livre de pensar assim». O que me leva a dizer que a quantidade de informação consumida no dia a dia não significa pessoas bem formadas e úteis à sociedade. No que toca ao mundo espiritual ou, mais especificamente, das religiões, a gravidade é ainda maior. É o «vale tudo» ao gosto de cada um.

Mas é exactamente neste mundo que sinto enorme alegria ao verificar que, pouco tempo depois de uma conversa mais séria em que se ajuda a pessoa a pensar, esta aceita e avança, livre e com gosto, por vias mais profundas de encontro consigo própria. Sobretudo quando dialogo com pais e padrinhos de baptismo, dá gosto ver como as pessoas se dão conta da superficialidade com que se situam na sua vida de fé e como se abrem à novidade do que a Igreja anuncia.

Vem isto a propósito do curso «Mais formação, melhor missão» que o CESM promove no Seminário da Silva, em ritmo quinzenal.

Os temas têm sido de uma actualidade indesmentível, razão pela qual se tem notado o aumento progressivo dos participantes, agora na ordem de uma centena, vindos de todo o Arciprestado de Barcelos e de arciprestados vizinhos. Desde a pedofilia à situação dos divorciados recasados, passando pelas espiritualidades alternativas como busca de sentido e pelas linguagens do corpo (referência à ideologia de género), o Curso chegou há dias à abordagem do luto, tema hoje muito estudado. Dá gosto ouvir quem se dedica a tais temas de actualidade e dar-se conta de que as nossas «grandes» questões de sentido são também as grandes questões de muitos, se não mesmo de todos, questões estas abordadas «aqui tão perto». É caso para dizer que só vive na ignorância quem quer.

Convém não esquecer que, por esse mundo fora, é notório o investimento na formação, por parte dos diversos sectores da Igreja. O que me permite olhar para o futuro com esperança, porquanto a prática religiosa «porque sim», herdada do regime de cristandade, tende a desaparecer de modo que está a surgir uma Igreja de rosto novo em que Crer em Jesus e ser Igreja se apresentam como o caminho desejado e apreciado como o melhor e o mais necessário.

Também entre nós, seja a nível da arquidiocese, do arciprestado ou da paróquia, não têm faltado propostas a mostrarem a beleza única do evangelho de Jesus, convidativas a um testemunho credível na sociedade cada vez mais alheia ao religioso mas que, por isso mesmo, mais necessitada de testemunhos credíveis que possam ser alternativa e motivo de procura de sentido.

Pese embora um ainda nítido tradicionalismo religioso, ameaçado cada vez mais nas suas bases, percebe-se que há também em Bar- celos muita gente empenhada num modo novo de ser Igreja, mais empenhada e mais corresponsável, menos clerical e mais laical. E não faltam grupos já organizados a darem rosto jovem à Igreja de sempre. Oxalá nós, os padres, nos sintamos à altura de tais desafios e não tenhamos medo de confiar no trabalho do Espírito, que renova todas as coisas.

Não, não me sinto ameaçado com a «rebeldia» de grupos cristãos que «sacodem» muita poeira acumulada ao longo dos tempos. Dou, antes, graças a Deus. E bom seria que todos vivêssemos o mesmo empenho de uma maior participação responsável na vida da Igreja, sentindo-a e amando-a como o «nosso» espaço de liberdade na aventura da nossa peregrinação.

de Abril de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXVI

«A gente vem de lá diferente». Este foi um dos comentários que ouvi a um dos participantes na Semana Bíblica, após a sessão de quarta-feira passada.

Na mesma altura eu senti um misto de alegria e de amargura. Aquela, ao ver que mais de 200 pessoas poderiam dizer o mesmo, como pude adivinhar nos rostos dos presentes e nalguns comentários posteriores; esta, porque consciente de que largas centenas ou mesmo milhares de pessoas foram informadas, até com insistência, e, uma vez mais, o convite lhes passou ao lado, continuando nas velhas desculpas do «não tenho tempo», «isto não é para mim», «à noite não dá» ou «está muito frio» se não se puder dizer o contrário. As desculpas de sempre diante de uma realidade bem outra, que poderíamos traduzir por «preguiça», «deixa correr», «estou bem assim», «não dou para mais». Numa palavra, «embrutecidos» numa sociedade de consumo, contentamo-nos com a barriga cheia e descansamos na banalidade torpe, invejando e maldizendo todos os outros que nos «perturbam» com «outra» qualidade de vida, mais humana, mais espiritual, mais fraterna e empenhada no bem comum.

De facto, nota-se que há, no arciprestado, um número crescente de pessoas para quem não basta cumprir preceitos e seguir tradições religiosas. Querem mais. E têm direito a isso. Cresce também o número dos indiferentes, para quem, aconteça o que acontecer, «nunca se sai da cepa torta». E é verdade: enquanto permanecerem na sua crítica aos outros, como juízes intocáveis, nada avança e «o que se faz noutros lados é que é bom». Haja paciência para aturar os «velhos do Restelo», os fariseus hipócritas de todos os tempos, já condenados por Jesus.

Na quarta-feira passada um painel de testemunhos manteve uma assembleia muito atenta e «tocada» pelo que os intervenientes iam dizendo: no mundo da escola e da educação dos filhos, a missão nobre de uma mãe e professora, alegre e feliz no meio dos seus filhos e dos filhos dos outros, a quem educa pela dedicação alegre; no mundo da juventude sonhadora e atirada para ideais «pequenos» que o encontro com Jesus Cristo despertou para outros bem maiores a cumprir no mundo empresarial, na relação de noivado e no empenhamento eclesial, dizendo que é possível ser-se feliz como cristão empenhado e militante numa Igreja vista com rosto desfigurado e numa sociedade onde mundanismo invade todos os campos; no mundo das prisões onde o jovem padre é tantas vezes confundido com «um deles» mas se torna a presença diferente de todas ou o «único que merece confiança». E acima de todos estes testemunhos, impôs-se o do Moderador, ele próprio à beira dos setenta, após uma vida intensa na comunicação social e tão intensa ainda agora no seu bom humor com que encara a sua doença, que não o impede de ser feliz e de se impor sobre ela porque tem cancro «mas o cancro não me tem a mim».

Bela e única aquela noite. Tão única que muitos não conteram a necessidade de se dizerem confortados e esperançados.

Quando, no dia seguinte, confrontado com o texto litúrgico, não resisti a destacar a maravilha que puderam presenciar os que participaram e a perda dos que não participaram. É que Deus nunca fecha a ninguém a porta das oportunidades de que, tão ocupados andamos, não nos damos conta. Gastamo-nos tanto em queixinhas amargas... que não nos fica espaço para ver o que temos diante de nós.

E dei comigo a pensar no tédio tantas vezes veiculado na nossa comunicação social, que embrutece e amargura; na violência como escape e manifestação de um suposto poder e força, que desumanizam; na angústia de tantos «caídos» que se julgam incapazes de acreditar e dar a volta, «acomodados» ao «beco sem saída» onde caíram ou para onde os empurraram. Numa palavra, falta a verdadeira esperança ao nosso mundo, enquanto não faltam investimentos milionários para «mascarar» a angústia existencial.

E, entretanto, em tempo de Quaresma, a «conversão» é necessidade de todos. A Esperança não pode morrer. Todos temos imensas oportunidades. Se não as aproveitamos, ao menos não sejamos os eternos «queixinhas» autojustificando-se dizendo que «não tenho sorte na vida».

31 de Março de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXV

Sou daqueles tempos em que a vida de uma aldeia se passava à volta da igreja e o adro que a circundava era o pátio dos encontros, das relações fraternas, dos negócios. Era mesmo na missa de domingo que se justificava estrear a roupa nova. Pudera, era o espaço nobre de uma comunidade em que todos se apreciavam uns aos outros. Não se estreava a roupa no campo, na pedreira ou na oficina. Mas sim naquele dia de festa semanal onde a ausência significava não existência.

Ainda hoje reconhecemos a diferença entre as aldeias e a cidade. Nesta os vínculos sociais são muito precários, as pessoas mal se conhecem. Às vezes até no mesmo prédio. E a Igreja ocupou o espaço, quase só ela, de construção de vínculos. Reconhecemos também que campeia um individualismo grave na nossa sociedade em que as preocupações de ordem material ocupam todo o espaço e a convivência que humaniza vai-se reduzindo, com particular prejuízo para os mais frágeis da sociedade.

Foi a pensar nesta necessidade de cuidar vínculos entre as pessoas - a começar pelo mais imediato, o da vizinhança, que gera bairrismos sadios pois que, nos momentos difíceis da vida, é dos que estão mais próximos que todos esperam ajuda - que tenho promovido procissões e decidido itinerários. Foi também a pensar em despertar laços de vizinhança na Urbanização de S. José, de modo a criar gosto por lhe pertencer e a favorecer iniciativas de interajuda, que, envolvendo o Conselho Económico da Paróquia, dei aval a uma iniciativa de um grupo de moradores, que muito trabalharam para que, numa das suas ruas, pudesse implantar-se uma imagem de S. José em granito.

Desde o peditório para as despesas -procurando implicar todos os moradores - à convocatória de toda a cidade com as suas instituições, passando pela montagem de um cenário adequado para a concentração das pessoas, que acorreram em grande número dando ao local uma fisionomia única, registada para a posteridade, tudo foi sinal claro de uma vizinhança disposta a estreitar laços.

A celebração da Eucaristia campal, com que foi assinalada a bênção do monumento a S. José, seguida de procissão para a Capela de S. José - no dia que lhe dedica a liturgia da Igreja, ganhando maior importância quando a sociedade de consumo não o dispensa como Dia do Pai - pôs em destaque o sentido de per- tença, que urge revalorizar, e de compromisso para o futuro.

Tive ocasião de comprometer a população no cuidado para com o espaço envolvente e para com o monumento, de modo a evitar vandalismos que possam causar legítima revolta naqueles que se cotizaram e que tanto trabalharam para que a figura de S. José ocupasse visibilidade digna no espaço público, o que aconteceu mercê da equipa de moradores, da Confraria de S. José, do Círculo Católico de Operários, da Paróquia de Santa Maria Maior e do Município de Barcelos.

Uma figura religiosa no espaço público acaba por ser um despertador permanente para os valores mais importantes de uma sociedade. Nela se projecta o serviço generoso aos outros, o «recado» que recebemos para despertarmos para os valores morais e para o respeito dos outros nas suas diferenças, bem como a necessidade de nos elevarmos para o que transcende a nossa vida banal de todos os dias. Cuidar daquele local será tarefa de todos os moradores. A acrescentar ao suposto e secular cuidado com a Capela de S. José, que é o espaço mais próximo para se poder entrar e sentir-se acolhido no silêncio interior ou na súplica comunitária. Reforçar os vínculos de vizinhança implica necessariamente um cuidado especial para com a Capela de S. José, que urge preservar, ajudando a Confraria na sua missão. Esta precisa de se renovar com a entrada de novos irmãos e bom seria que os moradores, crentes e praticantes, o fizessem. Que ao menos aqueles que têm o nome do pai adoptivo de Jesus o façam e se dêem as mãos em iniciativas que humanizem a vida dos moradores. S. José, que bem cuidou de Jesus, também cuidará de todos nós.

24 de Março de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXIV

Valerá a pena, nos tempos que correm, investir em procissões? Serão estas, tão do agrado popular, ocasiões de verdadeira evangelização, ou seja, ajudam elas na aproximação do crente ao centro da fé, que é Jesus Cristo? Ajudam elas a comprometer-se com Jesus?

Claro que estas perguntas têm sentido e profundo enquadramento, se a questão da fidelidade a Jesus Cristo ainda diz algo ao crente de hoje. Para outros, porventura, estas questões, por se terem como demasiado evidentes, são dispensáveis. Não penso desse modo. De facto, o crente de hoje tem de ter a coragem de se questionar e de questionar os seus próprios gestos reveladores da sua atitude religiosa.

O tempo da Quaresma, que repete as tradicionais formas de penitência, aparece, nos apelos do Papa e dos bispos, como um tempo de oportunidade inadiável para recentrar a vida, tantas vezes esta se apresenta aos ziguezagues, desprovida de testemunho e reduzida a um rótulo que se usa segundo as conveniências. Daí a expressão, que considero de hipocrisia total, do «católico não praticante». Como se vivêssemos num tempo sem opção religiosa.

Na intimidade da noite, acontece anualmente a Procissão do silêncio em Barcelos. Exposto no andor, num quadro de sofrimento que atrai, a imagem de Jesus segue, do templo do Senhor da Cruz para a Igreja Matriz, no seu andor «recolhido», ou seja «tapada» como que convidando aqueles que a contemplaram a recolherem-se, agora que ela própria foi escondida aos nossos olhos.

Diz-se procissão do silêncio. Este, que deve existir mas nem sempre tal acontece, é «cortado» pelo toque das varas dos pegadores ao andor, marcando o ritmo de caminhada, qual peregrinação interior determinada a ir mesmo ao fundo de nós mesmos.

Penso que esta, dita do Silêncio, terá mais actualidade e será merecedora de maior atenção. Não contando a quantidade dos que assistem à passagem da procissão, muito mais numerosos na dos Passos do que na do Silêncio, esta torna-se mais «pungente», convidativa à meditação, a passar da tristeza da dor do Crucificado à alegria do Ressuscitado. Por isso, insisto no recolhimento que deve haver e no empenho de todos em que a procissão seja mesmo do Silêncio e não da conversa banal, ainda que em tom moderado de modo a não destoar ou provocar reparos dos «silenciosos» aos «palradores».

É claro que o silêncio, para ser fecundo, exige a palavra, de que ele se faz eco. Uma Palavra forte e incisiva, provocante e determinada que torne necessário fazer silêncio para a «digerir» ou assimilar. E nenhuma Palavra mais forte e mais sensata, oportuna e necessária do que a do evangelho que, reportando-se a um tempo especial de intervenção de Deus na história humana, mantém hoje plena actualidade, senão mesmo maior actualidade ainda.

As ideologias do nosso tempo, numa azáfama constante e intensa para se imporem acriticamente - não convém deixar tempo para se pensar e tomar decisões amadurecidas - atropelam as palavras, retiram-lhes exigência e, tornando-as banais e ineficazes, procuram convencer-nos de que nada mais é importante do que gozar a vida, comendo bem e bebendo melhor, como se o nosso estatuto não fosse diferente do dos animais destinados a satisfazer os humanos. Mas «nem só de pão vive o homem», já dizia Jesus. De facto, insaciável de bens «mundanos», o ser humano do nosso tempo sente hoje redobrada dificuldade em saborear a profundidade das mensagens que recebe, dados os constantes e permanentes discursos, que se atropelam uns aos outros por não deixarmos espaço para que o silêncio valorize a palavra.

Há um perigo permanente à espreita de todos: sem tempo para mais nada senão para «gozar» a vida como se fôssemos senhores - já Jesus nos avisara contra esta tentação - criou-se um vazio existencial, que leva à morte. Não havendo espaço para a Palavra de Deus, cria-se uma sensação de ausência que traz angústia. Sem silêncio, a Palavra fica a ocupar todo o espaço, tornando-se ineficaz. Que este tempo de Quaresma nos desperte para o silêncio que humaniza divinizando.

17 de Março de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXIII

Voltando à questão dos abusos sexuais por parte do clero, que originaram uma cimeira convocada pelo Papa Francisco, dou-me conta de que o «balão» começa a «desinchar», fazendo-nos voltar à realidade. Por um lado, confirma-se que a situação era e é muito grave, demasiado grave. Bem mais grave do que se imaginava. Que havia, e certamente continua a haver, muita podridão escondida nos meandros do Vaticano. Certamente que não só por aquelas bandas. Por outro lado, vemos levantarem-se vozes bem fundamentadas que justificam um apelo à calma, sem interferir na necessária mudança de atitude. Gostei de ler, por exemplo, o comentário de um colega chamando a atenção para as consequências de uma visão extremista, que faz com que todos os padres vivam agora sob suspeição, passando a ser regra o que é excepção. Como gostei de ver a pena de historiadores capazes de nos ajudar a olhar para a história, mesmo a mais recente, em que a pedofilia era considerada, ainda na década de noventa, um simples atentado ao pudor e era comum nas diversas instâncias civis desconsiderar a sua gravidade.

Dado que a situação atingiu profundamente a credibilidade da Igreja e criou apreensão nos fiéis, decidi falar do assunto directamente nas celebrações do passado domingo. À semelhança do luto, falar da dor ameniza a dor. Lembrei-me de uma situação vivida nos anos noventa em Paris: em reunião magna de cristãos, o Cardeal Lustiger surpreendeu todos ao deixar de lado a agenda anunciada para falar de uma «ferida» que todos sentiam estar a sangrar no corpo da Igreja. Abordado o assunto, comentado em grupos, foi depois possível voltar à agenda programada.

Logo no início das celebrações, sentados os fiéis, falei da nossa dor de cristãos, unidos ao Papa e apreciando o seu gesto corajoso e determinado, para tomarmos consciência da nossa fragilidade e da necessidade de pedirmos perdão ao Senhor. Por vítimas e por criminosos. Pelos pecados nossos e deles, nas acções e sobretudo nas omissões.

Nos pensamentos e nas palavras, nos actos e nas omissões. Recordei que a nossa fé não está nos homens mas em Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. O cântico de entrada - escolhido com inegável oportunidade - dizia Creio em Deus Criador, Creio em Jesus o Salvador, Creio no Espírito Santo de amor, Creio na tua Igreja Senhor. Esta Igreja em que acreditamos é a Igreja de Jesus, aquela que Ele fundou, aquela que tem como governante primeiro o Papa Francisco, em vez do primeiro que o próprio Jesus escolheu, Pedro. Vale a pena lembrar que Pedro negou Jesus por três vezes e mesmo assim Jesus confiou nele e confiou-lhe a «centralidade» e a missão de unir todos os outros à sua volta. Teremos nós hoje legitimidade para querermos uma Igreja de puros e santos, de gente intocável? A Igreja é este povo de Deus concreto, a viver a santidade de Deus na fragilidade e no pecado humano.

Por outro lado, a história diz-nos que, em dois mil anos, muitos foram os momentos de crise, em que tudo parecia cair por terra. Serão os nossos tempos mais difíceis do que os de outrora? Talvez não. As crises históricas por que a Igreja passou são motivo de confiança e de confirmação de que «as portas do inferno não levarão a melhor contra ela».

Afirmei mesmo que estou contente e esperançoso nesta Igreja que se purifica. Porque muito temos a aprender com os acontecimentos. E aquele que acredita verdadeiramente em Deus não se deixará abalar por estas situações vergonhosas, agora postas à luz do dia.

Tentei que as minhas palavras, escutadas com inigualável atenção por todos, trouxessem serenidade e paz aos fiéis. E convidei-os a todos a que, de joelhos, pedíssemos perdão ao Senhor pelos pecados da Igreja. Dos nossos e dos de todos. De vítimas e de algozes. Não creio que algum daqueles que ali estavam presentes tenha sentido mais abalada a sua fé. Mais realista e fortalecida, talvez. Integrando a fragilidade humana. A de padres e a dos leigos, na única Igreja de Jesus.

10 de Março de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXII

Se tivesse de dar um título a este «Olhar Outro», atrevia-me a fazê-lo com uma questão formulada desta maneira: Humilhação da Igreja pelos abusos - Um novo serviço à Humanidade? Explico-me. Foram muitos anos a «varrer para debaixo do tapete» actos ignóbeis daqueles que proclamam a «Verdade Maior», Deus, para Quem só vale a verdade, tendo Jesus afirmado: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida». Não só deixaram de ser profe- tas, sentinelas da verdade e do respeito pela dignidade pessoal, como se tornaram eles mesmos abusadores ao ponto de fazerem pensar, a frágeis e dependentes, que as suas atitudes eram não só toleráveis como até «santas» por serem daqueles que são tidos por «santos», mercê de uma função «abusada», deixada de ser considerada dom para se tornar «direito» e «poder».

A atitude ímpar e corajosa do Papa Francisco tornara-se inevitável. Mesmo correndo sérios riscos.

Vivi estes dias da cimeira no Vaticano sobre os abusos a menores por parte do clero com a serenidade própria de quem acredita. Um misto de dor e de alegria. De dor porque dói mesmo tomar consciência de tanto sofrimento das vítimas, de tanta vergonha pelos crimes assumidos e de tanta sanha demolidora e vingativa sobre a Igreja. A minha Igreja.

A nossa Igreja. De alegria porque, finalmente e sem hesitações, se olhou uma questão difícil com coragem e determinação para que se resolva o problema de uma vez por todas. Pelo menos nisto não se duvida: o direito da vítima é superior ao do abusador. O tapete estava demasiado estragado com o lixo para lá atirado para não incomodar. Só uma «barrela» completa era possível. E assim aconteceu.

Dos muitos comentários lidos e ouvidos pude aperceber-me da continuada hipocrisia de acusadores de dedo em riste, como gozados com a humilhação da Igreja. Não pertencem à Igreja, apesar de tantas vezes abusivamente se dizerem da Igreja e baterem à porta da Igreja exigindo. Os verdadeiros filhos da Igreja sofrem e assumem a situação, rezam e empenham-se no compromisso de purificação, que se propõe como inevitável a todos. Cruzamo-nos com muitos que vivem de dedo em riste a acusar os cristãos das suas debilidades, pecados e mesmo crimes. Como se eles fossem santos e não precisassem de penitência igual.

Mas também li artigos sérios e equilibrados. Que responsavelmente abrem novos horizontes e permitem renovar a esperança. Não tenho dúvidas de que o «governo» da Igreja será, de agora em diante, bem mais precavido e empenhado na verdade e no comportamento moral. Mas não o deverá ser apenas no que toca ao campo da sexualidade. Não é afinal neste campo que reina a maior desordem e a falta de moral? Mas como vamos exigir «travão a fundo» neste campo numa sociedade permissiva que destruiu os limites e deixou de considerar o espaço para o «Absoluto», Deus, fundamento último de todas as normas e origem de todos os deveres de fraternidade entre iguais?

E no campo do apego e uso dos bens materiais, em que um punhado de grandes ricos se banqueteia à custa de uma imensidão de pobres? Com uma corrupção cada vez mais «tolerada»?

Diante da insatisfação de alguns perante os resultados da cimeira - que esperavam mais, sem o risco de novas injustiças? - é de desejar agora, assente a poeira mediática e sentados à mesa do trabalho sobre medidas concretas, que se olhe de outros lados, de todos os outros lados onde acontecem abusos a exigirem penitência pública. São muitos esses «lados» desafiados a aproveitarem o exemplo e a «humilhação» da Igreja - um verdadeiro serviço à sociedade, agora inserido no tempo quaresmal em que se medita que a salvação veio da humilhação da cruz.

Fico feliz por ver a minha Igreja com capacidade de arrependimento, de correcção fraterna, de pedir perdão. Como o fez publicamente o Papa João Paulo II. Continuaremos à espera que na sociedade civil e política se siga o exemplo? Vivemos no ano centenário da morte de D. António Barroso, um perseguido da República. Não mereceria reparação pública?

de Março de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCXI

Foi na sexta-feira, 15 de Fevereiro. A Universidade do Minho concedeu o título de doutor Honoris Causa a duas personalidades da cultura portuguesa de inequívoco valor e conceituado mérito.

Laborinho Lúcio, ex-ministro, actualmente Juiz Conselheiro Jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, sempre muito ligado às questões da Educação, tendo sido agraciado, em 2005, com a Grã Cruz da Ordem de Cristo, pelo Presidente da República. Para ele, e no âmbito da sua prática de investigação e de ensino, o direito a ser criança é «verdadeiro direito estruturante, próprio da ontologia ou do ser da criança e constitutivo de direitos derivados, tais como o direito ao tempo de ser criança, o direito a brincar, o direito à felicidade, ou o direito ao reconhecimento de direitos próprios».

Enquanto ouvia estas palavras, proferidas pelo seu «padrinho», lembrava-me eu das nossas crianças e das ofertas massificadoras que estão na moda e que, a meu ver, não deixam a criança ser criança, algo que divulgo junto dos pais. «Encharcamos as crianças de tal maneira com competências que nunca chegamos a saber quais são as suas capacidades», assim apresentou o pensamento de Laborinho Lúcio, mais claro ainda quando cita uma recente observação do mesmo: «Não podemos deixar criar a ideia de que a escola deve ser permanentemente um espaço de felicidade. Não é. Às vezes não é. A escola pode ser também um espaço penoso, de frustração, de responsabilização, de trabalho, de disciplina».

Confesso que não foi Laborinho Lúcio que me motivou a ir a Braga. Com ele foi também distinguido com o Honoris Causa, Frei Bento Domingues, bem conhecido das gentes de Barcelos pelas três vezes em que esteve nas nove semanas bíblicas.

Mais propenso a considerar o rigor e a disciplina - o sim sim, não não - a experiência de vida levou-me a considerar os diversos ângulos de observação da realidade, que a enriquecem. Mais ainda quando se trata de dizer o ser humano, com as suas crenças, as suas culturas, os seus modos de estar, em sintonia com um espaço concreto ou com uma história que se encadeia de geração em geração.

Foi assim que me habituei a considerar a presença da Igreja em territórios de fronteira, com padres muitas vezes em situações de risco, até consideradas, à partida, pouco ortodoxas, quase desafiando a doutrina oficial.

Olho hoje para Frei Bento como uma dessas personalidades do mundo da cultura, onde a Igreja sempre marcou presença, muito mais pela ousadia e inovação do que pela transmissão da «voz oficial».

Ali estava Frei Bento, no seu costumado à-vontade, bem humorado e dando sinais de que as «vestes» rituais académicas não se adequavam aos seus «costados», mais habituados ao hábito de simples frade dominicano.

Gostei de ver o ritual académico. Vaidades à parte, que também as pode haver na justa medida, a cerimónia, com o seu protocolo, realça a importância da academia, ao serviço da sociedade e para promoção de uma sadia antropologia, objecto permanente das intervenções de Frei Bento, nas suas incursões pelos meandros da filosofia e da teologia.

Quer na apresentação do seu percurso académico, quer na sua intervenção de agradecimento, Frei Bento orgulhou-se das suas raízes aldeãs minhotas, das suas inquietações teológicas de jovem padre, marcadas pelos grandes teólogos do século passado. Deu-lhe que pensar a frase de Yves Congar: «A uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião». E não servirá ela ainda para nós pensarmos?

De facto, o evangelho de Jesus continua a ser uma revolução que «desassossega». Precisamos de homens como Frei Bento para continuarem o «desassossego» do Evangelho.

24 de Fevereiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCX

Certamente que muitos se interrogam, como eu, sobre o estado actual da nossa sociedade. Apesar de nos situarmos no campo da «generalização», não podemos esquecer que a sociedade é composta por pessoas de carne e osso, situadas num espaço e num tempo concretos, rodeadas permanentemente de desafios, dúvidas e anseios.

Por vezes as generalizações ocultam a realidade, alimentam uma ilusão, desculpam e justificam irresponsabilidades. Ora, o ser humano, ser de aprendizagem permanente, deseja sempre ser feliz, sentir a vida como algo próprio e encontrar o «seu» lugar no meio de muitos outros lugares. Nos últimos tempos muito se tem falado sobre violência. Precisamente onde ela nunca deveria existir: no mundo das relações afectivas. Seja num casal, numa família, num lar de idosos ou pessoas dependentes. Até mesmo no mundo do namoro. É caso para perguntar: em que mundo vivemos, em que século estamos?

De facto, deve-se ao cristianismo a valorização da pessoa humana com a sua dignidade própria, muito superior aos animais ou outros seres vivos da criação. Deve-se ao cristianismo a noção de direitos humanos inalienáveis. Deve-se ao cristianismo a noção da liberdade autêntica com a componente da responsabilidade inerente àquela. E que fizemos nós de tudo isto?

Algo vai mal no nosso mundo. Pior ainda quando a teimosia não deixa ver a realidade: o que vivemos hoje é fruto de decisões tomadas ontem. Se não forem bem tomadas ou se as consequências são as que não tínhamos previsto, temos de decidir de outro modo. Não é fundamental no evangelho de Jesus a noção de conversão permanente? Ou seja, a necessidade do discernimento e a correcção de trajectórias?

Olhamos para as crianças: dizem os entendidos que elas sofrem o ritmo infernal que os adultos lhes impõem e não sabem ser crianças no tempo de crianças. Têm tudo e nada lhes chega... nada saboreiam em profundidade... porque descartáveis num mundo de descartáveis... com hipoteca do seu futuro. Quando acordaremos? Quando se convencerão os pais de que não podem impor aos filhos o ritmo frenético e louco dos adultos? Quem os alicia para serem Ronaldos, craques no desporto ou na dança, deixando de lado a construção da própria personalidade em autonomia gradativa e responsabilidade efectiva para serem bons cidadãos, capazes de relações humanas, afectivas e profundas, geradoras de equilíbrio e felicidade? Há dias, partilhei com os catequistas as preocupações com pais que, inscrevendo os filhos na catequese, até têm a veleidade de querer sucesso em ambos os campos, o da catequese e o do desporto... ambos à mesma hora e no mesmo dia.

É verdade que os referenciais da sociedade andam muito por baixo. O que afecta a todos sem excepção. E uma sociedade precisa sempre de referenciais fortes, de gente que seja audaz e diferente no meio da banalidade.

Um exemplo do mundo em que nos encontramos: um par de noivos manifestou a sua indignação quando, numa Conservatória, queria tratar do seu casamento religioso. Ter-lhe-ão perguntado para quê casar e logo pela Igreja.

Na mesma altura uma noiva pergunta: é necessário mesmo o CPM? É que o padre da minha freguesia disse que não valia a pena.

Diante destes dois casos, no mundo civil e no mundo eclesial, que se pode dizer quando um sacerdote convida e insiste que o casamento é coisa séria, é digna e merece ser bem preparado?

17 de Fevereiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCIX

Confesso que me habituei a ponderar os juízos sobre a realidade que me envolve. Nem sempre o terei feito com sucesso, certamente. Mas, com o passar do tempo, o acumular de experiência e até o meu próprio mundo interior vão-me acautelando para os juízos que podem ser fonte de injustiça e até de sofrimento para os outros. Desde que não ponham em causa a coragem profética que tantas vezes se impõe. Pois a cautela seria cobardia.

No meu olhar outro de hoje quero destacar os enormes progressos feitos na vida da Igreja a que pertencemos. Mais de 50 anos de vida no pós-Concílio, muita coisa evoluiu para melhor. Há muito ainda a fazer certamente. E haverá sempre pois que, tratando-se de convicções e comportamentos, as «conversões» são sempre lentas.

Mas quem não reconhece que hoje os católicos são muito mais participativos, mais conscientes e comprometidos na sua fé pessoal e comunitária? Quem não reconhece que hoje diminuiram os «seguidistas» de um clericalismo que atraiçoa a Boa Nova de Jesus, para uma exigência bem maior de verdade e humildade entre pastores e leigos? O que seria da Igreja hoje sem um número cada vez maior de leigos, homens e mulheres, directamente envolvidos na acção pastoral da Igreja e situando-se nela não em atitude de um favor recebido da hierarquia mas na consciência de um dever próprio, que vem do Baptismo? Quem não reconhece hoje uma capacidade bem maior de intervenção, de exigência de qualidade, de comportamentos mais verdadeiros?

Não vivemos hoje numa Igreja muito mais humana e sem medo de mostrar a sua própria fragilidade e necessidade de perdão? Uma Igreja que se expõe na praça pública e que, portanto, também não é poupada e aprende a viver com as suas próprias fragilidades, dizendo, em testemunho concreto, que o verdadeiro poder de Deus está na Cruz?

Temo, isso sim, os saudosismos crescentes organizados que, sob a intenção anunciada de recuperar o sentido da transcendência e do mistério de Deus - o que seria aceitável - se procuram impor pelo fausto e pelas formalidades, exigindo reverência ao esforço que propalam de defender a verdadeira doutrina. Como se o Espírtio Santo não estivesse a agir no seio da Igreja, desta Igreja concrteta que continua a permear o «século» da Presença de Deus. Temo, isso sim, aqueles que, organizadamente, se propõem caminhos de retrocesso a uma prática religiosa seguidista, sem o compromisso pessoal com o Senhor, testemunhado no agir comunitário. Temo, isso sim, que se tente voltar às fórmulas «exactas» de uma doutrina «exacta» e dogmatizada, por vias humanas que se apresentam como divinas para beneficiarem da credibilidade necessária, como se a instituição humana, necessária sempre por vontade Cristo, estivesse acima da acção livre do Espírito Santo no fiel e também no corpo da Igreja.

Temo apenas. Mas creio mais ainda que o mesmo Espírito Santo há-de gerar as oposições necessárias para que a «organização» não se imponha sobre o «carisma».

Apenas um exemplo a comprová-lo: numa tarde de formação para o casamento encontrámos 28 pares dos 35 possíveis. Três deles deslocaram-se de propósito do estrangeiro. E confesso que me custa ouvir dizer que «os noivos não têm tempo», que não aceitam fazer o CPM ou vir a reuniões. Ou que as reuniões são muitas porque «as pesssoas não têm tempo«. A verdade é que vou encontrando cada vez mais gente séria diante das propostas da Igreja e que exige bem mais seriedade aos padres de hoje no exercício do seu ministério. Depois desta preparação, um dos pares contactava-me: ela, catequizada e praticante e ele num processo de descoberta (apenas era baptizado). Mas pediam-me o casamento com missa. Melhor, ele mostrava-se consciente de que deveria ser assim. E quer preparar-se para se confessar e comungar no dia do seu casamento. Ao ver vontade tão clara e disposição de fazer caminhada indiscutível, claro que dei graças a Deus.

10 de Fevereiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCVIII

Como uma grande maioria do povo português, também eu admiro o modo como o Prosfessor Marcelo entende e exerce o cargo de Presidente da República, oficialmente laica e aconfessional. E destaco o modo como pois cada presidente, diante do mesmo texto constitucional, não deixa de ser único, humano e, portanto, imperfeito, tentando sempre, como todos os que o antecederam, a imparcialidade devida.

Só que... este presidente, sem alarde ou toque de sinos, diz, com a sua prática permanente e estável, que não precisa de se declarar «de direita, cristão ou católico praticante» como um dos seus predecessores se afirmava «socialista, agnóstico e laico». Bem vistas as coisas, porquê um fundamentalismo tão estúpido que interpreta o texto constitucional e a aconfessionalidade de um Estado, numa Nação maioritariamente crente e alicerçada historicamente em valores e tradições católicas, querendo exigir a um crente que se torna Presidente da República que faça um parêntesis na sua vida de modo a separar, nos seus comportamentos, a crença e a laicidade? Já gora, numa Nação crente, só os não crentes têm direito a tornarem-se presidentes? Desde quando e com que legitimidade? Caiam de uma vez por todas tais fundamentalismos e aprendam os «laicos» do nosso país a viverem em harmonia, sem se sentirem ofendidos, com os crentes. São estes «caldos fundamentalistas», comprovadamente perniciosos, que atentam, de facto, contra a paz e harmonia social.

Tendo sido convidado pelo Supremo Tribunal de Justiça a participar na abertura do Ano Judicial - um simples convite de cortesia já tradicional - o Patriarca de Lisboa terá «acirrado» as hostes laicistas do país. O acontecimento foi «continuado» com a presença do Presidente da República nas Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá, sabendo-se já da grande probabilidade de as mesmas serem anunciadas para se realizarem em Portugal em 2022. E não faltaram articulistas a manifestar-se, contra e a favor, dos «ofendidos» que vieram a terreiro lembrar a Constituição e a sua neutralidade perante o fenómeno religioso. Indiferente a tais leituras, o Professor Marcelo continuou a ser ele mesmo, sem hipotecar a sua fé e prática religiosa, dizendo a todos: a cidadania portuguesa convive bem com a crença religiosa. Ou, indo mais longe até, esta beneficia aquela. Ou não nos diz a história, e cito Carlos Carreiras: «ao contrário do que nos tentam impingir os dogmáticos, liberdade e fé cristã não são antagonistas. A verdade está exactamente no polo oposto: o ataque à liberdade religiosa é sempre a antecâmara da opressão». Quem não reconhece que «hoje são os cristãos e as suas instituições os mais perseguidos pelo racionalismo dogmático» (Idem)?

Lembro que, desde a Revolução Francesa, nunca mais a França encontrou o equilíbrio entre o Estado laico e a nação crente regulando-se ainda hoje por uma lei de 1905, sempre revisitada e incapaz de responder ao fenómeno religioso, sempre evolutivo e persistente mesmo que oprimido. Agora diante do extremismo islâmico, a ateia e laica França vê-se obrigada a tudo fazer e investir para «encaixar» o Islão nas malhas do seu laicismo aguerrido, caduco e ridículo.

As jornadas da Juventude em Portugal são, para a Igreja, uma responsabilidade e uma oportunidade. São bem-vindas. Não apenas nos milhões já contabilizados, superiores aos maiores eventos previstos para a mesma altura. Oxalá nós os cristãos estejamos à altura e aproveitemos o acontecimento de modo a que ele deixe uma marca na juventude e na Igreja, cientes que estamos da inteligência dos governantes em aproveitá-lo para a dignificação do nosso país no concerto das nações.

de Fevereiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCVII

Chama-se Julen, a criança de dois anos e meio que se julga caída num poço de mais de 70 metros de profundidade, em Totalán, na zona de Málaga, na vizinha Espanha. Já lá vão cerca de duas semanas. E a grande questão é se ela se encontra viva ou morta.

Decidi-me por esta situação ao apreciar comentários de populares que, dando força aos esforços em curso para resgatar a criança, vão afirmando as suas convicções num milagre e apelam para o poder de Deus. É de louvar. É de admirar. E, perante os mais que justificados calculismos - esforços e gastos para uma mais que hipotética sobrevivência ao desastre - sobrepõe-se sempre o «enquanto há vida há esperança».

Todos desejamos que tão grandes esforços sejam coroados de êxito e todos queremos que a criança seja resgatada viva e com o menor índice de possíveis sequelas. Esta insistência, este investimento «contra tudo e contra todos», numa luta contra o tempo que, à medida que avança vai «desgastando» a esperança dos mais crentes é um bom sinal de uma sociedade que se quer humana e não desiste diante de uma desgraça que afecta a todos. Pensar o contrário, desistir de resgatar a criança, viva ou morta, choca o coração humano e até revolta.

Há ou não milagres? Claro que há, mesmo que sejam díspares e múltiplas as concepções do milagre. Sempre eles põem em causa as nossas certezas, por mais fundamentadas que se apresentem. De facto, não somos robots programados e são muitas as vezes em que os próprios cientistas assumem que foram longe demais nas suas «certezas».

Todo este esforço heróico para devolver uma criança aos pais que, entre revoltas e desesperos, se perguntam como se poderia ter evitado tal tragédia, contrasta evidentemente com tantas atitudes do nosso quotidiano em que a vida é desvalorizada, ameaçada mesmo e até levianamente suprimida. E não me refiro somente aos atentadas à vida já «clássicos», como sejam o aborto e a eutanásia, mas também à ligeireza como se (de) educa para o exercício da nobre sexualidade humana, ao serviço da vida.

Certamente não faltarão atitudes justicialistas uma vez conhecido o desfecho final. De uma situação de claro perigo não assinalada alguém será responsável. Mas quantos de nós se poderiam eximir de atitudes idênticas, mais de negligência do que daquele egoísmo que põe a vida dos outros em perigo?!

Em situações de desgraça, o recurso a Deus torna-se inevitável. O que pensar de tudo isto?

Logo à partida, direi: «Se Deus não existir, o povo vai inventá-lo». De facto, Deus existe e é uma necessidade para o ser humano. Se não existisse, o fardo tornar-se-ia insuportável. O crente «sabe» e sente que pode descarregar em Deus o peso de uma desgraça.

Mesmo que pouco cuidado, ou melhor, atravessado pela Boa Nova de Jesus, ou seja, evangelizado, este desejo de que Deus intervenha pelo milagre comprova que Deus e Homem caminham um com o outro. Que maravilha seria a relação humano/divina se fosse «atravessada» pelo evangelho de Jesus?! Mas essa é a missão de cada um de nós: vivê-la e dar dela testemunho aos outros.

Finalmente, homens e máquinas venceram a dureza da montanha. E Julen, cadáver, é entregue aos desolados pais. Termina-se um processo. Outro se inicia, que, para quem crê, exige mais ainda a presença de Deus: no fazer o luto, no refazer a esperança, no desafio das lições a tirar e no milagre que certamente vai acontecer, o da presença solidária de muitos junto daquela família, tentada a cair num fatalismo supersticioso.

27 de Janeiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCVI

Nem todos concordarão, é certo. A mim, no entanto, alegra-me ouvir os queixumes amargos dos mais directos colaboradores. Quando partilhamos - porque é de partilha que se trata, mesmo quando o olhar sobre a realidade prima pelo negativo - é porque nos sentimos responsáveis diante das nossas próprias fragilidades e desejamos encontrar soluções. Mas nem é bem por isso (sentir-me confortado por outros) que me alegro. É porque se deu um «salto» muito grande na acção pastoral, outrora aos obras do pároco quase em exclusividade. A evolução da Igreja nos últimos tempos tem sido francamente positiva, mesmo que os números evidenciem uma crise grave. Prefiro pensar que o Espírito de Deus está a trabalhar no seio da Igreja e que esta tem evoluído no sentido de se tornar muito mais evangélica, pobre e desprendida do mundo, ancorada apenas no «seu Senhor». Passou, felizmente, o tempo da Cristandade e surge uma Igreja de «convertidos», aqueles que se assumem discípulos missionários e responsáveis pela Igreja a que pertencem.

Assim, quando os diversos grupos paroquiais se encontram e analisam o «estado da Paróquia», eu sinto-me feliz ao reconhecer que, de facto, a tarefa da missão não repousa apenas nas costas do pároco.

Há dias, em reunião de catequistas, houve «desabafos», «procuras» partilhadas, questões como «que mais poderemos nós fazer pelas crianças da catequese?» ou «que mais poderemos fazer para que os pais acompanhem os filhos na catequese?». Felizmente não houve desânimos que significassem vontade de «atirar a toalha ao chão», mas apenas a preocupação de descobrir o «abanão» ajustado aos pais, de modo que a catequese seja mesmo familiar, envolvendo os pais. De facto, não se pode aceitar que os pais, ao pedirem catequese para os filhos, se desresponsabilizem do processo, «descansando» enquanto outros, de graça, generosamente e apenas por amor, se ocupam dos seus filhos. Nunca a Igreja se sobrepôs aos pais no processo educativo da fé. Nem nunca o poderá fazer, numa espécie de «estatização» da catequese, reduzindo-a a um ensino religioso desligado do testemunho da fé, vivida em comunidade.

Queixa-se o pároco da falta de colaboração dos paroquianos. Queixam-se os catequistas do desinteresse dos pais. Queixam-se alguns responsáveis dos grupos paroquiais de uma certa apatia dos seus membros. Queixamo-nos todos da falta de unidade e de colaboração entre os diversos grupos. Queixam-se os pais da dificuldade em educar os filhos. Queixam-se mui- to amargamente os avós quando vêem que os filhos já não vão à Igreja e os netos já nem baptizados são. Queixamo-nos... Mas a verdade é que a Igreja não é, nunca foi, um rio de queixas a desaguar no mar do desleixo. Sempre ela foi - preparada aliás em toda a revelação bíblica acontecida durante séculos - a peregrinação da Humanidade que procura a Verdade, a Beleza, a Bondade. E nenhuma caminhada ou peregrinação se faz sem percalços, em caminho sempre plano e de marcha fácil.

Como o Papa Francisco, também eu prefiro olhar a Igreja inquieta, provocada, mesmo frágil e ameaçada - afinal sempre o esteve e até a história comprova que foi nos períodos ditos fáceis que ela se acomodou e perdeu o frescor - do que vê-la tranquila e poderosa, ajustada ao espírito do mundo.

Dou graças a Deus pelos leigos que me acompanham, homens e mulheres, jovens e menos jovens. Somos todos discípulos missionários. Não estou só. Obrigado a todos.

20 de Janeiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCV

Talvez com hipocrisia à mistura, todos nós olhamos com mágoa, e até com saudade de outros tempos, o descrédito que se atribui à Igreja de Jesus, a que pertencemos. Esquecemo-nos que o nosso olhar nos implica a nós próprios antes de mais.

Teremos coragem de reconhecer que todos contribuí- mos para a situação actual? É que sendo a Igreja peca- dora nos seus membros - não o esqueçamos nunca - ela é santa na sua cabeça, Cristo, e só centrando a vida em Cristo é que a Igreja se torna credível. Queres tu fazê-lo? Anda e traz muitos outros contigo. E verás uma Igreja mais credível e mais «cristã».

Hoje celebra-se a festa do Baptismo de Jesus, ocasião para olharmos os baptizados de hoje, em número de- crescente, seja pela redução da natalidade, seja pelo estado actual da sociedade e da Igreja. Vivemos «como se Deus não existisse», numa sociedade areligiosa, mais indiferente do que ateia. Compreende-se, por isso, que os baptizados diminuam.

Se o baptismo de Jesus diz e indica missão, também o baptismo na fé cristã responsabiliza para a missão: ser cristão implica compromisso de vida, testemunho de que somos, de facto, filhos de Deus. Se não vivemos como tal, tornamo-nos indignos de nos dizermos cristãos.

E não terá sido o abandono do testemunho de vida (diferente do dos pagãos ou ateus), que compete a todos os baptizados, que mais contribuiu para o descrédito da Igreja?

Sempre lutei pela afirmação do valor do Baptismo, a descobrir como feliz condicionante da minha vida como filho de Deus, como opção livre e comprometendo a vida no seu todo. E parece-me acto indigno de um pastor sacrificar a verdade do sacramento a formalismos sociais, próprios de quem não fez a descoberta de Jesus e se nega a fazê-la, exigindo respostas para as quais se nega a preparar-se. E com o facilitismo reinante chegamos ao estado actual da Igreja: perdeu-se o miolo ficando apenas a casca superficial, cada vez mais rejeitada porque não convence ninguém. O que fizemos nós do «tesouro» sacramental da Igreja de Jesus Cristo? E tudo isto apenas por não querermos ou não termos coragem de dizer a verdade às pessoas, cada vez mais «inculturadas» nas propostas mentirosas de uma sociedade de consumo, onde Deus se torna supérfluo. Mas, afinal «nem só de pão vive o homem», como dizia Jesus. Se a Palavra de Deus se dispensa, como não dispensar o ritual que a significa? Para quê baptizar sem compromisso? Onde está a nossa fidelidade primeira, a Jesus ou ao baptizando não evangelizado?

Duas situações, no mesmo dia, me alegraram há dias. Eram duas famílias de Londres, uma numa paróquia católica inglesa e a outra a frequentar a comunidade portuguesa. Ambas se casaram na Matriz de Barcelos e aqui quiseram baptizar os filhos. Não se conhecem uma à outra. Pediram a Primeira Comunhão para os filhos, na nossa Igreja Matriz, onde foram baptizados. O que vai acontecer em Agosto, em dias diferentes. Como foi bom dialogar com eles e perceber a maneira como dão testemunho da fé em terras de emigração! E como foi bom recordar e reconhecer a «semente» que nelas terei semeado aquando da preparação do casa- mento, convidando-as a viver como cristãos a sério!

Revolta-me ver como se reduz tudo a zero, numa banalidade total, em vez de nos empenharmos em ajudar aqueles que querem levar o evangelho a sério. Que os há, mesmo que em pequeno número e não se apregoem... Que pena gastarmos o nosso ministério a dar respostas e a ocuparmo-nos de quem nada quer do verdadeiro Jesus e da verdadeira Igreja!

13 de Janeiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCIV

Primeira e imediata impressão: mais uma «infeliz» do Papa Francisco. Não terá conselheiros atentos?

«Papa Francisco diz que é melhor viver como ateu do que ir à igreja e odiar os outros». Nesta ou noutras variantes idênticas (O papa Francisco afirmou que é preferível viver como ateu do que ir todos os dias à igreja e passar a vida a odiar e a criticar os outros), capazes de provocar o leitor, lembrei-me do tempo em que, nas notícias seleccionadas na redação, divulgadas pelos telex oficiais, eu tinha a missão de «cortar» no texto e encontrar um título, provocante para levar à leitura, mas sempre fiel ao conteúdo.

Claro que fui ver o texto na íntegra do que o Papa disse na quarta-feira. E dei-me conta de que o título atraiçoa o conteúdo. Mais, está longe do conteúdo escrito. Logo me dei conta, de seguida, que o mesmo não se baseou no texto escrito, mas sim num improviso, que as câmaras gravaram. Permitiria o improviso tal título ? Digo que não. Se não, vejamos:

1. Texto da audiência: «O cristão não é alguém melhor do que os outros; bem sabe que é pecador como os outros; é apenas uma pessoa que pára diante da Sarça-ardente, acolhendo a revelação de Deus que já não se esconde sob um nome impronunciável, mas pede aos seus filhos para O invocarem com o doce nome de «Pai». Entretanto, na nossa oração, não façamos como os hipócritas, que multiplicam suas orações ateias, pois rezam a si mesmos, isto é, rezam apenas para ser admirados pelos homens».

2. No improviso: “Quantas vezes nós vemos o escândalo das pessoas que vão à igreja, estão lá todo o dia, ou vão todos os dias, e depois vivem odiando os outros e falando mal das pessoas. Isto é um escândalo, é melhor não ires à igreja; vives assim, como se fosses ateu”. Ou seja, o Papa comentou os ensinamentos de Jesus apelando a comportamentos verdadeiros e não hipócritas. Afinal, o mais comum de toda a acção da Igreja, que pede sempre aos cristãos a coerência entre a fé e as obras. Não basta parecer mas é preciso ser de verdade cristão assumido e dar testemunho credível. Quem não reconhece a coragem do Papa de dizer as verdades, de tocar em certas feridas dos nossos comportamentos muito pouco cristãos? O que ele pede a quem vai à Igreja é que dê “verdadeiro testemunho” e viva “como filho, como irmão”.

Como concluir que o Papa disse que é melhor viver como ateu do que ir à igreja e odiar os outros? Só por ignorância ou má fé.

Claro que todos precisamos de nos questionar sobre as nossas orações, que dizem as nossas crenças e os nossos modos de olhar para Deus. E há muitos modos que são «escândalo». Demos graças a Deus por termos um Papa que tem a coragem de dizê-lo. Mas não concluamos aquilo que ele não diz, até por respeito para com os nossos irmãos que se dizem ateus, tanto mais que alguns deles - eu tenho experiência disso - são honestos nas suas procuras e reconhecem a dificuldade em acreditar respeitando quem acredita. O respeito para com os ateus implica a seriedade de vida de quem diz que acredita.

Seria muito estranho um Papa exaltar os ateus diminuindo os crentes. É preferível acreditar - viver num caminho de procura e de esperança aberto ao Transcendente - do que não acreditar. Mas, evite-se o escândalo dos que dizem acreditar mas que vivem no quotidiano como se fossem ateus. É hora de verdade. Nuns e noutros.

de Janeiro de 2019 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCIII

E foi Natal. Uma vez mais. E não faltaram as músicas, os concertos, as prendas, os jantares, as boas festas, as iguarias próprias da época.

Foi bom. Porque precisamos de festa, precisamos de rituais, precisamos de tréguas na corrida de todos os dias, como de um afago diferente numa noite diferente.

Também eu me dei conta, uma vez mais, dos gestos repetidos, dos rituais que só ficam bem nesta altura. E me questionei sobre um modo outro, diferente, de celebrar Natal. E reconheço que todos precisamos de celebrar, de fazer pausa porque é Natal. E de apelar aos «homens de boa vontade» para que façam a paz e não a guerra. Mesmo que saibamos, à partida, que muitos desejos não passarão disso mesmo. A festa tem de ter música. E teve-a de uma forma notória e bela em Barcelos. E também aqui há que destacar que as músicas de Natal continuam a encantar, sempre belas e harmoniosas, apelando ao sentido contemplativo, porque, tratando-se de «mistério», nada mais enche o coração humano senão o gesto nobre de contemplar, de se deixar maravilhar.

Foram muitos os concertos de Natal, apoiados pelo Município. E apraz-me registar que os protocolos que permitem a ajuda financeira para as actividades dos diversos grupos serão uma maneira bela e justa, mesmo a mais justa, de promover cultura, de ajudar os diversos grupos e de oferecer ao público concertos de qualidade.

Reparei no repertório dos diversos grupos que se apresentaram nas igrejas da cidade. Peças belíssimas que se impuseram ao longo dos séculos, a cantar o Deus Menino. Porque se trata, nas diversas manifestações natalícias, verdadeiramente de um mistério, que a poesia diz melhor que o texto narrativo, ao apelar a ultrapassar as considerações racionais para nos ficarmos diante da fragilidade de uma criança inocente. Para os crentes, o Menino é mesmo Jesus, o Verbo de Deus incarnado, o próprio Deus que Se tornou visível ao ser humano. Trata-se da maior e mais bela aproximação do divino ao humano. E quem de nós não precisa de ser «tocado» ou mesmo «atravessado» pelo divino? Não reconhecemos nós todos a insatisfação constante e a necessidade de nos elevarmos? Pois bem, o Natal celebra o Encontro mais belo e mais maravilhoso do divino com o humano. Deus fez-Se humano para que nós, humanos, nos pudéssemos tornar divinos, segundo a reflexão dos Padres da Igreja nos primeiros séculos do cristianismo.

Reconheço quão difícil terá sido aos responsáveis dos vários grupos musicais estabelecer um programa para um curto espaço de tempo - uma hora apenas, que se revelou o tempo ideal - que acaba por deixar as pessoas felizes, tranquilas, em paz e até desejosas de continuar naquele ambiente festivo. E quão oportuno neste tempo de tanta corrida e daqueles encontrões que não permitem verdadeiro encontro de pessoas, já que abunda o barulho. A dificuldade será só aparente porque as possibilidades de escolher bons textos musicados são enormes pois durante vinte séculos a Humanidade canta a magia da noite de Natal e contempla o Menino no presépio, como Maria e José O contemplaram. É mesmo impossível ignorar, como o pretendem de maneira mais velada ou mais ousada, certos «laicistas» da moda, tantas e tantas obras mestras na cultura e na arte produzidas pelo engenho humano fascinado pela «magia» do Natal. Mesmo sem o pensarem, é diante de um grande mistério que nos situamos todos: Deus veio habitar no meio de nós. Porque teimamos então em pensar Deus algures num espaço imaginário, longe do nosso quotidiano? Porque esquecemos que é nos gestos humanos de ternura, de ajuda mútua, de comunhão e simpatia que Deus Se diz no nosso tempo?

Os grandes artistas ao longo dos últimos dois milénios encontraram em Jesus - o Menino de Belém, o Mestre de Nazaré ou o Crucificado de Jerusalém - a inspiração permanente para a sua criatividade. Geraram um património riquíssimo que nos pertence usufruir e desenvolver.

Urge reconhecer que, nas últimas décadas, muito se fez no desenvolvimento da arte dos sons. Não só o Conservatório de Música de Barcelos, como a Banda de Oliveira e muitos e diversos coros têm contribuído para o desenvolvimento da música entre as jovens geraçães, de modo que, nesta época de Natal, começam a escassear os espaços e as datas possíveis para a apresentação de concertos. O que implica um maior cuidado na programação e sobretudo na divulgação. Parece-me, no entanto, que se impõe, agora, um investimento na motivação das pessoas para aproveitarem o que lhes é oferecido sem custos. De facto, não me sinto bem diante de um concerto de grande qualidade, como o foram todos, situando-me no meio de uma assembleia reduzida. O esforço dos coralistas merece melhor recompensa. Por isso impõe-se um apelo a todos os barcelenses: saibam escolher o que é bom, o que tem qualidade e saiam do sofá. A preparação do Natal passa também por aqui.

Oxalá se desperte para o que a «prata da casa» nos pode oferecer. É muito e é de superior qualidade. Aprendamos a apreciar a beleza. Porque o gosto também se educa.

30 de Dezembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCII

Bem preparado, aquele presépio interpela-me todos os dias. Precisamente ao subir ao altar, dou de caras com ele. Simples, ele considera apenas cinco figuras, sendo uma delas apenas um berço vazio. Para quem? Para Aquele que vai chegar.

Eis-me, então nestes dias de «novena», como aliás em todo o tempo de Advento, a pensar na minha relação com aquele «ausente» que ocupa todo o espaço da expectativa: Vem Senhor Jesus, clamamos todos e todos os dias. Vem aonde?

Eis-me diante de um berço vazio. Curiosamente as nossas tradições natalícias não dispensam o presépio, construído logo nos primeiros dias do Advento. Mas, normalmente, o lugar do Menino só é ocupado mais tarde, lá para a noite de Natal.

O tempo do Advento acontece nas nossas tradições como um despertar de consciência para Aquele que vem ou que desejamos que venha. Porque não O temos? O berço vazio continua ali à espera.

O Papa Francisco, no seu jeito próprio de ir ao essencial, lembrou o Festejado ausente das celebrações natalícias. Ouvimos muitas vozes e lemos, felizmente, muitos escritos a denunciarem a descaracterização do Natal quando reduzido apenas ao consumo e ocasião para juntar familiares e amigos. Esta junção das famílias, sempre humanizante, fica gravemente afectada se a desligarmos do verdadeiro sentido do Natal: Deus veio habitar com a Humanidade.

De facto, o centro do Natal está neste grande mistério de um Deus Humano, que temos dificuldade de aceitar como tal, «reduzidos» que somos a uma lógica racional, pouco preparada para se «expandir» no mistério. Sempre pensamos em Deus como «algo» longínquo, algures no firmamento inacessível, quando, de facto, Jesus Cristo, o Verbo de Deus veio habitar na Humanidade e nos apresentou Deus como um Pai que ama, está próximo e caminha com os seus filhos na terra, sendo que o horizonte da vida humana na terra se realiza precisamente em Deus. O Natal é esta síntese de divino e de humano, em que a Humanidade é «atravessada» pela Divindade. Certo é que, dada a incapacidade da razão para dizer algo tão elevado, descemos ao coração para nos deixarmos envolver do mistério. E felizes de nós quando aliamos o coração à razão, pois que a experiência humana, de si já muito rica, tudo tem a ganhar quando se deixa envolver pelo mistério que nos ultrapassa.

De facto, é impossível dizer, falar ou sentir o Natal que não seja a partir do coração e da poesia. A história o comprova: dois mil anos de arte, de poesia, de música, numa evidente criatividade em que cada época vai deixando a sua marca, enriquecem a ternura de uma noite especial, que ninguém quer dispensar.

Como também não se dispensam os líderes religiosos cristãos de se colocarem diante do mistério de um Deus Menino. As suas esperadas mensagens, de tons plurifacetados, não dispensam o convite de O reconhecermos nas situações aflitivas por que passa a Humanidade. Sim, é que o Menino de Belém é o mesmo Cristo que, no alto da cruz, desafiou a todos a amar de um jeito e numa medida únicas: a do amor sem medida, sem olhar a quem, reconhecendo em cada ser humano o próprio Deus. Nenhuma religião chegou tão longe ao ponto de dizer que o ser humano «criado à imagem e semelhança de Deus» é de tal maneira valioso e único que é, de facto, presença de Deus, o Deus visível, que, mesmo desfigurado numa alma criminosa, nos suplica o perdão total.

Sim, aquele berço vazio diz tudo... diz-me a mim e a ti na busca incessante de sentido para a vida, na necessidade de uma esperança real de que o mundo tal como o conhecemos tem de evoluir para melhor, para se reconfigurar hoje e sempre à imagem do Criador. Sim, o mundo «estragado» pelas ambições humanas está à espera de um Messias que venha tornar-se o centro da vida de cada um, para que a Humanidade se apresente permeada de Divindade, alegre e feliz, espaço de sadia convivência para todos sem excepção.

Que o teu coração, tal como o meu, se encontre já preparado para que Jesus possa nascer.

Feliz Natal com o Menino Jesus também em Barcelos.

23 de Dezembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CCI

Suspenso o mundo por várias semanas dos acontecimentos em Paris, amedrontados todos com tanta violência dos chamados «coletes amarelos », o cidadão comum certamente se põe várias questões: Como se pôde chegar a isto? Que autoridade tem o Estado? Quem são e o que de facto pretendem os manifestantes? Quem estará oculto por trás deles? Mais preocupante ainda, apenas porque se abeira de nós, é ler os sinais que existem na sociedade portuguesa de um descontentamento latente, perante uma carga brutal de impostos, apesar dos «brandos costumes » que se atribuem ao povo português, a ponto de se levantar a hipótese de a contestação de França se reproduzir em Portugal e noutros países. Que estes fenómenos sociais tendem a repetir-se é, por demais, temível, dado o evidente efeito de contágio de imagens em directo que estimulam atitudes revolucionárias que põem a nu o «cansaço» do povo face a desmandos políticos.

Que a Europa se sente um pouco perdida é sentimento generalizado. Que os políticos europeus de hoje estão cada vez mais longe dos pais fundadores de uma Europa unida, solidificado nas raízes do Cristianismo, também parece consensual. Que a falta de valores - sujeitos a conjunturas volúveis de efeito imediato, marcadas pelos interesses de grupos de pressão - ou de referenciais seguros tem criado uma certa apatia e desinteresse pela política também parece inegável. E não falta quem, pondo em causa a propaganda do governo, desconfie muito seriamente do estado favorável da economia do país. E comparativamente reconheça que os portugueses terão razões mais fortes para se manifestarem.

Para onde vai a nossa Europa, agora com o Brexit «adiado» - confesso que duvidei sempre se se confirmaria a saída do Reino Unido - e na percepção cada vez mais clara das grandes disparidades existentes entre os países que a compõem?

Os Estados têm vindo a assumir sempre mais encargos com os cidadãos, numa certa forma de estatização encapotada, já não só dos bens de produção como se apregoava no marxismo. O Estado é de facto «patrão» de tudo, desde a saúde à educação, bastante ideológica aliás, através de um fisco implacável que «suga» e devora cada vez mais as magras economias de grande parte da população. Engordam as despesas do Estado e aumentam-se os impostos. É que o Estado não sabe poupar e o povo não cessa de reivindicar. Até quando?

Um dos graves problemas do país é o que se refere à segurança dos cidadãos. Seria neste particular onde o Estado deveria merecer mais a confiança dos cidadãos. E que vemos nós? Uma polícia desautorizada, uma justiça laxa a tentar os cidadãos a «desenrascarem-se» pelos próprios meios, criando ainda mais violência. Enfermeiros em greve com o consequente risco de vida de tantos doentes e bombeiros em luta pelo respeito do seu voluntariado ao serviço das populações, ameaçados que se sentem por uma «estatização» que os empurra para uma superestrutura que os afasta das populações e reduz a sua eficácia. Em nome de quê? Talvez da sobrevivência política de alguns ideólogos de gabinete.

Vem aí mais um Natal. De paz, assim o desejamos. E com mais razão ainda quando a violência está nas ruas, a falta de civismo campeia e o vandalismo requinta as suas formas de se manifestar.

Entre nós, foi suspensa a rota dos presépios. Segundo consta devido ao vandalismo. Que é inegável. Ou não choca o que se vê pelas ruas da cidade ao fim de semana, depois de uma «noite de copos» em que todos são desresponsabilizados apesar de se conhecerem os promotores? Porque será que acções objectivamente criminosas deixam de o ser para certos grupos ou em certas circunstâncias? O espectáculo degradante e indigno de certas claques escoltadas pela polícia para entrarem ou saírem de um estádio são um bom sinal da decadência de uma sociedade que, querendo dizer-se tolerante tolerando o vício e o crime, vai aquecendo o pote da sua própria destruição.

Em tempos de Natal, é belo ver tanta gente - e até organizações da sociedade - empenhada para dar um ar de festa às nossas cidades, vilas e aldeias. Mas, que desgosto diante do abuso criminoso dos «donos da noite» que se regozijam em destruir e ofender! Para tais desmandos, toda a intolerância é necessária. Em nome da paz social.

16 de Dezembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CC

“Não deve ser assim entre vós”. A frase tem autor. Chama-se Jesus Cristo. Referiu-se Ele ao exercício do poder como “domínio”, usual entre governadores e governados ao longo da história. Com o seu ensinamento, Jesus inaugurou uma “novidade” propondo substituir o “domínio” pelo “serviço”. E pediu aos seus seguidores para porem em prática esta via: todo o poder é serviço aos outros. Se não o for, facilmente gera prepotência, abuso, exploração e descontentamento, que podem pôr em perigo a harmonia e a paz social.

Dois mil anos depois, que fizemos nós, os cristãos, deste ensinamento? O mais fácil e imediato é olhar para o mundo da política e dizer que “são todos iguais” a zelar pelos próprios interesses, batendo-se pelos melhores lugares e incapazes de reconhecerem boas ideias e boas práticas no campo contrário. Deixemos o campo da política e consideremos o exercício do poder na Igreja. Ouvimos dizer que não há grandes diferenças, apesar da lembrança constante do ensinamento de Jesus. Mesmo que haja exageros de avaliação, também no seio da Igreja, os que detêm o poder esquecem facilmente que ele só é legitimado quando serviço ao bem comum. Em todos os sectores, desde a hierarquia da Igreja até às missões mais humildes no seio da comunidade eclesial. Entre nós, séculos de vivência da fé cristã geraram inúmeras instituições que foram fazendo história e delineando uma personalidade colectiva, cujos traços mais marcantes provêm do evangelho de Jesus. Basta recuar um século para nos darmos conta de que o tecido institucional existente em Barcelos tinha nascido quase exclusivamente no seio da Igreja Católica.

Vêm aí as eleições na Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, uma das instituições mais antigas da cidade, nascida do espírito do evangelho, que marcou indelevelmente a fisionomia do país. Trata-se de um acto normal, enquadrado na legislação actual, que tem acompanhado a evolução ao longo dos tempos. É bom que haja um corpo de irmãos capazes e disponíveis para integrarem as listas candidatas. É legitimo também que apareçam várias listas, o que se torna ocasião de voltar, na prática, ao espírito do evangelho: “não deve ser assim entre vós: quem se propõe exercer o poder, faça-o como um serviço”. É de esperar que as listas candidatas apresentem programas e estratégias de melhor servir a instituição. E que o façam no respeito das diferenças, lembrando-se sempre que, passado o período eleitoral, quem for escolhido deve exercer uma missão ao serviço de todos, inclusive dos que pensavam de modo diferente. E que, mesmo derrotada uma candidatura, não se segue daí que as propostas alheias não tenham valor e não devam mesmo ser aproveitadas para benefício da instituição.

Uma coisa é de lembrar a todos os irmãos: são membros de uma Irmandade, que radica no evangelho de Jesus. É o ensinamento dele repetido - o de que somos todos irmãos pelo Baptismo porque todos filhos do mesmo Pai, Deus - que dá o ser às instituições eclesiais. Ora o ponto de partida nunca pode ser esquecido. E voltar sempre à raiz é dignificar os actos do presente.

Sendo a Misericórdia uma instituição de carácter eclesial com ordenamento jurídico próprio, quer na ordem civil, quer na ordem eclesial, há decisões e atitudes que não podem destoar das suas origens. E os que as integram, seja na condição de Irmão, seja desempenhando alguma missão nos órgãos sociais, não poderão esquecer que, primeiro, são cristãos pelo Baptismo e membros da Igreja, que nascem como tais na Paróquia; e só depois, membros de uma Irmandade ou Confraria. E a “fraternidade” alimenta-se na Eucaristia, pela participação na missa dominical. Sem “isto”, bem “arrumado” na cabeça e no coração de cada irmão, o espírito das instituições da Igreja fica ameaçado e facilmente reduzido ao espírito do “mundo”, tornando-se iguais a quaisquer outras, em que os jogos de interesses de pessoas ou grupos se impõem. Pior ainda se reivindicam as «bênçãos» da Igreja. Espero e tenho confiança de que não é o caso das candidaturas anunciadas.

Por último, apraz-me referir que, nas actuais circunstâncias, no contexto de uma sociedade plural de crenças ou ideologias, já não se pode partir do pressuposto de que um candidato a irmão é ao menos baptizado ou perfilha os valores da Igreja. Impõe-se sempre o necessário discernimento na admissão de Irmãos.

9 de Dezembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCIX

Na continuidade do tema da «missa que não se paga», evoco o tema da subsistência das paróquias e outras instituições eclesiais. Sem criar  dramatismos, a verdade é que os horizontes não são famosos. Há tempos o nosso arcebispo primaz referiu a necessidade de novos meios de subsistência numa evolução do sistema da «côngrua ou direitos paroquiais».

Pondo de lado os preconceitos habituais e as acusações desprovidas de fundamento - quem não se esforça em viver segundo os valores do evangelho sempre estranha os procedimentos mais habituais e compreensíveis em uso nas nossas comunidades cristãs - basta reconhecer a enorme descida da prática religiosa para perceber que a subsistência das actividades da Igreja correm sérios riscos.

O que está em causa é a vivência de uma fé responsável. Libertadora que é dos ídolos - a tentação de criar deuses ao gosto de cada um é de todos os tempos - a verdadeira fé, como encontro pessoal com o Senhor ressuscitado, cria laços e implica estruturas de serviço. De modo semelhante ao que acontece em todas as outras dimensões da vida humana. As pessoas organizam-se livremente, criam grupos, estabelecem regras e dão-se as mãos para objectivos concretos.

As associações na Igreja partem sempre da adesão a Jesus Cristo. E toda a adesão tem de ser livre, porque a fé é dom e não se impõe. Logo, pertencer à Igreja é uma escolha livre. Mas, como em todas as outras esferas da vida, as escolhas implicam responsabilidade.

Quem me dera poder contar com o mesmo respeito que tenho, como homem da Igreja, para com todos os que não perfilham os meus ideais ou não se revêem nos princípios e práticas da Igreja católica! Por exemplo, quanto aos funerais, ajudaria mesmo a estabelecer rituais civis para quem não tem fé ou vive com opções religiosas diferentes ou mesmo não-religiosas. Porque reconheço que, pelo facto de se ser humano, todos têm direito a um funeral digno, respeitador da sua vida e das suas convicções. O horizonte não é animador. E compreende-se: a prática religiosa vem diminuindo, a natalidade também diminui, as convicções são menos fortes e, diz-se, a Igreja não cativa. As estruturas outrora criadas têm de ser repensadas. As residências paroquiais, por exemplo, vão sendo recuperadas para outros fins. E em tudo há um contributo notável dos leigos que até têm brio em cuidar do que os seus maiores construíram com muita fé e amor à Igreja.

Nas paróquias organizadas com a participação responsável dos leigos não é de temer o futuro. O povo de Deus sempre cresceu no meio das dificuldades e manifestou sensatez também quanto aos bens patrimoniais e às necessidades religiosas. E é disto que se trata: de uma boa organização, com o contributo de todos os paroquianos, desde que tal organização nunca tente abafar o Espírito. É que uma paróquia não é uma empresa e a organização é apenas meio e não fim.

O contributo de cada família para a sua paróquia foi e deve continuar a ser assumido como um dever. Dever de participação responsável. E não faltam paróquias em que os leigos que representam a comunidade assumem por inteiro a gestão dos bens materiais, deixando o pároco bem mais livre para as tarefas próprias da sua missão. E até contribuem para corrigir outros que ainda se julgam no direito de tudo exigir sem em nada contribuir. O que não só é injusto para com os que contribuem, como se torna abusivo e fonte de mal-estar no seio da comunidade. Se todas as famílias contribuírem para a paróquia esta subsistirá sem dificuldades porque sempre se vai ajustando à realidade. E as despesas corresponderão sempre às receitas. Há que continuar a acreditar na generosidade dos fiéis. Quanto a outras fontes de receita, elas são também procuradas para «aliviar » o contributo (a côngrua) de cada família. Há heranças que constituíram património que muito ajudou no passado. É cada vez mais residual o que as pessoas oferecem por ocasião da celebração dos sacramentos ou de outros serviços religiosos. Esses estão sujeitos a taxas aprovadas, comuns a todos. O mais importante, porém, é que os nossos cristãos tenham uma postura de fé amadurecida e responsável. Assim se evitaria tantos juízos preconceituosos e injustos dos próprios cristãos. Para os não cristãos ou «não praticantes», bastará um pouco mais de civismo e de respeito pelos que agem de modo diferente. Aqui vale o princípio bem conhecido: quem mais se queixa de que os padres só pedem são aqueles que nunca dão nada para a Igreja.

2 de Dezembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCVIII

«A missa não se paga». Esta resposta, repetida até à exaustão, acaba por fazer desanimar aquele que quer formar a consciência das pessoas em relação aos bens espirituais que, sendo de ordem diferente, facilmente são «nivelados» pelos bens de consumo no dia a dia.

Há dias fomos surpreendidos por notícia de um jornal nacional que anunciava que «o preço das missas vai subir». Referia-se à assembleia dos bispos portugueses que, em Fátima, abordaram o assunto das taxas e estipêndios em uso, manifestando vontade de que os mesmos deveriam ser revistos e seguidos em todas as dioceses do nosso país. Segundo o comunicado dos bispos, não se discutiram nem «preços» nem «aumento de 10%». Sabendo eu por experiência o modo cauteloso como estas realidades muito «humanas» são discutidas a nível da Conferência Episcopal - normalmente os assuntos são abordados uma primeira vez, maturados e só decididos em reunião seguinte, sempre com o cuidado de fazer transparecer o espírito de serviço e a caridade dos mais abastados para com os que menos podem - logo estranhei o teor da notícia, sempre sensacionalista, como convém para atrair audiências e lucros. Afinal, logo de seguida, veio o comunicado oficial, que repetia o que era já do conhecimento público: «Os Bispo s refletiram sobre uma proposta comum de taxas, tributos e emolumentos para todas as dioceses, tendo em vista harmonizar e atualizar o que já se encontra definido nas três Províncias Eclesiásticas. O assunto será retomado em próxima assembleia plenária». Não vi, no referido jornal, qualquer rectificação da notícia.

Apesar do que se afirma, é muito provável que, a seu tempo, os bispos venham a decidir o tal «aumento» de taxas. É que a última vez que tal aconteceu foi em 2008, tendo a «taxa» ou «esmola» sugerida pela celebração da missa por intenção especial, com dia e hora marcado, passado de 7.50 para 10 euros.

A questão que se põe é, primeiramente de ordem teológica: sendo a Missa memorial da morte redentora de Jesus e sendo o alcance desta universal, como dom oferecido a todos, vivos e defuntos, ela não tem preço, não é traduzível em dinheiro. Ela vale por si sem qualquer dependência do vil metal. E o sacerdote que a celebra fá-lo em nome de Jesus na oferta contínua de Si mesmo por toda a Humanidade.

Há, é certo, o costume, muito enraizado na tradição de séculos, aliás com fundamento bíblico ainda antes de Cristo, de oferecer «sacrifícios pelos mortos». E a Igreja recomenda a celebração da Missa por intenção dos que faleceram, favorecendo assim uma efectiva comunhão espiritual com aqueles que nos precederam. «Belo e salutar» costume este, o de mandar celebrar missas pelos defuntos, atitude que, infelizmente, hoje muitos descuram com prejuízos de vária ordem, o primeiro deles como sinal de arrefecimento da fé e da memória respeitosa para com os defuntos.

É verdade que nem tudo é perfeito nesta prática. Pedir uma missa pelos defuntos, reduzindo-a a uma nota de dez euros e nem lá aparecer, como que encomendando aos outros que façam memória dos «meus»... ainda que a missa seja sempre de todos e para todos.

Por outro lado, assumido o valor sem medida da missa, que, tal como os sacramentos, acções de Cristo e da Igreja, não são traduzíveis em dinheiro, importa considerar o porquê das taxas que a Igreja pede aos fiéis por ocasião das celebrações. Elas visam a sustentabilidade do serviço da Igreja aos fiéis e garantir o necessário sustento daqueles que servem na Igreja. Não sendo a única forma de garantir o serviço eclesial, o estipêndio da missa, ou seja a oferta que os fiéis fazem por ocasião da celebração que pedem por intenção própria, é uma ajuda para a subsistência do sacerdote celebrante, a quem a Igreja reconhece o direito a um estipêndio apenas por dia, mesmo que celebre mais que uma missa ou que celebre por intenções colectivas (várias intenções na mesma celebração).

25 de Novembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCVII

Desde há anos que o Arciprestado de Barcelos promove uma conferência no mês de Novembro. A morte tem sido o tema, inserido no tradicional «mês das almas», num outono propício à reflexão com as tonalidades várias das árvores que se despedem da sua folhagem.

Também neste ano 2018 tal vai acontecer. Da morte se passa para o luto, como questão a reflectir e como atitude a pôr em prática: sobretudo como ajuda a recuperar a esperança nas pessoas que passam pelo luto.

A morte é inevitável, por mais que nos alheemos de pensar nela. Bate-nos à porta a cada momento. E a nossa sensibilidade, quando ferida, reage e coloca questões. As tais questões de sentido, ignoradas na nossa cultura actual mas que, mesmo que adormecidas, sempre encontram modo de nos provocarem.

É diferente viver o luto para quem se diz crente. Este, pelo menos, não vive de horizontes fechados e, diante do drama, encontra sempre razões para a esperança. No entanto, a dor não fica resolvida, por mais forte que seja a ligação ao Deus Transcendente. Somos humanos e a morte de um ser querido dói. Mas nunca se pode dispensar o conforto que a fé cristã nos pode trazer. Saber que «desfeita esta morada de exílio terrestre, adquirimos uma morada eterna» faz toda a diferença.

Por mais que estejamos preparados para uma «morte anunciada», a experiência diz-nos que a notícia de uma morte é sempre surpresa e provocação. Temos dificuldade em «entender» a morte pois que tudo em nós é apelo à vida. Entender o ser humano que somos, na sua dimensão de mistério também, é uma necessidade cada vez mais evidente. E situa-se aqui a questão do luto pois que cada pessoa é única, como única é a relação com aquele ou aquela que morre. Assim, diremos que não há receitas para a vivência do luto pois que cada um é chamado a vivê-lo na sua verdade pessoal como na verdade da relação que mantinha com o(a) falecido(a). Os mecanismos de fuga, do faz-de-conta, adiando o luto, não deixam rasto bom. E quando não se vive o luto no momento próprio, a dor agrava-se mais adiante.

A mesma verdade na vivência do luto impõe-se na vida toda. Logo, é desejável falar em preparar a própria morte. E não me refiro apenas às razões religiosas valorizadas pelos crentes, que sabem que um dia «todos vamos dar contas a Deus». Sendo o ser humano um mundo de relações, que se devem cuidar, diante da certeza da morte impõe-se uma postura digna também perante o desenlace final. É que todos somos espaço e tempo e passamos a ser memória. E cada vida deve deixar rasto. Sim, também devemos pensar o «para além de nós» e nas consequências da nossa morte para aqueles que nos vão guardar na memória. Outrora  usava-se muito pôr por escrito as «últimas vontades», atitude sábia que se deve recuperar. Não só, mas também, quanto às disposições dos bens materiais, causa de fácil desentendimento entre herdeiros. Uma vontade escrita, sem equívocos, também pode ajudar na harmonia e paz, depois da nossa morte.

E quanto de bom os nossos bens pessoais, não só os materiais, podem ainda fazer depois da nossa morte! Faço aqui uma referência ao «testamento vital» bem como à disposição sobre o funeral, sabendo que há um respeito natural pelas «últimas vontades» manifestadas.

Lembro-me de que a diocese de Paris criou, há vários anos, um texto-modelo a preencher e entregar nos serviços diocesanos, exarando as últimas vontades sobretudo quanto à dimensão religiosa. E compreende-se porquê. Numa sociedade que se descristianiza, os nossos velhinhos acrescentam ao receio da solidão, próprio da situação em que vivem, mais um outro medo, o de que os filhos, por terem abandonado a religião, nem sequer lhes vão fazer um funeral religioso. Este é sentido como um direito, que a Igreja sempre procura respeitar. Porém, se os intermediários são os filhos, já descrentes, ou as agências funerárias, como vão eles ser respeitados nas convicções que marcaram toda a sua existência?! Também aqui, há direitos calcados, inclusive pelos próprios filhos. Mas se a sua vontade foi deixada por escrito e a Paróquia o sabe, certamente que será respeitada.

A mesma verdade na celebração do funeral se deve procurar no sentido contrário. Ou seja, também os não crentes, ou os crentes de outras religiões, deveriam ter o seu funeral «civil» mas digno, ou até ritualizado, como seres humanos que são. E verdadeiro, segundo a religião que professam. Os não crentes não devem ter funeral religioso nem os familiares o devem procurar, respeitando assim a vida do falecido.

18 de Novembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCVI

Como sempre, também no passado dia 1 fomos ao cemitério municipal. Organizada pela Confraria das Almas, participaram na procissão as diversas confrarias da cidade.

Sou do tempo em que a procissão ao cemitério, nessa tarde, se fazia rapidamente, com algumas paragens ou «estações» para uma oração breve pelos defuntos. Ainda hoje tal acontece em muitas paróquias, prática mais justificada hoje devido à falta de padres, tendo estes de repetir o mesmo ritual em quatro, cinco e mais paróquias, o que implica distribui-lo para além do dia de Todos os Santos. Também eu procedi deste modo no ano 2004. Fi-lo como continuidade de uma prática usual e também de modo a conhecer os usos e costumes.

Logo no ano seguinte, propus ao Conselho Pastoral a celebração da Eucaristia no cemitério, no exterior da capela, como acto de culto em que todos poderiam participar. Claro que tentámos preparar uma celebração condigna, num espaço que exigiu um estrado com toldo e uma sonorização que permitisse fazer chegar a mensagem aos presentes, espalhados por todos os cantos do cemitério. Tais exigências de ordem logística implicaram autorização do Município e despesas, para as quais foi pedido um subsídio à Câmara Municipal, que o tem concedido ano a ano, precisamente para que se possa fazer daquele momento um momento de interiorização e de comunhão agradecida para com os nossos familiares e amigos.

O que mais me «tocou» inicialmente foi o barulho demasiado, a conversa de «amigos» que ritualmente «tinham» de se encontrar naquele dia junto das campas dos falecidos. E pensei para mim: «o que fazer para dar a volta a isto»? De facto, o cemitério é um local de memória agradecida e, no contexto da fé, de oração de sufrágio. Reduzida a tarde ao cumprimento de um ritual, apressado até porque há outros cemitérios que também chamam e o tempo é curto, parecia-me muito pouco digno, senão mesmo ofensivo para quem se recolhe em oração, trazendo à memória a vida e os feitos dos que nos são queridos.

A colocação de vários cartazes, logo à entrada e pelo cemitério acima, cartazes que a Paróquia mandou fazer, com mensagens profundas a apelarem à consciência de um viver em qualidade, diante da morte como a realidade mais certa para todos, começou a dar resultados. Ainda hoje se mantêm. Sinto agora a necessidade de os substituir por outros, igualmente cuidados no conteúdo e na forma.

Há poucos anos questionei os meus conselheiros - acto habitual depois de qualquer actividade realizada - acerca da oportunidade da celebração da Missa no cemitério. Pus a questão porque me parecia que havia muita dispersão e que a maioria das pessoas se mantinha alheia à celebração. Era também um parar para pensar, uma maneira de levar as pessoas a questionarem-se: «porque é que não houve missa?».

Na reflexão havida, concluí que os meus reparos não eram bem fundamentados, porquanto maioritariamente os conselheiros pronunciaram-se pela continuidade da Missa no cemitério. E assim continuou até aos dias de hoje. Percebi, nessa altura, que os meus reparos provinham mais da minha insatisfação pessoal, que preparava aquele momento, e, apercebendo-me da dispersão, as pessoas faziam-me crer que falava para as pedras. Felizmente que nada se alterou. Ou melhor, «converti-me» eu ao parecer dos conselheiros. Percebi que a celebração deveria primar pela simplicidade, pela homilia mais curta e incisiva e pela adequação ao espaço e ao tempo. É que raramente dispomos de uma hora calma para a celebração, dadas as condições atmosféricas.

Quando olhamos para alguns rituais religiosos, repetidos ano a ano, pode surgir a tentação de os desvalorizarmos, porque não trazem novidade. Mas estes rituais da morte, bem como outros celebrativos dos momentos mais importantes da vida, fazem parte de uma rotina sadia, necessária para o equilíbrio individual e colectivo. São rituais que, apesar de repetidos e conhecidos, quebram a rotina dos nossos dias. E são necessários como o pão que comemos todos os dias. Infelizmente, perdido o sentido da transcendência, da espiritualidade que nos constitui, a sociedade de consumo em que vivemos tenta impedir-nos de pensar e de considerar a morte certa. Com prejuízo para todos.

11 de Novembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCV

Os estragos eram notórios e chocantes mesmo. As ruas da cidade, após a «noite das bruxas» estavam imundas. De recente imposição pela sociedade consumista, que precisa de encher todos os dias de algum «dia», para justificar aumento de vendas e, diz-se, para desenvolver e fazer movimentar o dinheiro, o Halloween situa-se bem no processo impositivo de substituição de crenças. Sim, porque as crenças cristãs são obstáculo ao obscurantismo, à superstição e levam a pessoa a pensar por si própria. Ouvi alguém sintetizar um dia numa frase simples a acção do cristianismo: «põe as pessoas a pensar». De facto, irradiar Deus da sociedade e da vida pública - onde está a sacralidade dos tempos de outrora quando os dias mais marcantes do calendário hoje se tornam «iguais» como se de trabalho fossem? – significa escancarar a porta aos deuses imaginários, que a sofreguidão vai devorando e substituindo uns por outros.

Na mesma semana três acontecimentos relevantes encheram algumas páginas de jornais:

1. Uma simples frase «até amanhã, se Deus quiser» provocou enorme burburinho nos media, ávidos de sensacionalismo, também eles vergados ao poder económico, que sacrifica a verdade.

Era a expressão habitual de uma jornalista há muitos anos. Só que feriram os ouvidos de uma «inspectora do pensamento único», certamente muito alheia às notícias da «província». Felizmente que as reacções de condenação pela postura prepotente e extremista não se fizeram esperar e foram contundentes. Será que se pode ainda esperar de certos opinion makers algum bom senso?

2. Entretanto, tal como se esperava, Bolsonaro ganhou as eleições no Brasil. E não faltaram «democratas» a sair para as ruas a contestar o resultado. Democracias «menores» no mínimo, estas para quem a «direita» apenas merece ser tolerada e aqueles que escapam ao «politicamente correcto» certamente que se tornam réus de morte. Pasme-se: os direitos humanos, que tantos dizem defender, deixam de o ser quando os adversários se tornam os preferidos. Claro que muitas ilações deveremos tirar de tantos sinais que aparecem pelo mundo a dizerem-nos que o povo está cansado. Cansado da corrupção. Cansado das ideologias. Cansado de ser enganado. E a história garante-nos que os excessos de um dos campos geram os excessos do campo contrário. As democracias não podem trair certos valores fundamentais. Quando tal acontece surgem os ditadores até pelo caminho de eleições. Pois bem, Bolsonaro teve a ousadia de começar a sua presidência participando num culto evangélico, ele que se propõe governar com «as leis de Deus», que «capacita os escolhidos».

Lembro que, no início do milénio, se repetia que o século XXI seria profundamente religioso, dando-se a emergência dos deuses. E, de facto, quanto mais laico o nosso mundo se torna, mais o sincretismo religioso impera. Deus foi expulso da praça pública: até uma cruz parece incomodar muitos. E os deuses estão aí em muitas e variadas formas. 3. Asia Bibi, uma jovem mãe de família do Paquistão, foi finalmente libertada, ela que estava há anos no corredor da morte, condenada por uma pretensa blasfémia contra o profeta Maomé. Contra ela estava todo o fundamentalismo islâmico que ainda não permitiu «tocar» na aura de santidade e de intocabilidade do seu profeta. A seu favor estava todo o mundo civilizado, que exigia a sua libertação. Finalmente o Supremo Tribunal sempre se deu ao trabalho de uma investigação séria, concluindo, como se esperava, pela inocência daquela mulher, cujo crime único era ser e manter-se cristã. A ira ou inveja de alguém levou-a à suprema humilhação. E a sentença foi entendida como um «lavar a cara» por parte das autoridades paquistanesas diante de um mundo que não se calava. Só que... o fundamentalismo não está só nas cabeças, mas também no coração. Nas ruas, sempre de fácil manipulação, continuam manifestações contra o veredicto dos juízes.

É caso para dizer que não há lugar para os cristãos hoje. Pior que isso é já não haver, nesta sociedade que criamos no mundo ocidental que rejeitou as suas raízes cristãs, lugar para a dignidade humana. Ou recusar a evidência: sem Cristo é toda a Humanidade que fica em risco de sobrevivência.

4 de Novembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCIV

Há pouco tempo radicada em Barcelos, aquela senhora brasileira procurou-me no fim de uma das missas dominicais. Queria saber como pagar o dízimo em Portugal ou «como se passa isso aqui?». Percebi de imediato que a senhora se preocupava em se integrar no meio, «cumprindo com o seu dever». E que já ali estava na missa a procurar tal integração. Tranquilizei a senhora dizendo que o mais importante era a sua presença, a buscar o pão da Palavra, um bom exemplo para todos nós, pois que juntar-se aos locais que louvam o mesmo Senhor era, para ela, o primeiro passo. Quanto ao «dízimo», disse-lhe que «as coisas em Portugal são um pouco diferentes». Convidei-a então a procurar o Cartório Paroquial para inscrever a sua família na Paróquia, contribuindo de livre vontade com aquilo que estivesse ao seu alcance, numa prática de fé comprometida com a comunidade.

Já tinha a intenção de me referir a este assunto, o da contribuição para a Paróquia, a primeira instância do pertencer à Igreja. E porquê? Porque, sobretudo entre os chamados evangélicos, usa-se e abusa-se do «dízimo», numa leitura fundamentalista dos textos bíblicos. Também em muitas comunidades católicas tal acontece, mas como modelo «inculturado» de subsistência das instituições religiosas.

De facto, entre o povo bíblico, não faltam textos a darem consciência ao povo de uma pertença com especiais deveres. O dízimo, ou décima parte dos bens recebidos, tornou-se, com o tempo, o sinal claro da pertença ao povo de Deus, carregando em si mesmo a ideia de um imposto devido à instituição religiosa e/ou aos seus servidores. Inspirado nas instituições reais dos impostos (1 Sm 8, 15-18, 1 Mac 10, 31), o dízimo adquiriu sentido religioso (cf. nota da Bíblia dos Capuchinhos a Gn. 28, 21-22). O dízimo do trigo, do vinho novo e do azeite como oferta a Deus feita anualmente estende-se mais tarde a todos os produtos da terra. Assim acontecia no tempo de Jesus, sobretudo por parte dos fariseus.

Nos tempos que correm, as comunidades cristãs têm-se ajustado à evolução dos tempos, tendo encontrado novas formas de contribuição para a manutenção das necessidades religiosas, e dos ministros do culto.

Entre nós, a primícia ou côngrua paroquial, que ainda há décadas era feita em géneros do campo - eu, jovem padre, na minha primeira experiência de pároco, ainda recebi nos dois/três primeiros anos alguns cântaros de vinho e arrobas de milho - evoluiu para um contributo à Paróquia - e não ao padre, como outrora - onde existe um Fundo Paroquial, para onde revertem todas as ofertas dos fiéis e de onde saem todos os pagamentos. Os agora chamados «direitos paroquiais» reduzem-se a uma fórmula que respeita a noção de dom recebido e partilhado, a noção de generosidade e a de liberdade de cada família que, sentindo-se comprometida, determina a quantia a doar à Paróquia, segundo uma fórmula julgada equilibrada, necessária e suficiente: um dia de salário familiar, ou seja, a junção do que cada membro de uma família ganha em um dia, feita anualmente.

Infelizmente, as paróquias sentem - e sentirão cada vez mais no futuro, assim se prevê - as dificuldades na sua subsistência. E porquê? Porque à diminuição da generosidade dos que sentem tal dever e ao menor número dos praticantes acresce ainda o número daqueles que se sentem apenas com direitos e sem deveres.

«Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor. 9, 7) foi o que avistei à porta de uma igreja católica no Brasil. E apelava ao dízimo. E acrescentava: «Porque você deve ser dizimista? Porque a Comunidade é sua». Também na vizinha Espanha a campanha para a subsistência da Igreja acontece sob este slogan: «Porque sou (Igreja), participo. Porque participo, sustento (a Igreja)». Há uma diferença radical entre grupos religiosos, que impõem o dízimo», chegando ao extremo de dizerem que «Deus dá a quem mais contribui», como se Deus se vendesse ou comprasse e o proceder das comunidades católicas.

Em matéria tão delicada, entre nós, procura-se o bom senso, traduzido num Conselho Económico oficial, que recolhe e administra as ofertas (nunca só o padre), bem como no compromisso de todos: se pertences, tens direitos e deveres. Mas nenhuma graça de Deus está condicionada ao dinheiro que tens ou não tens. Que bom seria que todos os barcelenses contribuíssem «com alegria» para o sustento da sua Paróquia de Santa Maria Maior. Porque «onde todos ajudam nada custa». Fazendo-o na liberdade e generosidade alegres.

28 de Outubro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCIII

Nas escolas e nas catequeses, onde se encontram em grupo as nossas crianças, é notória a dificuldade em concentração. O mesmo se diga no seio das famílias. E não faltam «pedagogos» a debitar aos pais as melhores soluções. E até a «classificar» as nossas crianças em termos de reduzida normalidade em relação aos parâmetros fixados internacionalmente. Fala-se de intervenção precoce perante certas «anomalias» de comportamento, num quadro de avidez de tudo «corrigir» antes que seja demasiado tarde. E também não faltam, em contraste, outros «teóricos» que classificam tais atitudes de alarmismo desnecessário.

E nós, adultos? Não se passa afinal o mesmo connosco? Não temos nós enormes dificuldades de concentração? De atenção ao momento que passa para estarmos «inteiros» em cada situação? Não vivemos nós a sofreguidão de tudo conseguir rapidamente? E não desprezamos nós a beleza do momento que passa por causa da ansiedade em relação ao momento seguinte? Não são apenas as crianças que não dispensam um «brinquedo» que ocupa todos os espaços e impede a atenção a cada momento e a cada pessoa. Estamos sem estar. O futuro atrapalha e impede o presente. E assim passamos pela vida sem verdadeiramente vivermos. Stress e ansiedade tornaram-se «doenças» que explicam os «estados de alma», às vezes até com prejuízo de um eficaz diagnóstico de uma doença física real.

Precisamos, todos, de exercícios de concentração e de autodomínio, sobretudo da mente. Não é por acaso que pululam propostas de «meditação», de «controlo» da mente, sobretudo oriundas do Oriente, esquecidos que estamos da novidade do Cristianismo.

Fazer retiro é uma proposta clássica, que atravessa os séculos e chega até aos «padres do deserto», ao monaquismo, às celas do mosteiro, onde o silêncio é rei e a alma unificada se torna capaz de uma «saúde de ferro», forjada na apreciação da beleza da vida a cada momento, sem a pressão do que vai acontecer a seguir.

Sempre a Igreja propôs estes momentos de «encontro» consigo mesmo. Porque é na interioridade, no mais profundo do ser humano, que tudo se joga. E é aí que se encontra a resposta ao anseio mais profundo e comum a todos, o da felicidade.

Que procuram, afinal, os peregrinos que, sós ou em pequenos grupos, fazem centenas ou até milhares de quilómetros para chegarem a Santiago, Roma ou Jerusalém? Quero acreditar que todos reconhecem a necessidade de um encontro mais profundo consigo próprios, traduzido numa sensação de paz, de conforto espiritual (pelo despojo do material), de equilíbrio interior, de aprendizagem de um viver diferente do que a sociedade lhes impõe.

Também eu estive uns dias de retiro. Dias para rezar, para ir mais fundo na relação com Deus, para analisar o que penso, faço e proponho aos outros. Numa palavra, ir ao centro da minha vida, suposta como centrada em Deus. Sim, porque também sobre mim, como sobre todos, recai a tentação da rotina, que retira beleza à vida. Também eu sinto a necessidade de me recentrar no essencial, em Deus, percorrendo ou peregrinando do eu, exterior e disperso, ao eu interior. Afinal, trata-se da viagem mais longa e mais difícil para o ser humano, esta de se reencontrar a si próprio. Não será isto que, num tempo de desafeição religiosa, explica o aumento do número de peregrinos?

Quantas relações conjugais seriam reajustadas evitando a separação, que tanto sofrimento traz, aos próprios e aos filhos, se o casal tivesse este cuidado de parar para olhar de modo diferente a sua relação! E não faltam propostas. E de grande qualidade. Acessíveis aos ritmos de hoje, limitados a um fim de semana. Se os casais «programassem» um fim de semana para si próprios, como casal, orientado por pessoa ou outro casal competente, a sua vida teria outra qualidade pois a rotina afecta profundamente, o tempo desgasta e a sensação de fardo insuportável leva a pensar em «dar a volta». Infelizmente não por cima, mas pelo «partir para outra», em vez de um olhar novo e diferente, capaz de reencantar.

Retirar-se do barulho que dispersa e brutaliza e procurar o silêncio que nos deixa olhar de modo diferente a vida agitada e sujeita a ritmos tantas vezes desumanos que até leva o coração a colapsar eis o que poderíamos dizer que é a sabedoria necessária para os dias de hoje. Queres ser desses sábios? Aprende no evangelho de Jesus.

21 de Outubro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCII

Não perfilho a ideia de que a Igreja está acomodada. Teologicamente não tem sentido tal ideia se pensarmos que a Igreja é o «Corpo de Cristo», o «Povo de Deus», dinamizada pelo Espírito Santo. Nunca o Espírito a deixará acomodada. Mas esta Igreja é constituída por pessoas humanas nas situações históricas concretas. Neste sentido podemos dizer que a Igreja se acomoda mais ou menos ao «espírito do mundo». E é verdade que a Igreja acomodou-se e acomoda-se bastante ao «deixa correr» e, quando tal acontece, deixa de ser fermento na massa, deixa de testemunhar a Presença do divino, de que o mundo precisa.

Olhando para esta «face humana» podemos dizer que nós, Igreja, vivemos no pecado do comodismo e resistimos ao Espírito que nos impele para a conversão, para a novidade da vida em Cristo.

No domingo passado, interpelado pela Palavra de Deus, centrada no «não separe o homem o que Deus uniu», a propósito da «dureza do coração» de que Jesus falou aos fariseus, a quem chocava a exigência de sempre, a de um matrimónio fiel e perene, quis falar o mais claro possível do ensinamento de Jesus sobre o matrimónio.

E fi-lo, ou tentei fazê-lo, deixando claro os dois pólos: a beleza de um ensinamento (vontade de Deus de um matrimónio indissolúvel) perante a «dureza do coração», traduzida em fragilidade humana.

Se, por um lado, disse, devemos pensar rectamente «o que Deus quer» e assim ensinar uns aos outros, por outro lado, os destinatários do ensinamento são homens e mulheres concretos, com a sua história de vida, porventura uma e outra vez ferida.

Se pensar rectamente o matrimónio significa destaca a sua indissolubilidade, a fidelidade de homem e mulher um ao outro e para a vida toda, a misericórdia impõe-se também como atributo de Deus a ser usada pelos homens e mulheres, chamados, todos, a um olhar de compreensão e de tolerância para com as fragilidades humanas. De facto, o mesmo Jesus que repetiu «não separe o homem o que Deus uniu», também fez consistir a plenitude da Lei no amor sobretudo pelos mais feridos pela vida. No retrato que os evangelhos nos dão de Jesus sobressaem sempre as atitudes de compreensão e de «inclusão » dos excluídos pelo judaísmo farisaico, «escravo» da Lei. E Jesus ensinou-nos a olhar para os outros não a partir de cima - o olhar que esmaga e apouca - mas de lado para dar a mão a quem precisa. Direi então que é exactamente aqui que o Papa Francisco foi revolucionário - e daí a reacção de muitos - convidando toda a Igreja a fazer um discernimento que possa integrar a fragilidade.

Ninguém poderá acusar a Igreja de que «o discurso muda mas para continuar tudo na mesma». Pensar deste modo é viver de olhos fechados à realidade e não entender nada dos processos humanos e sociais, sempre historicamente muito complexos. Aliás, não foi exactamente o facilitismo que se impôs na sociedade que mais criou o vazio existencial, inegável e dolorosamente sentido por tantos?

Quem não se sente tantas vezes dividido entre a fidelidade à sua consciência, aos seus princípios se bem sensatos, ao ensinamento da Igreja e da Lei de Deus, quando confrontado pela realidade da vida dolorosa de familiares e amigos a viverem uma separação, a fazerem um luto de uma relação falhada? E entre nós, cristãos, não são muitos os pais que vivem um claro desconforto, um desgosto mesmo, ao verem os seus filhos a «juntar-se» em vez de se casarem, ou a dizerem-se ateus, tendo abandonado a prática religiosa?

Assim, a caridade impõe-nos um olhar tolerante, que não precisa, por si só, de pôr de lado a verdade que a Igreja ensina.

Parece-me que, hoje, há muita gente «vendida» ao relativismo ético denunciado por Bento XVI. Esquece-se que, diante da adúltera, Jesus não fez da atitude errada uma atitude correcta: «Vai e não voltes a pecar». Ele convidou aquela mulher a uma atitude diferente e, não a «condenando» - Ele veio para salvar -, deu-lhe a mão para seguir na via contrária, aquela que lhe fazia recuperar a dignidade no seu viver. Não haverá hoje na Igreja demasiado «porreirismo», que abençoa o que não é abençoável e atraiçoa as pessoas que, honestamente, procuram uma via de verdadeiro encontro com Deus e não o encontram naqueles que tudo facilitam?

14 de Outubro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXCI

Decorre em Roma o Sínodo dos bispos sobre a Juventude. E a Igreja passa por uma fase delicada, como se estivesse no banco dos réus num julgamento público à escala mundial. Impôe-se ainda a figura de S. Francisco de Assis, na sua celebração anual, ele que foi um obreiro mestre na renovação da Igreja do seu tempo.

Na coincidência de tais acontecimentos, interrogo-me sobre a Igreja de Jesus. Para muitos - que não considero posição relevante, pois, ao longo da história, só fizeram barulho - a Igreja deu passos largos na sua autodestruição, num certo processo de falência há muito anunciada. Para outros - posição também cómoda mas não eficaz - o lamento e o refúgio na oração, à espera que o Espírito Santo faça o seu trabalho de «salvar» a Igreja dos ataques fortes que lhe dirigem, apenas podem tranquilizar a própria consciência, continuando a desresponsabilização há muito seguida. Onde nos situamos cada um de nós?

Olhemos para a história e consideremos os tempos de Francisco de Assis. Será que a situação da Igreja estará pior hoje do que naquela altura? Creio bem que hoje estamos bem melhor. E qual a metodologia seguida por Francisco para «consertar» a Igreja do seu tempo, também, reza a história, demasiado «mundanizada»? A da santidade. E, desde o seu gesto radical de despojamento da roupa que trazia vestida para abraçar a «pobreza», até ao viver a «poética» da alegria numa vida simples mas de profunda comunhão com Deus e com a natureza, eis que a renovação da Igreja aconteceu, deitando por terra os vaticínios dos «críticos» de então, que, de fora, esperavam assistir a uma derrocada.

A verdade é que a história se vai repetindo com ameaças e prenúncios de falência. Que continuarão, certamente.

Importa que nós, os cristãos, tenhamos a coragem da verdade e a responsabilidade do compromisso. Assim, surgem algumas questões oportunas: De quem é a Igreja? Quem a quis? Com que missão? Até quando? Qual o olhar da fé sobre a Igreja?

Como respostas simples e inequívocas, diria: foi Jesus que fundou a Igreja e lhe prometeu uma assistência permanente: «as portas do inferno não prevalecerão contra ela». Se a Igreja é de Jesus e não do Papa, se a Igreja é para o Povo de Deus a situar-se no mundo, não podemos estranhar que aconteça hoje o mesmo que aconteceu desde há dois mil anos: sempre o «mundo» a evangelizar reagiu ao «fermento» do evangelho. E a reacção é tanto mais forte quanto mais o mundo se sente ameaçado pela frescura e atracção do evangelho. Sim, do evangelho da alegria, hoje mais necessário do que nunca, para um mundo triste e tenso, distraído com o imediato e desligado ou desresponsabilizado da construção pessoal do futuro. Este mundo gerido apenas por alguns, pela alta finança e por lobis poderosos, sente-se ameaçado pela voz corajosa e forte de um Papa que tudo arrisca, à semelhança dos grandes profetas que, em todos os tempos, fizeram o mundo «dar a volta». Já repararam que, nunca como hoje , a Igreja mergulhou nas realidades terrestres, se aproximou das situações mais frágeis da vida humana, se deixou ver de perto na sua organização interna? Ora, quanto mais nos aproximamos mais nos expomos. E a Igreja pós-conciliar teve este acto de coragem, o de descer para «tocar» as fragilidades da humanidade. E vamos admirar-nos das reacções que este agir «desclericalizante» provoca? Juntemos à nossa fé - cremos que a Igreja de Jesus é animada pelo Espírito Santo - a nossa responsabilidade de baptizados: somos discípulos missionários e a Igreja sou eu na comunhão com todos os outros. Se eu procurar viver na santidade, a renovação vai acontecer.

Se a Igreja fosse uma instituição humana apenas, há muito estaria em processo de falência. Mas não. As vicissitudes históricas permitem-nos tomar consciência de que a Igreja depende da acção de cada um de nós também. Pertence-nos a nós, cristãos de hoje, reavivar a memória de um norte de África que já foi florescente em santidade e hoje se tornou islâmico, ou uma Europa que evangelizou o mundo e hoje se tornou um deserto espiritual. Para concluirmos: está nas nossas mãos a Igreja de hoje. Rezemos e não nos lamentemos apenas. Rezemos mas convertamo-nos, agindo responsavelmente como missionários que todos somos a partir do nosso Baptismo.

7 de Outubro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXC

Em 15 de Julho, p.p. foi encerrada a feira do livro de Barcelos. E coube à nossa Paróquia fazê-lo com a apresentação do livro sobre a Virgem Peregrina, documentando o acontecimento de 12/13 de Junho de 2015, em que o Arciprestado de Barcelos recebeu a visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em preparação do Centenário das aparições de Fátima.

A gentileza do Dr. Vítor Pinto, bibliotecário municipal, que muito agradecemos, tornou-se chave de ouro, como o mesmo reconheceu, pois que, fazendo memória de um acontecimento notável, se tornava acontecimento despertador para o respeito da nossa história de povo. De facto, era mesmo isso que se pretendia com a apresentação pública do livro: fazer memória e acolher desafios no presente a partir de acontecimentos memoráveis.

E esteve bem à altura D. Francisco Senra Coelho, que o prefaciou e apresentou. O lugar de Maria na história de Portugal - que ele muito bem conhece e muito bem documenta, como historiador que também é - foi tema que situou bem no contexto do que aconteceu em Barcelos naquelas datas memoráveis.

Ganhou relevância superior a apresentação de um documentário visual e sonoro, realizado por Carlos Araújo que, junto ao livro, bem pode constituir oferta valiosa a quem nos visita.

Aliás, a razão primeira para a publicação deste livro, que regista o acontecimento na sua preparação e realização e recolhe os textos então proferidos, era deixar para o futuro um instrumento que possa ajudar a memória do que somos hoje. É que o que somos hoje será, no futuro, o passado a revisitarem se o merecermos. Pelo menos, o livro e o documento visual e sonoro serão sempre elementos incontornáveis para quem se queira pronunciar com verdade sobre o povo que hoje somos.

Seria bom que cada casa barcelense guardasse tais documentos. Espalhados por todos, haverá sempre alguém no futuro que venha a recordar a nossa geração no que ela mantém de devoção a Nossa Senhora. Foi, aliás, essa percepção, a de uma alma mariana por vezes oculta nas gentes de Barcelos, que o acontecimento permitiu pôr em destaque.

Por outro lado, repetindo o que já disse, reconheço que foi a partir do conhecimento que tive da primeira visita da Imagem Peregrina, no ano de 1951, em livro que alguém me fez chegar às mãos, que foi elaborado um programa capaz de despertar a alma mariana de Barcelos e fazer sair para a rua numa noite uma multidão calculada em 50 mil pessoas.

Passados dois meses, eis-me agora a fazer chegar às diversas instituições de Barcelos, grande parte delas implicadas no acontecimento, um exemplar da edição. De facto, tratando-se de memória viva de um povo, não são as instituições que sobrevivem por séculos, para além do tempo habitual da existência de cada pessoa, os melhores lugares onde se preserva a memória colectiva?

O próprio Município honrou a sua função de promotor da memória do povo de Barcelos. Ao adquirir 50 exemplares, sem favor mas em igualdade de circunstâncias com outras publicações, ele não só contribuiu para a promoção da cultura, como também se assume depositário e curador dos momentos marcantes da nossa história. Distribuídos pelos diversos serviços ou oferecidos como algo de próprio a quem nos visita, os livros levam sempre uma mensagem a despertar a memória agradecida.

Fica-nos a todos, repito-o uma vez mais, o compromisso de não situar apenas no passado o acontecimento que o livro regista. Temos de dar vida ao acontecimento, em lições tiradas e em iniciativas nele ancoradas. Ou não aprendeu já a Igreja a valorizar sempre a religiosidade popular, como ponto de partida para a iluminação da vida dos crentes com a força libertadora do Evangelho de Jesus?

A devoção mariana, como o Papa Francisco recordou em Fátima, tem o seu lugar como caminho para o encontro com o Jesus do Evangelho, encontro esse que dará nova vida às realidades terrenas, destinadas a serem regadas pela água da Vida que é Jesus.

30 de Setembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXIX

Sempre que há um recomeço é habitual renovarem-se as expectativas, reafirmarem-se objectivos e até anunciar novidades.

Entre nós, como Paróquia que somos, iniciamos um novo ano, depois de um período de férias para retemperar forças, com uma questão já demasiado conhecida: qual o meu lugar na paróquia a que pertenço?

Sendo a Igreja, por definição, comunidade de fiéis que, pelo Baptismo, são chamados a uma missão concreta, ninguém se pode sentir na Igreja de braços cruzados como se tudo fosse da responsabilidade dos outros. As parábolas de Jesus são um constante responsabilizar a todos naquilo que é de todos. E quem mais recebeu do Senhor mais é chamado a partilhar. Na lógica da fé, tudo é dom de Deus. E sendo-o, cada dom ou talento recebido destina-se a estar permanentemente ao serviço dos outros.

É curioso que se olha para a Igreja nos tempos de hoje como uma instituição em crise profunda de identidade. Atrevo-me, no entanto, a dizer que a Igreja não está em crise. Porque a crise de que se fala não atinge só a Igreja. Atinge a sociedade no seu todo. Bastaria um olhar atento para os dados sociológicos e as conclusões publicadas a partir de estudos de opinião comparativos com tempos passados. O mundo, a sociedade está em crise. Ora a Igreja está no mundo. Logo, partilha da crise do mundo. Poderíamos dizer com certa razão que o que se espera da Igreja é que seja fermento para levedar o mundo, contribuindo, deste modo, para que o mundo saia da crise.

Mas, neste particular, impõe-se dizer que, à luz do ensinamento de Jesus, quem aponta o dedo poderá exprimir, mesmo que não se dê conta, uma atitude carregada de hipocrisia, atribuindo aos outros o mal que impressiona os seus olhos. Ora Jesus disse: não julgueis para não serdes julgados. E ainda: «a medida com que medirdes será usada para vós também». Numa palavra, antes de julgarmos o mundo que nos rodeia procuremos empenhar-nos em fazer o que está ao nosso alcance para que ele seja melhor.

Uma palavra se impõe quanto à crise. A palavra crise, ou olhar crítico, diz, por um lado, insatisfação diante do que existe, e, por outro, vontade de mudança. Neste aspecto, todas as crises tornam-se anunciadoras de tempos melhores. Será que a crise de que se fala profetiza algo de melhor?

Certamente que cada um fará a sua análise e dará o seu palpite. Penso que o cristão deve ser sempre pessoa de esperança. Logo, o seu olhar para o futuro leva esta marca de um mundo melhor que se aproxima. Mas será que o mundo já bateu mesmo no fundo para se inverter o sentido da marcha, tornando-a agora ascendente? As opiniões dividem-se. Mas eu creio que no meio de tanta nuvem negra, num mundo inseguro e reduzido a um quotidiano banal no culto do supérfluo, se estará a gerar algo de bom, de melhor.

No seio da Igreja o lugar da esperança nunca pode ser substituído. Urge despertar os nossos contemporâneos para tanta movimentação dos cristãos no sentido de gerar esperança no mundo. Talvez mais que em qualquer outra época da história, os cristãos tomaram consciência de que, se vão à Igreja, têm de se empenhar em vê-la mais de acordo com a vontade do seu Mestre, Jesus.

Este olhar positivo, muito realista aliás em certos sectores da mesma Igreja por esse mundo fora, contrasta com as notícias diárias da comunicação social que, mesmo que apontem factos relevantes, dão uma visão mentirosa ao alargarem o espaço do que é negativo, ocultando o que é positivo. Quem não reconhece que a nossa cultura mediática e massificadora está «vendida» ao capital e, sociedade de consumo que é, esquece os valores ou os acontecimentos que não dão «venda fácil»? Iniciamos um novo ano pastoral. Faço votos de que todos os cristãos se deem as mãos e se ocupem em transformar o nosso mundo, a Igreja que dele faz parte - porque está no mundo sem ser do mundo - a partir da sua própria casa e família.

Qual o meu lugar na Igreja e na Paróquia? Pergunta por vezes incómoda mas bem necessária. Não esperemos pelos outros. Avancemos a partir de nós. E demo-nos as mãos. Sem desistências pois o fundamento da fé cristã está no amor de Deus manifestado na cruz de Cristo. E Deus não desiste nunca. De Ninguém. Nem de ti. Vais tu desistir dele?

23 de Setembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXVIII

Celebrámos o centenário da morte de D. António Barroso. Os diversos actos comemorativos - que espero não tenham terminado - trouxeram à luz do dia a figura ímpar de um bispo missionário, nascido em terras barcelenses. Apraz-me deixar algumas notas sobre o assunto. A primeira delas é a do reconhecimento: de facto, há um grupo de pessoas que continuaram a pugnar para que a memória de tão ilustre figura da Igreja não ficasse no esquecimento. Olho para mim próprio: a figura de D. António Barroso era para mim desconhecida como o era talvez para a maior parte dos barcelenses, em 2004 quando vim para Barcelos, assim o julguei nos anos imediatos. Um encontro em Novembro, a juntar a uma romagem anual à sua capela-jazigo, eram os dois momentos que me chamavam a atenção. Entretanto, a Causa da beatificação, parecendo parada, dava passos. Alguém se mexia para tal e devemos-lhe gratidão.

Passaram alguns anos e surgiram diversas publicações, dando continuidade a uma «fama de santidade», que nasceu há cem anos e foi crescendo. Hoje, reconhece-se-lhe o carácter heroico das suas virtudes, o que faz esperar fundadamente que, em breve, poderemos assistir à beatificação e posterior canonização do «réu da República», como alguém lhe chamou.

Ao ouvir as intervenções acerca da vida e da missão deste homem da Igreja dos inícios do século XX, que historiadores consagrados proporcionaram ao auditório do passado dia 31 de Agosto, dei comigo a pensar deste modo: foi a República que o catapultou para a santidade ou a santidade, vivida no quotidiano de um carácter firme e corajoso, que o fez estar à altura de um confronto inevitável? Para mim, era o santo que, por amor a Cristo e à Igreja que servia, não podia calar a sua voz de Pastor.

A propósito da humilhação ignóbil a que a República incipiente sujeitou D. António Barroso - o desterro em Remelhe fez da Capela de Santiago uma «catedral», onde foram ordenados vários sacerdotes - não será razoável pensar no desgaste físico e moral que o levariam a uma morte prematura aos 69 anos? Certamente que houve prepotência, abuso de poder e vincado ódio à Igreja, que o santo bispo não tolerou. Aguentou firme e desafiou os excessos da República, apenas escudado no seu amor à Igreja e a Cristo. Afinal, ele tinha já bem gravadas na alma as agruras da missão, estando assim preparado para sofrer, muito e muito injustamente (e reporto-me às afirmações dos historiadores, fundadas na análise de documentos). Não seria de, nas celebrações do centenário da sua morte, exigir reparação? A quem? Certamente à sua memória e aos seus familiares, à Igreja e, particularmente, à diocese do Porto. Por quem? Ora, pela própria República. Há cem anos que, depois de tantos desmandos, em que, numa primeira fase se vaticinava o fim da Igreja Católica em Portugal e tudo se fazia para que tal acontecesse, acabaria por triunfar um certo bom senso e algum equilíbrio nas relações Igreja/Estado, que a Concordata de 1940 estabeleceu. Esta Concordata foi, depois revista, face a novas conjunturas políticas, tendo sido substituída por uma outra, em 2004, que gere as relações do Estado com a Igreja na actualidade. Se aquele se compromete a respeitar a acção desta, ao mesmo nível que o faz com todas as outras organizações religiosas - infelizmente alguns ainda não deixaram a velha cartilha dos «privilégios» - esta, a Igreja Católica, respeita a autonomia do Estado na gestão do bem comum e está comprometida nesse bem comum, como muitas outras organizações sociais.

E eis que temos agora um Presidente da República que se sente na praça pública como católico praticante, sem qualquer receio de o manifestar, dizendo claramente que ser católico não é impedimento para participar na causa pública. Pelo contrário, seguindo a doutrina da Igreja. Com a mesma legitimidade de um outro presidente que se ufanava de se dizer «agnóstico e laico».

Não será de esperar do nosso Presidente uma ousadia corajosa de reparar os atropelos cometidos e as injustiças da República contra um cidadão, de nome António Barroso, em breve, assim o esperamos, elevado às honras dos altares? Será isto pedir demais? Há dias, o presidente francês, Macron, reconheceu a responsabilidade do Estado francês na morte de um resistente da Argélia e mandou consultar os documentos para detectar outras injustiças. Não é verdade que as instituições se dignificam quando reconhecem erros e reparam injustiças?

16 de Setembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXVII

O domingo passado ficará para sempre na memória de muitos barcelenses. Um filho da terra, D. Francisco Senra Coelho, tomou posse como Arcebispo de Évora. E para aquela cidade do Alentejo lá rumaram dois autocarros e vários carros particulares. E valeu mesmo a pena.

É que não se tratava apenas de acompanhar e manifestar presença amiga e grata - já por si razão bem suficiente para a deslocação - mas também de participar num acto raro, com profundo significado eclesial. E os testemunhos ouvidos confirmaram-no: «nunca tínhamos assistido a algo tão belo».

Sobre a pessoa de D. Francisco, dispensam-se as palavras. Homem culto e afável, evangelizador apaixonado, de doutrina segura e de agir sensato, manifestou-se próximo de todos, empenhado na solução dos problemas, sábio nas soluções e sobretudo caloroso para com todos.

Foram quatro anos de serviço a Braga, como bispo auxiliar, que revelaram a sua estatura episcopal e a esperança que nele a Igreja põe ao confiar-lhe o cargo de metropolita das dioceses do sul. E foi próximo de todos, sejam cristãos ou não, do mundo eclesiástico como do mundo civil. Foi deste modo que o novo Arcipreste, o P. Manuel Graça, lhe dirigiu palavras de gratidão pelo carinho especial que manifestou pelo Arciprestado, pelos seus padres e fiéis e pelas gentes de Barcelos, ao terminar o último acto a que presidiu: a Eucaristia solene, evocativa do Centenário da morte de D. António Barroso, no dia da cidade, 31 de Agosto. Feliz coincidência: tendo servido a diocese, foi na sua querida cidade de Barcelos e entre os barcelenses que terminou a sua missão em Braga.

Não se estranhou que um grupo numeroso de barcelenses estivesse em Évora, no início da sua nova missão. Tal tinha já acontecido no dia da sua ordenação episcopal, quatro anos antes, a 29 de Junho de 2014. E merece destaque a presença do Município, na pessoa da vice-presidente, Dr.ª Armandina Saleiro, como tinha também acontecido em 2014. Felizmente que o Município esteve à altura dos acontecimentos, da pessoa e dos actos celebrados, honrando os cidadãos que representa. Ou não é verdade que, após as lutas partidárias, o governo é para todos e os eleitos são chamados a zelar pelo bem de todos? É lamentável que certas vozes que, por vezes, se levantam na praça pública, mas que agem sobretudo pelo atirar a pedra covarde - com que interesses corporativistas e ao serviço de que ideologias? - olhem para um acto que consideram apenas religioso, desvirtuando-o como acontecimento social, cultural e cívico. Ou não serão os crentes também cidadãos de primeira?

Mas voltemos ao acontecimento. Belo, porque bem celebrada a liturgia. Significativo, porque interpelante nos gestos e símbolos. Demorado, como se esperava, porque os grandes acontecimentos precisam de tempo para a palavra e para o silêncio. Emocionante, porque comprometedor para o futuro. Envolvente, porque toda a mensagem de Jesus, sempre o ponto de partida e de chegada, não exclui ninguém. E ali estavam não só os eclesiásticos - padres e bispos - mas o laicado, comprometido na vida eclesial ou simples crentes que olham para a Igreja e a sentem como uma Mãe acolhedora, mesmo que o discurso oficial e maioritário a carregue de rugas. Estavam, e como tal foram saudadas, as forças vivas da cidade de Évora, a começar pelos representantes legítimos do poder autárquico. Nem todos serão crentes mas o civismo impõe-se: representam um povo que também é crente.

A palavra do novo Arcebispo ecoou pela Catedral de Évora e, pela comunicação social, em todo o mundo. E foi forte o seu apelo a todos sem excepção para um novo e renovado compromisso com a evangelização, ou seja, com o anúncio da Boa Nova de Jesus num tempo e numa sociedade um pouco à deriva por ter abandonado os seus valores mais nobres, fundados na fraternidade que nos vem do acolhimento de Deus como um Pai para todos.

Sabemos que todas as instituições correm o risco de perder o fervor original da sua fundação. A Igreja de Jesus, a que pertencemos, vive e urge o confronto permanente com as suas origens de modo a nunca perder o frescor originário. A tomada de posse, que não podia esquecer a gratidão aos bispos anteriores - D. Maurílio de Gouveia e D. José Sanches Alves - foi um belo hino à frescura de uma Igreja que não envelhece com o tempo, geradora de novas esperanças para um povo que sempre deseja a presença amorosa de Deus.

9 de Setembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXVI

Éramos 18 sacerdotes e um leigo responsável na pastoral paroquial. E programámos atempadamente gastar quatro dias na pérola do Atlântico, a Madeira, desconhecida para a maior parte. Para um deles inclusive, foi “baptismo de voo”: nunca tinha feito uma viagem de avião, apesar de, mesmo em condições de saúde precárias, sempre integrar o grupo que, ano a ano, convive à descoberta da beleza paisagística ou do património histórico e cultural, criado ao longo de séculos.

Por enquanto apenas Portugal, Espanha e França foram sonhos concretizados. E certamente que apenas estes países se tornam possíveis para sacerdotes de juventude mais que testada, com dificuldades de grandes distâncias de carrinha ou de autocarro. O avião é sempre hipótese, dificultada ao exigir decisões atempadas a pessoas cuja missão, por mais que seja programada, nunca dispensa ajustes de última hora, sempre difíceis para quem tem compromissos paroquiais.

A presença de alguns mais jovens enriquece o grupo e permite partilha de experiências, sejam humanas, sejam pastorais, sempre necessárias para quem vive todo o ano sob o peso de compromissos, nem sempre contando com a colaboração necessária e desejada, e muitas vezes “aguentando” a exigência de quem se julga com direito a tudo e sem dever a ninguém.

Na visita clássica à ilha da Madeira, valiosa pela beleza paisagística e mais rápida agora com os túneis que aproximaram as populações, pudemos “incomodar” o pároco da Ribeira Brava, conhecido do Prior dos seus tempos de Paris, que, surpreendido, logo nos concedeu todo o seu tempo para um acolhimento fraterno, partilhando a sua experiência pastoral na ilha: as dificuldades e as alegrias do ministério são muito idênticas. Tinha ele, no dia anterior, olhado para uma garrafa de vinho da Madeira lá a um canto esquecida. Viu o rótulo: 1867 (?) e perguntou-se: ainda estará ela em condições de “sepultura eclesiástica”? A pergunta tinha ficado sem resposta até ao dia seguinte. Feliz lembrança a do P. Bernardino que, quando olha para 19 confrades, aparecidos sem avisar, logo encontra a resposta para a questão do dia anterior: é a hora de confirmar se aquele vinho, envelhecido de século e meio, ainda é digno de “sepultura eclesiástica”. E ali mesmo, onde acolhe as pessoas e trata dos papéis, o cartório paroquial virou “mesa dos senhores padres” a saborearem um precioso néctar, que se revelou bem merecedor da tal sepultura eclesiástica.

Não faltou ainda o encontro com um “velho amigo” de alguns, um sacerdote carmelita que tinha estado pelos nossos lados. Feliz por ver um numeroso grupo de padres a concelebrar com ele na Igreja do Carmo, onde o povo de Deus se preparava, em novena, para a festa da Padroeira. Como também o Pároco da Sé do Funchal, também ele conhecido do Prior dos mesmos tempos de Paris, agora também administrador paroquial da Senhora do Monte, a Basílica em cuja mediações se deu a tragédia, no ano passado, em que morreram 13 pessoas na queda de uma árvore. Ali, na Catedral, a presença de tantos padres foi sinal, para o povo que participava na Missa, de uma Igreja viva e fraterna.

Também não faltou o encontro com o bispo local, D. António Carrilho. Conhecido do Prior, com quem trabalhou na Conferência Episcopal, o bispo do Funchal, que, em breve passará o governo da Diocese a outro, por ter atingido os 75 anos de idade, logo nos recebeu na Cúria e nos falou de alguns aspectos da vida da Igreja naquela ilha. Certamente um momento muito enriquecedor, que até mereceu a atenção da imprensa local. Mas o encontro mais importante estava ainda por acontecer. Era mais um que, à semelhança dos anteriores, não fazia parte do programa. Sabíamos o estado de saúde de D. Maurílio de Gouveia, o grande arcebispo de Évora, que estava agora recolhido num eremitério. Conhecia-o e apreciava-o como um dos grandes bispos dos últimos tempos, pioneiro de uma acção pastoral acolhedora, firme e eficaz em terras do Alentejo, precisamente nos tempos difíceis do pós 25 de Abril. Reconheço, ainda hoje, a acção determinada de D. Maurílio na evangelização do Alentejo. Ao contrário das dioceses do Norte, cuja prática religiosa vai continuando a descer segundo as estatísticas, nas dioceses do sul a prática vai aumentando ligeiramente.

Pois bem, quando, pelo telefone, me proponho passar com o grupo para o cumprimentar, logo ele me manifesta enorme alegria. Íamos já para o aeroporto, de regresso a Barcelos. E aquele encontro foi a “cereja sobre o bolo”. Apesar de debilitado, o seu sorriso era contagiante e é ele mesmo que, sem rodeios, toca no assunto: “sabeis, padres, que todos temos uma dimensão terrena na vida e uma dimensão celeste, a da eternidade. Eu estou a passar de uma para a outra. Estou feliz. Sei o que me espera mas estou tranquilo. A doença do cancro está cá. Mas eu estou bem. Eu estou com Deus”.

A lágrima que lhe caiu, talvez abusiva, não evitou outras lágrimas da nossa parte.

Mas o testemunho de serenidade e paz diante de uma morte anunciada, esse ficou. Melhor, veio com cada um de nós.

Se o passeio deste numeroso grupo de padres não valesse pelo programa realizado, só por isto já tinha valido bem a pena. Obrigado D. Maurílio.

2 de Setembro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXV

O Papa Francisco lembrou-o quando interpelou a todos sobre «que Maria » se procura em Fátima. E numa expressão que considero muito feliz, corajosa e abrangente, denunciou a «Santinha» das nossas devoções populares não evangelizadas. Vale a pena recordar as palavras do Papa: “Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma ‘Mestra de vida espiritual’, a primeira que seguiu Cristo pelo caminho ‘estreito’ da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora ‘inatingível’ e, consequentemente, inimitável? A ‘Bendita por ter acreditado’, sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma ‘Santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjectivas que A vêem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós?”.

Lembrei-me desta interpelação quando minha irmã me falava de amigas muito «devotas» e com «muita fé em Nossa Senhora», que iam todos os anos a Fátima a pé, que até vinham de propósito do estrangeiro para o fazerem mas «não põem os pés na igreja». Numa palavra, a Palavra de Jesus, do Filho de Maria, não atravessava as suas vidas. Daí, dessa «fezinha », vai um passo muito curto para a idolatria e para a superstição.

Deixemos Maria do nosso lado, da nossa Humanidade e, com ela, saibamos acreditar no único Deus, que nos ama e nos responsabiliza no amor uns aos outros. É por esta via que se torna verdadeiro o culto especial que a Igreja tributa a Nossa Senhora, seja ela invocada como a Imaculada Conceição, Mãe de Deus e nossa Mãe, Virgem Maria ou Senhora da Assunção.

Quando a Igreja fala de Maria, situa-A na sua relação única com Jesus Cristo. Ela é mediação para se chegar ao Salvador, Jesus. Infelizmente, na piedade dos católicos, traduzida em procissões e romarias, o lugar de Maria é muitas vezes o de uma deusa, acima dos humanos, como se fosse Ela a salvadora da Humanidade, quando um só é o Salvador, Jesus Cristo. Assim, a piedade popular precisa sempre de ser evangelizada para que se torne sempre, como deseja a Igreja, o ambiente favorável para a adesão a Jesus Cristo, pela fé. É que, não o esqueçamos, religiões e cultos religiosos abundam e desenvolvem-se cada vez mais. Sem evangelho, infelizmente, pelo que aparecem sincréticos, isto é misturados com superstições e com negócios com o sagrado, já condenados ao longo das páginas da Bíblia, na história de um povo, o povo de Israel, no seu processo de libertação dos ídolos.

Olhemos com coragem para as nossas peregrinações e procissões marianas. Serão elas caminhos de evangelização que ajudam a aderir à pessoa de Jesus? Creio que o são, para muitos. Como creio que não o são para outros, estes empenhados em cumprir ritos que «tranquilizam» a consciência, encorajam perante os medos e se ajustam na «fidelidade» ao passado que receberam. Mas que esquecem totalmente a novidade que Jesus apresenta hoje na sua Igreja, esta socialmente descredibilizada, como convém a muitos sectores da sociedade.

Ao longo da semana de preparação da peregrinação à Franqueira repeti, uma vez mais, quais as atitudes crentes e devotas que respeitam o lugar de Maria na história da salvação. Como o fez o Papa em Fátima, como referi no início. E vou-me dando conta de que uma grande parte das pessoas já não estranha que eu diga «não creio em Nossa Senhora» porque lhes expliquei o que diz o Credo, no qual Nossa Senhora aparece situada no Crer em Deus (Pai, Filho e Espírito Santo), como mulher eleita de Deus, com lugar único na história da salvação. Quando digo CREIO, eu salto do meu eu humano para o coração de Deus e a minha vida é permeada pelo divino. Aliás é o que S. Paulo exprime de modo eloquente quando diz que, pela inserção em Jesus no Baptismo, cada um de nós fica «revestido» da imortalidade de Jesus e, por isso, a sua vida crente é de outro nível, que não apenas humano.

Como seria bom investirmos cada vez mais na formação para que os nossos católicos tenham gosto em professar a fé. Quando iluminados pela Palavra de Deus e ancorados no ensinamento da Igreja, vão-se os medos, recuperamos o gosto de sermos católicos, de participarmos da vida da Igreja e vivemos na autêntica esperança cristã.

19 de Agosto de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXIV

A experiência humana confirma que somos seres de contradição. A preocupação de fidelidade a valores, por mais rectamente intencionada que seja, esbarra constantemente com os prejuízos consideráveis e mesmo com o conflito de deveres para o qual se procura a saída menos onerosa, mas sempre onerosa. Mas pobres de nós, ou da sociedade, que não respeita certos princípios orientadores, qual carta constitucional, por natureza com um mínimo de durabilidade garantido.

Fomos confrontados, recentemente, com situações veiculadas como de corrupção a mancharem o comportamento julgado impoluto de certos políticos, poupados à mancha, esta sempre mais fácil quando na governação. Partidos radicais de esquerda, ao apoiarem um governo, tornam-se maculáveis, eles que falavam sempre do alto da cátedra como se nada tivessem a ver com o passado, por eles classificado como de obscurantista e corrupto. Afinal, conclui o povo, o poder corrói mesmo, à esquerda e à direita. Em artigo recente (Cristo é Fashion), que li com agrado, Clara Ferreira Alves insurge-se, e a meu ver bem, com a moda que, sempre mas mais intensamente nos últimos tempos – até nas nossas vilas e cidades não faltam os desfiles de moda e até em escolas e jardins de infância está na moda os desfiles de moda – invade tudo e reduz tudo a diversão, com criatividade mais que duvidosa.

“A moda acaba de se apropriar do reduto final, a religião. No ocidente faltava catequizar a maior religião do planeta, o cristianismo”, diz ela, depois de lembrar que até a burka islâmica, símbolo da sujeição da mulher, entra nos desfiles de moda. “A última gala, dedicada aos paramentos religiosos e à Igreja, tomou o reduto de assalto. Nesse espetáculo do poder do dinheiro de umas dúzias de multimilionários famosos, talvez a mais extravagante orgia de plumagem patrocinada pela “Vogue” de Ama Wintour e seus súbditos, vimos um desfile ridículo de celebridades carregadas de cruzes e símbolos cristãos (…). Como pôde a religião da austeridade material e do voto de pobreza render-se ao materialismo dos vendilhões?”

Volto, uma vez mais, ao fenómeno recente, das igrejas sem Deus, que enveredam por rituais semelhantes aos dos crentes. Quando, em recente viagem, contactei com uma tribo de índios no Brasil, pude comentar com os que me acompanhavam, sobre o “misterioso humano” comum a todos e como o cristianismo veio, de facto, libertar a humanidade da escuridão tenebrosa e quebrar cadeias de opressão, ao falar de um Deus que é o Pai de todos e que, em Jesus Cristo, convida a todos a uma vida de libertação pela via do amor. Aqueles índios falavam dos seus antepassados, das suas crenças nos deuses e nos “poderes” dos seus chefes para dominarem o “oculto”. Mas falaram também do processo de evangelização, iniciado com os missionários salesianos, ainda hoje continuado com os baptismos preparados, os casamentos e os funerais, eles índios, cujos filhos já frequentam a escola e até aspiram a ir para a Universidade como nos confiou uma jovem de 19 anos com quem conversámos.

“Uma Igreja sem Deus” é como se apresenta um movimento que se espalha pelo mundo, a última moda inventada pelos ateus militantes, na sua ânsia de se imporem sobre aqueles para quem Deus existe. Um movimento que, marcado pelo incómodo nihilismo, deseja colmatar as suas brechas, imitando os rituais dos crentes. Leio que este movimento cresceu de 1 a 7 no espaço de 5 anos. Porque não ver neste inicial “sucesso” uma imitação dos movimentos sectários, oriundo do evangelismo protestante e seduzidos pela sua visível prosperidade económica? Parece que o deus dinheiro se impõe cada vez mais também entre os que negam a existência de Deus. É caso para dizer que «entre uns (os ateus) e outros (seitas) – Deus sempre “reduzido” a dinheiro e a “tapa buracos” – venha o diabo e escolha».

Saber-se – e comento uma notícia do The Economist – que o movimento nasceu no “berço” da Igreja anglicana”, segundo o antropólogo britânico e especialista em humanismo secular, Matthew Engelkec, destacando alguns autores (Richard Dawkins, entre outros) que popularizaram uma visão não religiosa da vida. Os filósofos da negação de Deus terão deixado, segundo o antropólogo, os ateus órfãos de ritos e de encontros. Criaram, por isso a Sunday Assembly (Assembleia dominical), como alternativa emocional graças ao aspecto comunitário. “A natureza tem horror ao vazio”, disse-o na Antiguidade Aristóteles. Compreende-se e regista-se a constatação de que, sem Deus, fica o vazio existencial. Serão suficientes os ritos emocionais criados pelos ateus para colmatar o vazio?

A terminar, reporto-me a uma iniciativa surgida há alguns anos atrás na Igreja Católica Americana, Catholics, Come Home, para recuperar a prática religiosa daqueles que, seduzidos pelos ventos da moda, julgaram-se justificados ao abandonarem a prática da missa dominical. Também eu repito, numa altura em que não faltam sinais de “vazio espiritual” em Barcelos: “Católicos voltem à Igreja”.

5 de Agosto de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXIII

Pensava que seria a última vez. Depois de passar por todos os Caminhos de Santiago, no que diz respeito ao território da Galiza, com o Caminho do Norte pensava terminar um ciclo. Até porque as condições físicas não são sempre as mesmas.

Pensava, dizia eu. Mas já não penso. E a razão maior é a do serviço. Foi a única razão que me levou a propor à Paróquia esta actividade pastoral, repetida ano a ano, apenas interrompida num ano por razões pontuais de saúde e em dois anos em que o Santuário alvo da peregrinação foi o de Fátima em vez de Compostela.

Quando, semanas antes de Julho, hesitava em partir para o Caminho do Norte, devido ao reduzido número de inscrições, pedi parecer à equipa de apoio, que se tem manifestado incansável e sempre a gosto, vivendo o Caminho de outro modo, que não menos exigente do que caminhar cerca de 30 km por dia.

A resposta foi decisiva: não só o desejavam como já estavam preparados e com os dias contados para a partida. Claro que, diante de tanta determinação, diante de um voluntarismo tão evidente e tão generoso, desanimar seria defraudante para o pequeno grupo de inscritos.

E lá fomos 17 os caminhantes, apoiados por uma equipa de três pessoas, que tudo fizeram para que a dureza da caminhada fosse atenuada.

Começámos no ano 2007 com um pequeno grupo de 22 pessoas. No ano anterior, em Outubro de 2006, o Prior tinha sido convidado a integrar um grupo que uma agência de viagens apoiou para promover o Caminho de Santiago. Era algo desconhecido para a maior parte dos barcelenses.

Tendo experimentado o valor do Caminho, como ocasião de reencontro com a profundidade do ser humano, ou seja a dimensão espiritual e cultural, essenciais nas peregrinações jacobeias, logo se dispôs a promover o Caminho, convidando quem quisesse acompanhá-lo e criando condições logísticas a partir da Paróquia. E foram muitos os que se fizeram ao caminho.

Pelo Caminho Português foram 48 em 2008, 83 em 2009, 73 em 2010.

Em 2011 fomos para o Caminho Francês, a partir de Cebreiro. E éramos 40. No ano seguinte, 2012, fomos para a Via da Prata, começando em Verin com 33 participantes.

Em 2013, o Prior deu apoio a um grupo de 70 peregrinos, numa organização do Município de Barcelos, que se empenhou em promover o Caminho. Para o Caminho Inglês, começando em El Ferrol, com 35 participantes, fomos em 2014;

Em 2015, de 24 a 28 de Junho, éramos 36 pelo Caminho Primitivo;

E em 2018, éramos 20 no Caminho do Norte, desde Ribadeo, onde começámos a caminhada na quarta-feira, dia 4 de Julho passado.

Para Fátima fomos também a pé com 33 peregrinos em 2013 (13/14 de Julho e 9/13 de Agosto) e em 2017 seguimos o Caminho do Tejo, desde Lisboa a Fátima e éramos 15.

Pensava eu, Prior, responsável primeiro dos diversos grupos, ficar por aqui, pois considerava o último Caminho, o do Norte, como termo de uma etapa na vida pastoral, havendo muitos outros «caminhos» pastorais. Porém, na avaliação feita, tenho de reconhecer que há vontade de mais, por parte dos que me acompanharam neste último caminho. E falou-se do Caminho da Costa e no Caminho Francês como hipóteses, desconhecidos por muitos. Tenho de reconhecer as mais valias do Caminho, naquilo que é o objectivo mais verdadeiro do mesmo: a dimensão espiritual e cultural. Desta vez, talvez mercê da geografia do caminho em si (o do Norte), com vários troços favoráveis à contemplação, ou talvez por ser um grupo mais pequeno, pudemos dispor de momentos mais intensos de diálogo e de oração, bem como de visitas culturais. Evitamos a preocupação de «fazer» quilómetros, reduzindo a caminhada a menos de 30 Km/dia. Não sendo possível fazer os cerca de 190 Km, pois dispúnhamos apenas de cinco dias de caminhada, pudemos escolher os trajectos mais significativos, culturalmente e espiritualmente falando, dada a facilidade de nos deslocarmos nos carros de apoio. Quanto ao futuro, parece-nos haver condições para «apurar» a experiência do Caminho, como Caminho espiritual. E é apenas nesta vertente que o Prior investe para aqueles que quiserem ser peregrinos.

O Caminho de Santiago teve um desenvolvimento demasiado rápido entre nós. E não faltam apetências menos respeitadoras da sua índole religiosa e cultural. Sirvamos o Caminho. Não nos sirvamos do Caminho de Santiago.

29 de Julho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXII

Nasceu para se realizar todos os anos. Mas nasceu, como tantas outras iniciativas, sujeito a uma análise permanente, de modo a não se cair na rotina. Daí que sempre, ano após ano, a minha própria avaliação pessoal é confrontada com a avaliação de muitos outros: o que esteve bem e se deve continuar; o que não esteve bem e se tem de corrigir ou abandonar; o que, sendo bom, é susceptível de ser aperfeiçoado.

O Dia da Paróquia nasceu não como uma actividade mais mas para ser um Dia de Família, de encontro agradável de todas as famílias da Paróquia a uma mesa comum. E desde a primeira hora - foi em 10 de Junho de 2007 o primeiro Dia da Paróquia a convite do Prior actual - que se insiste na presença de todas as famílias inscritas (recebem, ainda hoje, um convite por escrito), de todos os grupos e movimentos, confrarias e irmandades. É que ser família tem também os seus rituais próprios. E faltar «destoa» e «fere» a família. Por isso, ainda hoje, se insiste na presença das famílias, por direito e dever, e se ajuíza, pela presença no Dia da Paróquia, o grau de fraternidade e de comunhão que existe ou não existe na Paróquia.

Também desde a primeira hora se decidiu - e se manterá por enquanto - que o almoço seria oferecido pela Paróquia, pedindo-se apenas um contributo para as despesas, entregue no ofertório da Missa, acto central do Dia. E ano a ano nos damos conta de que um significativo número de famílias presentes é de reduzidas possibilidades económicas, ajudadas mesmo pela Equipa Sócio-Caritativa, que, de modo algum, estariam presentes se lhes fosse pedido para levarem farnel. Felizmente que não tem faltado o sentido de partilha quando uma grande maioria de famílias leva e entrega bens alimentares para as sobremesas. Também neste ano tivemos, a 17 de Junho, o Dia da Paróquia. E convocamos os paroquianos para a Casa Clementina Rosa, em Sandiães, propriedade doada à nossa Paróquia pelos paroquianos Manuel da Silva Esteves e sua esposa Gracinda, nossos benfeitores, a quem todos nos devemos sentir muito gratos.

Foram cerca de 220 as pessoas que se sentaram à mesa, preparada por uma equipa de cerca de vinte voluntários, sob a orientação cuidada e dedicada do Armando Carvalho e do Manuel Gonçalves.

A minha avaliação pessoal levou-me a hesitar se sim ou não repetiríamos no próximo ano o Dia da Paróquia ou, a fazê-lo, se manteríamos o figurino conhecido. Felizmente que a hesitação deu lugar a uma certeza: vamos continuar com o Dia da Paróquia em Sandiães. Porquê? Porque quer a equipa de trabalho - sempre os mais sacrificados de ano para ano com menos forças físicas e a acusarem cansaço natural - quer o Secretariado Permanente do Conselho Pastoral, que avalia a vida da Paróquia constantemente, foram unânimes em reconhecer que o Dia da Paróquia faz falta, tem o seu lugar próprio e as «deficiências» notadas são corrigíveis e fazem parte do ritmo da família que somos. Ora, se quem trabalha está disposto a continuar... porque o espírito é mesmo de voluntariado e leva a marca do amor de Jesus... logo o Dia da Paróquia vai continuar com o almoço oferecido a todos os participantes. Claro que a equipa merece bem que se criem melhores condições para que haja cadeiras, mesas, pratos e talheres para todos... sejam 200 ou sejam 400.

De facto, não é de bom tom aparecer só no dia em que a Paróquia nos dá de comer de graça - nem pagamos nem temos de cozinhar - ou até ficar de lado sem uma participação na Eucaristia, que é e será sempre o acto central do Dia - apesar de sempre se insistir que quem não participa na Eucaristia não é contado para o almoço - ou então, contarmos com 140 pessoas inscritas e aparecerem 220 - com o natural nervosismo de quem se encontra junto das panelas ou da dispensa.

Mas nada disto, assim se avaliou, é suficiente para pôr em causa o quanto de maravilhoso se consegue quando nos juntamos em família paroquial, ocasião para nos conhecermos melhor, até nas brincadeiras que apreciamos uns nos outros. Corrigindo alguns aspectos de pormenor - lá voltaremos às inscrições e «senhas» de entrada - o local será o «nosso», em Sandiães, o que nos vai obrigar a criar algumas condições logísticas de modo a tornar o espaço mais aprazível, em contacto com a natureza, sempre necessário e oportuno para um convívio sadio.

Bem desejaríamos encontrar mecenas que nos permitissem as obras necessárias na casa em ruínas, cujo projecto de obras foi já aprovado, de modo a que as nossas famílias e grupos da Paróquia possam dele um dia vir a usufruir, crescendo na fé e numa relação humana sadia, por onde passa o anúncio de Jesus Cristo.

22 de Julho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXXI

Participei na ordenação sacerdotal do P. Ricardo André, um jovem que, de Gamil, encontrou na missão ad gentes o seu caminho de realização humana. E a Gamil voltou, depois dos estudos feitos e do seu estágio em terras de missão, na Bolívia, para a sua ordenação sacerdotal. Escolheu a sua terra, que esteve bem à altura de um acontecimento único, para pronunciar o seu sim definitivo ao serviço do povo de Deus, prometendo obediência e reverência ao Superior dos Padres Espiritanos, em cuja congregação se inseriu e com quem se comprometeu.

Não é um acontecimento vulgar nos dias de hoje. Por isso, ele tornou-se, e bem, ocasião para se falar de vocações, de serviço e de missão na Igreja. E o povo de Gamil aproveitou a ocasião para se deixar interpelar pela causa nobre do evangelho de Jesus.

Também eu vivi o momento com emoção. Será possível não se deixar emocionar numa cerimónia tão bela, tão única e tão comprometedora? Não só para o ordinando que, prostrado por terra, «sente» a intercessão dos santos suplicada pelo povo de Deus para que a sua missão seja exercida sem peso excessivo, enquanto ele toma consciência daquilo a que generosa e corajosamente se entrega. Mas certamente para todos, cada um na sua condição. Para mim, recordando igual momento vivido já lá vão 41 anos, nesta altura em que os sonhos perderam força ao tornarem-se realidade, gratificante e dolorosa ao mesmo tempo, e se nos é pedido constantemente a renovação de compromissos na fidelidade ao mesmo Senhor que nos chamou.

Trata-se de um momento único, recomendado a todos. Até porque a experiência nos diz que a vida é grandiosa quando vivida como dom, gasta ao serviço de uma causa, atitude hoje tanto mais necessária quanto a nossa cultura é convite permanente ao descartável, provisório e descomprometido. Certamente que os que casam também sonham com o «seu» momento, a «sua» festa, que preparam cuidadosamente. E a celebração procura exprimir a profundidade e a seriedade do acontecimento que compromete. Nada, porém, comparável ao que se passa numa ordenação sacerdotal em que, de certo modo, a assembleia é «envolvida» e «sente» que Deus está presente e actuante.

Até a Bolívia estava presente e se fez sentir presente. Porque o estágio pastoral do P. Ricardo André decorreu naquele pós latino-americano e nele se vai continuar, ao menos nestes primeiros anos de sacerdócio. Uma maneira de dizer que o padre não se ordena para ele próprio nem se trata da sua realização pessoal posta em primeiro lugar. O padre ordena-se para o povo de Deus, seja ele qual for e é ao serviço do povo de Deus que ele consagra a sua vida.

Presenciei e apreciei a alegria do povo de Gamil ao lado do P. Ricardo. Era, e é, um filho da terra. Que, pela missão a que se dedica, rasga as fronteiras da sua freguesia e as alarga às periferias do mundo. Porque, de facto, onde estiver o P. Ricardo é Gamil que estará. E o povo demonstrou que assim o sente e o aprecia.

A mesma congregação espiritana - que, em Barcelos, se mostra no mais que conhecido Seminário da Silva - vai gerar um outro padre no nosso concelho. E repetir-se-á a oportunidade para os barcelenses de participarem neste momento único. É que, a 9 de Setembro, será ordenado sacerdote o também membro dos Missionários do Espírito Santo, o diácono José Carlos Ferreira Pereira, natural de S. Miguel da Carreira, em cuja igreja paroquial decorrerá a cerimónia de ordenação. Também o José Carlos se aventura num estilo de vida que sonhou e que acabou por testar, ao fazer o seu estágio pastoral em Taiwan, para onde se dirigirá como sacerdote missionário.

Há dias fui surpreendido - e com imensa alegria o digo - quando, após a missa, uma avó me apresenta o seu netinho, de oito anos, e me segreda baixinho: «ele anda a dizer que quer ser padre». Não tão baixinho que o miúdo, vivo e sagaz, não desse conta para, de imediato, corrigir a avó: «eu já digo isso desde os 5 anos». Certamente que esta intervenção quis significar para ele um compromisso diante do Prior. Era o João Pedro, a quem eu desejo que desenvolva «o dom que nele começou». De igual modo, lembro o Tiago Afonseca que vai mantendo, assertivo e em público, a sua decisão de um dia ser padre. Ainda só tem 13 anos: oxalá os meandros da vida não o desviem do seu ideal e ele o saiba levar à maturação. Há ainda o Guilherme, que acompanha a mãe no ministério da Comunhão na Paróquia e que diz com orgulho que vai a duas e três missas. Quem sabe se não será por estas vias que Deus continua a chamar…

15 de Julho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXX

Não foi a primeira vez. Gosto de falar, na homilia, olhando para as pessoas e percebendo que me estão a seguir com o pensamento. E este vai correndo, espero eu que fiel à mensagem dos textos comentados e à vida concreta das pessoas. Nem sempre sou feliz no modo como me exprimo. Mas sinto ser muito difícil para mim estar a dizer um discurso sem o sentir. A minha preocupação é sentir o que digo para que haja verdade no que proclamo.

«Deviam ir todos para a cadeia». Esta expressão, que usei na homilia, surge no contexto do evangelho de Marcos em que Jesus é tomado como louco, ou «fora de si», a ponto de causar preocupação nos seus parentes. Para os escribas do tempo, Ele expulsava os demónios como aliado do demónio. Claro que Jesus reagiu forte e falou do pecado imperdoável, o da blasfémia contra o Espírito Santo, que podemos entender deste modo: no respeito total pela liberdade com que nos criou, o Deus da Misericórdia torna-se incapaz de perdoar a quem rejeita o seu perdão. Ou seja, a chave do coração humano, que Deus quer ocupar, só a tem o próprio.

O «todos para a cadeia« situa-se no contexto de uma notícia surgida dias antes nos jornais: a «Irmã Beatriz», uma vidente de Barcelos, terá extorquido avultada quantia a um casal de idosos, prometendo-lhes fazer voltar o filho, que os terá abandonado. A Judiciária deteve-a. Vamos esperar pela sentença do juiz.

Confesso o quanto me revolta saber como a ignorância é explorada e o abuso da boa fé de pessoas simples cresce conforme a habilidade e desonestidade de donas dores, mestres alves, professores karambas e outros desavergonhados, numa sociedade que, idolatrando o dinheiro, deixa as pessoas vazias, não só nos bolsos, mas sobretudo no coração.

Ouso dizer, e repetir publicamente, que o abandono da prática religiosa, em que a Palavra de Deus, proclamada com firmeza, se torna o alimento necessário para uma conduta alegre, sem medo e comprometida, contribuiu de maneira evidente para este «submundo» de esoterismos em que se explora o «mistério» da fragilidade humana. Afinal, todos precisamos de respostas sobre o «transcendente». Porque não se é feliz apenas de barriga cheia. E a fé cristã é, por natureza, libertadora de medos, gerando confiança e alimentando a esperança, de que todos precisamos.

«Devam ir todos para a cadeia», disse-o porque se trata de exploração ignóbil, de engano e abuso. E sinto revolta diante da resposta cobarde: «se lá foram foi porque quiseram». Se esta resposta é verdadeira, ela denuncia também o grau cultural da sociedade em que vivemos, «carregada de canudos», farta de informação mas na qual cada pessoa se sente incapaz de gerir com dignidade o seu próprio eu. Porque se faz acreditar que a vida é apenas cada momento que passa e nada mais. E nós precisamos de mais do que da satisfação das necessidades corporais e de diversão permanente para «esquecer as mágoas». Eis o caldo cultural onde bebem todos os espertalhões, corruptos e abusadores dos incautos. Sem balizas de ordem moral - Deus é dispensado, a Igreja é descredibilizada, os sistemas judiciais não funcionam a tempo e só o fisco é zelosamente e até imoralmente eficaz - cada um usa a sua esperteza para «sugar» o pobre. Só com um cuidado: que não dê conta de que o enganamos ou, se tal acontecer, que seja muitos anos depois...

A notícia foi ocasião para, uma vez mais, apelar ao valor do Baptismo, que fez de nós um povo crente: os seus rituais dizem com clareza que deixamos, nesse momento, o reino das trevas, dos demónios e dos espíritos, para darmos entrada no reino de Deus, que é reino de luz, de paz, de liberdade. Ou seja, porque não cuidamos da nossa adesão à pessoa de Jesus, vivendo o que aconteceu no nosso baptismo - que ridículo é aquela expressão do «católico não praticante», a chocar com uma sociedade em que a religião não se impõe e ou se vive e podemos dizer-nos católicos, ou não se vive e deixamos de nos dizer católicos - continuamos agarrados ao «reino dos demónios ou espíritos» e lá vamos recorrer às «pessoas de virtude». Ridículo simplesmente. Mais ridículo ainda quando se sabe que até gente com títulos de mestres e doutores andam por tais bandas. E os tais espertos a rirem-se da sua estupidez. Libertem-se. Pela cultura e pela fé em Jesus. Ninguém tem poderes. Só tu podes «abrir ou fechar» o coração à Verdade. Para as dores físicas, os médicos preparam-se durante anos a estudar. Para as doenças do espírito, temos os psicólogos. Para as doenças espirituais, temos os padres. Todos se prepararam para poderem ajudar na procura das respostas adequadas.

8 de Julho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXIX

Era expectável. Já dessa possibilidade se falava há quatro anos, aquando da sua ordenação episocpal, em Évora. D. Francisco Senra Coelho acaba de ser nomeado arcebispo de Évora, a arquidiocese onde se formou e onde exerceu o seu ministério sacerdotal.

Após quatro anos como bispo auxiliar de Braga regressa, agora, como arcebispo à sua querida arquidiocese de Évora.

Se para o povo de Deus de Évora é motivo de júbilo, já o mesmo não se passa para o de Braga. E particularmente para as gentes de Barcelos, a «sua» terra, apesar de ter nascido em Moçambique. E porquê?

É justo reconhecer que, ao longo de quatro anos, D. Francisco se impôs como um dos bispos de forte personalidade, alicerçada num saber teológico e histórico, numa espiritualidade vivida e «testada» nos Cursilhos de Cristandade, movimento que, ao longo de décadas, tem dado à Igreja muitos cristãos de fibra, militantes e empenhados na renovação das paróquias. Sabemos como esta escola foi alimentada por D. Francisco, que dela também bebeu e levou além fronteiras nacionais. Um homem de saber teológico profundo, bom conhecedor dos meandros por onde a Igreja foi «sal» e «luz», de relação fácil e afectuosa, capaz de cativar à direita e à esquerda, bom mediador de conflitos sem permitir que se ponha em causa o que é essencial, comunicador nato e de verbo fácil, certamente que se compreende que sacerdotes e leigos de Évora o desejassem como o seu pastor. Para lá volta, estando a tomada de posse prevista para 2 de Setembro.

Dizia que o ganho de Évora significa uma perda para Braga e sobretudo para Barcelos. De facto, vimo-lo, desde há quatro anos, sempre presente e empenhado, próximo dos padres - quase nunca faltava a uma palestra mensal nos arciprestados que o Arcebispo lhe confiou - e do povo de Deus, particularmente nas visitas pastorais que lhe permitiram, em pouco tempo, uma percepção da realidade pastoral desta Igreja de Braga, aliás bem diferente da do Alentejo. Muitas vezes, mesmo antes de ele ser bispo, falávamos da realidade pastoral do Minho em confronto com a do Alentejo, confirmando a ideia de que, desde há décadas, o Alentejo adquire uma vivência da fé cristã mais qualitativa e mais quantitativa, ao contrário das dioceses do Norte.

Correram-nos de feição as coisas, dado o amor às gentes de Barcelos, de que sempre se orgulhava publicamente. Não havia acontecimento arciprestal em que D. Francisco não estivesse presente. E o último acto antes da sua nomeação para Évora foi exactamente na segunda-feira passada, acompanhando os padres de Barcelos no seu passeio anual a Cernache do Bonjardim em homenagem a D. António Barroso e São Nuno Álvares Pereira. Como também já tinha sido ordenado bispo em 29 de Junho de 2014 rodeado de gentes de Barcelos, que a Évora se tinham deslocado, acompanhando a sua família em momento tão significativo e tão solene. Como será também em Barcelos que, assim o esperamos, terminará a sua missão entre nós: antes mesmo da sua tomada de posse de Évora, está prevista a missa solene no centenário da morte de D. António Barroso, a celebrar na Igreja Matriz, no dia 31 de Agosto, dia da cidade.

A nossa Paróquia de Barcelos não esquecerá nunca a sua presença habitual - antes mesmo de ser bispo, nas suas deslocações a casa da mãe, era em Barcelos que gostava de celebrar a Eucaristia - nos seus grandes momentos, nem nunca esquecerá a sua presença sábia e empenhada numa efectiva comunhão de realidades pastorais. A sua intervenção oportuna e firme em momentos mais delicados deixou claro para os barcelenses, incluídos os membros do Conselho Pastoral e as Confrarias, que na Igreja «não vale tudo».

Ao vê-lo partir, damos graças a Deus pela Igreja que somos e que ele serve. Sabemos que a sua passagem por Braga deixou grandes marcas que o tempo se encarregará de valorizar. E vamos corresponder ao seu pedido, na hora da sua nomeação, de o acompanharmos na oração, nesta nova etapa da sua missão episcopal.

Certamente que teremos a alegria de o ver regressar de vez em quando a esta sua terra de Barcelos. Que mantém todas as portas abertas para o receber.

1 de Julho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXVIII

Reuniu o Conselho Pastoral da Paróquia. Somos quarenta no total. Todos com a missão de, como representantes da realidade diversificada da Paróquia, aconselhar o Pároco na acção pastoral.

Que tema propor para a reflexão dos conselheiros presentes em número de 35? Olhando a realidade eclesial e a missão da Igreja no mundo e tendo em conta a importância da família para o mundo e para a Igreja, propus que nos debruçássemos sobre a Carta Pastoral do nosso Arcebispo Construir a casa sobre a rocha. Pedi a todos que a lessem antes, bem como escritos e reacções surgidas a propósito do discernimento pedido a todos no que toca aos divorciados que voltaram a casar e a quem está vedado o acesso à comunhão eucarística. É um tema candente, a nível da Igreja universal e o Papa Francisco ousou propô-lo à reflexão de toda a Igreja, tendo, para o efeito, convocado dois sínodos, de onde extraiu o que seria o conteúdo da Exortação Apostólica A Alegria do Amor, que abriu algumas possibilidades no acesso à comunhão eucarística de tais pessoas. Se o primeiro passo confirmar a validade do matrimónio, resta apenas um caminho de discernimento, em processo e acompanhado, que pode levar a uma de três conclusões possíveis: não comungar, comungar ou não comungar por enquanto. A via do discernimento proposta pretende levar a um caminho de conversão, de reparação de injustiças, de perdão mútuo dos cônjuges e aos filhos, se os houver, tendo em conta também as pessoas envolvidas na nova união.

A intuição do Papa já fez correr muita tinta e provocou aplausos e condenações. Foi atitude ousada, para certos sectores, só possível a um homem da envergadura de Francisco, da sua profunda espiritualidade e da simplicidade com que desenvolve o seu ministério. Mas, não duvidemos: a «novidade» que é a via do discernimento não se afigura fácil, muito menos atraente. E só gente séria e humanamente madura a seguirá. Eu acredito que serão poucos mas, com o tempo, muitos ousarão seguir por esta via. A Igreja sempre atravessou as tempestades com confiança no Senhor porque nEle busca a força nas dificuldades.

Depois de uma abordagem sobre o «estado da Paróquia», sempre oportuna pois permite olhar a vida da nossa «casa» e da oportunidade do que se vai fazendo, sempre na intenção de fidelidade ao Espírito, mas também na atenção às necessidades espirituais, passámos ao diálogo sobre o tema. Tive ocasião de expor a «novidade» sobre o assunto e como o nosso Arcebispo traçou linhas de orientação na sua Carta Pastoral, que surge na sequência da Exortação do Papa e procura concretizar o célebre capítulo 8: «Integrar, discernir e integrar a fragilidade».

O ponto de partida foi recordar a disciplina da Igreja, que vinha do Papa João Paulo que, na Familiaris Consortio (22/11/1981), falou dos «casos difíceis» e das «situações irregulares». E enumerou cinco: a) Matrimónio à experiência, que a Igreja não pode admitir: b) União de facto, sem qualquer vínculo religioso ou civil; c) Católicos unidos só em matrimónio civil; d) Separados e divorciados que não se casam de novo... «sem que exista obstáculo algum na admissão aos sacramentos»; e) Divorciados que se casam de novo.

A primeira constatação do Conselho foi a de que das cinco situações referidas, só uma (os separados ou divorciados que não se casaram de novo) podem ter acesso aos sacramentos da confissão e comunhão eucarística. A segunda foi a de que o Papa e, no seguimento dele, o nosso Arcebispo, referem-se apenas aos «divorciados que casaram de novo». Assim, todas as outras situações, normalmente esquecidas, continuam como outrora: não podem comungar. E talvez a pastoral da Igreja se tenha concentrado exclusivamente na questão da negação da comunhão aos divorciados recasados.

Há uns anos atrás convidei vários casais nestas circunstâncias para lhes garantir que continuam a ter lugar na Igreja. Fi-lo porque esta foi e é a posição da Igreja. Reconheço, no entanto, a desmotivação, pois foram muito poucos os que acederam vir dialogar e apenas consegui alguns casais até à terceira reunião.

O caminho do discernimento sério é a via que o Papa apontou e que o nosso Arcebispo se propõe trilhar. E apontou já equipas disponíveis para ajudar as pessoas em tais circunstâncias.

Quis que o Conselho Pastoral dialogasse sobre este assunto para conhecer bem o que a Igreja anuncia oficialmente e que, deste modo, possam tornar-se agentes de ajuda no encaminhamento das situações de fragilidade para os locais próprios onde possam ser ajudados a «integrar a fragilidade» na sua vida de fé.

24 de Junho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXVII

Interrogar-se sobre o modo mais eficaz de dizer e propor a verdade de Jesus é dever de todos os discípulos. Com mais razão ainda dos padres. E isto sem deixar de ter em conta uma dupla fidelidade: a Cristo e ao povo de Deus, sujeito e «objecto». É que a Igreja é instância de mediação e não fim em si mesma. Está ao serviço de Cristo, razão de ser da sua existência. Mas está também ao serviço do povo a quem Jesus envia.

Nunca foi fácil propor uma mensagem que é exigente precisamente pela qualidade da mesma. Sabemos mesmo que, na vida, qualquer produto de qualidade custa mais do que o produto banal. Proclamar a Boa Nova, que Jesus deixou destinada ao coração de cada pessoa, não é hoje, nunca o foi e não o será nunca tarefa fácil. Estamos todos avisados pelo próprio Mestre.

Nas imensas reuniões, discussões e propostas, o que se procura é dizer Verdade com Fidelidade. Supõe-se, pelo menos. A tentação de dizer o mais fácil é de todos os dias. A plêiade de mártires ao longo da história diz-nos que vale a pena lutar, tantas vezes apenas com a esperança de que, um dia, nos compreenderão.

Vem isto a propósito do que tenho reflectido nos últimos tempos sobre baptizados e a tentativa, sempre presente, de não esconder o compromisso assumido por pais e padrinhos para se «fazer um cristão». Sempre fui ouvindo dizer que «não vale a pena» remar contra a tendência natural das pessoas ou contra hábitos instalados. Mas, afinal, não é Cristo, hoje e sempre, a melhor proposta de vida? Que fizemos dele para O tornarmos insípido, sem capacidade de atrair para Ele os jovens de hoje? Eu não acredito que Jesus tenha perdido a capacidade de seduzir para Ele. Eu não acredito que o Evangelho de sempre tenha perdido a força salvadora nos nossos tempos. Se não está em Cristo, ou no seu Evangelho, ou mesmo na Igreja a causa do abandono da prática religiosa, certamente que a causa estará do lado de alguém. Quero assumir que está do nosso lado, isto é de todos aqueles que têm a missão de evangelizar... todos os baptizados, afinal.

Já lá vão 14 anos - muito tempo de facto para se verem alguns resultados positivos - que expliquei, alto e bom som, a todos os que me quiseram ouvir, que o Baptismo é compromisso com a pessoa de Jesus, a descobrir na comunidade. E como tal pus exigências. Que incomodaram muito e muitos. Como ainda hoje acontece. Mas, afinal, não dizemos que os tempos novos são de adesão, de compromisso, numa sociedade onde todos somos livres e a fé ou religião não se impõem?! Se ninguém é obrigado a pertencer a esta ou àquela paróquia - deixo que escolham - porque terei eu de satisfazer pedidos de rituais de desconhecidos, sem qualquer vínculo à comunidade? Dir-me-ão que todos têm «direito» a baptizado. Mas, se há direito tem de haver dever. A que título eu tenho dever diante de um desconhecido? Apenas o da caridade, claro. Mas não será a verdadeira caridade dispor-se ao anúncio da Verdade de Jesus, de modo a que seja desejada e acolhida? Quem nos autoriza a inverter o mandato de Jesus: «Ide e fazei discípulos». De todas as nações. Quem acreditar seja baptizado». Que «direito» temos nós de dispensar o acto de liberdade de cada pessoa de dizer sim ou não diante da proposta do evangelho de Jesus? Porque, de facto, é disto que se trata: propor a Verdade do Evangelho exige muito tempo, esforço e dedicação. O processo humano de aderir seja a quem for não dispensa o discernimento, que exige tempo.

Este comentário tem o seu enquadramento. Celebrámos há dias o Crisma de cerca de 90 jovens e adultos. Depois de uma preparação cuidada, a possível, em contacto pessoal com cada um, pude apreciar e dizer: temos ainda um bom grupo de jovens sérios que aceitam que se lhes diga a verdade, mesmo que esta seja exigente. Posso acrescentar até, mais ainda quando ela é exigente. Não será que o «porreirismo» e a religiosidade sem ser trabalhada pelo evangelho alimentam apenas o «institucional», a cristandade que até dizemos que já passou? Claro que não passou pois continuamos a alimentar necessidades religiosas quando todas as nossas energias pastorais deveriam ser canalizadas para o anúncio do evangelho todo, sem contemplações estratégicas. Cristo precisará de adereços conjunturais para chegar ao coração?

Foi por todos apreciado o gesto de D. Francisco Senra Coelho, ao dirigir a cada um, finda a crismação, uma palavra personalizada que cada crismado certamente registou. Levou mais tempo, claro, mas valeu a pena, como foi reconhecido.

O empenho dos pais foi notório. A presença dos padrinhos foi valorizada. Até porque foram os crismandos a decidir quem seria o padrinho a escolher: aquele que, crismado também, soube estar presente no acompanhamento da vida da fé. Dou graças a Deus por começar a ver frutos da firmeza mantida: o padrinho de Baptismo, porque vai ser mandatado para uma missão eclesial, tem de estar iniciado na fé (baptizado, crismado e eucaristizado). Para uma missão «civil» não precisa de vir à Igreja. E se não é crismado quando é padrinho de Baptismo, será rejeitado quando o afilhado, adulto (ele não será sempre bebé) o rejeitar na celebração do Crisma. Que bom encontrar testemunhos de pessoas que dizem: se soubesse o que sei hoje nunca escolheria fulano para padrinho do meu filho...

17 de Junho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXVI

Desta vez foi numa quarta-feira à tarde. O sacerdote tentava entrar na cidade. Barrado por causa de uma prova desportiva, tenta o possível para chegar à missa das 15.30. Meia hora depois tem de desistir. Entretanto, lá fui de «bombeiro» enquanto as pessoas pacientemente esperavam. Aquela centena de pessoas, que ali se reúne todos os dias na Igreja do Terço não conta nas decisões dos «donos disto tudo». Noutras ocasiões são os casamentos e baptizados, certamente agendados com muita antecedência: os noivos e familiares dão voltas e mais voltas tentando chegar à Igreja Matriz ou Senhor da Cruz E depois... nervosos… nada podem saborear num dia que se sonhou para ser de festa, de encontro, de gáudio uns com os outros. Às vezes são os pais e padrinhos que chegam à Igreja depois de começada a cerimónia, com o coração nas mãos, porque «já está o dia todo estragado». Para não falar dos «eventos» programados para «envolver» a Igreja Matriz ou o Senhor da Cruz, quando se sabe, com muita antecedência (o calendário impõe-se por si) o que é expectável na envolvência dos edifícios religiosos. Não falemos dos funerais, sempre possíveis inclusive para quem decide rodear a Igreja Matriz dos tais «eventos» que, diz-se, pretendem dar vida à cidade. Em tais ocasiões, por mais que o evite, não me faltam reparos e expressões como «isto é uma vergonha» ou «não respeitam nada nem ninguém». Claro que os entendo. E até me põem a questão se não será de um dia se mobilizar a população para dizer um «basta» e falar de uma história de vida cristã, que gerou a alma barcelense à volta da Matriz e do Senhor da Cruz, que todos devemos respeitar. Sabemos que quem manda está sujeito a enormes pressões. Mas não será o primeiro dever o de zelar pelo bem público? De todos e não só de alguns?

Curiosamente, torna-se mais claro, com o tempo, a consciência de que não se trata de um «bem religioso» a defender. Mas um «bem citadino». Explico: não são apenas os que vão à missa ou frequentam a Igreja os prejudicados. Garantem-me que é o próprio comércio que também está irritado com tanta invasão da cidade que, em vez de trazer mais movimento aos que cá vivem, impedem que os habituais apareçam. Pudera, se as entradas estão condicionadas! Como então, quer dar-se vida à cidade à custa dos que na cidade vivem?

Naquilo que de mim depende, sempre que acontecimentos religiosos obrigam a ocupar as ruas, procuro sempre evitar ao máximo qualquer complicação do trânsito. E chamo a atenção aos crentes: não precisamos de incomodar quem não participa mas precisa de ocupar a mesma rua que ocupamos. Enquanto a maioria das pessoas o entende e colabora, de vez em quando recebo um reparo que tem a sua razão de ser: pois, para nós, que queremos enfeitar uma rua, fazer uns tapetes por onde passa a procissão são só entraves. Outros cortam as entradas da cidade, prejudicam a todos e têm direito...?

Sabemos que há organizações que, a coberto do «dar vida à cidade», não largam os autarcas para que decidam a seu favor. Mas para que queremos nós um governo que decide de acordo com a força maior em vez de defender os mais fracos num sentido de justiça para com todos? E para que queremos nós uma oposição que não se opõe ou se manifesta também «vendida» aos votos futuros? Não têm todos, governo e oposição, o dever de ponderar decisões, de respeitar o passado e de projectar o futuro com a maior harmonia e paz?

Sabemos como o futebol deixou de ser desporto para se tornar competição. Onde só a vitória interessa. Porque com ela sobem os milhões. Atrás do futebol vão outras modalidades. E transformamos a sociedade numa competição permanente. Com os enormes custos no erário público, a começar pela segurança dos cidadãos, ameaçada pelas claques que parecem justificar tudo, inclusive entrando pela via da violência selvagem, colocando em suspenso as próprias leis da convivência cívica. Para onde nos dirigimos nós com esta violência impune? Até quando ela será suportável? De facto, quando o objectivo de tudo se tornou «lucro», perdem-se as referências melhores, atenta-se contra a identidade de um povo e ficamos apenas gestores do quotidiano. Será isso digno de uma acção política que seja serviço aos cidadãos? Muitos reparos recebi ultimamente a propósito da feira semanal na solenidade do Corpo de Deus, sempre muito importante, desde há séculos, no tecido social das nossas comunidades. Não faltam mesmo cidades que têm tal quinta-feira como o maior cartaz para atrair visitantes. Ora, depois de uma péssima decisão da direita portuguesa de retirar o feriado do Corpo de Deus, surge uma esquerda que o repõe. E todos saudámos tal reposição. Como entender então que a feira semanal não seja deslocada já que tal quinta-feira foi, é e será sempre «única» no ano, momento especial para tantas famílias, cujas crianças olham para esse dia como da sua «Primeira Comunhão»? Não são apenas as crianças, mas as suas famílias alargadas. Acresce ainda que, de dois em dois anos, esta cidade se torna o espaço de encontro de todas as 89 paróquias, na presença das suas autoridades legítimas à volta do eixo central da fé cristã: Jesus Eucaristia. Reivindicar respeito por este dia equivale a reivindicar respeito pelo povo que somos.

10 de Junho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXV

O mundo católico é um mundo mariano. Quem o duvida? O tempo é também mariano, pois a figura de Maria ocupa parte bem significativa do calendário litúrgico. E se penetrarmos na religiosidade popular, então tudo se torna mais evidente: são tantos os títulos e as invocações, algumas delas pouco permeadas de evangelho, mas todas coincidindo na complexidade do ser humano, de coração demasiado «compartimentado » onde cabem todas as invocações.

O mês de Nossa Senhora, no Maio das flores, é ainda assinalado, felizmente, em muitas das nossas paróquias. E Fátima impôs-se mesmo como altar do mundo.

Entre nós, não há arciprestados sem a sua peregrinação mariana. E haverá alguma paróquia que não cultue uma «Nossa Senhora de...»?

Todos sabemos como a Igreja, na sua acção pastoral reflectida e programada, tem um grande respeito pela religiosidade popular porque expressão de um povo, da sua cultura, das suas tradições, dos seus sentimentos. Mesmo que possamos sempre dizer que a religiosidade popular precisa de ser orientada, reflectida, permeada do Evangelho como boa notícia. A religião/sentimento perdura e torna-se mesmo perigosa quando se acomoda e não desperta para o compromisso evangélico. Quando este falta, facilmente a superstição a invade e desvia. A religião, sem ser cuidada na adesão pessoal a Jesus, pode tornar-se alienante e até anestesiante, verdadeira traição a Jesus Cristo.

Mesmo assim, como é bom sentir-se em casa quando se trata de estar junto de Nossa Senhora. Senti-o quando, na India e Sri Lanka, apreciava vários nichos nas ruas em honra de Nossa Senhora de Fátima e igrejas dedicadas à Mãe de Deus.

Também em Barcelos, encerrámos o mês de Maio com uma procissão de velas em honra de Nossa Senhora. E foi digno de registo o modo como os moradores da Urbanização de S. José se juntaram para os tapetes, as velas e colchas às janelas. O mesmo se diga dos moradores por onde a procissão passou. Enquanto presidia à oração e cânticos, ia louvando o Senhor por este «coração mariano» do povo de Barcelos. Porque, estou convencido, é a partir desta realidade, deste «fraquinho» mariano que devemos partir para o anúncio libertador do Evangelho.

Tivemos, há três anos, com a visita da Imagem Peregrina, um sinal claro de uma religiosidade adormecida e que a Mãe, na sua imagem de Fátima, vestida de branco, despertou. Todos nos lembramos daquela multidão, calculada em 50 mil pessoas, que A acompanhou pela cidade até à Igreja Matriz naquela noite memorável de 12 para 13 de Junho de 2015. Porque foi um dos momentos mais belos que os barcelenses viveram e que deixou marcas para o futuro é que estamos a preparar uma publicação sobre o que aconteceu nessa visita da Imagem Peregrina.

Tenho procurado insistir, a propósito e a despropósito, na necessidade de uma sadia teologia acerca do lugar de Maria na história da salvação. Sabemos que tal não é fácil. Mas nem por isso podemos desanimar com a desculpa esfarrapada de que «o povo não quer» ou «o povo não entende». A tal propósito, registo com agrado o que ouvi há dias de um peregrino de Fátima, no grupo que de Barcelos partiu a pé para o 12/13 de Maio. Na bênção da partida, insisti muito na frase de Maria «Fazei o que Ele vos disser», para deixar claro que só é correcta a devoção a Nossa Senhora quando ela nos leva ao encontro de Jesus. É Jesus o único salvador. Mas nos nossos excessos piedosos, não falta quem enalteça tanto a figura de Maria que Jesus fica esquecido. Põe-se então o altar de Maria muito acima do de Cristo, quando a vida cristã não pode centrar-se senão à volta da figura de Jesus.

Porque tantas vezes o vou repetindo, chamando a atenção para uma devoção desencarnada da vida - certos peregrinos ufanam-se das suas idas a pé a Fátima, mas não alimentam uma vida de compromisso cristão na Palavra de Deus - que vejo, com muito agrado, que algumas pessoas já se aventuram diante de outras a dizer que Nossa Senhora «não é deusa, mas é humana, tão digna que A devemos imitar na caminhada de fé».

O verdadeiro papel de Maria é apontar e até «empurrar» para Jesus. E que bom ver o apego especial que o povo de Barcelos tem para com Nossa Senhora. Oxalá percebam que Nossa Senhora não quer ninguém «agarrado às saias da Mãe». Mas quer que todos os seus filhos se tornem discípulos, seguidores de Jesus.

3 de Junho de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXIV

Parece que já tardava. A sociedade está hoje em debate sobre a eutanásia. E está porque os nossos políticos, de vez em quando, ao que parece, não têm assunto sério para se ocuparem. Ou então fazem «desvios» de modo a que o povo, que dizem servir, vá atrás deles naquilo que apresentam como moda para se colocarem ao nível de outros países, que dizem mais avançados. É pena que andemos, tantas vezes, a reboque, seguidistas de outros e até dispensando-nos de considerar o que eles, já com experiência, querem corrigir. Que democracia esta em que uma esquerda radical, minoritária, impõe uma agenda, a que um grande partido se subjuga!

Como não poderia deixar de ser, vai-se repetindo - nada de novo por mais «modernaço» que se apresente - o mesmo caminho de outras «questões fraturantes», trazidas para a discussão quotidiana e logo encerradas, se os resultados foram favoráveis. Incapazes de «responsabilidade » e de «história» - os populismos têm esta marca de «movimento » que aparece e desaparece sem deixar rasto - tratam questões de vida e de morte como questões banais, tonando-se, depois, insensíveis às consequências nefastas que, essas sim, perduram no tempo e criam novos dramas, que podem vir a onerar ainda mais o erário público.

Lembremo-nos da questão do aborto referendada. Haja coragem de contabilizar em números os gastos públicos, para nem sequer referir os traumas causados nas vítimas ou o «inverno demográfico» de que padece o nosso país. Em vez de se investir na vida investiu-se na morte. E, se tem mais protecção uma grávida que quer abortar do que uma grávida que, com o seu filho, traz nova esperança para o mundo, será isto justo? Onde estão os pró-aborto tão militantes na campanha do referendo? Que fizeram ou fazem pelo país? Mas sabemos onde estão os anti-aborto: empenhados, mais ainda, no apoio às grávidas, às mães em dificuldade.

Agora é a questão da eutanásia. Discute-se se é legítimo tirar a vida a pedido. Mas será legítimo pedir para morrer? A questão é, no mínimo, muito complexa, a tocar o «mistério» que cada pessoa encerra. Infelizmente torna-se uma questão banal em que todos se julgam no direito de ter opinião, ao jeito dos comentários do quotidiano em que aparecem as opiniões mais bizarras e contrastantes entre si.

Afinal, a vida é mesmo um dom. E só nela pensamos quando, muitos anos depois, podemos voltar ao olhar reflexivo e perceber o encadeamento de tantos e enormes contributos de outros para que eu viva. Desde os pais, os familiares, a sociedade política... tantos e tantos intervenientes, às vezes não medindo gastos astronómicos para que uma vida não corra perigo. Tanto se faz e tão belo por causa de uma vida em perigo. Enquanto que tão levianamente se destrói uma vida, seja no seu começo, seja no seu desenvolvimento, seja no seu termo. Vida é dom. Dom a desenvolver. Dom a levar à sua plenitude.

E quando essa vida deixou de ser plena ou não satisfaz o próprio ou aqueles que a rodeiam? Eis-nos diante de um mistério, que nos deveria levar a um gesto de profunda sensatez: quem sou eu diante de uma vida frágil? Alguém que cuida ou alguém que, por errada compaixão, acaba com o doente que sofre? Legítimo será fazer tudo para terminar o sofrimento do doente. Não acabar com o doente que sofre.

Depois de ouvir o testemunho de uma mãe, que com esforço extraordinário tentou conciliar o cuidado com a sua mãe doente com o cuidado dos filhos também necessitados da sua presença, perguntei-lhe: agora que a sua mãe morreu há uns tempos atrás - ela estaria naquelas condições de sofrimento atroz das quais se fala quando se fala na eutanásia - como olha para esse tempo? E se tivesse permitido que lhe adiantassem a morte - já se sabia que ia morrer - como estaria agora a olhar, retrospectivamente, para esse tempo?

A resposta foi clara e imediata: estou de consciência tranquila. A minha mãe partiu quando foi a hora dela. «Mas, e se não tivesse feito como fez?». Resposta igualmente imediata e clara: estaria de consciência pesada e não me perdoaria a mim mesma.

Curiosamente, diante das questões mais graves da existência humana, dou-me conta da facilidade como encontramos soluções para os problemas... dos outros. Mas quando o assunto é connosco, quando a doença grave nos bate à porta, tudo se torna diferente. E surge aquela resposta, denunciadora da hipocrisia social em que andamos envolvidos: «Ah, isso, nesse caso, é outra coisa...».

27 de Maio de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXIII

Uma vez mais - será a 12ª deste que sou Prior em Barcelos - vai celebrar-se o Crisma na Igreja Matriz de Barcelos. Serão, desta vez, cerca de 70 os jovens e adultos que vão completar a iniciação cristã, cujo efeito mais visível e imediato é ficarem habilitados para exercerem missão no seio da Igreja, como adultos, a quem se reconhece idoneidade para tal, que não deveria reduzir-se a ser padrinho/madrinha. Por exemplo, terá sentido confiar a missão de catequista ou de ministro extraordinário da comunhão a pessoas ainda não «iniciadas»?

Com a próxima celebração atingiremos um número de crismados de cerca de 900 nos últimos 14 anos, desde 2004 em que assumi a missão de Prior de Barcelos. Só não foi crismado quem não quis, pois todos os anos se tem dado oportunidade para tal, condicionada a um tempo de preparação cuidada. A destacar no processo deste ano a presença dos padrinhos, que fizeram questão de estar presentes no acompanhamento, compreendendo que só os crismados devem ser padrinhos. Porque trago o assunto para este «olhar outro»? Porque, a duas semanas da celebração, encontro-me agora em contactos personalizados com os crismandos, depois de um encontro mensal de formação, seguido de um compromisso celebrado na Eucaristia principal da comunidade. É a ocasião para aferir do crescimento e maturação da fé, que se vai afirmar adulta num Sim assumido à missão de testemunho que cada cristão é chamado a dar no mundo.

Ao longo do processo, confesso que foram várias as tentações de desânimo, a que resisti. Impus-me uma tarefa de ser eu próprio a cuidar da sua preparação para o Crisma. No meio de tantas outras tarefas, nem sempre dispunha das condições melhores para o trabalho sério que me impus. O momento, agora, é de aferir e perguntar: valeu a pena? Cresceste na fé? Ficaste mais esclarecido acerca do essencial da fé cristã?

É que ao longo do ano eu pedi a todos os candidatos um texto escrito de compromisso e de reflexão pessoal sobre as suas convicções profundas: o que significa para ti seguir Jesus Cristo ou ser Igreja?

Dediquei os últimos dias a ler todos estes trabalhos, vários ao ritmo de um por mês. Salvo raras e compreensivas excepções, a qualidade dos trabalhos surpreendeu-me, primando pela seriedade - apesar de uma imagem de «rebeldia» própria da idade - percebi que apreenderam o essencial da formação. Esta nunca dispensou o lembrar constante da liberdade responsável: ninguém é obrigado a andar por cá, nem a fazer o Crisma ou a seguir Jesus ou a ir à Missa ao domingo. Tudo isso só é belo quando em liberdade. Se tivermos homens e mulheres formados na liberdade responsável, também teremos cristãos comprometidos.

Lidos os trabalhos, a todos «exigi» um breve encontro pessoal: respondi a algumas dúvidas, destaquei os pontos essenciais do ser cristão adulto e convidei a dar testemunho no ambiente de vida. E uma questão era inevitável: agora, tudo termina com o Crisma ou tudo começa? Acredito que a resposta era sincera: tudo começa, Ele pode contar comigo. Uma das respostas me surpreendeu. Com dezassete anos, a jovem - omito o nome - dizia-me que na sua escola e na sua turma era ela a única que frequentava a Igreja. Mas fazia-o com gosto. Percebi mesmo um certo brio em dizê-lo. Porque os e as colegas, ufanando-se de se dizerem «ateus», não passam de seguidistas da moda, do mais fácil que é não assumir compromissos. E lembrei-me de um jovem universitário, que não frequentou a catequese e me vinha pedir o «papel para ser padrinho». Reconheci-lhe o desconforto e percebi-lhe alguma pena da  situação que os pais não cuidaram e até um certo pedido de ajuda para recuperar o que tinha descuidado. De um caso e de outro surge-me uma questão: não estará a surgir já uma geração de gente que pede maior seriedade de vida e que procura sair do nível baixo e banal para onde a sociedade consumista atira os nossos jovens? E estaremos nós, Igreja, a formar na autonomia responsável, respeitando os ideais mais nobres aonde muitos jovens desejam chegar? Ou nas nossas paróquias consideramos tudo por igual, sempre nos mínimos, porque «eles não estão para isso?» Serão eles que não estão ou seremos nós, os responsáveis, que não estamos «para isso»?

Na hora de fazer balanço, dou graças a Deus por não ter desanimado. É uma graça poder reconhecer a caminhada destes jovens e adultos: vão ser crismados sabendo bem o que escolhem. Acredito que será desta geração, não muitos no número mas bem melhores na qualidade, que poderemos sonhar numa Igreja renovada.

20 de Maio de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXII

Reconheço que existe um campo enorme para a acção pastoral, que não estamos a ser capazes de cultivar bem. Refiro-me à morte e ao luto. Realidades tão humanas e tão comuns, tem conseguido a cultura da pós-modernidade iludi-las, afastando-as das preocupações quotidianas, fazendo delas tabu, ignorando os desequilíbrios psicológicos provocados. Sempre preferi, diante das situações adversas, enfrentá-las e não ignorá-las: qualquer jogo de mentira pode adiar um problema mas não o resolve, antes pode agravá-lo.

Assim, diante da morte, a incapacidade de a compreender vai abrir o ser humano para o mistério e a valorização da pessoa, do seu ser espiritual. E é na fé que se chega mais longe diante de um coração ferido pela partida de alguém querido.

Alguém me surpreendeu há dias: aquela jovem, Irina Elisabete, de 23 anos de idade, bela e de espírito inquieto, numa procura sincera de um sentido para a vida, morreu de repente. O acontecimento data de Outubro, mas só há dias o conheci. A «sogra», em lágrimas, contava-me a tragédia e a «deriva» em que o seu filho, o noivo, se encontrava. Ela pedia-me a «cédula da vida cristã» que teria ficado na Paróquia, com o registo do Crisma. Mas a Irina não a veio levantar depois do Crisma? «A Irina morreu...». «Quem? Como?», perguntei eu um pouco confuso.

Sim, aquela jovem apresentou-se na Paróquia, orientada por pároco vizinho, para se reencontrar com a Igreja. A sua história diz-se em poucas palavras: com um passado de abandono familiar, apenas tinha sido baptizada e iniciado a catequese, que logo abandonou. Mas ela sonhava com um casamento digno e numa família diferente daquela que conhecera. Encontrou um namorado e, na mãe deste, uma segunda mãe, que a orientou para a Igreja. E levou-a ao pároco. E este fê-la encontrar-me. Vi-a desejosa de se «reencontrar» consigo própria. Vi-a desejosa de um «lugar» na Igreja. Vi-a sorrir quando lhe disse que ela nunca deixou de ter lugar no coração de Deus. E abri-lhe as portas da «catequese de adultos», onde outros jovens fazem a descoberta do ser Igreja na comunidade, preparando-se para o Crisma. Confessou-se e comungou pela primeira vez quando fez o Crisma. Diante desta realidade, da dor de uma sogra que não o chegou a ser verdadeiramente, mas que foi mãe de uma filha que não gerou para o mundo mas despertou para a fé, que queria casar com o filho - e o sonho dela era mesmo casar e formar uma família e o casamento teria de ser eu, o Prior, a presidir, conforme me foi agora revelado - eu apenas rezo pela Irina e me inquieto: como «estar» neste acontecimento sobretudo diante de um jovem destroçado? Espero em breve poder dizer a este jovem destroçado que continua a ter lugar no coração de Deus.

Acabo de participar numa sessão de formação sobre o luto e a ajuda espiritual. Em boa hora promovida no nosso Arciprestado para todos aqueles que queiram cuidar-se para uma maneira nova e mais digna, humana e cristamente, de se situar diante da morte e do luto. E a lembrar-me das catequeses sobre a morte que, já lá vão mais de dez anos, tive ocasião de promover na catequese de adultos. Era, já na altura, um sonho meu, o de criar grupos de pessoas com sensibilidade humana e formação cristã, aliada a uma competência psicológica, para acompanhar as pessoas em luto - quase sempre abandonadas à sua sorte - e até presidir a celebrações da Palavra ou vigílias de oração. Ficou o ideal expresso à espera de melhores dias. Terão surgido agora? Oxalá que estas formações sobre o luto deixem frutos nos que nelas participem, de modo a surgirem lideranças capazes de dar «humanidade» à morte. Sim, já o afirmei várias vezes: a morte em Barcelos é «fria». Precisa de se tornar «quente» pelos afectos, pela proximidade e até pelas celebrações da fé cuidadas para que, sendo momentos importantes no processo do luto, não destoem da verdade da vida do falecido e se tornem conforto para quem entra num momento único da perda de alguém querido.

Tal momento é único e inevitável. Mas é também desafiante a ser vivido humanamente e a ser aproveitado como ocasião de reencontro consigo próprio. Porque ninguém fica indiferente à morte de um ser querido.

Falava, no início, de um campo a cultivar. Sim, porque a Igreja sempre esteve presente no mundo da dor humana, para a suavizar com o conforto da fé. Não só nas celebrações que retiram o «defunto» de um certo anonimato e dão carácter comunitária à perda - sempre a dor partilhada se tornou dor mitigada - mas para despertar para o cuidar das fragilidades alheias, assumindo-as como nossas, isto é solidarizando-nos com os que sofrem. Diante do sofrimento e da morte, ninguém pode ficar indiferente. «Proximidade », às vezes silenciosa, diante de um mistério que nos ultrapassa, é condição para nos dizermos cristãos com verdade.

13 de Maio de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXXI

Foram cinco dias cheios. Uma vez mais, aproveitando o feriado do 25 de Abril, acompanhei um grupo de paroquianos em peregrinação por locais importantes, carregados de cultura e de sentido religioso. A vizinha Espanha, bem como a nossa Europa de inegáveis raizes cristãs - só não vê quem, por deliberada vontade, não quer - construiu-se e desenvolveu-se a partir de uma mensagem inovadora, reconciliadora e promotora de valores humanos. Jesus é o ponto de partida para tanto progresso humano e espiritual. A Igreja é a Mãe cuidadora de um desenvolvimento harmonioso. Diante de vozes contrárias apetece perguntar se há alguma instituição duas vezes milenária que tanto tenha servido os povos e os tenha promovido ao grau civilizacional em que nos encontramos hoje. Certamente com páginas negras também pois só não as tem quem nada faz.

As cidades de Cuenca, Valencia, Múrcia, Granada e Córdoba, marcadas pelo turismo de massas, atraem mais pelo que foram do que pelo que são. O seu passado está carregado de valores, ainda hoje indesmentidos, às vezes conseguidos a partir de lutas intensas contra forças opositoras. É este passado glorioso que mais atrai. Não tanto o presente, muito igual a muitas outras cidades, marcado por um hedonismo quotidiano, proposto (ou imposto?) por uma sociedade dita de consumo em que a própria cultura não lhe escapa. Também somos consumidores de uma certa «cultura»... que (des) humaniza?. Já reparámos como o turismo, actividade florescente, saturado o do lazer, redescobre o «religioso», seja no património, seja nas grandes aglomerações à volta de santuários?

Aos que me acompanharam vou apelando repetidamente a que aproveitem bem os dias para se valorizarem como pessoas, seja no aspecto cultural e espiritual, seja até na relação humana que se cria com aqueles que nos acompanham. De facto, por experiência o digo, viajar em grupo torna-se ocasião propícia para um relacionamento diferente daquele que temos no nosso quotidiano, marcado pelas mesmas pessoas, familiares ou colegas de trabalho. Há um «despertar» de energias e sentimentos novos em que a vivência dos valores evangélicos pode ser posta à prova. E cada desafio torna-se ocasião de um «ser diferente». Num dos contratempos imprevistos propus - e fiquei feliz ao ver como todos compreenderam a situação e não ficaram «presos» ao contratempo - compreensão e tolerância, de que outros precisavam.

Não sou organizador de viagens. Sou padre, sou pároco, ao serviço das pessoas. Não terei eu o direito de descobrir novas formas de evangelizar? Porque é sempre isto que me motiva, falo sempre de peregrinar. Sair de si e pôr-se a caminho, numa marcha interior, pessoal e comunitária, para o encontro com Deus. Que passa sempre pelos que nos rodeiam, pelo que, de diferente, os olhos observam, pela história que testemunha a caminhada da fé dos povos que nos precederam e pelo olhar atento como se vive hoje noutros espaços geográficos. Não é verdade que aprendemos todos com os modos diferentes de gerir a vida, de organização da vida comunitária e até nas expressões diferentes da cultura e da fé? Vou repetindo que a minha missão não é ensinar a ganhar dinheiro. Todos os sabem suficientemente, reconheço. Mas ajudar a gastar bem o dinheiro não deixa de ser também missão. Sim, o tal dinheiro que inevitavelmente tem de se gastar para que a vida aconteça com qualidade durante ao menos alguns dias.Tentando ler as impressões dos que me acompanhavam, destaco:

- a importância histórica dos lugares visitados, que explicam a atracção turística actual.

- a vida religiosa intensa que faz adivinhar a enorme quantidade de mosteiros, muitos deles hoje reajustados a diversas actividades de ordem cultural e até comercial.

- os acontecimentos históricos que deram origem a memoriais e que entraram na «identidade» dos povos e que hoje são postos em causa por um certo revisionismo, oriundo das esquerdas radicais, gerando desconforto latente quando não conflitos abertos;

- a centralidade da cruz de Cristo que atravessa os séculos, harmonizando povos e culturas;

- os excessos dos conquistadores sobre os conquistados com alguns exemplos bem conseguidos de convivência harmoniosa.

Por último, terminámos em Cernache do Bonjardim para evocarmos duas figuras de grande valor para as gentes de Barcelos: São Nuno Álvares Pereira, que ali nasceu, e D. António Barroso, que ali estudou e dali partiu como missionário. Não será de lembrar às lideranças de Barcelos promover romagens de evocação destas grandes figuras, uma delas já declarado santo e a outra em vias de o ser? Quis dar o meu contributo. E espero fazê-lo em breve com os padres de Barcelos. Uma última evocação a registar: a passagem por Castanheira de Pera. Por lá passou um fogo destruidor da natureza e de vidas humanas. Para lembrar e fazer memória para que tal não volte a acontecer pela incúria ou pela criminalidade. E rezar por aqueles que morreram e pelas famílias enlutadas.

6 de Maio de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXX

Sabe bem, de vez em quando, deixar o carro na garagem e usar o transporte público. Este, apesar de ser cada vez mais rápido, mais cómodo e melhor corresponder às necessidades do público, raramente é mais rápido que o carro pessoal.E para uma vida agitada e muito comprometida...

Só que vir conduzido permite pensar e interagir. Vinha eu muito calminho no  eu lugar, num comboio do Porto para Nine, saboreando a paisagem e apreciando os comportamentos humanos - cada um na sua, dando as voltas à cabeça sobre o que «tem de ser» certamente - quando me apercebi de, muito perto, uma conversa me gerar curiosidade em seguir. Dois homens sentados frente a frente. Um deles, empenhado na conversa, cara flácida e atitude convincente, falava, falava... O outro lá ia dizendo qualquer coisa, parecendo enfadado.

O assunto era cada vez mais perceptível para mim. Claro, assunto religioso. Escutei um pouco e comecei a supor que o empenhado na conversa tentava convencer o outro dos benefícios da «sua» religião.

Estava eu discretamente identificado. E hesitava entrar na conversa.

Entretanto, uma senhora ao lado, que me parecia estrangeira, mudou de lugar. Decidi-me: levanto-me e peço licença para me sentar ao lado e para entrar na conversa. E, muito calmamente tomei a palavra, começando por me identificar, confirmando, assim, a suposição mais que plausível da parte deles.

O que já estava um pouco enfadado da conversa - tínhamos saído do Porto e eu tinha apenas meia hora para chegar a Nine - deixou-me perceber uma certa admiração agradecida pela minha ousadia. Do tipo «ainda bem que alguém me livra deste chato». O outro, calado a princípio, lá estaria a pensar na sua «estratégia» diante de um «intruso» que lhe «estragava» a sua «obrigação de fazer adeptos».

Lembrando experiências antigas - os fanáticos comportam-se com ares de sabedoria mas não passam de ignorantes atrevidos - comecei por exaltar a liberdade humana que nos exige fundamentar posições e partilhá-las sem as impormos. Porque, aliás, Jesus assim procedeu, convidando a segui-lO e a aprender com Ele. Foi uma intervenção serena e calma em que pude ir observando a reacção dos dois: um deles «gozado» quando entendia as minhas palavras como «certeiras» perante as afirmações que já tinha «aguentado». O outro, ao tomar a palavra, que lhe concedi de bom grado, logo deu sinais do seu desconforto passando para acusações aos católicos e exaltando as curas que tem presenciado na Igreja Universal do Reino de Deus. E acrescentava, com ênfase, que «não são os pastores que curam, mas a nossa fé e o Espírito Santo que está em nós. Porque se não vamos à igreja os demónios tomam conta de nós».

Não me foi difícil contradizer o meu interlocutor, enquanto o companheiro do lado metia a sua «colherada», feliz e gozado com a situação. Percebi claramente que o homem, pessoa dos seus cinquenta anos, estava já bem «apanhado» pela seita, incapaz de pensar pela própria cabeça, mesmo quando tentava fazê-lo entender, sem o forçar, uma interpretação mais ajustada aos textos bíblicos que ele tentava lembrar-me.

Quando me falou dos 25 anos na «Universal» e dos «milagres» que presenciou - aqui o outro gozava à brava - lembrei-me dos meus 40 anos de padre para lhe dizer quanto aprendi ao longo deles a respeitar as pessoas, na sua simplicidade e mesmo ignorância, sem deixar de lado o compromisso - sim, eu sou um comprometido com o Evangelho de Jesus e com cada irmão, a quem tenho de propor a mensagem libertadora que salva - de ajudar todos a um juizo crítico para não nos deixarmos manipular por «pastores» e «gurus» que surgem em catadupa no terreno fértil da ignorância religiosa.

A viagem foi curta. Só permitiu pouco mais de meia hora de conversa. Também ele saiu em Nine. Enquanto saía, rezei por este homem simples, a quem gente sem escrúpulos molda um pensamento, deturpando as Escrituras sagradas. E dei graças a Deus por ser cristão católico porque, mesmo no meio de tantos erros e fracassos da Igreja a que pertenço, ela é sempre para mim o espaço da máxima liberdade, a mãe que está sempre presente para dar a mão e não para condenar. E confirmei aquilo que se tornou convicção e atitude permanente: só pela formação, ajudando as pessoas a caminhar para a descoberta da verdade, não as substituindo - seria abuso - mas partilhando com elas os dons que o Senhor me concedeu para os pôr ao serviço dos outros, de modo a que eles possam também construir o seu próprio edifício religioso, a sua própria relação com o mundo divino.

Que pena ver tantas pessoas que abandonaram a prática religiosa, porventura desencantadas com os nossos erros, mas certamente bem mais responsáveis ao optarem pelo mais fácil. Sim, porque a prática religiosa autêntica é libertadora porque dá sentido à vida, gera esperança e dá força para avançar na descoberta da Verdade. Ao contrário, viver como se Deus não existisse, revela o facilitismo que nada constrói. E se o nosso coração está habitado por Deus não precisamos dos «demónios» de que o meu interlocutor tanto medo manifestou ter.

29 de Abril de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXIX

Admiro muito o Papa Francisco. Como muitos, eu também penso que é o homem certo no momento certo. Na ordem da fé, não duvido que é um especial dom de Deus à Igreja e ao mundo. Como o foram os seus antecessores, incluído Bento XVI.

Homem simples e de coração aberto, interiormente livre e possuído por Deus, de fé e acção corajosa, ele transmite bondade e rompe com clichés tradicionais. Mas ele revoluciona tanto os mais tradicionalistas como os mais vanguardistas. Afinal, não é só a Deus que devemos, todos, obedecer? E se Deus não tem tempo... tudo é para Ele presente, então o que vale é a pessoa concreta em cada tempo histórico em que pode sentir quanto Deus o ama.

Admiro-o também quando reconhece os seus próprios limites humanos, algumas respostas menos pensadas e alguns «deslizes» em relação ao «politicamente correcto». Pena é que sejam tantas vezes aqueles que se dizem seus admiradores a explorar tais deslizes de modo a evidenciar qualquer «brecha» no seio da Igreja.

Nas catequeses semanais - o Papa é o primeiro catequista para toda a Igreja - tem vindo a falar sobre a missa. Como já o fez sobre o Baptismo. E disse, de um modo muito próprio, aquilo que é a doutrina tradicional da Igreja. Não disse novidade. Mas muitos viram novidade nas palavras do Papa. E soaram campainhas de alarme, tocadas pelos fariseus do nosso tempo que, apesar de tantas vezes serem convidados a ouvir a verdade bela do evangelho de Jesus, se habituaram a considerar que «já sabem tudo» e «não temos quem nos ensine».

Desta vez aproveitaram-se das palavras fortes do Papa a dizer que a Missa é de tal modo valiosa, para quem tem fé, que ela «não se paga». E cita-se a missa pelos defuntos. E logo identificam os possíveis destinatários do Papa… os outros, sempre os outros, nunca eles, os tais hipócritas que captam tudo o que o Papa diz para se tornarem acusadores fundamentados. Dá pena ver que tais «admiradores» do Papa fazem muito mal à Igreja a que o Papa preside e que quer ver sempre mais bela e mais ajustada à vontade de Deus. Certamente que o Papa dispensa bem tais admiradores.

Claro que o brado expandiu-se no facebook, o lugar hoje propício a todos os disparates e em que cada um, diplomado na sua «achologia», debita as suas opiniões sem qualquer razoabilidade ou fundamento, mas apenas porque usa de um direito à palavra, mesmo que deturpando-a. Pois claro, todos têm direito a opinar mas há tantas opiniões que não passam de uma descarada expressão de ignorância atrevida.

Não sou seguidor do facebook: dou graças a Deus por ter um colaborador de confiança a ocupar-se do facebook da Paróquia. Mas, claro, chamaram-me a atenção para os «acusadores» que, baseados nas palavras do Papa, logo comentam e condenam os pretensos prevaricadores que levam dinheiro pela missa do funeral!

Sobre esta, tenho repetido várias vezes, em público e em privado, que «a missa não se paga» pois «não tem preço». Claro que estou cansado de dizer o  mesmo às mesmas pessoas que ao virem «pagar a missa» lá trazem dez euros. Por mais que se explique que os sacramentos não estão à venda mas que se trata de um «estipêndio», de uma ajuda para a subsistência do sacerdote, por mais que se expliquem as razões que levam a este procedimento, aliás evolutivo e nunca dogmático, encontramos sempre pessoas que se recusam a pensar e a evoluir no seu pensamento. Que lhes vamos fazer?!

Recuso-me, por minha parte, a deixá-las na ignorância. Por isso temos espaços na Paróquia onde toda a gente pode esclarecer-se sobre as verdades da fé e os procedimentos na Igreja. É que esta não é dos padres mas de todos. Oxalá desejem todos estar na Igreja como adultos na fé e responsáveis uns pelos outros.

Voltando ao assunto da missa «paga» no funeral, num claro abuso interpretativo das palavras do Papa. Já viram que também aqueles que só dizem mal da Igreja e dos padres não dispensam o funeral religioso? E com Missa? Que até mandam celebrar pelos defuntos a troco de dez euros mas que nem lá põem os pés?! Que até a anunciam nos jornais a troco de muitas notas de dez? E depois, por uma só nota tem de haver um sacerdote disponível, juntamente com o sacristão ao menos e um espaço aberto a todos, com despesas certas de manutenção, onde alguns vão fazer memória dos que morreram, pela oração de sufrágio...Ou seja o anúncio da missa é que vale, não a missa. Pobre ignorância! Atrevida certamente e bem maldosa. Quando desejaremos nós, cristãos de Barcelos, dar um pouco mais de seriedade aos nossos actos religiosos?

22 de Abril de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXVIII

«Ser livre é ter o coração preso». A frase, por natureza provocante, foi o tema da 6ª edição do Meeting de Lisboa, realizado a 7 e 8 de Abril passado, no Centro Cultural de Belém.

Confesso que não foi o Meeting, ou os temas ali desenvolvidos, que me chamaram a atenção. Destes só tive conhecimento depois da frase me ter feito pensar. Como então, ser livre é ter o coração preso? Não me foi difícil confirmar o sentido da frase. Acredito que os organizadores estão mesmo convictos do valor da frase e de como é necessário, hoje mais que nunca, afirmá-lo. Num tempo de crise, como tantas vezes se afirma do nosso tempo, um dos grandes défices é o do compromisso. Fala-se, até com exagero, dos direitos das pessoas. Mas, infelizmente, muito pouco dos deveres. Não nos admiremos das tensões latentes na sociedade e do sentimento de injustiça e de insegurança de que tanta gente, apostada em ganhar o pão com o suor do seu rosto, se queixa. Mesmo o Estado Social moderno pouco se preocupa em ir além dos subsídios e da contabilidade dos números nas despesas do erário público. Dá muito peixe mas não dá a cana para pescar. Pelo que a promoção da autonomia de cada um se fica apenas nas boas intenções e o número de subsídio-dependentes continua a aumentar.

É neste défice enorme de educação para uma autonomia responsável que se situa a importância daquela frase. De facto, a liberdade implica responsabilidade e só se verifica no quadro de compromissos assumidos. Ou seja, o «coração preso» é que se torna a fonte da verdadeira liberdade. Porque não anda à deriva, mas tem poiso certo, isto é, a liberdade só se exerce em relação a um projecto de vida que se idealizou e que se deseja concretizar. Assim, somos livres quando idealizamos um projecto de vida e somos livres quando lhe somos fiéis. Numa palavra, quando a pessoa sai da sua casa, sabe aonde há-de voltar e nesse «coração preso» encontra a sua realização pessoal. Quem anda na vida aos saltinhos, incapaz de se comprometer, vive como se não tivesse uma casa aonde voltar, qual referência permanente, local de relações de compromisso, capazes de gerar equilíbrio e felicidade pessoal. Não é um «sem-abrigo» quando mesmo estes não se dispensam de um «poiso» mesmo que seja de umas caixas de cartão numa estação de metro.

Ter o coração preso, seja a uma ou a várias pessoas, a um grupo ou uma instituição, a um ideal de vida mesmo que outros não o compreendam é condição de liberdade. Ou não é verdade que para haver golo tem de haver baliza e que os jogadores conhecem bem as regras do jogo para que possa haver resultados?

Tive curiosidade de observar de perto os temas apresentados no referido Meeting. Para além dos conferencistas, alguns deles de reconhecida competência, entre eles o cientista Carlos Fiolhais: «Não deixem que vos roubem a esperança»; «gratuidade e partilha»; «Só educa quem vive»; «Chesterton e a eterna atração da verdade».

Isto aconteceu na mesma semana em que milhares de «finalistas» do Secundário rumaram para uma semana de férias «livres» da presença dos pais. Os comentários foram muitos e dos mais diversificados, ajudados ainda por uma tragédia na viagem de regresso de um grupo, com a morte de um estudante.

Sabemos como tantas famílias vivem a dificuldade de dizerem não ao pedido de um filho: não contam apenas as dificuldades de ordem financeira mas sobretudo o receio de desgostar um filho, habituado que está apenas ao sim a tudo porque os pais não querem que o filho passe as privações por que eles terão passado. Será isto educar? Mais ainda, que resistência poderão fazer à pressão exercida pelas empresas cujo objectivo é apenas o lucro, mesmo que à custa de um projecto educativo, quando existe?

Uma questão se deverá sempre pôr, em termos de educação cívica: será legitimo tratar como adulto quem não o é? Que sentido de responsabilidade se pode exigir aos adolescentes? E que ajudas podem encontrar, na sociedade e na Igreja, aqueles grupos de jovens, que os há também, que não querem enveredar pelos caminhos de tais «maiorias»? Só é moderno ou «deste tempo» quem envereda pelos excessos e se sente «protegido» pela ausência dos pais? Para onde caminham os nossos jovens? Que futuro responsável pode deles esperar a sociedade? Vem aí mais um aniversário do 25 de Abril. Não será já tempo de uma abordagem isenta, que reconheça também os excessos que ele provocou?

15 de Abril de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXVII

Há dois lugares que evitamos mas que fazem imensa falta como despertadores de Humanidade. Refiro-me ao Hospital e ao cemitério. De facto, neles abalam-se as nossas seguranças e despertamos para a caducidade da vida.

Nos hospitais vemos os familiares e amigos na sua dependência, frágeis e necessitados de cuidados. Ao mesmo tempo contemplamos a dedicação dos que deles cuidam e até exigimos que seja sempre intensa e perfeita. Como se aqueles que têm obrigação de cuidar - são pagos para isso, dizemos nós - não fossem humanos, falíveis, nem estivessem sujeitos às condicionantes de saúde ou de outros deveres. No cemitério caímos na realidade a partir dos nossos pedestais de orgulho e de autossuficiência: aqueles que lembramos também se consideraram «eternos», a quem «nada lhes chegaria».

Afinal, a fragilidade, o sofrimento alheio, o saber que somos mortais humaniza, levando a abrir o coração uns aos outros.

Há sempre um «nós e os outros», ou o «eu e os outros». O «eu» vê o sofrimento dos «outros», enquanto tudo faz para que o sofrimento ou a morte não o atinja a si. Objectivamos em vez de subjectivarmos. Mas é quando deixamos o sofrimento do outro «mexer» connosco que, verdadeiramente, «simpatizamos».

O tempo da Semana Santa e da Páscoa dão-nos uma dimensão alargada da realidade humana. Afinal, até nos «condoemos» mais com o Crucificado do que com o Ressuscitado. Porque na figura de Cristo a caminho do Calvário projectamos todas as nossas dores e até revoltas porque desejamos sempre uma glória sem cruz. Custa aprender com Cristo que a glória não existe sem a cruz.

Acabo de viver um tempo rico de Humanidade. Foi cerca de um mês em que a fragilidade crescente da doença e da idade de meu pai esteve diante de mim todos os dias. Foi ocasião para repensar o sentido da vida e da eternidade e confirmar quanto vale a fé no Ressuscitado para «entender» o mistério do sofrimento e da morte. Para, finalmente, poder dizer: «unido à morte de Jesus, meu pai ressuscita para a glória quando os cristãos celebram o mistério pascal de Jesus». Partiu sereno e em paz. Como em paz e serenidade viveu, particularmente nos últimos anos da sua vida de 93.

Tudo o que acabo de dizer não passa de uma introdução ao que, verdadeiramente, pretendo dizer de seguida, qual homenagem de gratidão de toda uma família àqueles que cuidaram do meu pai. Dos médicos aos enfermeiros, passando pelo pessoal auxiliar, o que eu vi diz-se em duas palavras: profissionalismo e compaixão.

Desde o seu internamento - o último pois que por diversas vezes teve de recorrer por alguns dias ao Hospital de Santa Maria Maior - começando pelo serviço de urgência até ao corredor do 5º piso, logo seguido de um quarto partilhado com outros doentes, vi o cuidar digno e a atenção personalizada. Não fazendo milagres, iam conseguindo alguns pequenos êxitos, ao menos proporcionando o conforto possível ao doente e o controlo da situação clínica com os medicamentos ajustados em permanência. E dentro da situação de gravidade objectiva não faltaram algumas «luzes» momentâneas que alimentavam a esperança dos filhos de que poderiam ter pai por mais algum tempo ainda.

No dia a dia vi definhar um homem robusto, fragilizado pela vida dura que levou e cujas limitações de saúde agora se mostravam com toda a sua força. Mas vi também um homem sempre sereno, pacífico e pacificado, cuja imagem recordarei para sempre, como ideal e modelo a seguir. E sem duvidar da causa de tal serenidade e paz - a sua fé inabalável e confiança em Nossa Senhora, cujo terço agarrava com força - deixou-se tratar expondo toda a sua fragilidade como uma última lição de vida para os seus filhos.

Registei e agradeço o cuidado permanente do pessoal médico e de enfermagem e do pessoal auxiliar, que iam passando pelos quartos observando, aconchegando, «adivinhando» alguma necessidade de conforto do doente que o não exprime, nem mesmo o cansaço de estar na mesma posição. E lá iam alterando a posição, de tempos a tempos, durante a noite e o dia. Não era só profissionalismo, não. Era gosto pela missão que exerciam. Era compaixão por outro ser humano.

Rezei por este pessoal cuidador. E fiquei a apreciar a sua nobre missão. E dou graças a Deus por um Sistema Nacional de Saúde que permite estes cuidados, compreensivelmente bem onerosos, concedidos a todos, pobres ou ricos.

8 de Abril de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXVI

Quarenta anos, para nós, correspondem a um período de intensas mudanças sociais e culturais na terra e no país que habitamos. Não só porque aprendemos a viver em democracia mas porque, ao perto e ao longe, foram muitas as mudanças no sentir pessoal e no viver colectivo. O Maio 68 em França marca uma época, logo seguida do nosso 25 de Abril. Mas, antes ainda, tivemos o Concílio Vaticano II, talvez o maior acontecimento do século XX, em que a Igreja se deixou interpelar pelo Espírito e perceber que Este lhe exigia uma maior abertura ao mundo e às suas transformações.

Estes 40 anos correspondem à minha vida de padre, já que fui ordenado em 1977. E correspondem também à vida de uma das mais representativas instituições do concelho de Barcelos, a APACI, voltada para as «crianças inadaptadas», uma sigla em adaptação aos novos tempos e a uma realidade cada vez mais visível e menos esquecida na sociedade, graças a Deus, que despertou nos corações de um punhado de fundadores e continuadores a generosidade necessária para cuidar daqueles rostos às alegadamente desfigurados, incarnações vivas da fragilidade humana, que Jesus assumiu na sua paixão. Barcelos bem pode orgulhar-se de ter no seu seio um conjunto de associações vocacionadas para o respeito da dignidade humana naqueles seres mais atingidos pela doença ou deficiência física e mental. Refiro-me concretamente à APAC, APACI e Casa de Saúde de S. João de Deus. Juntamente com o Hospital, a Santa Casa da Misericórdia, a Recovery e um bom número de centros sociais, quase todos de ordem paroquial, bem podemos dizer que os frágeis são gente e que os que têm mais saúde estão atentos para que nunca haja excluídos da mesa que Deus pôs para todos.

Mas voltemos aos quarenta anos da APACI. Sem ter conhecido os meandros da fundação, ano a ano me dou conta de que só almas «tocadas» pelo evangelho de Jesus podiam meter-se numa aventura arriscada, que dura e oxalá perdure por muitos mais (quarenta) anos.

Não será só em Barcelos, mas um pouco por todo o mundo aonde chegou a Boa Nova de Jesus Cristo, pesem embora sombras negras que marcam tudo o que é humano, surgiram e continuam a surgir instituições que dão corpo e estrutura à obrigação primeira do cristão: o testemunho da sua fé no acolhimento ao outro, particularmente o mais frágil.

Mesmo que actualmente se procurem «nuances» de «humanidade» ou «solidariedade», de «humanitarismo» ou de «voluntariado», o certo é que sair de si para se pôr ao serviço dos outros, sem interesse pessoal mas apenas «com os olhos em Deus», «fazendo bem sem olhar a quem», releva de uma origem única: o cristianismo que, espalhado pelo mundo inteiro, se tornou a força aglutinadora para fazer da Humanidade uma só família.

É verdade que as ideologias do nosso tempo têm dificuldade em ler o hoje reconhecendo o bem dos séculos passados, originado no seio do cristianismo. Mas a história, mesmo que reinterpretada pelos interesses de grupo, há-de impor-se por si própria.

Está de parabéns a APACI, que merece a gratidão de todos os barcelenses, pela obra arrojada e pioneira que desenvolve no nosso concelho. E bem fazem os poderes públicos nos apoios, justos e merecidos, que lhes dão. Um dos autocarros que circulam com estes nossos irmãos - pelas ruas das nossa cidade e das nossas aldeias, com sorrisos largos tão necessários para quem tanto «corre» sem tempo para nada - regista que foi «oferta do Município». Ainda bem. Há dias quiseram, como o fazem todos os anos, celebrar a sua comunhão pascal na Igreja Matriz, que enchem com a sua alegria, os seus cânticos, os seus sorrisos e até os seus «gritos» descontrolados. Direi mesmo que é dos dias mais «cheios» da nossa Igreja Matriz.

Dizer a esta gente que «Deus gosta muito de cada um» e que têm um lugar único no coração de Deus, quando o olhar comercial e consumista os olha como «clientes», traduz uma expressão da fé cristã: o Cristo a caminho do calvário precisa também hoje de cireneus e verónicas que cuidem porque só o Calvário é caminho de Ressurreição.

1 de Abril de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXV

«Para que os meus netos tenham gosto na igreja Matriz». Esta frase ouvi-a eu há umas semanas atrás. Claro que foram para mim de grande conforto, dada a minha conhecida insistência junto dos barcelenses para que estimem e cuidem da sua igreja, não só pelo seu valor artístico e histórico, mas sobretudo porque ela é testemunha da fé dos que nos precederam, que nos merece todo o respeito. Ou não será a Igreja Matriz o edifício mais antigo ainda em uso e aquele que mais pode evocar a identidade dos barcelenses? E faço -o por sentir bem na alma a dor de um certo abandono por parte de alguns para quem é muito longe deslocar-se algumas centenas de metros ou um quilómetro. Pior ainda quando o fazem desligando a vida da referência primordial à Paróquia de Santa Maria Maior.

Até por uma questão de respeito pelo passado e de brio pela sua terra, as gentes de Barcelos deveriam acarinhar a sua «mãe», onde se nasce para a fé, se cresce e se alimenta a fé, se casa e se celebra o funeral religioso. A Matriz é a Mãe. E nunca uma mãe pode ser esquecida ou substituída.

A frase inicial tem autor. É do Carlos Carvalho, a quem agradeço a dedicação, dele e de toda a sua família, à «sua» Matriz. É que, artista do ferro, quis ele recordar a sua infância quando, ao aprender a arte, participou nos belos castiçais em ferro que ladeiam o altar. A história destes havemos de a recordar em breve pela escrita do Francisco Assis Gonçalves. Agora lembrou-se ele de nos surpreender com três expositores em jeito de estante, que serão colocados à frente dos altares com informação adequada a cada um, que estamos a preparar. E fê-los no mesmo estilo e no mesmo material, obra de arte que em breve vamos admirar. É que o estilo imita os castiçais em ferro, guardados na Catedral de Braga, que acompanharam a cruz da primeira missa no Brasil, nos descobrimentos portugueses. Quando isto me foi referido, logo tive o cuidado de conferir. E lá estavam eles, os castiçais em ferro, na Sé de Braga, que serviram de modelo.

São três, tantos quantos os seus netos. E a foto regista o momento da oferta, como que dizendo aos seus netos: «esta é a vossa casa. Por esta casa o vosso avô muito trabalhou».

Vem a propósito registar a minha surpresa quando me dei ao cuidado de ler o registo de vários acontecimentos e gestos de importância dos barcelenses para com a nossa igreja Matriz. Refiro-me ao «Livro de Ouro», agora exposto no salão nobre e assinado por visitantes e participantes em actos de relevo na vida de Barcelos ou visitantes ilustres da igreja Matriz. Espero um dia dar a conhecer alguns destes registos, que nos possibilitam verificar e estimular o sentido de gratidão. Nele constam algumas ofertas ou doações que fazem parte do património da nossa igreja Matriz.

É verdade que o evangelho de Jesus recomenda que «não saiba a esquerda o que faz a direita» e aquilo que se dá para a Igreja, sentido como um doar a Deus, não deve esperar agradecimentos especiais ou placas honrosas. No entanto, também é verdade que os registos das peças ofertadas com nome do ofertante e data constituem um precioso elemento para os historiadores. Cálices de ouro ou objectos de prata, cuja durabilidade os séculos não apagam, testemunham a alma crente de um povo que, mesmo a viver em precárias condições económicas, segundo os nossos juízos, nunca deixavam de contribuir para «a sua igreja» e davam sempre o melhor porque se tratava para eles de «dar para Deus». E para Deus... só o melhor.

A Igreja Matriz de Barcelos precisa de uma grande comunidade a dar-lhe vida no dia a dia. Como Património do Estado mereceria uma melhor atenção por parte das autoridades. Desculpando-se estas da verba insuficiente para as questões de conservação do património, não temos outra saída senão assumirmos a conservação do espaço, que nos pertence como usufrutuários. E tem sido nesta parceria a três, Direcção Geral de Cultura do Norte (em nome do Estado), Município e Paróquia que se tem conseguido conservar o edifício como está. Preocupam-nos as questões de segurança, com a evidente necessidade de drenagem interior e exterior bem como a substituição da cablagem eléctrica, e custa-nos ver um órgão há décadas inutilizado e que urge recuperar ou os belos altares em talha carcomidos pelo bicho da madeira. Estarão os barcelenses conscientes de que é injusto que apenas «um punhado» de gente se empenhe naquilo que é de todos?

25 de Março de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXIV

«A morte do físico Stephen Hawking «levantou» o mundo da ciência em homenagem a um dos seus maiores. Também eu presto a homenagem a este cientista único, um génio mesmo, cujo valor é reconhecido em todo o mundo.

Chamou-me a atenção, no entanto, uma frase citada acerca da existência ou não existência de Deus e da vida para além da morte explicada como «um conto de fadas para pessoas com medo do escuro». Quando pretendo retomar esta frase, dou-me conta, uma vez mais, como a preocupação de encontrar um título atractivo e curto pode induzir em erro. Quando se vai ver o contexto da afirmação, uma luz mais abrangente surge. Eis o que encontrei, posteriormente comentado por muitos para quem a possibilidade de o fazer os leva a pensar que podem dizer tudo e o seu contrário, sem qualquer sentido de responsabilidade, num seguidismo terrível que infantiliza e confunde.

Eis a frase mais completa: «Ateu, Stephen Hawking partilhou nos seus livros e ao longo de várias entrevistas os seus pensamentos sobre aquilo que ainda está para além do nosso conhecimento. E é a partir da sua frase em que o físico afirma que “não podemos provar que Deus não existe” que partimos para a sua ciência que “faz com que Deus não seja necessário” e em que o céu e a vida pós-morte são “contos de fadas para pessoas com medo do escuro”.

Por esta citação já nos apercebemos do perigo dos títulos simplistas e do contexto das afirmações que o físico fez.

Ora Hawking é génio no campo da física. Não no campo da psicologia ou da espiritualidade humana ou antropologia. Não se pode pedir a um físico que nos fale de Deus. Para se falar de Deus entramos na dimensão religiosa do ser humano, diante da qual todos somos aprendizes.

A nossa cultura, herdeira do existencialismo ateu «faz com que Deus não seja necessário», dando, assim à ciência o lugar de Deus. Esta idolatria está a gerar uma vida social e colectiva desastrosa, como muitos reconhecem. É que viver sem Deus implica não ter sobre quem partilhar ou sobre quem descarregar o «fardo» tantas vezes absurdo da condição humana. Se Deus nos precede e não é inventado pelo homem, Ele resiste a todo e qualquer pensamento negacionista. Mas é importante que cada ser humano se interrogue sobre a sua existência e, sobretudo, sobre a identidade do mesmo Deus, sabendo de antemão que o pensamento humano é finito, sobretudo quando pretende pronunciar-se sobre o infinito.

Percebemos certamente como o pensamento sobre Deus se torna facilmente um pensamento sobre a morte e o além. Felizes de nós, os crentes, sobretudo os crentes cristãos, que encontramos em Jesus a resposta para as grandes questões que a Humanidade sempre se pôs. Mas não podemos perguntar a um físico quem é Deus. Somos todos, cientistas incluídos, aprendizes do que nos transcende. A própria ciência constrói-se na dúvida permanente sobre o adquirido, pondo-o em causa. Quando isto acontece lá chegará o momento em que se ultrapassa a verdade «absoluta» dos tempos precedentes. Mas há limites. E Deus é limite para a ciência. Daí que a fé vai mais longe ao ajudar o crente a situar-se diante de um mistério que nos transcende mas a integrá-lo nos seus próprios limites. Assim se aprende a viver em permanência numa relação em que o Absoluto, Deus, exerce atracção sobre o ser humano, chamado a elevar-se acima das outras criaturas porque «imagem e semelhança de Deus».

Tudo isto me faz lembrar uma enorme plêiade de cientistas crentes que souberam ser cientistas, profundamente respeitadores do método científico, e, ao mesmo tempo homens de fé em Deus. Não nos apresenta a história tantos e tantas? E não foi a Igreja, ao longo dos séculos, a instituição que mais investiu na ciência, dando origem às universidades e ocupando, durante séculos, o lugar de promotora única da cultura?

Louis Leprince Ringuet é um deles. Escreveu Fé de Físico - o Testamento de um Cientista, que tive o cuidado de traduzir para a língua portuguesa, tendo sido editado pela Gráfica de Coimbra nos anos noventa. Dou graças a Deus por ser crente, herança que recebi de meus pais. Para mim a fé não me «adormece», bem entra no «conto de fadas», antes me estimula para pensar mais longe e mais largo, o que me permite apreciar bem mais o grande mistério de Deus Criador e horizonte último da existência humana.

18 de Março de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXIII

Aconteceu a Semana Bíblica. Pela nona vez no formato que lhe conhecemos. Três conferências de temas «fortes» e outros componentes com dimensão mais paroquial, já que as conferências são elemento comum a todo o Arciprestado.

Numa apreciação global, diremos que tudo correu como previsto e que os barcelenses aderiram. O número de pessoas presentes nas três conferencias (190, 245 e 145) permitem concluir que a Semana Bíblica de Barcelos faz seguir para a generalidade das paróquias de Barcelos um «espírito novo» para a vida cristã, a alimentar as práticas religiosas diversificadas. Parece-me poder dizer-se já: não há culto católico em que a Palavra de Deus não tome a centralidade. Aliás conforme o ensinamento da Igreja, que nos fala de duas mesas que alimentam o discípulo de Jesus: a da Palavra e a da Eucaristia.

A minha percepção vê que uma grande parte dos participantes estão em todas as conferências. Mais, que são os mesmos de ano para ano. O que pode levar-nos a concluir que a «publicidade» se torna mais dispensável e que a motivação já existe e se repete de ano para ano. Mas pode também querer dizer que os que sempre se dizem que «não têm tempo» já assumiram a sua ausência como norma e não é qualquer «provocação» mais forte que os desinstala do seu sofá de conforto onde se dorme sobre as eternas desculpas: «isto não é para mim», «eu não tenho jeito nem cabeça», «eu não preciso disso pois me chega a missa e o tercinho». E surge-me, repetida, uma questão: que fazer para despertar tantos que se dizem cristãos, até mesmo aqueles que se dizem praticantes, e, pior ainda, aqueles que até vão à missa todos os dias? Sobre estes, temo que o seu «consumismo religioso» não lhes seja suficiente para o embate inevitável quando lhes faltar «a minha missinha»...

Que conhecer mais a Bíblia possa gerar desconforto, eu não duvido. Direi até que a Palavra de Deus desconforta mesmo. E quando tal não acontece, algo estará por trás: cercamo-la de tal maneira de ruído que nos iludimos pensando que a abafamos de vez. Pobres de nós. É que a Palavra de que falamos é o próprio Deus Criador em acção de amor para com a sua criação. Ou seja, Deus não criou e abandonou a sua criação ao seu destino. Deus continua a manter na vida as suas criaturas num processo permanente de novidade que dá beleza e sentido ao quotidiano dos seus filhos.

Este Deus de que falamos não é o resultado de um raciocínio, algo fruto de um pensamento que procura justificações apoiadas na realidade. Deus é Alguém em relação permanente com o ser humano e com todo o mundo criado. E revelar-se significa amar aquele a quem Se dá a conhecer. E o melhor tratado acerca dele é exactamente o testemunho pessoal daqueles que O experimentam no seu dia a dia.

Os conferencistas são escolhidos com a devida antecedência para se prepararem e possam dizer algo de novo a partir da sua reflexão sobre o tema proposto, normalmente em sintonia com o programa pastoral da nossa Arquidiocese. Não podemos esquecer que a Semana Bíblica nasceu a partir da exortação do nosso Arcebispo, que desejou que, como fruto dos anos pastorais dedicadas ao tema da Palavra de Deus, ficasse a realização de semanas bíblicas nas paróquias.

Quando Jeremias vê «um ramo de amendoeira» (Jer. 1, 11) e Deus lhe confirma que está a ver bem, no meio de toda a desolação, nós, os crentes somos desafiados à mesma atitude de «ver bem», para além do que os olhos humanos atingem, isto é «como Deus vê» e ajudar a desabrochar tantas sementes de bem, que uma sociedade ateia tenta esconder (uma parte, militantemente tanto mais agressiva quanto mais vazia e fria, diante de outra covardemente resignada).

Sobre um dos filmes visionados em grupo, explicados e dialogados (O Silêncio, de Martin Scorsese), ouvi o comentário de alguém que lembrava a comunicação de um historiador: «as perseguições aos jesuítas no Japão (tema do filme) começaram quando as lideranças japonesas se deram conta de que a nova religião, o cristianismo, fazia as pessoas pensar. Que bela afirmação que nos deve deixar orgulhosos! Ora se o escravo pensa que também é filho de Deus e que também tem direitos... desmorona-se uma sociedade de senhores e de escravos.

Claro que temos receio em falar de uma revolução que Jesus operou. Preferimos a «tolerância» do «não fazer ondas». Será isto o verdadeiro, belo e bom de Jesus Cristo?

11 de Março de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXII

«Porquê a mim, senhor Prior?». Esta pergunta ouvi-a eu ainda há dias, repetindo um «mistério» que me acompanha ao longo da existência. Porque eu também a coloco.

Não respondi de imediato. Que poderia eu dizer que fosse convincente e solução aceitada? Há perguntas que nos acompanham ao longo da vida e que vão encontrando pequenas respostas até que, na plenitude do ser, dizemos nós, os crentes, encontram a única e verdadeira resposta satisfatória.

Momentos depois, eu pude dizer ao meu interlocutor: «aí tem um pouco de resposta» e, já na despedida, pude dizer: «não deixe de repetir a questão do início. E continue a bater à porta de Deus... Afinal, não é Ele o único que nos pode dar a resposta satisfatória?» Estamos em Quaresma e, em breve, a Semana Santa nos colocará diante do maior mistério da condição humana. O porquê que nos acompanha sempre situa-se, então, diante de um Cristo que, não discutindo a dor e a morte, a estas se sujeita. E o seu sofrimento, real, só tem uma palavra de explicação: um amor fiel.

É por isso mesmo que, ao longo de dois mil anos, com tantas controvérsias, discussões e tentativas de resposta, carregadas de ideologia e de racionalidade, os rituais da Semana Santa «entraram» nas culturas de modos muito diversos. Porque a condição humana é igual em todo o mundo: a fragilidade, a dor e a morte batem à porta de todos. E chocam com o desejo profundo de todos, o de não morrer mas viver em felicidade total.

Quando a sabedoria de Israel dá origem ao Livro de Job, este permanecerá sempre como a expressão do maior grito de revolta do ser humano diante de um Deus silencioso e quase alheado. A resposta, porém, é a de que Job se mantém fiel até ao fim e resiste ao «silêncio de Deus», mesmo que «gasto» num confronto com os seus muitos amigos que olham para ele apenas pela razão e pela lógica. Porquê a mim? Esta é a grande questão de sentido que a nossa cultura pretende tornear. Encontramos, por isso, uma sociedade fragilizada, «dispensada» de olhar a profundidade do ser humano, este cada vez mais facilmente manipulado e «jogado» ao sabor das correntes de pensamento fácil. Uma sociedade de gente desresponsabilizada diante do mal, preferindo viver num faz-de-conta ilusório. Mesmo diante da certeza da morte, que se tenta evitar a todo o custo, mesmo que só no pensamento.

Também eu me ponho a mim mesmo a mesma questão de sentido acerca do sofrimento e da morte. Mas ela surge bem mais acutilante diante dos insucessos, das situações adversas, das consequências do meu agir frágil, por mais que possa dizer que as decisões foram pensadas e tomadas como as melhores e as mais justificadas. Nas situações adversas também eu me pergunto: Porquê, Senhor? E faço-o porque acredito. Logo, para mim, a porta de Deus, mesmo que me pareça fechada, está sempre disponível para os meus questionamentos.

Curiosamente, dou-me conta de que a questão me é colocada de modo diferente. Certamente porque sou padre. Reconheço que a questão posta a um padre traz consigo uma convicção, mesmo que pouco fundamentada: «são homens de Deus e sempre terão um pouco mais de ‘proximidade’ com Ele».

A verdade é que nós, padres, somos tão frágeis quanto todos os outros. Temos, cada um, a sua experiência religiosa. Que, à partida, deveria ser mais profunda e verdadeira do que qualquer outra. Sê-lo-á? Penso que somos muito iguais diante das situações adversas e diante das questões de sentido. De facto, o ensinamento de Jesus não deu uma explicação racional para nos tranquilizar. Ele convidou-nos a aprender com Ele o caminho do Calvário. E, por este caminho, foi Ele que Se nos manifestou na sua fragilidade, só ultrapassada pela confiança no Pai. Haverá outro caminho para nós, dois mil anos depois?

O saber estar, calado e sem resposta, diante de uma questão dolorosa, sem resposta à vista, é a necessária virtude num tempo em que «ninguém tem tempo» para se situar diante da fragilidade alheia. Também aqui - diria, sobretudo aqui - o silêncio fala mais alto do que mil palavras. Apenas estar, sofrendo com, no mistério de uma não-resposta. Simplesmente esperando que o «silêncio de Deus» nos invada e nos conforte. E, felizes de nós porque acreditamos.

4 de Março de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLXI

Mais positivos ou mais negativos, os nossos olhares são plurais. Oxalá sejam colaborantes para a unidade na diversidade, purificados de fundamentalismos ou extremismos, indignos da condição humana.

Cada vez mais na nossa cultura, profunda e vasta mas também equívoca e desnorteada, rica e abrangente mas também excluidora e demagoga, o quotidiano sente necessidade de «eventos» que quebrem a monotonia, mesmo que não faltem sinais de excesso de barulho, de ritmo e de risco. Não podemos, portanto, admirar-nos de ouvirmos dizer que «a Igreja tem dificuldades em falar para o mundo». A acusação tem séculos, apesar de, obviamente, cada geração «fabrique» as suas apreciações com nuances muito próprias.

Os muitos comentários surgidos a propósito de uma intervenção do senhor cardeal patriarca, na sequência do que fizeram e estão a fazer muitos outros bispos, que o Papa responsabilizou para as suas dioceses, a propósito dos divorciados recasados e do seu lugar na Igreja, revelou quanto de ignorância existe nos interventores públicos sobre a Igreja, a sua história e a sua doutrina, e quanta má fé também «fundamentada» e repetida a partir de pressupostos várias vezes contraditos pela história e pela actualidade.

Diz-se que o espaço da Igreja se reduz na praça pública. Real ou aparente? Que a Igreja perde influência. Seria tal influência real ou mais aparente? Uma coisa é certa: se é tão julgada e condenada, é porque existe e todos a querem diferente. Será que querem? E se ela se tornar mais santa e menos pecadora - isto é, ajustada à cabeça de cada um que a olha de fora - quem terão eles depois para acolher estados de alma a roçar a hipocrisia e mesmo fanatismos que renascem sem novidade?

Olho para a Igreja de Jesus, a dele e não a minha, ou a que exprime a cabeça de cada um. E vejo-a mais santa e menos pecadora, mais realista e verdadeira, mais inquieta com a fidelidade ao seu Senhor e mais empenhada em chegar a todos, e até fazendo mea culpa por ainda não ter chegado a todas as periferias. Olho-a nos patíbulos modernos dos inquisidores, indispostos a repensar-se e «amargos» porque Deus não os «larga». Como não podem irar-se contra Deus, a Igreja está mesmo ao lado e a jeito. Olho-a na sua fragilidade dos primórdios, confiada a um Pedro que nega o seu Senhor mas que logo chora amargamente a sua falta. Ou a um Judas que O atraiçoa, ou a um Tiago que só acredita «se O vir», ou os outros apóstolos, que fogem quando O vêem de cruz às costas... Sim, foi sobre estes fundamentos que Jesus fundou a sua Igreja e a quem prometeu: «estarei convosco até ao fim dos tempos». Sim, a Igreja de Jesus está confiada a mãos frágeis, que ainda hoje a cuidam, mas não deixou de ser «a minha Igreja», a de Jesus, que a todos sem excepção convida, mesmo os mais «amargos» e «incomodados» com a insistência do convite. É inegável que as procuras honestas de Deus existem e, acredito, com mais força ainda nesta sociedade de consumo que parece tudo querer abafar de barulhos que impedem de pensar e de ser livre. Só que na sociedade mediática e de consumo, a notícia precisa de vender e sempre a mentira ou ilusão atraíram mais que a verdade. Ou seja, porque não constam nos noticiários, não «existem» aquelas levas de gente que, semana a semana, dia a dia mesmo, se recolhem em silêncio para escutar Deus ou o próprio coração. Aqueles imensos pequenos grupos que, às vezes em dias seguidos da semana, gente que trabalha e que tem compromissos familiares, que educam filhos e gerem uma casa de família, que até trabalham de manhã à noite para receberem um pequeno, para não dizer, injusto salário e que à noite ainda tiram tempo para uma reunião de formação ou para darem de si aos outros em trabalho voluntário, feito com sacrifício mas recompensado apenas pelo gosto de servir os outros, cuja fonte encontram no próprio Deus. Não constam nos jornais e não surgem nas imagens televisivas mas existem. E são muitas. E até crescem disseminadas por tantas paróquias e grupos cristãos espalhados pelo mundo fora. Sim, nunca como hoje a Igreja «invisível» na praça pública se tornou visível em tantos homens e mulheres que não escondem a necessidade que têm de Deus para o seu próprio equilíbrio pessoal e social. A Igreja existe. A de Jesus. E esta nunca está em crise. A dos homens, a daqueles que a querem ajustada ao «mundo», a falar como o mundo, a ser massa em vez de fermento... Essa está em crise. Em verdadeira e constante crise. Há séculos mesmo. E todos os dias vai desaparecendo.

25 de Fevereiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLX

Estranhei os comentários e desconfiei das declarações. Passei o dia desconfortado. Sem outros dados, interiormente pensei: ou o senhor Cardeal de Lisboa foi muito infeliz ou o jornalista não entendeu nada do que ouviu, se é que não agiu de má fé.

À noite, pude observar igual desconforto num dos grupos da Paróquia. E senti a necessidade de tentar ajudar a compreender, certamente apelando à fidelidade ao magistério da Igreja e à serenidade diante de uma «poeira» levantada, que iria certamente assentar. Procurei ser claro, mesmo não conhecendo o texto do senhor Cardeal, sobre o que pretende o Papa diante das situações dolorosas dos divorciados recasados, no contexto actual da sociedade e na fidelidade à doutrina da indissolubilidade.

Somente à noite, eu próprio mais sereno, tive ocasião de ler na íntegra a Nota do senhor Cardeal, aliás na esteira de outras, e são já muitas, que os bispos têm publicado, dando orientações para as suas próprias dioceses, missão que o Papa lhes confiou.

E ao desconforto do dia seguiu-se em mim uma revolta, que confirmava a minha intuição inicial. Objectivamente, sou daqueles que pensa que o senhor Cardeal não foi feliz no modo como falou à comunicação social, uma situação repetitiva dado o contexto laicista em que tantos profissionais da comunicação social se situam diante do fenómeno religioso, por si só complexo e difícil de abordar. Não faltaram depois debates e escritos, nem inquéritos de rua. Como se as verdades da fé ou os comportamentos éticos fossem aferíveis pelas «maiorias» opinantes surpreendidas e a pronunciar-se sobre temas tão profundos e misteriosos como os do comportamento humano.

Dois escritos me agradaram de modo especial: um pequeno comentário da vice-reitora da Universidade de Coimbra (JN, 11FEV) e o de um advogado, que se diz não crente, mas que discorda deste «barulho » e nos ajuda a comparar princípios do Direito Civil com o Direito Canónico, tendo a coragem de situar as coisas na sua lógica jurídica. Pode ler estes e outros em http://paroquiadebarcelos.org/?zona=ntc& tema=5&id=465 .

Para entendermos correctamente o que está em causa, honestamente temos de nos referir ao Papa João Paulo II que, na Familiaris Consortio, delineou o caminho a seguir e que se manteve até aos dias de hoje. Ele falava das «situações irregulares» e dos «casos difíceis» para a pastoral familiar. E enumerava cinco, tendo, para cada um, uma orientação clara: 1. Matrimónio à experiência; 2 - Uniões livres de facto; 3. Casados unidos só em matrimónio civil; 4 - Separados e divorciados que não se casam de novo; 5 - Divorciados que se casam de novo.

Sobre este último ponto, João Paulo II disse: «A Igreja, contudo,  reafirma a sua práxis de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união». E justifica que tal admissão punha em causa a «indissolubilidade do matrimónio».

Foram mais de 30 anos de discussões sobre esta disciplina da Igreja que teve como consequência, diz-se, o afastamento de alguns casais da vida da Igreja. Compreende-se, assim, que o assunto nunca esteve «encerrado» apesar das palavras claras do Papa. Com a mesma legitimidade de João Paulo II, Francisco ouviu «as dores e alegrias» da Humanidade, convocou dois sínodos, largamente representativos de toda a Igreja que se «puseram à escuta» do que diz o Espírito Santo à Igreja em cada tempo, sempre chamada à fidelidade ao seu Senhor e ao serviço ao povo de Deus. Desta reflexão aprofundada e contextualizada, surgiu a Amoris Laetitia do Papa Francisco, que convidou os bispos a criarem mecanismos concretos de resposta à questão da comunhão aos divorciados recasados. É sobre este ponto (cap. VIII da Amoris Laetitiae sobre «acompanhar, discernir e integrar a fragilidade») que se debruça a Nota do Cardeal, que propõe caminhos de discernimento sobre as situações que podem ou não levar à comunhão eucarística. E das seis alíneas do texto só uma delas mereceu o «reparo», quase insultuoso, a que fala da proposta da abstinência sexual quando se comprova a validade do casamento anterior, mas sem abandonar o processo de discernimento que mantém o recasado na vida eclesial. Não nos admiramos da «tempestade», passageira como tantas outras, embora dolorosa. Precisa-se, no entanto, de maior seriedade por parte dos comunicadores.

18 de Fevereiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLIX

Ontem, dia da palestra, em que os padres reflectiram sobre as visitas pastorais ao Arciprestado e o modo como  decorreram as celebrações do Crisma, pude dar graças a Deus. Não só pela análise realista que se pretendeu fazer, mas sobretudo pelas inquietações que «sobraram» para a reflexão de cada um dos padres dedicados ao anúncio do Evangelho em Barcelos. Ouvimos as coias boas e as menos boas de quem visitou 86 das 89 paróquias do Arciprestado e fomos incentivados a «dar razões da Esperança», mesmo que o realismo nos leve a justificar algum desencanto.

E dei graças a Deus, sobretudo ao terminar o dia, por confirmar a sede de cultura religiosa que existe em Barcelos: era uma quarta-feira muito fria, que fazia prever poucos participantes numa acção de formação, promovida pelo CESM no Seminário da Silva. Ela fazia parte de um ciclo, que se prolonga até Junho, às quartas-feiras de 15 em 15 dias. E esteve lá quase uma centena de pessoas.

O tema era, de facto, aliciante: «O avanço da ciência e o recuo de Deus?». E falou, e muito bem, o P. Álvaro Balsas, S. J., com tese de doutoramento na área da física quântica. Fiquei surpreendido como soube deixar bem claro como a nossa cultura alimenta preconceitos e navega na ignorância (ou na má fé?) quando repete, por exemplo, que a Igreja é contra a cultura ou que ciência e fé só podem opor-se porque a Igreja é contra a ciência. Claro que nada mais falso do que isso. Basta ter em conta que as universidades, onde é suposto acontecer a inovação, nasceram da Igreja, que sempre as promoveu, ou então que uma grande parte dos bons cientistas eram clérigos. Se considerarmos as propostas de formação a nível do Arciprestado de Barcelos, para além das que são promovidas pela Arquidiocese ou até ao nível paroquial, convenhamos que propostas de formação permanente não faltam. Não será necessário repetir que, ao nível da cidade, temos uma catequese semanal, aberta a toda a gente, jovens ou adultos, que é muito apreciada e envolve cerca de 70/80 pessoas, em dois grupos com dinâmicas diferentes. O curso de teologia pastoral, com matérias diversificadas, que acontece às segundas-feiras em Pereira, ou as propostas sectoriais, como a formação de catequistas e agentes de pastoral levam-nos a dizer que só se fecha na ignorância quem quer. Melhor dito: a ignorância existe mas há meios para a ultrapassar. O que não acontece sem o esforço pessoal e a capacidade de decisão diante de várias escolhas.

Enfrentemos a questão: os responsáveis, nós, padres, por exemplo, reconhecemos que as pessoas desconhecem o evangelho, ou o texto bíblico, ou a doutrina da Igreja. Mesmo os ditos «praticantes» dificilmente dão às suas expressões de fé um conteúdo mais ajustado às grande necessidades do espírito humano, marcado por uma constante procura do Bom, do Belo, do Verdadeiro, numa palavra, de Deus, fonte e origem de tudo. Cristalizou-se na ideia terrível de um dogmatismo destruidor: «Deus é mistério e nós humanos vamo-nos «desenrascando» conforme podemos, os padres é que sabem». Claro que isto é tremendo e deve desaparecer. Quando seguimos o ensinamento da Igreja, que nos convida à personalização da fé, pela adesão pessoal a Jesus? Quando, nas questões da fé, enveredamos por um caminho libertador de medos, fundamentado na Bíblia e nos grandes textos que testemunham a experiência religiosa ao longo dos tempos? Quando será que a comunhão na fé, que dizemos fundamental, se vive na diversidade de pareceres, desde que não ponham em causa a unidade no essencial? Tudo isto se aprende, se cuida, se alimenta. Felizmente, não faltam propostas. Falta, isso sim, vontade pessoal de «arrumar» com tantos «supérfluos» para chegarmos ao essencial.

Falta arrumar e secundarizar mundanismos para encontrarmos o Espírito.

11 de Fevereiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLVIII

Já se tornou regra entre nós. Quem gere o património religioso deve aliar ao seu voluntarismo e amor à Igreja algumas competências técnicas, que se adquirem conforme as necessidades.

Os membros do Conselho Económico da nossa Paróquia juntam-se uma vez por ano e vão visitar igrejas ou espaços destinados à acção pastoral. Ver o que outros fazem e como enfrentam dificuldades semelhantes torna-se um exercício saudável de humildade - não sabemos tudo e queremos aprender - e sinaliza o cuidado que se põe na gestão dos bens que são de todos.

Desta vez fomos bem perto, a Famalicão. E em Ribeirão visitámos a igreja de uma paróquia grande (só na catequese são mais de 800 crianças), que se enche aos domingos várias vezes. Quisemos visitar o órgão de tubos restaurado e falar sobre o projecto em curso da construção de um outro, mais adequado à dimensão do espaço, a construir de raiz.

Antes mesmo, tínhamos visitado uma fábrica recentemente instalada para a construção de órgãos. Melhor dito, uma das três parceiras que, na zona e sobretudo para o norte de Portugal, se dedicam aos órgãos de tubos, seja para os recuperar - e há muitos na nossa zona que prestaram bons serviços e ficaram um pouco ao abandono - seja para a construção de novos órgãos. É certo que há por trás destas empresas uma ligação forte a outras que, da Alemanha, dão um certo apoio numa área que se desenvolve cada vez mais no nosso país.

Porque visitámos esta fábrica, dedicada aos tubos para os órgãos? Porque - espero que não seja novidade para ninguém - está em crescendo a ideia de se recuperar o órgão de tubos da Igreja Matriz de Barcelos, há décadas inoperacional. Sabemos que ele existe, vemo-lo... Mas não toca. Para que o queremos se ele não serve a finalidade para que foi criado?

Confesso que, perante algumas vozes manifestando a vontade que o órgão de tubos da Matriz volte a ouvir-se, tenho hesitado em envolver-me no assunto. Por manifesta falta de tempo - são tantas as «frentes» abertas que se me impõe um cuidado maior em estabelecer prioridades e «ler» bem os sinais do possível em confronto com o ideal - e por não me sentir à vontade na área musical. O certo é que o órgão lá está. Calado. A deteriorar-se. Será justo deixá-lo calado? Vamos ignorar que uma realidade nova tem surgido, sobretudo através do Conservatório de Música de Barcelos, em que cresce cada vez mais o número de crianças e jovens interessados pela música? O que nos leva a pensar que, em breve, teremos um bom número de jovens capazes de se sentarem a um órgão de tubos?

E não merecerá a cidade de Barcelos dispor de um órgão de tubos bem ajustado a um espaço litúrgico que sirva o culto e a cultura?

Tudo isto se me impôs e acredito hoje que a recuperação do órgão de tubos da Igreja Matriz de Barcelos será uma realidade num futuro não muito longínquo. Oxalá os barcelenses se entendam e manifestem brio na sua terra. Consultados os pareceres vários já recolhidos, impõe-se--nos uma decisão, que não pode ser precipitada: dado que do órgão que vemos, apenas a caixa exterior é original e valiosa, já que o «miolo» do órgão tem de ser todo ele refeito, não será melhor recuperar o que é original e construir de novo o tal «miolo» ajustado ao espaço e com capacidade sonora para concertos?

Só fico desejando que o assunto mereça andar «nas bocas do mundo».

4 de Fevereiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLVII

Há muito que deveria ter sido. Sentia a necessidade. E chegou a hora. A de dizer obrigado, em nome de todos, àqueles que, discreta mas eficazmente, cuidam dos serviços mais humildes. Refiro-me àquele grupo de senhoras que, semana a semana, das 14.00 às 16.00 das quartas-feiras, se «fecham» na igreja Matriz para a limparem e a tornarem agradável para todos aqueles que a usam dia a dia, particularmente aos domingos. São daqueles serviços que só são notados se não aparecem feitos. Ou seja, se o espaço onde os cristãos se reúnem estiver limpo ninguém nota, mas se estiver sujo todos notam. E, neste caso, até perguntam quem foi que não varreu, dando como suposto que há gente que tem a obrigação disso. Ora, é necessário dizer e lembrar que a Igreja vive, na sua grande parte, do voluntariado generoso de um grupo de cristãos que, além de contribuírem conforme as suas «posses» ainda dá do seu tempo, da sua dedicação, das suas energias espirituais e físicas. Dizer obrigado àqueles que limpam e varrem a igreja é dever de todos. E foi à mesa, num jantar que a Paróquia ofereceu - contando sempre com o generoso e eficaz voluntarismo da Família Manuel Gonçalves - que pudemos conhecer e agradecer a todas aquelas senhoras, que se esforçam - e algumas com que sacrifício devido à idade e condições precárias de saúde! - para que a igreja Matriz esteja sempre limpa. Em diálogo sereno lá fui ouvindo as «queixas» de quem limpa o que os outros sujam e «aturam» os excessos da falta de educação de alguns para quem o espaço sagrado em pouco ou nada se distingue de um qualquer outro espaço público, pelo modo como o tratam, atirando papéis para o chão, fazendo dos bancos, onde todos se sentam, caixotes de lixo para as pastilhas elásticas mascadas, ou deixando imundos e até «vandalizados» os sanitários usados. O «alguém há-de limpar», sinal de pouco ou nenhum civismo, vai recair sobre estas pessoas «que ninguém vê».

Este jantar de homenagem merecida às senhoras de limpeza congregou também um grupo de homens que passaram, desde há poucos meses, a integrar uma «Equipa de Vigilância da Matriz», de modo a que a nossa igreja, todos os dias procurada por muitos visitantes, possa estar aberta todos os dias, sem deixar de cumprir com o estatuto laboral do sacristão. E, assim, em equipas de dois, lá vão garantindo as manhãs de segunda e terça-feira, bem como a tarde de segunda-feira, dias de folga do sacristão. Este é um serviço que fazia falta há muito e que começa a organizar-se melhor, precisando, como a equipa de limpeza, de novos voluntários, homens e mulheres, que tenham gosto em servir: estar na Matriz para acolher quem nos visita.

Sabemos como há muita gente com disponibilidade de tempo para servir. E com qualidades e forças físicas capazes. Haverá gente com disponibilidade interior para o serviço voluntário à comunidade? Faço um apelo particularmente a tantos reformados e reformadas: dêem duas horas por semana (Equipa de limpeza) ou quatro por mês (Equipa de Vigilância), que Deus bem vos recompensará. Certamente dar-se-ão conta de um tempo utilmente passado, que vos valorizará humana e espiritualmente e mesmo culturalmente. Quando contactarem com tantos visitantes, sobretudo peregrinos, alguns vindos de muito longe, com línguas e culturas diferentes mas com a fé que também nós professamos, ficaremos bem mais enriquecidos.

Sendo a Igreja Matriz a Igreja mãe de Barcelos, ela merece ser cuidada por todos.

28 de Janeiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLVI

Na tarde de domingo passado, o senhor Arcebispo Primaz chamou os primeiros servidores de cada Paróquia, para lhes dar posse como membros integrantes do Conselho Económico Paroquial (CEP). Foi a segunda vez que aconteceu deste modo: são 551 paróquias na Arquidiocese, cada uma delas dotada de um Conselho de 5, 7 ou 9 membros em regra. Ao lado do Pároco, como Presidente nato, o CEP gere os bens materiais e patrimoniais de cada paróquia, tendo sempre como finalidade a evangelização, ou seja, levar a Boa Nova de Jesus ao coração de cada paroquiano (dimensão institucional e visível) ou de cada pessoa sem excepção (dimensão missionária). Parece poder deduzir-se que esta tomada de posse colectiva será para continuar.

E ainda bem, porquanto, no contexto social do nosso tempo e atenta a história da presença da Igreja na sociedade, urge dar transparência e sentido de compromisso à gestão dos bens paroquiais que, por serem paroquiais, são eclesiais e têm esta dimensão comunitária que é essencial no evangelho que dizemos seguir.

Não mais se compreende que continuem tantos mal-entendidos na vida das comunidades cristãs, sobretudo no que diz respeito aos dinheiros ou outros bens entregues às instituições da Igreja, assunto sempre muito sensível para todos. É que se os bens são de todos, sendo da Igreja, a todos dizem respeito. Claro que quem contribui gosta e compreende-se que se sinta com direito a saber o que se faz com a sua dádiva. Mesmo que esta, sendo doada, deixe de lhe pertencer. Cada oferta à Igreja, fruto do suor de quem ganha a vida honestamente, reveste-se de um carácter sagrado que o torna merecedor de total respeito. Hesito em dizer que «é dinheiro sagrado» porque «fruto do trabalho do homem» é «apresentado» como dom para ser transformado. E porquê? Porque não faltam exemplos no nosso tempo de abusos escandalosas quanto às dádivas dos fiéis para «fins religiosos». Eis um rol imenso de «pastores» e «bispos», a fazerem fortunas em pouco tempo com as suas ardilosas campanhas de marketing religioso, que revolta e indigna. Sim, revolta-me saber de tanta falsidade e tanto abuso sobre a ignorância religiosa e a boa-fé das pessoas.

Graças a Deus que as nossas paróquias evoluíram muito e a sua organização e gestão exigem hoje mais que amadorismos e boas vontades. Já não é só o sacerdote que as serve, mas há um cada vez maior número de leigos comprometidos na missão da Igreja, sejam voluntários, sejam assalariados ou gratificados.

Por isso mesmo há normas claras quanto ao Fundo Paroquial que, em cada Paróquia, recolhe todas as dádivas e assume todas as despesas. Gerido pelo CEP, um grupo mandatado pelo bispo da diocese, que se renova de cinco em cinco anos, reúne normalmente todos os meses e dá contas das receitas e despesas. Em Barcelos, tenho eu o cuidado de anunciar a reunião mensal e até informar de alguns temas. Na Carta aos Paroquianos vou dando informações mais concretas. E todos os anos se distribui por cada família o relatório de contas. E o Pároco é o primeiro servidor, que recebe um salário mensal, de modo igual a outros colaboradores com vínculo laboral.

De onde vêm as ofertas que alimentam o Fundo Paroquial? Das dádivas avulsas dos fiéis, das caixas de esmolas nos edifícios de culto, dos ofertórios das missas, do folar da Páscoa e do contributo anual (côngrua) com que cada família mantém o seu vínculo de pertença e se lhe reconhece o direito de pedir serviços (casamentos, baptizados, funerais...) como um direito e não um favor.

21 de Janeiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLV

Penso ser impossível não se preocupar. Pelo menos para aqueles que se situam na vida com «ganas de mudar o mundo», inconformados e comprometidos por um mundo melhor. O importante é a intensidade com que nos preocupamos: com entusiasmo e realismo, sem afectar o equilíbrio pessoal, lutamos por causas que julgamos nobres e empenhamo-nos em servi-las. Elas valem por si e merecem o nosso esforço de as tornarmos sempre vivas. Vem isto a propósito de algo que verifico em todos os quadrantes da sociedade e mesmo nos eclesiais: todos discutimos muito, inconformados com a «situação», mas à espera de que os «culpados disto tudo» se «convertam» e paguem pelo que fazem.

Esquecemos facilmente que as estruturas existentes são fruto do agir inconformado, às vezes «institucionalizado» e ritualizado, tendo perdido o «carisma», o vigor mais intenso e a qualidade inovadora que as fez surgir. E quando as discussões se reduzem ao exterior, sem o «toque» ao coração humano, esse sim difícil de converter, não chegamos à verdadeira mudança, que é a do interior de cada um.

Também na vida eclesial corremos o risco de discutir tudo e todos. E até podemos andar décadas a queixar-nos dos mesmos insucessos, repetindo-nos de ano para ano, sem termos a coragem de olhar primeiro para o nosso interior, onde se situa o verdadeiro espaço de mudança.

O desalento e o cansaço atingem a todos. Sem entusiasmo nada se consegue «mexer» e transformar. Antes de olharmos nos outros o desencanto que paralisa, devemos olhar para nós próprios e renovar a nossa «consagração» à Causa que justifica a missão. Isto diz respeito a todos, padres e leigos. Se não estamos «cheios de Deus», se Deus não nos habita e nem nos incomoda a «sair» às ditas periferias que nos rodeiam - e que até somos capazes de identificar - em breve nos vamos sentir na «redoma» criada, escudados na nossa inércia e apontando os culpados do nosso marasmo.

Um breve exemplo, dos muitos que tecem a «teia» da vida pastoral: Era uma jovem mãe. Vinha de outra freguesia mas queria baptizar na Matriz. É ali que de vez em quando vai à Missa.

A primeira tentação é a de saber o «direito»: de que paróquia, porque quer baptizar aqui, a licença do pároco, os padrinhos crismados... Depois viria o sim ou o não, ou o talvez.

Vencida a tentação, convidei-a a sentar-se. Escutei e a conversa foi fluindo, sem pressas e, naturalmente, fomos desembocar na beleza do baptizado como início de uma vida nova para uma criança, que se torna filha de Deus. E com naturalidade a jovem mãe me foi dizendo a data pretendida, os pais separados e emigrados que viriam para aquela data, a sua condição de pais «juntos» há cinco anos... Não lhe disse sim nem não, mas percebi que perdeu um pouco da pressa com que vinha pois que o timing era curto para preparar o baptismo de uma criança já de um ano. Pedi-lhe para falar com o pai da sua menina e virem os dois conversar: tenho uma proposta boa para os dois. «O mesmo Jesus que quer entrar na vida da vossa menina quer entrar também nas vossas vidas».

Não sei até que ponto o que lhe disse a vai trabalhar no seu interior. Nem sei como reagirá o seu «companheiro». Nem preciso de me preocupar em saber. Afinal só Deus trabalha «por dentro» das pessoas. Mas é meu dever trabalhar «por fora», anunciando e propondo a Verdade do Evangelho e dispor-me a ajudar a caminhar para ela.

Era bem mais fácil marcar a data e pedir os «papéis». Mas será isso a pastoral?

14 de Janeiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLIV

Já lá vão três anos de «Olhar Outro». É altura de repensar este «Outro». Pretendo, de facto, diante de uma mesma realidade, percebida de diversos quadrantes, ir mais longe para tentar uma «profundidade diferente», sob uma luz «outra», a do crente, «obrigada» por natureza a ser de esperança.

Fala-se, durante todo o ano, de paz. Sinal claro de que nos afastamos cada vez mais desse viver em harmonia na diversidade de culturas que compõem o universo. Reconheceu-o António Guterres, após o primeiro ano de mandato à frente da ONU, desiludido com tantos esforços gorados, que o levaram a não fazer apelos à paz mas a um aviso sério acerca da trajectória actual que os diversos Estados do mundo seguem, ao que parece, cada vez mais egoístas e insensíveis aos legítimos interesses dos outros, sobretudo os que menos «comem» do bolo, que pertence a todos.

Porquê, ano a ano, dizemos os mesmos votos de paz e o mundo está cada vez mais violento? Mesmo que esta frase precise de uma fundamentação mais abrangente, o que não é possível neste breve «olhar», ponho-me algumas questões que, parece-me, ajudarão a justificar o tal «olhar outro»:

1. Antes de mais, quando se fala de paz ao longo do ano, o que sobressai nos media? Precisamente as estratégias de Estados, cada uma delas numa lógica tradicional de ganhos e imposições sobre os outros. Os comentadores políticos sabem, à partida, qual vai ser a posição deste ou daquele, nos palcos internacionais, porque conhecem os interesses em jogo. Será expectável uma «conversão» de Estados? Certamente muito difícil dada a história de continuidade dos mesmos interesses. Entretanto, só quando há mudanças significativas no topo dos dirigentes é que se ousa esperar «rupturas» com o passado, geradoras de esperança no contexto internacional.

2. Há um esquecimento crónico, de ordem antropológica, a meu ver o ponto de partida para «purificar» o desejo de paz, inerente a cada um de nós: o ser humano é capaz do melhor - foi criado bom e belo por Deus, dizemos nós, os crentes - e do pior - o pecado, traduzido em egoísmos pessoais e colectivos, é uma realidade. Deste confronto surge uma forte consequência: cuidar do agir pessoal é inerente à minha condição de ser livre e responsável. Este agir pessoal torna-se sempre «colectivo» pois ninguém é uma ilha.

3. Assim sendo, têm os Estados a devida preocupação em promover uma educação para um agir verdadeiramente livre mas totalmente responsável? De modo a que a sociedade se possa dizer harmoniosa, integradora das diferenças e pacífica? Como está a nossa Educação, que vai bem mais longe do que aquilo que se ministra nas escolas, infelizmente mais voltadas para a transmissão de conhecimentos do que para a formação pessoal e social de todos os seus membros? Quantas politiques ou ideologias «envenenam» os sistemas de ensino, que se «ajustam» a cada mudança de actores ou de governantes?

4. A pacificação pessoal, a formação para o autodomínio, ou seja, a repressão pessoal dos instintos mais bárbaros da condição humana, é essencial para vivermos em paz uns com os outros. E tudo começa de baixo para cima: se eu vivo em paz em casa, com a família e aqueles que me rodeiam, teremos paz no bairro, na aldeia, no concelho, no país e no mundo. Quem educa para este «construir identidades boas e belas»?

5. Não será, afinal, o interior do humano o espaço mais descurado dos investimentos públicos?

7 de Janeiro de 2018 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLIII

Na liturgia da Igreja continuamos no «dia de Natal». E nada tem a ver com a gastada frase «o Natal é todos os dias». Que de facto deve ser. Mas porque não é, temos necessidade de afirmar que é.

Passou o Natal e já nos encontramos no dealbar de um novo ano. A semana foi cheia de «balanços». Sempre necessários, de facto. Só que raramente voltados para o interior de cada um como se o nosso «coração» não precisasse de ser «olhado », «aferido», confortado ou até condenado. Por nós mesmos apenas.

É única no ano aquela «noite santa». Mas todos ganharíamos se ela não fosse única ou, pelo menos, que fosse mais repetida pela densidade humana que, supostamente, encerra. Ela passa depressa, apesar de tão intensamente desejada e preparada. E a santidade daquela noite, tão densamente humana porque «visitada» pelo divino, afecta a todos, crentes e não crentes, seguidores de Jesus ou não. Pelo menos queremos e cremos que assim seja.

Só que... Nem sempre é assim. A realidade aí está a impor-se aos desejos mais nobres. Aquele Menino Jesus, o centro natural de todas as atenções, não se queixa nem reivindica a sua «cidadania» de direito na sociedade e sempre se sentiu bem nas «grutas» da humanidade periférica. Por isso, há tantos barulhos que se sobrepõem tentando apagar-lhe o sussurro de paz que vem do presépio. E aquela noite também aparece «vandalizada». Como os presépios, felizmente cada vez mais numerosos, não resistem aos vândalos da noite «violada». Também entre nós começa a ser preocupante a «violação» da noite, de todas as noites durante o ano, em que à beleza do silêncio se sobrepõe a algazarra dos «senhores da noite», sem respeito por nada nem ninguém. Garrafas e vidros espalhados pela rua, vasos e ornamentações derrubados... Por quem? Por aqueles que se julgam «senhores» e a quem falta civismo quando apenas um direito lhes deve ser reconhecido: o de serem responsabilizados pelas suas perversas acções.

Logo na manhã do dia de Natal me doía a alma ao ver a nossa cidade «profanada« pelo lixo e sinais de vandalismo na noite que dizemos «santa». E me perguntavam onde estaria a polícia, que não vigia, como se a polícia não fosse um ser humano, com missão pública mas com família e direito a viver a sua «noite santa». Como, de igual modo, os serviços de limpeza não fossem constituídos por seres humanos, com direitos próprios. Causa dó o modo como socialmente se desculpa o vandalismo noctívago, a quem se dispensa de responsabilidades. E que pena me dá que em grupo de amigos não haja alguém que se distinga e se imponha pelo bom senso e pela sabedoria de uma diversão respeitosa de pessoas e bens, seja de dia seja de noite, na presença como na ausência de um agente policial que possa reprimir abusos e estragos.

Chegados aqui, também eu me questiono sobre o civismo que deveria fazer parte do melhor e maior investimento público para que as nossas cidades fossem espaços de convivência agradável, belos também nos equipamentos públicos cuidados por todos, e com um respeito total por tanto voluntariado que se manifesta em várias épocas do ano para dar maior beleza à cidade que é nossa e que queremos que mereça a visita de muitos outros. Será que os pais - todos têm pais? - se demitiram de cuidar do comportamento dos filhos na praça pública, não se importando com o que fazem ou não fazem na sua ausência? Ou estarão à espera de um Estado repressivo, que obrigue os pais a assumir os estragos que os filhos provocam? Como seria bom que não se demitissem de exigir aos filhos um comportamento na praça pública que não os desonre!

Desta vez foram presépios vandalizados. De outras, o que será? E não deveriam ser todas as noites «santas» e não apenas a do Natal?

31 de Dezembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLII

A IURD anda nas bocas do mundo. Nunca foi tão propagandeada gratuitamente. Dita Igreja Universal do Reino de Deus, ou simplesmente, a Universal, esta seita - que o é de facto, por mais que queiram aparecer como Igreja cristã, composta por seguidores de Jesus - impôs-se rapidamente um pouco por todo o mundo, construindo um império financeiro a partir da «venda livre» e fraudulenta de uma mensagem que dizem ser de Deus.

Aproveitando o vazio espiritual por que passam as sociedades ocidentais nas últimas décadas, Edir Macedo, o seu fundador, hoje um dos homens mais ricos do planeta, hábil manipulador das consciências, consegue levar aos extremos a utilização do medo e da ameaça como factores persuasivos para que as pessoas adiram a uma «salvação light», conseguida com dinheiro, que, segundo ele e seus comparsas, ditos bispos e pastores, atrai as bênçãos divinas. Não passa de uma fraude, dizem os seus detratores, tudo o que se passa na IURD perante a enorme dificuldade dos poderes públicos em impedir o abuso sobre os mais incautos, dado que, nas nossas democracias ocidentais, exige-se de cada pessoa a máxima responsabilidade nas atitudes pessoais, mesmo que todos saibamos que é impossível uma pessoa só estar dotada de todos os conhecimentos capazes de a impedirem de ser manipulada, enganada, roubada. Ou seja, vivemos em Estados que não protegem os cidadãos contra os abusos nem contra as ideologias ardilosamente impostas, «abençoando-se» a «convivência» entre a verdade e o erro, a boa e a má intenção. É o «salve-se quem puder».

É de louvar a atitude forte e corajosa de duas jornalistas que se meteram por meandros arriscados de investigação e foram capazes de trazer à luz do dia uma série de fraudes e de injustiças, a coberto da religião. Toda a sociedade deve sentir-se grata para com elas. Certamente que mediram o risco - e espero que o bom senso triunfe e os poderes públicos cumpram o seu dever de confirmar a investigação para agirem em consequência - e não tiveram medo das consequências. Bravo! Oxalá quem de direito não se demita das suas funções de castigar os abusos e de minorar as feridas das pessoas abusadas, já que tais feridas deixam sempre sequelas para o futuro.

Esta investigação, espera-se, abana profundamente todo o edifício de mentira construída ao longo dos últimos quarenta anos. E que sirva para acautelar as pessoas, que facilmente se deixam enganar pelo conto do vigário - as seitas impõem-se pela fraude, aproveitando o vazio legislativo e a incapacidade do Estado de proteger devidamente os cidadãos - e acreditam facilmente nos discursos piedosos e apelativos ao sentimento, numa proximidade fictícia das dores humanas. Acordem! Não é verdade que «quando a esmola é grande até o pobre desconfia»?

Tenho repetido várias vezes que só o conhecimento, isto é a formação religiosa, pode impedir que se caia sob o domínio das seitas. Daí a minha repetida insistência em catequese de adultos para que cada um construa o seu próprio edifício espiritual na adesão pessoal a Jesus Cristo, de onde surgirá a necessidade de O conhecer e de assimilar as «doutrinas» religiosas que dele arrancam. Quem não faz este trabalho interior torna-se presa fácil dos gurus e «bispos» auto-intitulados, formados não nas escolas de teologia mas de marketing para venderem ideias religiosas e com elas fazerem fortuna. Afinal, confirma-se, «a religião vende bem». Não faltam compradores «religiosos». Sim, apesar de as igrejas estarem mais vazias... Claro que nós, padres, devemos inteligentemente parar para pensar neste fenómeno, porventura para batermos com a mão no peito, pois poderemos estar a satisfazer necessidades religiosas apenas - e a «igreja» do lado pode ser mais atraente e mais eficaz com a religião-espectáculo. E de necessidades religiosas até os que se dizem não-praticantes ou agnósticos e indiferentes precisam. Mas a missão da Igreja é outra: dizer a verdade libertadora de Jesus Cristo para que cada um se possa sentir «salvo» e no caminho da plenitude da sua existência humana e divina.

24 de Dezembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CLI

Claro que me interrogo sobre tanta animação a propósito do Natal. Terá ela sentido? Apetece dizer, de entrada, que tudo não passa de folclore, vazio de conteúdo. Se assim fosse, não passaríamos todos de um bando de carneiros amestrados aos senhores que comandam o mundo, segundo interesses corporativos em que uns exploram e outros se deixam explorar.

Prefiro pôr a questão de outro modo. O que seria se não houvesse animação de Natal?

Na óptica do crente, aquela em que eu me situo, não podemos descansar nos mecanismos tradicionais sem o necessário espírito crítico de modo a que as animações promovidas nunca percam a sua «verdade», a ligação com a sua origem. E, assim, sem esquecermos as celebrações pagãs desta altura do ano, que foram ajustadas pelos crentes cristãos, tudo deve ser feito para que a verdade original seja destacada. Certamente que estamos de acordo. Mas não é menos verdade que vivemos numa sociedade cada vez mais plural e menos cumpridora de ritos sociais com a marca cristã. E, assim, não constitui qualquer drama que os ditos não crentes ou não seguidores das práticas cristãs celebrem também o natal. Não é verdade que os pagãos do nosso tempo se situam nos rituais cristãos mesmo sem se darem conta? O descanso ao domingo, os dias santos como feriados são para todos numa sociedade de matriz cristã.

Na tolerância como valor, que o evangelho de Cristo promove, espera-se de todos os cristãos a abertura necessária para partilharem os rituais com aqueles que os abandonaram e a eles regressam esporadicamente ou até com saudosismo.

Por outro lado, ao dizermos que a sociedade pára para o Natal, estamos a reconhecer que os valores cristãos, que a Igreja promoveu ao longo dos séculos, entraram na cultura dos povos ocidentais e deixaram de ser «propriedade» dos seguidores de Jesus. Não é verdade que Jesus rejeitou sempre o nacionalismo dos judeus e quebrou todas as cadeias em que pretenderam enclausurá-lo, porque o Messias de Deus vinha para toda a gente, desvalorizando quaisquer «guetos» religiosos ou sociais? De facto, Jesus é de toda a Humanidade e não só de alguns, mesmo que alguns O considerem apenas um fundador de religião.

Mas não se podem dispensar os cristãos de uma sentido crítico procurando a fidelidade a Cristo nas posturas sociais e pessoais diante do nascimento de Jesus, Aquele que dá sentido ao Natal. Porque temos de reconhecer que muitas actividades promovidas já o são «porque tem de ser», longe do espírito sempre desafiante que a simplicidade do presépio desperta em todos.

Há modos e modos de despertar para o «espírito natalício». É inevitável pronunciar-se sobre os que vão aparecendo na praça pública, uns deles toleráveis apenas, enquanto outros nada recomendáveis. Fala-se muito em solidariedade. E não faltam cabazes e números de famílias contempladas. Como não faltam organizações habitualmente atentas aos carenciados que se interrogam diante da «invasão» do seu campo sócio-caritativo, nesta altura do ano. Claro que há espaço para todos e todos são livres de incluir nas suas actividades os cabazes de Natal. Só que... A razão motivadora estará mesmo nos que precisam ou no estatuto social da própria organização, que se quer promover nesta altura?

E aquela dos calendários «solidários», nesta altura do ano, em que desaparece o pudor, e até as cores do pai natal em veste vermelhas fofinhas, promovendo um voyeurismo colectivo só para se angariarem fundos para finalidades até aceitáveis? Será que o fim justifica todos os meios? Haja bom senso.

Entretanto, haja festa. E não faltem as mensagens de Boas Festas. E as prendas. E sobretudo o bom senso, o silêncio e o tempo de estarmos com calma diante uns dos outros para saborearmos o dom que o Menino de Belém foi e é, na pessoa de cada um daqueles que nos rodeia. E que a tecnologia não nos invada para chegarmos aos de longe à custa da ignorância daqueles que nos estão ao lado.

17 de Dezembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CL

A pergunta é pertinente e deixou-me intrigado. «Falando de Imaculada Conceição: Fala-se de Jesus ou de Maria?». Vi-a em periódico francês, sem poder ter acesso ao escrito. Como veio em cima do acontecimento, quando me questiono sobre a mensagem mais oportuna e necessária a dar aos fiéis, num dia tão solene na liturgia, sinto dever voltar ao assunto do lugar de Maria na vida dos cristãos e na vida da Igreja.

Sabemos de quanto evoluiu, sobretudo nos últimos cem anos, o movimento ecuménico que, pela oração, visa a aproximação das diversas confissões cristãs. E um dos pomos de discórdia, sabemo-lo bem, é a questão mariológica, precisamente aquela que mais pode e deve aproximar os cristãos na confissão de uma só fé. Fruto de vários encontros de reflexão teológica, as posições de católicos e protestantes sobre Nossa Senhora estão hoje muito mais próximas do que outrora, não sendo legítimo dizer simplesmente que «os protestantes não acreditam em Nossa Senhora enquanto os católicos não podem viver sem ela».

Voltando à questão, é verdade que quando se fala de Imaculada Conceição, estamos a falar do início da vida de Nossa Senhora. E o dogma diz que foi concebida sem mancha do pecado. Que conteúdo damos a esta afirmação da Igreja? Eis um ponto em que se tornam necessárias várias catequeses de modo a situar Maria no seu lugar, livre de superstições ou de visões religiosas muito pagãs.

Eu refiro o Credo que a Igreja ensina quando as verdades da fé são formuladas num CREIO EM DEUS, que é Pai, Filho e Espírito Santo. E neste CREIO o meu ser humano, capaz de Deus, aceita sair das medidas humanas, pequenas e inconstantes, para aceitar subir para as medidas de Deus, levado pelas mãos do mesmo Deus. Porque a fé é dom, é graça. Logo, o verdadeiro acto de fé é passagem livremente aceite do humano para o divino.

Eis-nos então perante um desafio permanente diante dos actos humanos frágeis que tudo podem confundir ou misturar. Nossa Senhora é humana ou divina? Se humana, fica do lado da nossa Humanidade e sinto-me próximo, posso confiar-me ao seu carinho de Mãe e encorajado a seguir nas vias porventura difíceis de fidelidade a Deus, como Ela o fez. Se a considero deusa, caio na idolatria e os meus actos, que julgo bons ou ao menos bem intencionados, podem confundir-se com superstição.

A minha relação com Maria, afirmo-o uma vez mais, é de profunda devoção, seguindo aliás o que recebi do berço. Para Ela vai o primeiro e o último pensamento de cada dia, na oração que minha Mãe me ensinou. Porque creio em Jesus, «que nasceu da Virgem Maria», aceito-a como minha mãe – e que conforto espiritual isto me dá! Não a adoro – só a Deus posso adorar – nem a ponho no lugar de Deus. Amo-a e neste amor filial sinto-me encorajado na fidelidade do meu percurso humano em direcção a Deus.

Mas sinto ser um dever e uma urgência ousar falar de Maria dignificando-a porque soube, diante do convite que Ela não entendeu, dizer um Sim à proposta, desde que o anjo que a visita lhe garante que tudo o que lhe anuncia é «obra de Deus». O seu sim foi o acto mais nobre de fé. E a sua vida, sempre ao lado de Jesus, foi a de uma verdadeira discípula, mais tarde, junto à cruz de seu Filho, «mulher de pé, fiel e aberta ao futuro», tornada Mãe de todos nós. Reparemos então que os privilégios que a Igreja lhe foi reconhecendo – virgindade, maternidade divina, imaculada conceição e assunção – estão todos em relação com Jesus, o único Salvador do mundo. Assim, tem sentido a pergunta inicial, pois que tais privilégios acontecem sempre segundo os «méritos previstos de Jesus», o que quer dizer que a eficácia redentora de Jesus se estende para o passado também e não só para o futuro.

Por outro lado, não é só a relação única com Jesus que a Igreja, no seu verdadeiro ensinamento sobre Maria, destaca. É também a sua relação única com todos os seus filhos, que somos nós. Pelo que, o que se afirma de Maria tem um a relação muito especial com cada um dos seguidores de seu Filho.

10 de Dezembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLIX

Não me canso de repetir - e quem duvida de que tal é cada vez mais necessário? - que a vida é um processo muito belo mas também muito comprometedor. A maneira como nos conduzimos, pessoalmente e inseridos numa sociedade, é que a pode tornar muito amarga. Só que esta constatação não vale só para a contemporaneidade, habituados que estamos - é o mais fácil - a ver no presente as maiores amarguras de todos os tempos (visão pessimista) ao lado das maiores conquistas e oportunidades (visão optimista).Uma e outra considero-as pouco realistas porque extremistas: a vida não é preto e/ou branco, mas há uma enorme escala de cinzentos onde, porventura, se encontrará a sua maior beleza.

Estava eu no meu exercício diário de sintonizar com o mundo - a net permite-nos esta oportunidade de nos «aproximarmos» do mais longínquo geograficamente - quando me batem à porta.

Não era a primeira vez. Ter tempo para me sentar, acolher e ouvir, mais que falar é daquelas atitudes cada vez mais necessárias. Às vezes, um padre não precisa de buscar nos sermões aprendidos as soluções de problemas. Porque às vezes nem problemas existem: apenas pessoas concretas que precisam de quem as ouça.

As queixas amargas de muitos anos atrás são as mesmas. Mas foi encontrada uma maneira de viver com as mesmas. Afinal, o grande desafio na vida de todos é ajustar-se à realidade quando não temos força para a mudar. E aquele irmão, outrora pessoa influente, com curso superior, encontrou na medicina e na humanidade da Casa de Saúde de S. João de Deus o necessário para poder andar na rua, feliz, pacífico, sorridente para com todos. «Refugiado» no seu mundo de «investigação», no meio do oceano da net, por entre números cruzados, cabalas e demónios, perguntava-me directamente: senhor prior, eu tenho demónios comigo? Não foi difícil responder para o tranquilizar.

Dou depois comigo a pensar numa frase célebre de um grande pensador, Maurice Bellet (a fazer 94 anos dentro de dias), psicanalista e padre, filósofo e teólogo francês, que escreveu mais de 50 obras. Para o observador atento de toda a sua obra, o eixo central do seu pensamento consiste em ajudar cada um a descobrir em si a «ternura divina» no dia a dia. Sim, que belo programa, afinal a grande proposta de Jesus a todos, como caminho da realização humana, que não dispensa nem Deus nem os outros. A frase deste autor merece ser aprofundada: «O louco é aquele para quem a realidade se tornou insuportável».

Olhemos a nossa realidade, plasmada diariamente nos jornais e TV,s. A violência e malvadez atingiram níveis outrora impensáveis. O sórdido ou chocante, outrora muito excepcional, repete-se e impõe-se assustadoramente. Os limites de outrora foram mais que ultrapassados. E pior que limites ou regras é não haver limites nem regras. A intensidade de exigências brutais contrasta com a fragilidade e os limites humanos, que teimamos em não reconhecer. Logo, no dizer do Papa, as «periferias» da existência, cada vez mais numerosas e chocantes, têm direito a ser «visitadas», como emergência actual a desafiar a caridade dos cristãos e de todos os «homens de boa vontade».

Considerar este mundo «pintado de cores negras» como abandonado de Deus é uma tentação que atravessa os tempos. Contra a ela insurgiram-se os profetas. Porque este mundo, o nosso como o de todos os tempos, é a «obra» de Deus, que o ama e dele espera sempre a capacidade de se reinventar nas vias da esperança, a fim de o aperfeiçoar. É, de facto, mais fácil desistir, cruzar os braços e justificar a própria preguiça.

O tempo do Advento é ocasião propícia para a «conversão» do nosso olhar: o bem do mundo está diante de nós para o apreciarmos e agradecermos; o mal do mundo está diante de nós como desafio à acção transformadora de o tornarmos melhor. A missão confiada ao ser humano («dominai a terra») continua-se e descobre sempre novas formas de tornar presente o seu autor. Só a preguiça, com as suas muitas desculpas, não pode ser tolerada.

3 de Dezembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLVIII

Quem escreve para o público arrisca porque se expõe. Mais cómodo é ficar no seu «casulo». Logo, escrever obriga a uma atitude de coragem aliada à sensatez. Nem tudo o que se pode dizer deve dizer-se. E tudo o que se diz deve ter justificação, oportunidade e conteúdo. Abundam, como sabemos, as banalidades e o pronunciar-se sobre tudo e sobre todos, como se fôssemos mestres em tudo e detivéssemos a última palavra, não passa de fanfarronice e vaidade, dispensáveis diante dos códigos mínimos da humildade.

Nem sempre abundam os temas para «Um olhar outro» e, por vezes, à última hora, não resta senão divagar.

Ora, reconheço que começo por divagar mas sabendo o que me apetece dizer. Porque a vida é uma provocação constante para mim, vou referir-me hoje a vários comentários da nossa vida social e política, nomeadamente a propósito de esquerdas e direitas. Sim, «entro» na política para me «expor».

Do mundo bíblico retenho a ideia de que a «direita» é sinal de bênção e a «esquerda» é sinal de maldição. Certamente que na vida política há muita bênção na esquerda e muita maldição na direita. De onde virá isto? Consulto a net: «A História conta-nos que os termos política de direita e política de esquerda surgiram na Revolução Francesa, no século XVIII, e estavam relacionados com o lugar que os políticos ocupavam no parlamento francês. Quem queria que o rei tivesse mais poder, estava sentado à direita. Quem queria que o rei tivesse menos poder, sentava-se à esquerda».

Vivemos hoje em Portugal um ambiente de certa euforia por parte da «esquerda ». Como em outros tempos por parte da «direita». Uma coisa de comum às duas me parece evidente e repetida: uns e outros tendem a denegrir tudo o que pertence ao adversário e a aceitar e louvar tudo o que é da sua própria cor. Por mim, aprecio um político quando ele é capaz de reconhecer publicamente virtudes no campo do adversário.

É que se a dita esquerda se posiciona em relação à direita, e vice-versa, a tendência é a de extremar posições: nós, os bons; eles, os maus. Como se a vida fosse apenas preto e branco. Não será por causa desta malfadada distorção que o nosso país se encontra quase na cauda da Europa? É que há tantas coisas boas no campo do adversário... Só que não as vemos, tão fortes são as «cataratas» que nos atingem.

Diz-se que, grosso modo, as esquerdas são mais pelos direitos sociais e que  valorizam mais a autoridade do Estado. E que as direitas valorizam mais o indivíduos a iniciativa pessoal. Ou que as esquerdas distribuem rápido o que as direitas armazenam. Será? Estas generalizações são tantas vezes contrariadas pela realidade, de modo que valem o que valem, se é que valem, acabando por ficarem circunscritas ao autor e ao tempo em que se publicam. Aliás, tão volúveis quanto a voracidade do tempo.

E o que pensar dos padres? À partida, o chavão aí está: numa Igreja conservadora (outro chavão de tal modo discutível que eu próprio o recuso), os padres têm de ser conservadores. Claro que há excepções, diz-se.

Pois bem, sempre que algum padre é mais «social», no sentido do discurso político ou denunciador de injustiças, eis que o mesmo padre para uns é «comunista » ou de esquerda, enquanto que para outros é «reacionário». Ora, o padre só pode ser conservador: na medida em que a sua missão é a de conservar valores existentes. Mas o padre só pode ser progressista: no sentido de que a sua missão é a de desenvolver valores, promovendo as pessoas concretas e os grupos humanos na sua autonomia de filhos de Deus. E não é verdade que o mesmo padre, ousado no discurso social e até revolucionário para uns, logo de seguida leva com os epítetos totalmente contrários quando, no seu anúncio libertador e na sua denúncia profética - missão de que não pode abdicar - deixa de agradar aos primeiros e se afirma servidor da verdade?

Pessoalmente, nunca digo em quem voto. Apenas digo que o meu voto é sempre contabilizado. Sei que já passei por todos os níveis do espectro partidário, desde a extrema direita à extrema esquerda, no que as pessoas ou grupos me atribuíram. Nunca vendi a minha liberdade a qualquer um deles. E sempre afirmo o dever de todos votarem, após o dever de todos se informarem.

Há, claro, várias políticas de esquerda que têm marca profunda de evangelho. Como há outras carregadas de ideologia a satisfazer interesses de grupo e sem respeito pela identidade do povo construída ao longos séculos e que, por isso mesmo, se situam nos antípodas do evangelho de Jesus. Como há políticas de direita que não passam de injustiças terríveis a sacrificar os mais pobres e os mais débeis. Numa palavra, como acontece com Jesus, só O queremos quando convém aos nossos interesses. Sejam de esquerda sejam de direita.

26 de Novembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLVII 

Era já minha intenção fazê-lo. O mês de Novembro, com o cair da folha no Outono, aliado às leituras da liturgia diária, que apelam a reflectir no sentido da vida e à vigilância responsável, é ocasião oportuna para se falar da morte e da postura que, diante dela, devem adoptar os que acreditam em Cristo, certamente diferente da dos não crentes.

A conferência sobre a A morte e a Vida, E depois?, que Anselmo Borges proferiu no Auditório Municipal na passada quarta-feira, deu à intenção inicial uma acuidade acrescida. Como era de esperar, as provocações deixadas inevitavelmente pedem uma continuidade e não se compadecem com o «fazer de conta» que nada se passou. Os nossos cristãos assumidos e sobretudo aqueles que honestamente vivem uma procura de sentido para a existência têm o direito de esperar uma palavra esclarecedora e tranquilizadora que alimente tal procura honesta. Por minha parte, há muito que procuro dar a resposta possível.

Logo no dia imediato, verifiquei, feliz, que numa assembleia de cerca de 300 pessoas, foram muitos os braços levantados à pergunta: quem esteve ontem na conferência? E alonguei a homilia para dar uma palavra de esclarecimento com apelo à serenidade, no quadro de um amor de Deus sentido e vivido no quotidiano, o «húmus« natural para se abordarem as questões difíceis quanto ao «mistério» humano envolvido no mistério de Deus.

As missas semanais no cemitério neste «mês das almas» têm sido ocasião para despertar para a «novidade» que o evangelho de Jesus encerra, desde que nos esforcemos por bem entendê-lo.

Nas reacções diversificadas, seja na altura da conferência, seja nos dias a seguir, pude ler algo de muito positivo: cada vez mais se nota uma procura de uma «novidade» que liberte o discurso da morte do tétrico e terrífico, muito em voga noutros tempos e que, porventura, justificam o constante «tabú» com que a sociedade de hoje se situa diante de tema tão actual mas tão incómodo: de facto, situar-se com seriedade diante da morte é o caminho para valorizarmos a vida, procurando saboreá-la na sua beleza e no seu compromisso como dom recebido.

Pude «ler» aquilo que chamaria de conclusões muito pessoais:

- O discurso tradicional sobre a morte e o além já não responde nem atrai. Por outro lado, pode atraiçoar o Deus bom que a Igreja se esforça por anunciar;

- Ousar mudar de discurso implica estudar, refletir, pensar. E o ambiente da sociedade de consumo, em corrida constante e promotora de um barulho ensurdecedor, que mata o necessário silêncio, dificulta tal estudo. Assim, caímos na banalidade e acomodamo-nos à banalidade. E banalizada a morte, a vida perde beleza;

- Mas há muita gente que manifesta uma necessidade enorme de saber, de entender. Só que muitos pretendem respostas «rigorosas» e certinhas, do tudo ou nada, do branco ou preto. E neste esquema mental, que justifica vidas cómodas e confortáveis, dificilmente se chega às grandes questões, ditas fundamentais e de sentido;

- Apesar de tantos títulos académicos, há uma ignorância notória sobretudo nos saberes de «letras» ou das ciências humanas: não sabemos digerir tanta informação e os desequilíbrios da «alma» humana são por demais evidentes. Sobretudo diante da dor e da morte, da injustiça e da falência biológica, como diante das quedas dos «impérios» económicos e sociais, que aceitamos como inevitáveis, entramos em colapso. É a cinza na «terra queimada», que perdura muito mais tempo no coração sangrante do que na terra já furada pelos primeiros arbustos, que revelam que o fogo não chegou às raízes.

Quem ousará enveredar por se questionar e questionar a própria morte? Quem ousará pensar as perguntas adequadas ao mistério que ela encerra? Quem ousará preferir o amor de Deus, que nos compromete a fazer céu na terra, ao medo do inferno que nos pode apenas manter «cordeirinhos» quietos e calados, em vez de nos sabermos manter, de cara erguida, «teimando» diante do mistério de Deus uma resposta para o «mistério» humano, que cada um de nós encerra? Quem ousará questionar-se diante de uma experiência tão rica e tão diversificada como a do povo bíblico e avançar para a «libertação» que Jesus operou da escravidão, que um farisaísmo poderoso continua a tentar impor?

19 de Novembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLVI

Será que alguma vez a Igreja deixou de estar no banco dos réus, acusada dos males da sociedade e vista como uma organização simplesmente humana? A verdade é que Jesus, que a fundou e a acompanha, nos avisou de um caminho difícil, minado de incompreensões e de acusações. Trata-se, afinal, de um olhar mundano sobre uma vida que pretende ser mais que humana, sinal da presença divina no mundo. E mesmo o olhar dos mais «convertidos» não deixa de estar marcado por interesses deste mundo, porque, pelo menos, são situados num espaço e num tempo concretos.

Deste modo, não faltam «médicos» para os diagnósticos repetidos de que a Igreja está em crise, em falência mesmo. Muitos fazem-no com muito boa vontade. Outros, nem por isso. Situo-me entre aqueles, os que tentam corrigir defeitos porque se sentem atingidos pela imagem negativa e exposta na praça pública.

Só que... Não nos devemos admirar de que tal aconteça. Hoje como sempre. Até porque Jesus foi o primeiro a apresentar o caminho que propunha como caminho de renúncia, de cruz.

No entanto, reconheçamos a necessidade de uma conversão permanente, a começar por nós cristãos. É o caminho. Não o das discussões acerca do «verniz» para «camuflar» realidades negativas que, afinal sempre existiram na Igreja. Quem a instituiu soube escolher os primeiros: dos apóstolos escolhidos, um traiu-o, outro negou-O, vários queriam os primeiros lugares e quando o viram de cruz às costas fugiram. Eis a «massa» dos primeiros seguidores de Jesus. Foi com esta «massa» que a Igreja começou, se desenvolveu e chegou aos nossos dias.

Mas temos de saber olhar a Igreja de hoje. De rosto belo e verdadeiro? Demos a graças a Deus. De rosto desfigurado e sem capacidade de atração? O rosto da Igreja é o teu rosto.

Mas impõe-se um olhar positivo porque há muitas coisas belas e verdadeiras na Igreja de Jesus, na nossa Igreja. Acreditemos e purifiquemos no compromisso humilde o nosso olhar.

Há dias senti enorme alegria. Já verão porquê.

Aos cerca de 50 crismandos em formação pedi que convidassem os seus padrinhos para a sessão de formação. E, com surpresa, a sala foi pequena para os acolher. Tornou-se ocasião de uma feliz reflexão para mim próprio. Porquê?

Todos sabem como o prior de Barcelos foi julgado e condenado pelas exigências que punha em relação aos baptizados e aos padrinhos de Baptismo. E porque não cedeu, mas se manteve coerente com o que ensinava, alguns bateram com a porta. O que não me demoveu da atitude tomada, já lá vão treze anos. Sabia bem que há sempre um preço a pagar quando se pretende fazer evoluir uma comunidade. É bem mais fácil dizer sim a tudo, mesmo que o povo continue na ignorância e «dependente« do padre, tido como «dono do céu e da terra». Nunca aceitei tal dependência e sempre preferi o ónus de uma decisão livre reconhecida a cada um.

Ora, a minha convicção profunda é de que há um lugar, bom e belo, a propor a todos. E de que as pessoas de hoje são capazes de se deixarem seduzir por Ele. A tal Boa Notícia não deixou de cativar. E, estou convicto, basta isso para que Jesus atraia a coragem e a «arte» de a sabermos propor como ela é. Sem descontos. Sem verniz.

E a surpresa para mim foi - ao referir os tempos de outrora, aqueles tempos bem reconhecidos por aqueles pais e padrinhos, com a mesma ousadia da verdade que eles já conheciam - perceber a aceitação pronta e sem reticências do que eu apresentava como a missão dos pais  e dos padrinhos e do porquê da necessidade do Crisma, completada a iniciação cristã, para se assumir uma missão, um compromisso de acompanhar um processo de educação da fé. Ora, como ninguém dá o que não tem, só aquele que vive da fé pode ser «comissionado» para se envolver no processo de transmissão da fé. Afinal, não se confiam tarefas de adulto às crianças. E os padrinhos não crismados não poderão apadrinhar os crismandos.

Afinal, em breve diálogo, pude aperceber-me que os presentes tinham já «entendido» a lição. Tê-la-ão assumido? Parece-me que sim. Mas que a verdade vai fazendo o seu caminho, disso não tenho dúvidas. Por isso, feliz, dou graças a Deus.

12 de Novembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLIII

Punha um pouco em questão a ida ao cemitério na solenidade de Todos os Santos. Quando a Igreja convida a contemplar o horizonte de glória que Deus oferece a todos, eis que a sensibilidade social nos atrai para o mundo dos mortos.

Mas não é verdade que a Liturgia se processa em termos de contraste? Como também as propostas de fé vão, tantas vezes, contra-corrente em relação ao mundo que nos rodeia.

Foi esta a minha intuição deste ano: a tendência a olhar a terra (a campa que nos lembra o passado e nos provoca uma certa dor de separação) é compensada pelo convite a olhar o céu, que sentimos e exprimimos como o mundo dos eleitos de Deus, dos santos.

A ida ao cemitério acontece, a meu ver cada vez mais, como um parêntesis na corrida em que todos nos deixamos envolver. Um parêntesis necessário, salutar, equilibrante. Muito oportuno mesmo para aqueles que, estando numa celebração religiosa, não deixam de assumir publicamente o seu indiferentismo ou mesmo pretenso ateísmo. De facto, são tão escassos os momentos de silêncio, seja no ambiente de um lar (há sempre a tentação da TV para nos manter «a par das notícias»), seja na praça ou nos eventos públicos! Sinto ser um dever o apelo constante ao silêncio, à calma, aos «espaços vazios», no meio de um ritmo frenético em que parecemos que andamos a fugir de algo ou de alguém. Corremos tanto «que nem Deus nos apanha».

Interrogava-me também se seria de manter a celebração da Eucaristia no cemitério, tornado espaço de conversa social e de ostentação de riqueza ou estatuto social. Muitas vezes ouvi este reparo diante dos belos arranjos florais em dia de Fiéis Defuntos. Também aqui, repenso a postura para reconhecer que a gratidão ou a saudade precisa de manifestações, correspondentes às necessidades pessoais e colectivas. É que, afinal, a morte toca a todos e arrasta consigo a dimensão do mistério da condição humana. E precisamos de nos questionar sobre o que se passa à volta da morte e da sua expressão colectiva.

Mesmo dizendo-se não crentes, todos têm direito a um funeral digno e serem tratados com humanidade (respeito pelas crenças próprias), e nada se perde quando se unem às celebrações próprias dos crentes. É caso para se duvidar se, diante da morte ou numa celebração religiosa num cemitério, há ainda espaço para a afirmação, tantas vezes pavoneada, de um ateísmo teórico ou prático.

Respondendo à questão sobre a Eucaristia no cemitério, eu que levantei o problema da conveniência ou não, concluí, neste ano, que tal deverá continuar. De facto, há uma assembleia de centenas de pessoas que se aproximam mais do espaço celebrativo, enquanto muitas outras, talvez milhares, continuam junto das campas. Alguma conversa em tom moderado, se não mesmo um silêncio total, dizem-me que aquela hora entre as 15.00 e as 16.00 é mesmo de paragem, de silêncio meditativo, de oração sufragante e de comunhão da terra com o céu. Terão influência os cartazes que apelam a sair da «superfície » para chegar à «profundidade»?

Ali, no cemitério, no espaço e no tempo dá-se a oportunidade de um entendimento mais adequado da diferença entre crer e não crer na vida eterna. Refiro-me ao contraste entre o ser natural e o ser sobrenatural. Naquele, pensamos num movimento em três tempos: nascemos, vivemos e morremos. Neste, os termos invertem-se: nascemos, morremos e vivemos. Sim: nascemos para morrer (lógica natural), como seres biológicos. Mas a liberdade humana, exercida no acto do crer, ou seja na fé num Deus Criador, Salvador e Santificador, desafia-nos a dar um salto (porque criados à semelhança de Deus, logo o humano se aproxima do divino): nascemos para viver na eternidade gloriosa. Deste modo, o viver mortal, que termina o processo biológico, passa a imortal, glorioso, sobrenatural.

Quero crer que as idas ao cemitério já não são apenas um ritual repetido ano a ano «porque tem de ser» e «pareceria mal...». São antes uma necessidade: somos também físicos e os sentimentos e memórias têm necessidade de se «dizerem» socialmente. Com mais razão ainda: religiosamente.

5 de Novembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLII

Há dias, quando terminava uma vigília de oração por uma pessoa doente, convidei a dar graças a Deus pelo dom da saúde e interroguei-me como seria a atitude dos que não têm fé, ou dizem que são ateus.

De facto, ao contemplar, nos passos de um hospital, tantos dramas e tantas questões sem resposta, diante da pergunta incómoda «porquê a mim?», duas atitudes se alternam: a primeira é a de a afastar, assim ao jeito de «não me diz respeito» ou «ainda não chegou a minha vez»; a outra é a de me recolher e, no silêncio interiorizado, dizer um «obrigado meu Deus pelo dom da saúde».

Como é belo, se não mesmo provocante, a atitude de quem se junta em grupo para rezar por alguém doente. É a confissão humilde de quem nunca desanima diante do «mistério» da dor e bate à porta, a única adequada, de Deus, pedindo. De facto, quem crê, mesmo que todas as portas se fechem, encontra sempre uma janela aberta. Eis a diferença em relação aos que dizem não crer: se não há um «Alguém» superior, não tem sentido bater à porta dele. E que lhe resta então? A humilhação diante de um destino cruel, a revolta diante desta terrível condição humana, marcada pelo sofrimento e pela morte. Que pode terminar no suicídio. Felizes de nós, aqueles que acreditamos que, unidos a Cristo ressuscitado, a vida tem sempre um «para além» da morte. Podemos então dizer que «nascemos para morrer» e «morremos para viver».

Há duas semanas atrás foi recebido pomposamente um autor de bestsellers, que faz fortunas publicando livros, publicitados com uma boa máquina de propaganda. Segue a moda de momento: a intriga, a partir de temas supostamente religiosos, que provocam e até difamam, quase sempre tendo a Igreja católica como alvo.

Chamou-me a atenção o que foi tema da apresentação do livro Origem quando lia: «um dia os deuses desaparecerão substituídos pela ciência». A frase intrigou-me naquele domingo, o da tragédia dos incêndios: que pensarão as pessoas ao lerem isto? E procurei dar uma chave de leitura tranquilizadora, na missa do dia seguinte. Precisamente quando nos fazem crer que Deus é dispensável - e criam-se obras literárias supostamente apoiadas em factos históricos ou em leituras correctas da Bíblia - o coração das pessoas vive uma revolta ao sentirem a angústia de um país a arder e de pessoas - foram 45 - que morrem, do mesmo modo que morrem as florestas e até as casas e as indústrias. No meio da morte, que faz o coração humano? Cruza os braços ou procura sentido? A verdade é que a tentativa de resignação é sempre vencida e cada desgraça arrasta consigo uma esperança renovada.

Poderá a ciência dispensar Deus? Eu digo que nunca. E se me disserem que é a resposta própria da fé, a de quem acredita em Deus, eu pergunto: Porque será menos importante esta resposta de quem acredita diante da resposta do dito não crente, que reduz a vida à ciência, dando a esta um estatuto de infinito e de absoluto? A abertura do crente ao absoluto é, no mínimo, tão legítima como a do não crente. Só com uma diferença: a do não crente esforça-se porque seja a natureza, ou a vida quotidiana, que venha confirmar a sua «crença», enquanto o crente vive já uma resposta que considera suficiente, eficaz e geradora de felicidade. É que Deus é Alguém com Quem se pode partilhar as dúvidas e as incertezas, pois é percebido como Presença próxima e interlocutor verdadeiro e único.

Afinal, nada de novo, dentro da «moda» de atacar os crentes, numa tentativa de abalar a fé dos mais simples. É processo repetido. Que, apesar disso mesmo e por causa disso mesmo, deve «obrigar» os crentes a fundamentar cada vez mais as «razões da sua esperança». Sem medos mas assumindo o risco do confronto. Que nos obriga a pensar, a cultivar o espírito e sobretudo a dar coerência, no agir quotidiano, à fé que professamos.

Dias depois chega-me às mãos uma revista que me revela o ponto de partida para a tal obra literária. Uma seita, sim, uma seita, qual organização sinistra, onde uma doação de milhões tornou possível tanta aberração, que foi o ponto de partida para o romance.

E eis-nos diante de fenómenos muito em voga no nosso tempo, onde abunda a ignorância, sobretudo aquela que se refere ao mistério da vida, com a conivência dos poderes públicos, cuja pretensa «neutralidade» em certos assuntos apenas deixa indefesos aqueles que não sabem como livrar-se das pressões de habilidosos. Na cultura do «tudo é permitido», sem as grandes referências de sentido surgidas ao longo da história, é inevitável ver exigências ao poder político para que «se meta na religião». Precisamente para evitar abusos, roubos e manipulação das consciências.

Repito uma vez mais: a religião ou é libertadora ou simplesmente não deve ter lugar. Não foi (é) Cristo o grande libertador de todas as opressões? É verdade que há muitos comportamentos ditos religiosos, carregados de medo e indignos de seres humanos. Quanto trabalho pela frente para que se torne real que o comportamento religioso autêntico é sempre gerador de liberdade autêntica! Até porque perante Deus só vale o amor. Não o medo.

29 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLI

Na semana da tomada de posse dos órgãos autárquicos, impõe-se agora um olhar mais distante sobre as eleições locais passadas. Com maior razão ainda quando há tempos o Papa Francisco não cuidou das palavras e atirou directo: «é pecado não rezar pelos governantes, pelos políticos», assunto que o nosso Arcebispo retomou também.

Quando ouvi a interpelação, confesso que não a estranhei mas também não a valorizei demasiado. Porque, de facto, ao menos na liturgia, a oração dos fiéis raramente não inclui os «governantes das nações» ou «aqueles que exercem o poder». Deste modo, a missa dominical não é um espaço apenas para os crentes, mas estes sentem-se e são educados para rezar pelos que detêm o poder, para que o exerçam ao serviço do bem comum. Também aqui se exprime uma sadia laicidade, aquela que separa a esfera religiosa ou espiritual da temporal, mas que, na oração dos crentes, acaba por unir os dois «mundos». Sim, a política nunca pode ser alheia à fé, enquanto arte ao serviço do bem comum. E os cristãos sabem-no e são orientados para o respeito mútuo, para a oração pelos que nos governam e para não se aproveitarem do «serviço ao altar» para se promoverem ou adquirir votos.

Este «olhar» tem em conta a situação vivida no nosso país – uma nova tragédia de incêndios que ceifou mais 44 vidas e deixou-nos «impotentes» diante de tal desgraça, que abalou seriamente os fundamentos do governo do país e mesmo as instituições democráticas – bem como a situação que se vive na Catalunha, a pôr em causa o futuro da União Europeia, o que nos traz inseguros e fragilizados. Voltemos às eleições, que geraram novas configurações do poder autárquico.

Se os cristãos rezam pelos seus autarcas é porque acreditam que eles se candidataram para servir. E não servirem-se. E sabemos que tal é verdade. Apesar de sabermos também que há eleitos que se candidataram por interesses próprios. Pediram-nos um voto de confiança. E concedemo-lo. Logo, mantemos o direito de «pedir contas»: que estão a fazer do nosso voto?

Em campanha, muitos prometeram o que sabiam não poder cumprir. Rejeitados, ficaram com as promessas, provavelmente a voltarem dentro de quatro anos. Outros, sabendo das hipóteses de vitória, foram mais cuidadosos nas promessas: será mais fácil cumprir e segurar o mandato. Aqueles que foram «generosos» nas promessas, apesar de saberem não haver meios para as cumprirem, terão agora a humildade de pedirem desculpa e explicarem porque é que elas não são viáveis? Ou cairão na tentação de as iludir ou até de as cumprir custe o que custar quando os custos não as justificam e o bom senso aconselha, ao menos, a suspendê-las? Vencedores e vencidos, ou seja, governo e oposição, têm agora a missão do diálogo possível para a paz social e o desenvolvimento necessário. As medidas a tomar não podem ter como objectivo apenas uma promessa eleitoral. É que quem governa tem de ter a sensatez de confrontar o possível com o ideal, a partir dos meios de que dispõe. E esta tarefa pertence não só aos que governam mas também àqueles que são oposição. Esta dignifica-se quando, opondo-se, justifica porque apresenta melhores e mais eficazes vias de actuação.

É natural, em democracia, que as máquinas partidárias tenham interesses próprios. Mas não devem ter eles prioridade sobre o bem comum. É escandaloso, ofensivo até dos eleitores, os gastos sumptuosos suportados pelo erário público, sobretudo quando se espera e desespera por obras necessárias, várias vezes prometidas. Gerir a causa pública implica um permanente respeito pelo suor dos eleitores que, por impostos, permitem o funcionamento das autarquias.

Quer o que se passa na Catalunha, quer o que se acaba de passar entre nós com a tragédia dos incêndios traz à luz do dia uma outra preocupação bem mais séria: que valores vivem, na vida pessoal e na vida política, aqueles que nos governam? Que respeito têm eles pela história dos povos que governam e para onde os querem conduzir? É que se não faz parte da acção política, das decisões após discussão, a consideração do passado de um povo, com as componentes da sua identidade específica, bem como a prossecução de um horizonte de esperança, que dê alegria de viver e sentido de futuro, então não passarão de fracos gestores do dia a dia, esquecendo que lideram, precisando de ideias novas e de objectivos alargados. Não é dos particulares que se esperam obras de desenvolvimento que envolvem milhões mas que fazem falta para o bem de todos. Porque continuam apenas no campo das promessas tantas obras estruturais anunciadas há décadas? Obras que precisam de gente «rasgada», de equipas que amadureçam, planeiem e executem de imediato e não só para a véspera de novas eleições.

Num tempo em que surgem populismos que estavam adormecidos, precisamos de autarcas de bom senso, que saibam conduzir o povo para valores mais elevados, que dignifiquem o passado e honrem o presente.

22 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXL

À hora em que escrevo, acabo de chegar de um serão habitual às quintas-feiras à noite. Numa das salas da Paróquia estava um grupo de 35 jovens e adultos. Apreciavam como se repete hoje o que aconteceu ao longo da história: Deus acompanha o seu povo e revela-Se próximo, destacando-se que é, sobretudo, quando tudo parece caído na desgraça que o povo se dá conta de que Deus nunca desiste de o convocar e lhe dar razões para a esperança. Num outro grupo, mais adulto, estavam 29 pessoas dialogando sobre a verdadeira esperança.

E dei graças a Deus por esta riqueza da nossa Paróquia: semana a semana, cerca de 70 pessoas, por decisão livre, sentem que este momento é libertador e lhes dá alegria de viver, porque descobrem a beleza do CRER. Todos eles têm muito que fazer, as suas vidas estão cheias de compromissos e têm larga variedade de escolhas para as noites de quintas-feiras. Mas escolhem catequese de adultos.

Noutro contexto, discutia-se se não estávamos nós, os padres, a pedir demais aos nossos paroquianos, tantas são as actividades propostas, porque estar em família é fundamental. E se isto me ocupou o pensamento do dia - porque a questão é pertinente, tanto mais que a experiência pastoral me habituou a tal cuidado, o de não sobrecarregar os colaboradores da Paróquia, pois todos têm obrigações familiares e profissionais - à noite surge uma surpresa que, de modo algum, admitia como possível. Nessa tarde pude aperceber-me, por algumas conversas, que a conferência da noite, com a jornalista Aura Miguel a falar de Fátima, ontem e hoje, em Portugal e no mundo, no Auditório Municipal, iria ser muito participada.

Quando, às 21.00, me aproximava e percebi já uma aglomeração de gente à porta, ainda fechada, nem nessa altura tive a percepção de que chegaríamos tão longe. O Auditório encheu-se por completo. Com 50 cadeiras suplementares, teríamos 310 pessoas sentadas. Era já algo de muito bom. Esperámos as 21.30 para dar início. Mas eu, que orientava, tive a tentação de começar uns minutos antes dado que já havia mais de uma centena de pessoas a pé. Temi pelo número exagerado por razões de segurança. E continuaram a chegar. Pude contar mais de quinhentas pessoas.

Claro que os números não são o mais importante. Terá a ver com a conferencista, vaticanista de reconhecida competência e conhecida do público. Terá a ver com o tema da conferência, enquadrada no encerramento do Centenário das Aparições de Fátima. Tudo isto pode explicar a grande afluência. Mas penso que não chega. E prefiro, também aqui, «um olhar outro», que provoque e desinstale.

Dou-me conta de que o povo anda à procura. De quê? Como sempre, de sentido para a vida, de novidade, de «Boa Nova», de algo diferente daquilo a que o habituámos. Sempre é mais fácil, por parte das lideranças, sociais, políticas ou religiosas, dizer que «o povo não quer». Sabemos todos como as sociedades evoluem a partir de lideranças fortes, que sabem ler os anseios mais profundos e criam dinamismos novos para os satisfazerem. E o que se vê na política vê-se também na religião: alimentamos os gostos de um povo, que se habituou a comer sempre do mesmo porque não conhece melhor, ou fazemo-lo descobrir alimento melhor? E não se diz também que muitos preferem manter o povo na ignorância, acomodado porque assim não conspira, isto é não questiona nem reivindica algo de melhor?

A determinada altura cochichei com o senhor arcipreste, primeiro responsável da iniciativa dos padres de Barcelos (as duas conferências, de Outubro e de Novembro, bem como a Semana Bíblica, são organização e encargo do Arciprestado e não da Paróquia de Barcelos): E agora? Como reagiria esta assembleia se desistíssemos destas iniciativas, que os põem a pensar? Demos graças a Deus e felizes encargos que o Arciprestado assume. Nos tempos que correm, ou a nossa acção pastoral «incomoda» ou está condenada ao fracasso. Os cristãos de hoje querem - e a isso têm direito - descobrir a riqueza e beleza de um Deus próximo. E têm direito a esperar da Igreja a ajuda de que precisam, para se sentirem adultos na fé, livres e responsáveis, e não apenas «fazendo o que o senhor prior diz». É esta a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, Igreja conciliar situada no tempo, a Igreja de Francisco ou de Bento XVI, capaz de assumir rostos diversos, conforme o tempo ou a «lama« das diversas periferias de todos os tempos.

Disse que foram mais de 500 os presentes. Sim, mas não podemos esquecer a «contabilidade» das redes sociais: os que seguiram a conferência foram cerca de sete mil. Deus seja louvado.

15 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXIX

Foi um período agitado, como se esperava. Mas foi também de festa. O período de campanha eleitoral para as eleições autárquicas «perturbou» um pouco a pacatez, se ela existe, da cidade e das aldeias.

Passadas as eleições, que ficou de toda a agitação desse período necessário? Do muito que se disse, urge filtrar uma grande parte para nos cingirmos ao que é verdadeiramente importante. Assim, permito-me destacar:

1. A dedicação e entusiasmo a uma causa, julgada pelos intervenientes como a melhor e até única com capacidade para convencer os eleitores. Há muito trabalho e muitos trabalhadores na «vinha» partidária ou independentista. Oxalá não o façam a pensar nos dividendos, para si ou para os seus, mas apenas no bem comum e determinados a servir o povo, conforme as promessas propaladas.

2. Sei de algumas candidaturas que fizeram o trabalho de casa: reflectiram sobre as necessidades da sua autarquia, criaram estratégias para encontrar solução para as dificuldades e estabeleceram prioridades. Apreciei os folhetos distribuídos: eles, consultados de vez em quando, bem podem servir de chamada de atenção para que se cumpra o prometido de modo a que seja verdade que «não somos todos iguais».

3. Já vai aparecendo quem acredite que a melhor campanha é aquela que é feita pela positiva, falando das necessidades e dos modos como serão colmatadas. Evitam-se assim os excessos de linguagem e o ataque às pessoas, ditas adversárias na altura. Sim, na altura da campanha, porque, passada este e aceites os resultados, fica bem a todos sarar quanto antes algumas feridas, agora julgadas desnecessárias. É bom ver como o povo se defende de populismos e não valoriza as palavras daqueles que tudo prometem, mesmo quando sabem que nada poderão cumprir. São os marginais da democracia que abusam das regras democráticas, quando estas lhes garantem o direito de se apresentarem, mesmo que seja apenas para gerar confusão e porem a nu o coração e a cabeça vazios de valores e de ideias.

4. Contabilizados os resultados, eis a dor até às lágrimas de uns e os sorrisos contidos de outros diante dos vencedores, agora chamados à responsabilidade de governar. Claro que olho para os campos opostos e a ambos saúdo: aos vencedores, os parabéns; aos vencidos, o conforto possível, recordando que as derrotas de hoje podem ser o caminho das vitórias de amanhã. Estamos no tempo da onda rosa pelo país abaixo. Mas não podemos esquecer as lições da vida: os vencedores de hoje tornar-se-ão os vencidos de amanhã. É a vantagem do regime democrático, que procura não só o respeito pelos olhares plurais da sociedade como procura evitar que se eternizem sempre os mesmos nas mesmas cadeiras do poder. Assim se tenta evitar acomodações, habituação ao poder e corrupção no uso do mesmo.

5. Nem sempre as eleições permitem que sejam os mais capazes e honestos a exercer o poder. Não o são de todo. Basta olhar para a taxa de abstenção. E para os jogos de bastidores e os interesses que, entretanto, se vão descobrindo. Porque há muita gente capaz e honesta que se poderia candidatar. E, na óptica da Igreja, se deveria candidatar. Porque, se o serviço ao bem comum deve tocar a todos, muito mais aos que se afirmam seguidores de Jesus. A melhor caridade acontece quando, nos parlamentos e nos governos, se trabalha por maior justiça social de modo que todos tenham o necessário para uma vida digna. Ou não é evidente que a mais grave pobreza surge «decretada» nas leis em que os mais fortes conseguem «esmagar» os mais fracos, sem que venham a ser julgados de tal injustiça?

6. Empossados os autarcas, é hora de trabalhar no cumprimento das promessas feitas. É hora de gerir com justiça para todos. Porque os eleitos deixaram de ter cor partidária ao passarem a governar em função do bem comum. Do bem de todos: dos que votaram neles ou nos adversários, e também daqueles que não foram votar. A dignidade de um autarca está no serviço a todos e se alguma preferência houver será em favor dos mais frágeis. Como está também na capacidade de resistência às pressões de pessoas, os tais amigos que vêm «cobrar», e de grupos que chantageiam os que têm de decidir em favor de todos e não só de alguns. É tempo, agora, não de pagar favores mas de buscar rectidão nas decisões, coragem na acção e humildade para reconhecer valor às propostas adversárias.

7. Ao mesmo tempo, o que se passou na Catalunha é uma nuvem muito negra, de previsíveis consequências catastróficas na construção de uma Europa unida e em paz. E põe o dedo na ferida: qualquer político tem o grave dever de conhecer a história e de acautelar o futuro. A paz é um bem maior a que nenhum nacionalismo se deve sobrepor.

8 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXVIII

Na diocese do Porto, no espaço de duas semanas, faleceram dois bispos, um deles ainda muito jovem e de quem a Igreja portuguesa muito esperava ainda. Nós consideramos “perdas” mas, como crentes, aceitamos os desígnios de Deus, que, sejam eles quais forem, nos fazem certamente pensar e tomar consciência da Igreja que somos.

A morte inesperada do senhor D. António Francisco dos Santos, que os cristãos de Braga admiravam desde a sua passagem como bispo auxiliar, encheu as páginas dos jornais durante muitos dias. E fizeram-no, creio eu que muito bem, como acto de justiça, dada a sua reconhecida bondade natural, espírito de serviço e comunhão com Deus, virtudes reconhecidas na acção pastoral desenvolvida, quer em Braga e em Aveiro quer, nos últimos três anos, na vizinha diocese do Porto.

Recebeu-nos em Fevereiro passado, a mim e a uma delegação dos Amigos de D. António Barroso, com simpatia e interesse na Causa que ali nos fizera deslocar. Apreciámos o seu conhecimento profundo do assunto e o seu empenho em conduzir um processo delicado com sabedoria e eficácia. Não nos foi difícil acatar os seus conselhos, comprometendo-nos a não nos adiantarmos ao juízo que a Igreja universal está a cuidar sem pôr em causa a nossa certeza moral quanto às virtudes heróicas de D. António Barroso. O senhor D. António, apesar do curto pontificado na Diocese do Porto ficará para sempre ligado à causa de D. António Barroso. Certamente que estes dois bispos já comungam da Santidade de Deus.

Por sua vez, a morte de D. Manuel Martins, ocorrida aos noventa anos, fez-nos recordar a trajectória da Igreja portuguesa nas últimas décadas, sobretudo quando, no período crítico pós - 25 de Abril se tornou, merecidamente, uma voz escutada, desejada e também temida por alguns, da esquerda à direita, fora e dentro da Igreja. Homem livre, disse, com obras e palavras, que a Igreja não pode meter-se na sacristia mas tem de “sujar as mãos” na vida social onde tantos irmãos nossos são explorados e vivem numa pobreza indigna de uma sociedade civilizada. Como profeta, impôs-se, não se calando perante as injustiças e a ameaças. Felizmente, também foi louvado e reconhecido pela sua ousadia, decorrente do seu múnus episcopal de vigilante (epíscopos) não só da doutrina que a Igreja, em nome de Jesus, propõe mas das condições de vida daqueles a quem, como pastor, conduzia.

Convivi com o mesmo sobretudo durante os cinco anos em que, na Conferência Episcopal, me relacionava com todos os bispos e suas dioceses. E pude apreciar a sua bondade, preocupado com os problemas sociais da sua diocese de Setúbal, de quem foi o primeiro pastor, e a sua coragem em falar quando os outros julgavam ser mais prudente calar-se. Por isso, não agradou a todos. Passados anos, a auréola de profeta corajoso e de amigo dos pobres, ninguém lha tira.

Por esses passos cruzados com ele, se justifica o sim imediato com que respondeu, por duas vezes, ao meu convite a presidir à missa solene em dia das Cruzes. As suas palavras, nas homilias, chegaram aos nossos ouvidos carregadas de sabedoria, de coragem e de solidariedade para com os mais deserdados da sociedade.

Era um amigo de Barcelos. Aonde gostava de vir, de conviver e de cumprimentar amigos, dadas as suas raízes familiares. Quem não conhece e reconhece o orgulho com que o bibliotecário municipal, Dr. Vitor Pinho, falava do seu primo bispo?

Logo que foi conhecida a minha nomeação para Prior de Barcelos, logo me enviou um cartão de saudação amiga, ele que já tinha participado nas minhas bodas de prata sacerdotais. E com o tal à vontade dos tempos em que nos cruzámos na Conferência Episcopal, me desafiava: “vai ser agora que os funerais de Barcelos deixarão de ser a pé para o cemitério?!”. Confesso que, só mais tarde, aquando dos primeiros funerais na cidade, entendi o que propunha. Não tinha sentido para ele, nem era pastoralmente razoável, que, em contexto urbano, os funerais se façam a pé. Por essa razão impus-me em relação aos funerais celebrados na Igreja Matriz: serão feitos em cortejo automóvel até à porta do cemitério, onde se espera por aqueles que possam chegar mais tarde. Assim se fez e em pouco tempo se ultrapassavam as reservas iniciais. E porque não também a partir da Igreja da Misericórdia? Já se fazem quando chove. Mas a falta de estacionamento junto ao cemitério – quando será prioridade para os nossos autarcas? – justifica que tal passo não se tenha ainda dado. Será razoável pedir aos que participam no funeral levantar o carro do Campo da Feira para, chegando ao cemitério, voltarem ao lugar de onde o retiraram? A questão reduz-se então ao bom senso pastoral na esperança de que um dia o cemitério posso ser rodeado de um parque de estacionamento adequado. Passa por aqui também a dignificação da celebração da morte.

D. António e D. Manuel unidos na morte: enquanto os cristãos rezam e choram, as urnas jazem no chão da catedral/mosteiro. Sem pompas nem amontoado de flores. Que sentido terão para nós, diante do evangelho de hoje estas palavras: «só somos verdadeiramente grandes quando deixamos que outros estejam acima de nós»?

1 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXVII

Apresento o teor da resposta, enviada a 4 de Setembro, ao Jornal de Barcelos:

Ex.mo Senhor Director do Jornal de Barcelos

Publicou V.ª Ex.ª, na edição de 23 de Agosto, um artigo do vosso colaborador Luís Manuel Cunha (LMC), o qual, repetindo intervenções anteriores, se julga no direito de que se lhe preste contas, como cidadão pagador de impostos. Os termos em que o faz, no seu estilo já conhecido, não me podem deixar ficar indiferente.

A insistência e provocação, consentida por V.ª Ex.ª, permitem-me concluir da relevância social do assunto, o que certamente levará a que os leitores do vosso jornal se julguem também no direito de conhecer a resposta do visado, eu mesmo, em nome da Paróquia de Barcelos.

Neste escrito último, LMC ultrapassou todas as medidas do equilíbrio razoável e «cria» as suas «verdades mirabolantes» a partir de dados duvidosos, num jogo supostamente inteligente para não ser apanhado nas malhas que ele mesmo tece.

Tentarei responder objectivamente de modo a que os leitores, a quem reconheço e respeito a sua capacidade de juízo honesto, possam tirar as suas próprias conclusões, sem se deixarem embarcar nos preconceitos «enlatados» que LMC fornece, convencido de que lhe reconhecem credibilidade para tal.

1. «Este prior não tem emenda… não toma andadura»: não toma nem tomará, embarcando na sua «andadura», ao assumir-se como juiz supremo da vida local, seja nos aspectos sociais ou políticos, seja nos aspectos religiosos. Quem lhe deu tal estatuto? A sua cidadania não é superior à minha ou à de qualquer barcelense.

2. «Que me estou marimbando…». Mentira. As suas provocações repetidas não escondem a atenção que me dedica, não só ao que escrevo mas também à «boataria» de que se faz eco. No mínimo, indigno de um jornalista sério, obrigado a fundamentar as suas afirmações. Estas são cada vez mais repetidas, superficiais e tendenciosas. Quem lhe reconhece hoje isenção quando, por qualquer motivo fútil ou apenas baseado numa apreciação totalmente subjectiva, classifica pessoas honradas e em cargos de serviço público como inúteis, subservientes e indignas do cargo que ocupam? Quem o legitimou para tal? Diz o ditado: «não passe o sapateiro além da chinela».

3. «O homem não paga um único cêntimo de imposto». E porque a firmação é grave, e ele sabe-o bem, faz preceder a frase de um «presumo». As afirmações de LMC revelam, mais que ignorância (culpável, no caso), má fé. Por ambas, apresenta uma série de afirmações, no mínimo desejosas de denegrir a minha pessoa, como o tem feito com outras.

4. Tem LMC obrigação de saber que as instituições religiosas, ao abrigo da Concordata de 2004, seguida da Lei de Liberdade Religiosa, se sujeitam às mesmas obrigações que outras congéneres. E que, desde essa altura, as paróquias se organizam como entidades sujeitas não só à lei canónica como à lei civil.

5. Em concreto, a Paróquia de Santa Maria Maior

a. Tem um ficheiro paroquial que regista a pertença livre das famílias, que livremente se cotizam para garantir serviços religiosos que pedem e manter e desenvolver o património religioso. Sendo este aberto à fruição de todos, crentes e não crentes, é sobre aqueles que recaem os encargos. Será isto justo?

b. É «governada» por um Conselho Económico que, reunindo mensalmente, gere as dádivas livres dos fiéis. Compõem-no nove elementos, com competência técnica reconhecida, que decidem o que à ordem material diz respeito, conscientes de que esta «ordem material» se encontra em função da «ordem espiritual», razão de ser da Paróquia: levar as pessoas ao encontro com a Boa Nova de Jesus e educar para uma adesão libertadora aos valores cristãos. Pelo que, ao Conselho Económico se junta um outro Conselho, dito Pastoral composto por mais de 30 pessoas, que se pronunciam, de tempos a tempos, sobre a vida cristã na cidade.

c. De todas as dádivas feitas à Paróquia, é entregue um recibo oficial que poderá ser apresentado na declaração de impostos. E as dádivas são geridas com rigor, justiça e transparência conforme consta de um relatório oficial enviado a todos os paroquianos.

6. Quanto a impostos, a provocação só pode ter uma resposta: como recebo um salário, do mesmo modo que outros colaboradores com vínculo laboral, a declaração de IRS surge automaticamente. Se algum dos meus paroquianos duvidar, terei muito gosto em lhe mostrar a minha declaração anual de impostos.

7. Quanto a prestar contas dos dinheiros públicos, a sobranceria de LMC também ultrapassou os limites, atitude própria dos fundamentalistas ou ditadores de muito má memória ao longo da história. Não vivemos numa sociedade democrática, que produz modos de actuação comuns, traduzidos em leis discutidas e votadas por maioria? Quem é LMC para pedir que a Câmara se justifique dos subsídios que atribui em face de pedidos fundamentados, discutida a sua relevância social e votada uma decisão maioritária e tantas vezes unânime? Que direito lhe assiste como cidadão e barcelense de se sobrepor aos autarcas eleitos, sufragados pelo voto dos cidadãos e comprometidos pelo bem comum? Que democrata é o senhor LMC que se revolta e discute quando as decisões não vão ao encontro das suas convicções? Há algo que me preocupa e que ouço comentar: porque se calam tantos diante de tais dislates, sobretudo aqueles que têm o dever de tomar posição? De facto, pior que a desfaçatez dos maus é o silêncio dos bons.

8. Sim, eu, pároco de Barcelos, presto contas: ao meu pai, respeitável velhinho cujo conselho carregado de sabedoria não discuto; ao meu bispo, a quem prometi «reverência e obediência»; ao povo da Paróquia que corresponde aos apelos do Conselho Económico a que presido. A estas famílias inscritas chega ano a ano o relatório de contas por escrito, apresentado, discutido e votado.

9. O rol de deturpações de LMC é extenso. Mas não me cansarei de responder, certo que é que a ignorância sempre foi atrevida e quando aliada à má fé torna-se um desastre e um «inferno» que conspurca as relações humanas. Será isso que pretende? Pois bem, quanto aos «dinheiros públicos», que a Câmara gere, colectados a partir dos impostos, a pergunta deve ser dirigida ao Município… que já provou à saciedade que não se incomoda com as perguntas insensatas do Jornal de Barcelos, que a acusa semana a semana: «Câmara Municipal recusa-se a cumprir lei há 384 dias». É caso para perguntar até quando continuará essa denúncia ridícula, que só prova a ambição de se tornar juiz supremo, arrogando-se um poder que não tem e de que sistematicamente abusa.

10. Nunca a Câmara deu subsídio algum para missas e procissões. Quando estas se tornam actos públicos e sociais, enquadrados em actos cívicos, o Município ajuiza a relevância dos pedidos, certamente em igualdade de circunstâncias, e decide com transparência. Certos actos exigem uma logística especial, que onera as instituições religiosas, que não são lucrativas, como é o caso das Missas no mês de Novembro no cemitério municipal, promovidas pela Confraria das Almas: se as pessoas não cabem na pequena capela, há pelo menos uma sonorização necessária e um espaço litúrgico a criar.

11. As semanas bíblicas foram e são actos de cultura, que trazem a Barcelos conceituados investigadores na área. A Bíblia, caro LMC, é dos escritos mais antigos e mais investigados por crentes e não crentes. Se se pede a ajuda do Município é para que as cerca de 300 pessoas que as frequentam, ao longo de três sessões, possam evoluir nos seus conhecimentos sem onerar os seus magros bolsos. É cultura, senhor LMC, da melhor qualidade, talvez sem comparação com tantos outros subsídios atribuídos a eventos também ditos culturais.

12. A residência paroquial foi recuperada por razões de respeito para com a história e aqueles que a edificaram e mantiveram no passado. Se a sua função de habitação do pároco carece de justificação - como acontece com tantas outras no concelho, devido à falta de párocos, reajustando-se-lhe as funções, normalmente transformadas em espaços de formação ou de apoio social - ela tinha necessidade de ser recuperada por ameaçar ruína. E hoje, conservando a sua função de sempre, obrigatória nos regulamentos municipais, ela é espaço de formação permanente para crianças e adultos. Convido-o a comprová-lo: às quintas-feiras à noite verá cerca de 70/80 pessoas em reflexão e discussão cuidando das razões da fé. Como é possível que esteja tão distraído para um olhar tão redutor e parado no tempo dos seus bancos de catequese?! A Igreja não é o que supõe ser correspondendo ao tempo em que, traumatizado e revoltado com os ensinamentos da doutrina, a abandonou, conforme refere tantas vezes. Liberte-se desse passado e avance na novidade que está ao seu alcance. O maior cego é, de facto, aquele que, tendo olhos, não quer ver.

13. Quanto ao cartório, sede dos serviços administrativos da Paróquia, diz ser «transformado em agência de viagens». Que pena, LMC, continuar a bater numa tecla ouvida na boataria citadina, oriunda daqueles que «desdenham mas querem comprar», mas são incapazes de um juízo honesto e justo fundamentado na realidade. Que pena, um jornalista beber em fontes inquinadas. Não entenderá o senhor que o fenómeno religioso cria relações humanas próprias? E que estas se aprofundam nos grupos. Também nos que viajam? Que viajar é fonte de cultura? Porque valoriza mais as vozes dos que falam mas não participam em vez daquelas que, participando, continuam a participar e pedem para não deixar de promover? Peregrinações, claro, se bem que as viagens, permitindo experiências de convívio que humanizam e valorizam as pessoas, são sempre uma óptima fonte de cultura. Já experimentou?

14. Quanto ao estado laico que, por sê-lo, lhe serve de motivo de «escândalo», lembro-lhe que a laicidade – traduzida em tantos países por uma sadia convivência entre o mundo espiritual e mundo material, não de costas um para o outro mas em colaboração mútua porque os crentes também são cidadãos e também pagam impostos – não é a mesma coisa que o laicismo, precisamente a atitude de quem pretende impor códigos ou valores que pensam «neutros» mas que nunca o são. A este propósito, quem não reconhece a dignidade de um Presidente que, afirmando-se sempre católico convicto, nunca põe em causa a participação em actos religiosos? Terá um Presidente de despir a farda de crente para, hipocritamente, vestir a de não crente? Será que a República deixa de ser laica quando o seu presidente vai numa procissão? Os laicismos, vividos nalguns países, estão a «matar» a alma cristã da Europa, cujos valores que a fizeram grande radicam no Evangelho de Jesus. E como todos os ismos (fundamentalismo, progressismo, nazismo, islamismo), também o laicismo põe em causa a harmonia do tecido social nas sociedades modernas. Haja moderação e bom senso.

15. Por último, a confusão de LMC não tem limites. Nem procura fundamentos razoáveis. Fala do que ouve na rua, se é que não o retira da sua imaginação fértil, confundindo realidade com fantasia. Saiba, LMC, que o funeral de uma pessoa é um acto merecedor de todo o cuidado, no respeito para com as pessoas envolvidas. Mas quando alguém me pede um funeral religioso, é meu dever conhecer algo da pessoa sobre a qual me vou pronunciar e comungar dos sentimentos da família. Isto exige contacto humano, ainda que breve. Não se trata de um acto comercial, a gerir por uma empresa funerária. O falecido pode não ser crente ou não perfilhar a fé católica, cujos ritos a família pede. Que «verdade» no acontecimento pode haver quando o falecido é desconhecido, a família não aparece, registos não há? As «contas com a Paróquia» são o menos importante mas traduzem uma pertença livre, fundamento de direitos e de deveres como em qualquer instituição humana. Entendeu mal e deturpou porque a primeira finalidade de tal encontro em tais circunstâncias é partilhar a dor com a família e ajudá-la a entrar no ritual que se vai realizar. Não terei o direito de conhecer algo da pessoa – se se trata de um paroquiano é suposto que há já um mínimo de conhecimento, mesmo que reduzido aos dados do ficheiro - que possibilita que o sacerdote não caia no ridículo de fazer um «discurso» totalmente marginal à realidade? Haja bom senso.

Sabendo que não fui exaustivo e admitindo que LMC ainda não ficará satisfeito com a resposta, objectiva e também subjectiva certamente, lembro que a Constituição Portuguesa proíbe qualquer discriminação em função da crença religiosa. E o direito à indignação é inalienável. Certamente desde que manifestado com civismo e não em linguagem baixa e ofensiva, lesiva do bom nome alheio. Se passou o tempo, felizmente digo eu, dos privilégios, não passou o tempo de tratamento das instituições religiosas, por parte dos poderes públicos, em igualdade de circunstâncias com todas as outras entidades. Nem privilégios, nem subserviências, nem discriminação. Respeito mútuo para bem da cidadania.

P. Abílio Cardoso, Prior de Barcelos, 5 de Setembro de 2017

23 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXVI

Quiseram vir apresentar-se, como lista candidata à União de Freguesias, para dialogar sobre as necessidades e anseios sentidos. Recebi-os com agrado e o diálogo foi muito útil. Escutei e percebi entusiasmo e mesmo convicção de vitória. O que é normal. Se não há anseio por dias melhores nem empenho por uma causa de serviço público, para que serviriam as eleições? E se os candidatos, à partida, não acreditam no sucesso mas apenas se candidatam por uma qualquer razão de «tem de ser», ao menos para «marcar presença», talvez a campanha eleitoral se tornasse insípida. Haja festa, ao menos. Claro que receberei todas as listas que mo solicitem. Também eu, como pároco e representando a dimensão religiosa dos cidadãos, tenho uma palavra a dizer.

Sobre as boas e muitas intenções, apenas chamei a atenção para o realismo de uma autarquia urbana, em que o Município detém a parte substancial, e para a necessidade de estabelecer prioridades no confronto do ideal com o possível. Na sequência desse encontro, retomei uma antiga ideia de me pronunciar sobre alguns anseios, que gostaria merecessem a atenção dos autarcas, agora que não falta vontade de encontrar ideias novas, por mais arrojadas e até irrealistas que sejam.

1. Gostaria de ver assinaladas no espaço urbano as igrejas que o visitante procura. Com uma sinalética estudada e estrategicamente colocada, aquele que nos visita facilmente ficaria orientado. Simples e barato, não é? Sabemos que a Igreja Matriz, o Templo do Senhor da Cruz e a Igreja do Terço são os locais mais procurados. Não merecerão um maior e melhor cuidado? Até na informação que sempre um turista procura... Porquê deixar tudo nas mãos e a expensas dos cristãos que cuidam do património que é de todos? E já que somos visitados todos os dias, a existência de sanitários públicos, assinalados ainda que mais discretamente, diz bem de uma cidade acolhedora.

2. A legítima autonomia entre a esfera civil e a religiosa não impõe viver «de costas voltadas», como se fosse crime os subsídios e outras formas de apoio a quem cuida do património de todos. Afinal, os cristãos são também cidadãos e a nossa Constituição proíbe qualquer discriminação. Ajudar, no nosso caso, a Paróquia e as confrarias que cuidam do património de todos, é um dever e não uma reivindicação abusiva. Terão os nossos autarcas uma visão sadia da laicidade do Estado e o bom senso de perceberem que as esmolas dos cristãos são cada vez mais insuficientes para manter o património cuidado? Ou serão mais sensíveis às vozes ruidosas de alguns que se julgam senhores únicos do que julgam ser a boa gestão dos dinheiros de todos?

3. Promovem-se inúmeros eventos na nossa cidade. Serão todos necessários e verdadeiramente promotores de cultura e de elevação dos cidadãos? Não é verdade que o barulho em demasia brutaliza e «seca» o interior das pessoas? Àqueles com quem conversei repeti o que já tenho afirmado noutras alturas: os barcelenses não precisam apenas de barriga cheia, de corridas constantes ou de eventos em catadupa de modo a que não haja espaço para pensar e sentir o coração. Não me deixem só no lembrar que «nem só de pão vive o homem» pois que a «Palavra de Deus» não se reduz ao que se proclama nas igrejas. Quem promove hoje o silêncio que cura, tantos são os sinais de uma sociedade enferma, à procura, e mesmo à deriva, de horizontes de sentido? E que farão os nossos autarcas do futuro quanto à persistente e progressiva «invasão» dos espaços de silêncio da nossa cidade, cada vez mais necessários para a sanidade dos cidadãos? Porquê vermos os espaços nobres, circundantes sobretudo da Igreja Matriz e do Senhor da Cruz, os mais apetecidos para actividades ruidosas, que deveriam ser desviadas para outros locais, que os há?

4. Em concreto, permitam-me retomar o assunto de um MUSEU DE ARTE RELIGIOSA na cidade, que seria uma mais valia para o turismo, tão valioso e diversificado é o espólio, que as instituições religiosas têm dificuldade em conservar e dispor para que todos possam fruí-lo. Quando será que se crie na cidade uma sensibilidade própria que seja favorável a investimentos públicos, que significam, afinal, respeito pelos nossos maiores e educação para as novas gerações?

5. Do mesmo modo, vem-se falando da necessidade de recuperação do órgão de Tubos da Igreja Matriz, que não funciona há décadas. Agora que muito se investe na música - o Conservatório de Música de Barcelos é uma honra para a cidade - não seria de dotar a Igreja Matriz com um órgão que não só solenizasse a liturgia mas que fosse também aproveitado para concertos? Basta olhar o que se passa à nossa volta (Braga, Guimarães, Famalicão, Viana...). Posso mesmo dizer que, reunindo alguns pareceres sobre a sua recuperação, apareceu-me há dias uma proposta de recuperação orçamentada em cerca de 300 mil euros. Terá a cidade, os seus autarcas, sensibilidade para um investimento de ordem cultural, a marcar o nosso futuro colectivo? Haverá entre nós técnicos para decidirem a melhor opção e proposta? Haverá entre nós mecenas capazes de garantirem o seu financiamento?

6. A nossa Igreja Matriz, que é património nacional, diante das enormes necessidades de intervenção (nos azulejos, na iluminação, na drenagem de solo e de paredes) precisa de cuidados constantes. Das entidades públicas surgem os entraves e a mesma resposta de sempre: não há dinheiro. Do que precisamos é de boas vontades locais para que, em colaboração franca, se possam fazer pequenas intervenções de conservação, dado que as prometidas e devidas intervenções de fundo acabam por ser preteridas, não sabemos até quando. Mas com autarcas sensíveis muito se pode fazer.

7. O grande acontecimento da cidade, a Festa das Cruzes, centra-se cada vez mais na Procissão da Invenção da Santa Cruz. Ponto de partida, a Igreja Matriz, e ponto de chegada, o Senhor da Cruz, acabam por dizer o roteiro habitual de quem visita Barcelos. Cuidar destes espaços e da sua envolvência, ao longo do ano, será dever exclusivo dos crentes?

8. Por último, uma palavra sobre a morte e os funerais, algo que atinge a todos e momento profundamente significativo para uma leitura da «alma» de um povo: quando dotaremos o cemitério municipal do necessário parque de estacionamento, que evitaria termos de fazer os funerais a pé pela cidade? Quando dotaremos a cidade de um espaço ecuménico acessível à celebração condigna da morte para todos, crentes e não crentes? Porque sacrificamos a verdade da vida de um defunto, dando-lhe na morte o que ele não quis na vida? Quando reservaremos o funeral religioso para os crentes, conforme as suas opções em vida, com missa se ele a estimava? Uma palavra a terminar: sejam quais forem as candidaturas vencedoras, eu, Prior, já venci à partida: a todos respeitarei e com todos colaborarei. Estarei com os derrotados, no desgosto e sofrimento sentido. Estarei com os vencedores para os animar a serem sempre merecedores do voto que o povo lhes deu.

17 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXV

Em período de pré-campanha eleitoral, quatro palavras me fizeram pensar na possível proximidade entre a religião e a política. Escrevo estas duas palavras propositadamente com minúsculas.

Não, não vou comentar as propaladas ingerências nos campos alheios por parte de clérigos ou de autarcas. Uma democracia madura, como supostamente é a nossa, já ultrapassou tais clichés outrora discutidos, ou seja a preocupação de delimitação dos campos político e religioso. Parece-me claramente assumido, ao menos por parte da Igreja, que a consciência política autonomizada não precisa de «muletas religiosas» e que o povo não precisa de «tutelas religiosas» que lhes digam «esta ou aquela candidatura é a melhor». Será que, por parte dos «políticos », foi já ultrapassada a tentação de procurar, ou até de, veladamente claro, exigir uma «bênção religiosa» que dê força e credibilidade a um candidato em desfavor de outro? A tentação do «aparecer» no palco religioso não desapareceu nem desaparecerá certamente. A vigilância do respeito mútuo impõe-se sempre. A propósito, admiro o à-vontade com que o nosso Presidente da República participa em actos religiosos públicos já que, crente assumido, não precisa de vestir a pele falsa de um «laico» nem aceita interpretações extremistas da laicidade do Estado que, não sendo confessional, está ao serviço de crentes e de não crentes. Vamos então às palavras. São elas: Fé, Paixão, Promessas, ídolos. Palavras que se situam no âmbito da religião mas de que a política se apropria, nem sempre com equilíbrio.

Explico-me: quando um político se bate para que tenham nele e tudo joga para que a sua palavra «infalível» e «verdadeira» não seja posta em causa, ele sente-se merecedor de um «crédito» que pode chegar a um seguidismo cego. Como é possível então que se ponha em causa a atitude de fé de uma pessoa que, junta a outras, se torna comunitária e de relevância social quando ela se liga (religião vem de religare, o humano que se liga ao divino) ao Transcendente, a Deus, aceitando-O como Existente apesar de misterioso? Numa palavra: nega-se Deus e desdenha-se de quem nele acredita. Mas o lugar «vago» de Deus na sociedade da descrença, tantos o ambicionam... Eis o político no lugar de Deus a pedir que nele acreditem.

No mundo religioso, a palavra paixão, nesta nossa sociedade ocidental de matriz cristã, conduz-nos à cruz de Cristo e ao amor absoluto com que O contemplamos.. E vêm à mente tantas e tantas manifestações culturais que se tornaram tradições arreigadas em cada povo. Certamente que não esqueceremos o sentimento de paixão por uma causa a que nos devotamos e tudo fazemos para que nos acreditem, como honestamente apaixonados por uma causa. Paixão como amor desinteressado, sofrido mesmo como a de Jesus? Não estaremos a ir longe demais na idolatria do ego?

As promessas são o «pão nosso de cada dia» nas campanhas eleitorais. Promete-se o possível e até o impossível. Hipoteca-se até o futuro por causa de uma promessa impensada, impossível mesmo porque terrivelmente onerosa na situação temporal. E, sabendo-se que o juízo eleitoral periódico pede contas do prometido e do cumprido ou não cumprido, eis o esgrimir de acusações mútuas, uns a tentarem evitar que se lembre o passado e outros a «revolver» dossiers para fundamentar a propalada promessa não cumprida.

Neste campo, enquanto o padre se esforça por educar a fé do povo, esclarecendo -o para que evite as promessas religiosas e confie em Deus como Pai que, no seu amor, nos quer livres do medo, eis que os políticos «esticam mais e mais» o rol das promessas, de modo a forçarem a adesão que dará votos. Depois das eleições, as promessas, confrontadas com a realidade, foram-se...

Por último, a palavra ídolo, traduzindo o falso deus, que aparece em todas as culturas (não é verdade que o ser humano é naturalmente religioso, mesmo que tal afirmação possa ferir sectores da sociedade empenhados em promover um mundo sem Deus, uma sociedade livre de mitos ou de crenças religiosas?) está presente mais nas atitudes do espectáculo da campanha eleitoral em que actores e seguidores, nos discursos inflamados com ovações garantidas, se aproximam das procissões religiosas à volta da imagem de um santo no seu andor. De facto, nas palavras do líder, tudo é a verdade pura e inquestionável, acolhida e «sufragada » pelos já decididos que o acompanham. Afinal, só posta em causa, destruindo-lhe o seu carácter absoluto, no dia seguinte pelo adversário que a comenta e tenta anular o seu efeito, também ele ovacionado como um deus pelos seus seguidores.

Pois... Afinal não somos capazes de viver sem Deus, o Verdadeiro. Quando O pomos de lado, surgem imensos ídolos a tentarem ocupar o seu lugar. O que será melhor: crer em Deus, o Transcendente, ou crer nos homens que se fazem deuses? Muito «religiosos» os nossos políticos... Com os seus rituais também muito próximos dos religiosos...

Fica, a terminar, uma palavra de Esperança: que, tal como a Igreja fala da «nobre arte da política» e até recomenda aos cristãos que dêem à política o sentido de serviço público, promovendo a cidadania, todos os candidatos cuidem do seu estatuto de servidores do bem comum e façam um campanha limpa com ideias e projectos e não gastem o «tempo de antena» a denegrir os adversários.

10 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXIV

Perdoem-me mas confesso a minha distracção. Ao longo de todo o trajecto, que separa a Igreja Matriz do Santuário da Franqueira, sem prejuizo das intervenções necessárias e oportunas para dar conteúdo espiritual à caminhada, um pensamento me invadia constantemente: que «alma» está por trás de tantos gestos simples, espontâneos e, à primeira vista, carregados de sentido? Era uma lágrima furtiva e até abundante a correr cara abaixo em tantos rostos que se cruzavam com o andor de Nossa Senhora, tantos olhares fixos na imagem, tantas fotos a registar para o futuro, tantas pétalas lançadas para o andor, a maioria das quais se perdiam entre a mão que as lançava e a imagem de Nossa Senhora a quem se dirigiam. O que leva tanta gente - disse-se que, de ano para ano, a multidão cresce - a sair de casa cedo, a um esforço de sete quilómetros, em dia de calor... num gesto repetido ano a ano em total liberdade mas sentido como «obrigação» que vem «de dentro»? À partida, diria que eu teimava em estabelecer um contraste entre a «alma popular» que vai sem se questionar, mas vai, e aquele gesto mais reflectido e fundamentado que, em atitude evangelizadora, eu procurava incutir: acompanhámos a Mãe de Deus, sentimo-la como nossa Mãe, mas Ela realiza a sua missão de sempre, a de levar-nos ao seu Jesus. Digo contraste porque, reconhecendo a Igreja as virtudes da religiosidade popular, que junta multidões, não pode deixar-se ficar pela simples promoção de tal religiosidade, muitas vezes sem conteúdo e em formas próximas da superstição, que tudo mistura e que não promove as atitudes de fé libertadoras.

Procurei ver «por dentro» e «por fora», para conseguir a síntese equilibrada: olhava para os gestos e procurava ler os rostos, marcados pelo sofrimento ou por uma alegria contida, mas todos «aliviados» e marcados pela esperança. E a questão me invadia: o que faz com que esta gente - muita dela certamente alheada da prática religiosa dominical - não se dispense destes «encontros» com a «Senhora da Franqueira» e se alheie, ao menos por momentos, de todas as críticas e acusações dirigidas à Igreja, aos padres, aos sistemas oficiais religiosos? Será que desejam, lá no fundo, separar o «seu» mundo religioso do mundo religioso «oficial»? Não posso, no entanto, deixar de reconhecer, nos rostos contemplados, a marca da esperança, forte contra todos os profetas da desgraça, e contra todos aqueles que tudo fazem, nas leis e nas ideologias impostas, para dificultar que a «alma religiosa» de um povo se possa manifestar livremente.

Não temos a sorte de ver os nossos comentadores locais a tentarem ir mais fundo, nas suas crónicas, se existem, ou nos seus comentários, de modo a deixarem transparecer, nas leituras possíveis, as suas próprias inquietações. É que, afinal, todos sem excepção têm a possibilidade de um ver «por dentro» (como me sinto eu envolvido nesta imensa massa humana que canta louvores à Senhora) e de um «ver de fora» (o olhar que tentei ter durante e que agora exprimo quando escrevo). Para mim, foi apenas mais uma confirmação da inegável alma religiosa e mariana do povo de Barcelos. E da necessidade de nós, os padres, na condição de pastores chamados a conduzir o povo de Deus que nos foi confiado, nos interrogarmos sobre o modo como evangelizamos e as oportunidades, porventura não aproveitadas, para um trabalho pastoral mais aprofundado, de modo que a religiosidade popular seja o húmus onde deve germinar a «alegria do Evangelho» de Jesus.

Neste meu «olhar» não posso deixar de referir algumas inquietações de ordem pastoral, a obrigarem a uma reflexão profunda em Conselho Arciprestal, dado tratar-se de uma peregrinação que envolve, ou deveria envolver, as 89 paróquias, um trabalho a desenvolver com a Confraria que a promove. O ponto de partida, a Igreja Matriz de Barcelos, deveria concentrar todas as paróquias. Parece-me não ser de bom tom uma «placa» que convida algumas delas a percorrerem uma parte ínfima do trajecto. Como me parece que bastaria um estandarte mariano, um só de cada Paróquia e quanto possível mariano, atrás do qual cada Paróquia se concentraria. Terá sentido a cruz paroquial no meio do povo, como se cada paróquia participasse desenquadrada das demais? Se se trata de uma só peregrinação dita arciprestal, uma só cruz paroquial à frente de todos os peregrinos se impõe. E que intenções de peregrinação se devem apresentar a congregar a todos? Não teremos intenções próprias de Arciprestado? E como fazer passar a mensagem teológica da peregrinação que, começando numa caminhada, se dirige ao encontro do Filho da «Senhora da Franqueira», que se encontra na Palavra e na Eucaristia, o acto central da peregrinação? Serão válidas as razões apontadas, sempre as mesmas repetidas há séculos, de que «o povo não gosta nem aprende»? Alguém me fez notar que era uma multidão enorme a que subiu à montanha, multidão essa que me levou a questionar, durante a Eucaristia: onde está ela? Uns voltaram para casa para irem ainda até à praia, porventura comer o farnel na areia ou à sombra de alguma árvore, enquanto outros se voltavam já para o dito farnel... Pelo que, pouco tempo após a missa, o adro se encontrava já vazio. Quem se atreve a pensar e a ousar inovar?

3 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXIII

Quando a li, logo a registei. É uma frase atribuída a Santo Agostinho, mas já assimilada por muitos: “A natureza é um livro aberto. Quem não viaja não passa da 1ª página”. Não foi novidade para mim, porquanto da sua verdade há muito estou convicto. E maravilho-me sempre que me atrevo – porque se trata de um acto de desprendimento, um acto humilde de quem quer aprender – a sair do meio de muitos compromissos para contemplar o tal livro aberto para mim, para que eu o leia, o faça meu, o contemple e o torne meu, no profundo sentido bíblico do “livro que se come” (Ez. 3).

Uma vez mais o experimentei há dias e foram muitas as surpresas, as reflexões, as conclusões, o descalçar de preconceitos, a riqueza de um grupo para quem se fala e com quem se partilha o que se vai sentindo.

Cada país, cada povo, tem a sua história com páginas belas e páginas menos belas. O “padrão” com que aferimos julgamo-lo o mais perfeito. E, assim, catalogamos: gostamos ou não, aprovamos ou não, ridicularizamos ou enaltecemos… pobres de nós que julgamos a partir de um padrão, o nosso, como se fosse o mais perfeito. E, de facto, enganamo-nos. Porque os povos que visitamos têm costumes diferentes dos nossos, mas tão válidos e dignos como os nossos. E quando os julgamos negativamente apenas transferimos para eles os nossos padrões, julgados erradamente os melhores, mas que apenas são diferentes.

Reconhecer esta diferença e valorizá-la é acto inteligente e digno, humilde e capaz de construir pontes em que, no vai e vem, ambos ganhamos. E esta atitude, que o turismo favorece, é profundamente evangélica. Estou convencido, e já o escrevi, que o turismo nos dias de hoje realiza a profecia bíblica de aproximação dos povos para um acto de louvor em uníssono, em sinfonia harmoniosa ao Criador.

Desta vez foi a Roménia que se mostrou ao grupo como povo humilde, com uma história riquíssima, profundamente religioso, em vias de desenvolvimento mas já com uma capacidade notável de acolhimento ao que o visita. Tivemos de nos deixar abalar diante do preconceito que existe no nosso país quanto aos romenos. Não são os delinquentes, organizados em grupos de pedincha e “artistas” na apropriação do alheio. É, antes, um povo digno, trabalhador e acolhedor para quem o visita.

Com toda a naturalidade, ao fim de alguns dias de contacto com a realidade de um povo e com a sua história, as nossas ideias pré-concebidas começam a desfazer-se para darem lugar a outras, novas e mais ajustadas à realidade. É uma atitude interior, profundamente bela, esta de “despir-se” das roupagens ideológicas próprias para se revestir de novidade com a consequente função da verdade, que humaniza e constrói fraternidade. Viajar em grupo, muito mais que sozinho ou com um grupo restrito de amigos, tem também muitas vantagens: dois ou três dias são suficientes para o à-vontade e a camaradagem que se criam no grupo, os quais permitem também revelar a pessoa bela e verdadeira do outro, que é companheiro da aventura. E todos nos enriquecemos com a convivência e com a partilha de pontos de vista.

Como peregrino, em contacto mais religioso, ou apenas como turista na descoberta de um país, em ambos os casos dá-se sempre uma “conversão” a valores mais altos, que a todos enriquece. E é essa a razão autêntica que me leva a não dar ouvidos àqueles que, mais por incapacidade de decisão pessoal que por dificuldades financeiras, desdenham do Prior, “que passeia muito”, ou daqueles que o acompanham, um grupo cada vez mais numeroso e estável que já compreendeu que as propostas da Paróquia ultrapassam de longe um simples passeio turístico ao jeito das agências de viagens porque, reconhecem-no, há sempre uma dimensão cultural e espiritual como ponto de partida em cada proposta.

Não são os endinheirados que se inscrevem, nem é para os ricos que a Paróquia investe energias. É para os pobres, os que têm coração de pobre – desprendidos dos bens mas empenhados em gerir bem o que têm - considerando que é necessário investir na formação própria, em cultivar-se de maneira lúdica e em “entrar no passado” e na experiência dos povos que nos precederam para nos libertarmos das “amarras” do quotidiano que tantas vezes tornam a vida um fardo pesado, em vez de uma oportunidade feliz que Deus a todos oferece, pobres ou ricos. Um dia alguém destacou em público que “o Prior de Barcelos não organiza viagens só para ricos”, porque mesmo os de poucos recursos económicos têm capacidade para participar numa tarde cultural (pagando apenas o custo do autocarro), ou numa peregrinação de 4/5 dias, em que pode descobrir os tesouros que os nossos vizinhos espanhóis nos permitem apreciar (verdadeiramente Santo Agostinho tem razão: quem não viaja – e quem, podendo, não o faz, pelo que dará contas da cegueira espiritual disfarçada em desculpas que a ninguém convencem – vive fechado em si mesmo e torna-se um inferno para si e para os que o rodeiam.

Será ousado afirmar isto? Talvez. Mas trata-se de “um olhar outro”, necessariamente convidativo a alargar horizontes e a desafiar ao pôr-se em causa cada um a si próprio.

20 de Agosto de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXII

Revoltante. O que se passa com os incêndios assumiu proporções alarmantes, capazes de porem à prova a capacidade de tolerância de qualquer pessoa civilizada.

Não resisto a voltar a este tema. E decidi-o quando, no decorrer de uma viagem de estudo, todos os noticiários daquele dia, começavam com a situação dos incêndios. Analisados até à exaustão. E para o ouvinte atento, tornou-se um motivo de revolta. Porque tal realidade, à força de ser repetida, perdeu já a capacidade de impressionar e até de revoltar. Levanto, também eu, aqui, o meu grito de revolta.

E revolta acrescida pela «chicana política» do passa-culpas irresponsável, que atinge todos os governos e deputados nos últimos anos. Pois a «nobre arte da política» perdeu o pingo de vergonha que lhe restaria quando sabemos que, há décadas, se repete o mesmo cenário, as mesmas discussões, as mesmas promessas. Basta! Basta de incompetência política ou de corrupção em negócios que o erário público tem de suportar, isto é todos nós, que pagamos impostos e as despesas públicas: a destruição do nosso país recai sobre cada um de nós.

Há uma coisa que me revolta também: não se publicam os gastos contabilizados com cada incêndio. Sim, um acto tresloucado de alguém, que até tem prazer de ver as chamas a avançar e que uma simples sentença de comportamento inimputável faz recair sobre todos o crime de um só. E não se vêem os nossos políticos empenhados em rever as leis penais, em investir na prevenção à distância, que passa pela educação no respeito pela natureza.

Apesar de tanto se falar da ecologia, do respeito pela natureza - honra seja feita ao papa Francisco com a Laudato Si, uma encíclica com força de desafio a cientistas e políticos para que cuidem da casa comum eis-nos neste ciclo de destruição, ano a ano repetido e quase pré-programado: o que ardeu neste ano só estará pronto para arder daqui a uns tantos anos... sinal claro dos interesses ocultos, que se tornam cada vez mais evidentes, apesar de inimputáveis. Até quando teremos de assistir, impotentes, a tudo isto? Até quando se continuarão a gastar enormes quantias de um país depauperado, para «aturar» esta praga dos incêndios, ficando sempre uma dúvida no ar, quando não uma certeza, de que se trata de mão criminosa, já que a natureza não pode ser sempre o bode expiatório das incúrias humanas? Tanta investigação, tantos processos que chegam até aos juizes e poucos são os responsabilizados por tão grandes tragédias!

Desta vez, a morte de 64 pessoas - é indigna esta discussão entre forças políticas sobre o número de mortos, já que uma só morte seria mais que suficiente para incomodar políticos e políticas sobre os solos - fez tocar os sinos a rebate, levando os políticos a temer o lugar tremido que ocupam com muita incúria irresponsável, enquanto outros tudo fazem para esgrimir o tom das acusações, responsabilizando os governos de hoje e esquecendo as incúrias próprias de ontem.

Pobres bombeiros. Afinal é sobre eles que recai o ónus de todas as incúrias. Eles que, nestas alturas, tudo sacrificam: férias, família, compromissos pessoais. Eles são gente e não merecem apenas a nossa admiração e a simpatia de políticos (i)responsáveis.

Não faltam acusações e «quando se zangam as comadres sabem-se as verdades». Afinal, vai-se dando conta o cidadão comum de que, ao longo dos tempos, muitas decisões acerca do combate aos incêndios têm à mistura compadrios e benesses pessoais ou empresariais. Não será já tempo de contabilizar tais gastos? Enquanto os bombeiros se contabilizam por número de homens e de viaturas no combate, eis que das aeronaves não se sabe quanto custam em cada operação. Porquê?

O «inferno» de Pedrógão permanecerá na memória colectiva como terror e como sinal de incúria pública de décadas. Será que, finalmente, a consciência colectiva vai acordar e exigir dos nossos políticos as decisões de consenso que acautelem eficazmente o futuro da nossa reserva florestal?

É verdade que a floresta se recompõe. Que belo é ver que, às vezes um mês depois, a natureza renasce das cinzas negras e vai fazendo renascer a esperança com o verde que vence o negro. Sim, a natureza é esta força de vida, qual sinal de um Deus Criador a quem repugna a morte. Mas o luto, esse continuará por muito tempo. E oxalá a memória respeitosa e sufragante dos que pereceram não morra cedo em nós, nem mesmo quando para os políticos a tragédia se tornar «assunto encerrado».

6 de Agosto de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXI

O bom senso, suposto nas pessoas de bem, gerou na sabedoria popular, o ditado «só se atiram pedras às árvores que dão fruto». De facto, a experiência confirma que «quem anda à chuva molha-se» e «só não é criticado quem nada faz» porque fazer é arriscar incompreensões por parte dos «pequenos», dos comodistas e daqueles que se julgam mandatados para pronunciarem a última e absoluta sentença sobre os acontecimentos mais diversificados. Dizemos também que o verdadeiro sábio é aquele que pondera, faz silêncio e pronuncia-se com humildade porque o seu «olhar» é sempre relativo e precário, necessitado de ser ajustado à realidade, que o tempo confirmará ou não, e de ser completado por outros diversificados olhares: «ver perfeito é ver completo».

Abunda a gente pequena. Infelizmente. E gente que se julga grande mas se cala diante dos gritos estridentes dos pequenos injustiçados. Quando têm o dever de ofício de não se calarem, tornam-se também muito pequenos.

Não me considero grande. Também não me considero pequeno. Sujeito-me humildemente aos juízos díspares de grandes e de pequenos. Claro que prefiro o juízo dos grandes: em sabedoria, em humildade, em compromisso com a causa pública. Com o juizo desses também eu avanço e me enriqueço.

A missão que ocupo obriga-me a ser ponderado nos juizos e afirmações que faço. Porque sei que a frontalidade, necessária, não precisa de se misturar com a arrogância ou desprezo vil das pessoas, porventura nossos adversários em pensamento. Até porque sabemos que quem toma posição sujeita-se inevitavelmente aos juizos a favor ou contra.

O sr. Professor Luís Manuel Cunha (LMC) insistiu recentemente em provocação, dizendo querer saber aquilo que há muito sabe. E leva-me a referir-me de novo a um assunto repetido.

Àqueles que me dizem que não devo responder pois «não posso querer obrigar a ver quem prefere viver de olhos fechados», eu respondo que a finalidade do meu «Olhar Outro» neste boletim Construir, dirigido prioritariamente aos crentes católicos de Barcelos, é de contribuir para um olhar crítico e fundamentado sobre a realidade, procurando superar aquilo que se vê à primeira vista. Logo, referir-me a LMC não é, para mim, perder tempo ou dar-lhe a importância que não tem. Curiosamente, desta vez, não houve viv’alma que me comentasse o escrito. Claro que, embora mais tarde do que é habitual, dei-me conta do mesmo. E LMC sabe que o leio. Como eu sei que ele me lê. Imagino mesmo que estará muito atento, semana a semana, ao que eu escrevo.

Pois bem, o meu primeiro comentário é este mesmo: já existo. Já existimos. Nós, os cristãos, ignorados pelo Jornal de Barcelos, nos acontecimentos relevantes em que também somos agentes na vida social e cultural, passamos a ser referidos. Pelo menos eu, que sou o Pároco, já mereço não ser ignorado. Se me reprovam - ninguém estranha que temos olhares diferentes sobre a mesma realidade, mas o pluralismo expresso com respeito é sempre um valor a preservar - é porque existo. E não estou quieto nem calado. Dou graças a Deus. Tem sido referido o silêncio que paira sobre a actividade assistencial da Igreja - já esquecemos os tempos da crise em que não faltaram vozes «civis» a reconhecer que a Igreja teve a resposta mais eficaz no terreno - diante do barulho enorme que se faz à volta das falhas de alguns dos seus membros. E isto acontece na generalidade do mundo ocidental, omitindo o que a história regista de uma presença eclesial no tecido da sociedade, como o maior contributo para a humanização da mesma. Hoje vivemos em tempos difíceis para os cristãos: é moda bater neles como se fossem os culpados dos desaires do nosso tempo. Haja justiça e bom senso. Quem ganha com a desconfiança promovida sobre o que é institucional? Não o povo certamente. Não será caso para se pedirem contas aos promotores e aos que subsidiam uma comunicação social que se afasta cada vez mais da proclamada isenção? Quando se ignoram os acontecimentos fazendo com que não existam ou não contem só pelo facto de serem promovidos pela Igreja, algo de muito grave acontece se tivermos em conta as lições da história sobre fundamentalismos religiosos ou políticos.

Um triste sinal dos nossos tempos é a intolerância dos que se julgam autorizados a vigiar o respeito pela tolerância. E os que mais discursam sobre a necessidade da tolerância são os que menos a vivem. São os novos ditadores disfarçados, aqueles que condenam o excessivo moralismo de outros tempos, atribuindo-o à Igreja, e que diante das consequências do amoralismo reinante ainda são capazes de repetir as mesmas acusações de outrora. Quanta hipocrisia tolerada quando deveria ser denunciada! E quanto excesso de leis inúteis porque esquecem o óbvio: cuidar do coração, ou seja de um agir pessoal, livre e responsável, pedindo contas do que se faz ou não faz, do que se diz ou se cala. A educação cívica reduziu-se a informação, sem capacidade para a gerirmos.

Dito isto, dou conhecimento público (ver no interior) de uma resposta escrita, face à insistência percebida do director do JB, também «desgostado» do meu aparente silêncio, mas nada interessado em dar conhecimento público da minha posição, ele que queria reivindicar um «pretenso direito» de intervir no boletim paroquial.

30 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXX

Dá pelo nome de Actuall. Basta ir à net e procurar actuall.com. Depois é só inscrever-se na newsletter diária, que chamam el brief e lá teremos acesso a muita e boa informação. Carregando-se em Brief e Conectar: a indicação do email é suficiente para este acesso diário e gratuito a este jornal digital, em língua castelhana, feito por jornalistas credenciados e empenhados na defesa de valores, testados ao longo de séculos pelas sociedades livres, nascidas e desenvolvidas em ambientes de matriz cristã.

Certamente estarão já a entender que é, para mim, de leitura diária. E o que tem este jornal de especial? Seriedade e rigor, coragem profética e fundamento sólido. Como qualquer obra humana, nem sempre se acerta: no pluralismo equilibrado, há também lugar para expor opiniões contrárias quando têm fundamentação suficiente.

Poucos são, nos tempos que correm, aqueles que têm a coragem da denúncia, tais são os riscos. É que «dá muito trabalho ser do contra, mesmo quando nos toca bem por dentro. Somos «medidos» quando olhamos para todos os lados a ver quem nos rodeia para dizermos o que nos apetece dizer. Diríamos: eis ao que chegámos com esta «liberdade sob controle» nas democracias ocidentais, regidas apenas pelo número de votos de uma qualquer maioria. De facto, nos tempos que correm, a liberdade é uma conquista cada vez mais cara. Tudo, desde a publicidade às leis dos parlamentos, parece atender apenas ao «politicamente correcto», ao seguidismo de um padrão de acção forjada, sabe-se lá por quem. E quem ousa optar por caminho diferente, ou está muito bem fundamentado e tem força moral para merecer que, ao menos, gastemos um pouco de tempo a avaliar tal diferença, ou muito rapidamente pode ser ridicularizado publicamente e, como tal, «morto« na opinião pública dominante.

Estamos, de facto, na «era do vazio» e numa desorientação grave quanto aos valores. A net é o «palco» de muitas vaidades. Como também é palco de enormes oportunidades - de si, é, de facto, uma maravilhosa técnica e arte do engenho humano, com as enormes facilidades de acesso e de proximidade aos bens culturais que lembram que «nem só de pão vive o homem» - temos, todos, de pagar o preço de investir no bom uso de meios tão poderosos. E quem investe na educação para o bom uso de tais meios? Saber discernir o que é bom, eficaz e aceitável é tarefa cada vez mais necessária e é trabalho pessoal, de que ninguém se pode dispensar. E quem não precisa de acreditar que o que vê, ouve ou lê, é verdadeiro? Mas quem nos dá garantia de fiabilidade?

Chega de razões para dizer que vale a pena seguir Actuall.com. Ali encontramos muito daquilo que os grandes média omitem. Ali os interesses traduzem-se em serviço à verdade, à pessoa, em fidelidade ao passado, em responsabilidade perante o futuro.

Eis alguns exemplos do que ali pude ler nos últimos dias:

1. Asia Bibi pedirá nova apreciação judicial do seu caso. Trata-se de uma cristã, na cadeia desde 2010, no Paquistão, por beber água de uma fonte durante a faina no campo, algo proibido pela lei islâmica, na crença de que a «impureza» de uma cristã contamina o manancial».

2. Charlie Grad, o bebé que o Tribunal de Londres quis deixar morrer, porque atingido de doença rara, «foi autorizado a viver nos USA. O Congresso concedeu autorização de residência permanente ao bebé de onze meses e a seus pais. É o mesmo bebé a quem o papa ofereceu tratamento na clínica do Vaticano.

3. A lei do aborto do Chile chegará ao tribunal Constitucional. Senadores e deputados da oposição traçaram uma estratégia para provarem a sua inconstitucionalidade.

4. Aumenta a mutilação genital feminina na Alemanha: de ano para ano, aumenta em 13 mil o número de crianças em risco.

5. Assim se aplica a sharia em Berlim: uma “polícia moral” e um “circuito jurídico” independente do Estado são alguns instrumentos que utilizam os islamitas para aplicar la lei muçulmana na capital alemã.

6. Pode ser-se político e católico sem sofrer perseguição? Vários casos mostram que volta a ser muito difícil conjugar política e cristianismo sem sofrer a perseguição mediática ou dos adversários.

7. Carta de uma mãe a sua filha adolescente grávida: «Onde estava eu?». rata-se de uma carta emotiva que circula pela net. Depois de se inteirar de que a sua filha estava grávida, uma mãe escreve-lhe uma carta a pedir perdão e a garantir-lhe todo o apoio.

23 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXIX

Ocorreu há dias a Festa de S. Bento, celebrada um pouco por todo o mundo cristão, tal foi a influência decisiva deste monge, patriarca dos monges do Ocidente.

A sua vida foi curta, apenas 67 anos, se compararmos com os nossos tempos, mas talvez longa se nos situarmos no seu tempo. Mas a sua obra, essa foi inquestionavelmente grande, mesmo própria de um gigante, no génio que aliava a organização e a oração. Conhecida de todos, a sua Regra traduz-se em duas simples palavras: Reza e Trabalha. Ora et Labora. Por trás dela está um dos seus princípios: «nada, absolutamente nada anteponham a Cristo». Assim, ele conseguiu, no seu tempo, tornar-se um luzeiro único, mestre a seguir, deixando, nos mosteiros que fundou e influenciou com a sua Regra, uma marca muito própria. Lembremo-nos que naquele tempo (ele nasceu em 480 e morreu em 547), como noutros, não faltaram ocasiões de vida fácil, que ele rejeitou, para se dedicar totalmente a uma vida de oração e de comunidade, dando aos monges que o rodeavam, um «estilo» de vida que chegou até nós, aliando trabalho e oração. Não faltam até aspectos lendários e relatos milagrosos a realçar a sua personalidade única. Bem o compreendeu o povo, que a ele se afeiçoou e, até aos dias hoje, o considera um santo de primeira importância. Os muitos mosteiros que fundou e influenciou tornaram-se, ao longo dos tempos, focos de irradiação de cultura e de espiritualidade, bem como centros promotores da actividade económica. Quem não recorda que foi à volta dos mosteiros que se desenvolveram formas de organização social, descobertas novas e melhores maneiras de sacar da terra os frutos necessários à vida? E ainda hoje é nas bibliotecas dos mosteiros que se conservam testemunhos únicos da vida dos séculos passados. Não admira, pois, que em 1964 o Papa Paulo VI, pela Carta Apostólica Pacis nuntius, de 24 de outubro, juntasse ao clássico título de Patriarca dos monges do Ocidente, um outro, o de Padroeiro da Europa. Bem digno seria S. Bento de um olhar retrospectivo por parte dos nossos políticos contemporâneos (eles que discutem no Palácio de seu nome) para fazerem justiça a este título, reconhecendo quanto lhe deve esta Europa que, ainda hoje no concerto das nações, ocupa um lugar único, o de pátria de valores, no seio da qual surgiu o conceito de Direitos Humanos, hoje protegidos pela generalidade dos códigos jurídicos. Quanto não se bateu o saudoso papa São João Paulo II, que morreu desgostoso por não se ter feito valer, no projecto de constituição europeia, as raízes do cristianismo como base da Europa de nações, que somos. Infelizmente ideologias ateias e forças laicistas impediram tal reconhecimento.

Não foi apenas a celebração da festa de S. Bento que me levou a reflectir sobre o que aqui exponho. Em recente passagem pelo sudoeste e sul de Espanha pude apreciar, com um grupo de colegas, a história de algumas cidades, todas elas marcadas pelo cristianismo e, sobretudo, pela acção dos mosteiros que lhes deram uma fisionomia, de que hoje se podem ufanar mas que muitos desprezam, distraídos do eseencial, desvalorizando a história e confiando apenas no presente, que se pretende apenas de barriga cheia. Muitos dos conventos, mosteiros e igrejas, quais focos de irradiação de espiritualidade a encher corações e a dar sentido transcendente à existência, estão hoje vazios, alguns foram destruídos ficando a penas a sua memória registada nos livros, outros estão em ruínas, tornando-se encargo para as presentes gerações, incapazes de conservar o que os antigos foram capazes de construir.

Há uma ameaça cada vez mais clara sobre os cristãos e as suas instituições. A cristianofobia é uma relaidade, por mais que alguns órgãos de comunicação social queiram ocultar. O Papa tem-no denunciado, até porque há muitos cristãos ameaçados de morte por causa da sua fé. E não se vêem os poderes públicos e as forças políticas indignar-se com actos que atentam contra a dignidade humana. Mas eles existem e entram-nos pela casa dentro. E com o reduzir do número dos cristãos, aliado às dificuldades crescentes de aparecerem na praça pública, de pleno direito e em igualdade de circunstâncias, corremos, todos, o risco de vermos o nosso património histórico degradar-se cada vez mais, porque pode haver dinheiro, mas os espaços de culto vazios não geram vida e a memória vai enfraquecendo. Não estaremos longe de, também entre nós, ter de se confiar ao Estado, ou às câmaras municipais, a conservação dos edifícios religiosos. E sabemos por experiência como o Estado cuida ou como se descuida.

Na vizinha Espanha respira-se um extremismo cada vez mais radical em relação à história religiosa e aos valores identitários fundados no cristianismo. Mas facilmente se percebe que a história de Espanha não se compreende sem a acção da Igreja, sempre ao lado do povo e empenhada com o mesmo nos momentos de crise. Claro que a Espanha é mais que a dos últimos cem anos. A acção dos reis católicos está presente em qualquer esquina, eles que deram unidade aos reinos, de modo a conseguirem expulsar os muçulmanos. Mal ou bem? Hoje dizemos que somos todos irmãos e a tolerância é um valor. De onde vem ele? Do Evangelho de Jesus Cristo, não o esqueçamos.

16 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXVIII

Dentro de dias será conhecido o Movimento Eclesiástico, atitude reservada ao Bispo da Diocese, que distribui os sacerdotes, confiando-lhes as paróquias e realidades ou instituições eclesiais. Felizmente que, no ano presente, a Arquidiocese de Braga é enriquecida com a chegada de seis novos sacerdotes, dois deles do Arciprestado de Barcelos, qual «sangue novo» que vem rejuvenescer o nosso presbitério servido por uma média etária avançada. E serão ordenados ainda quatro novos diáconos em celebrações enquadradas no «ouro» do jubileu sacerdotal do nosso Arcebispo.

O «Movimento» é um acto normal de gestão - a vida é dinâmica também para as instituições - que visa o ajuste à realidade: há sacerdotes que morrem, outros que se ordenam, uns que estão mais cansados e outros que sentem necessidade de parar por um certo tempo (actualização teológica e espiritual) e ainda outros que desejam desafiar-se a novas dimensões dentro do seu próprio ministério, o que é muito salutar, para o próprio e para as comunidades servidas. Vivemos num tempo em que todos os verdadeiros servidores do Povo de Deus são necessários, mais ainda quando se evolui num sentido de «dispensa» de Deus.

Pessoalmente gostaria de ver passos decisivos para um outro modo de ser Igreja conciliar em que o Povo de Deus seja mais responsabilizado na acção pastoral e mesmo nas decisões de ordem pastoral. Claro que é mais fácil dizê-lo do que fazê-lo. Se esbarramos nas dificuldades de gerir pessoas e de as tornar disponíveis para missões delicadas, caso dos sacerdotes, esbarramos também na deficiente consciência de responsabilidade dos nossos cristãos, mais propensos ao consumismo religioso do que a uma atitude de fé permanentemente comprometida. De facto, foi demasiado tempo em que se pensava e agia como se a Igreja se reduzisse à hierarquia («a Igreja são os padres», que decidem e fazem, enquanto os fiéis «obedeciam», passivos e felizes, comandados e descansados ). O que explica, em parte, o clericalismo e anti-clericalismo, que ainda há bem pouco tempo o Papa Francisco denunciou como nódoa negra na Igreja, reveladora não só do desconhecimento da sua verdadeira identidade (comprometidos em missão, que provém do Baptismo) como também causa do desencanto crescente que todos reconhecemos hoje. Essa nódoa coexiste com a «hipocrisia» de tantos que teimam em querer dizer-se membros da Igreja só e quando lhes convém, enquanto na vida se situam de fora, ao sabor das modas, atirando pedras aos de dentro.

A que temos nós assistido desde há décadas? A isto: diversas paróquias e outros serviços são «providos» quase automaticamente. Não temos padres em número suficiente, vaga uma paróquia, por morte do pároco ou por outras razões, e o bispo «entrega-a» ao pároco vizinho, que acaba por aceitá-la mesmo contra vontade e contra o bom senso, quando as suas condições de idade ou de saúde aconselham o contrário. E a verdade é que tal esquema tem funcionado para manter um «status quo»: responder a necessidades religiosas, cada vez mais reduzidas até com a compreensão do povo, mas, de modo algum, inovadoras face aos novos tempos. Assim, os padres fazem-se chegar... «esticam-se» e todas as paróquias têm pároco. E, quando não está presente, nem se discute porquê. «Está na outra paróquia...», mesmo que não esteja em nenhuma, porque a vida do padre não pode dispensar encontros e palestras com os colegas ou formação teológica e espiritual, que exige disponibilidade e até ausências da paróquia.

Os padres são poucos e não chegam, é verdade. Ouso dizer que, para o esquema pastoral tradicional, eles chegam e até sobram. Mas será que o «consumismo religioso» não terá os dias contados? A satisfação de pedidos ou necessidades de ordem religiosa não ocultará o essencial, que é ajudar na descoberta do verdadeiro Deus, fundamento para práticas religiosas libertadoras e comprometidas? Sabemos que tudo isto é muito complexo. Mas sabemos também que o Espírito Santo age na sua Igreja e, no tempo, já lá vão mais de 50 anos, lhe deu um abanão com o Concílio Vaticano II dizendo que «a Igreja é o Povo de Deus, povo de baptizados, que aprendem dia a dia a serem discípulos missionários». Porque necessidades religiosas até os pagãos têm e os agnósticos ou ateus não as dispensam, seja qual for o seu ou os seus deuses. E não estarão longe os tempos de os leigos, no reconhecimento das suas capacidades, assumirem muitos serviços, incluída a gestão de paróquias, outrora apenas na mãos dos padres. Não será para esse futuro que se orientam os diversos esquemas de formação em curso?

De modo algum advogo o «corte» com os costumes e tradições religiosas, que constituem um pouco a «identidade» das nossas paróquias. O que advogo é que não podemos deixar-nos ficar «absorvidos» por isso, esquecendo o compromisso com o futuro. A inteligência da fé, o compromisso eclesial não pode dispensar-nos de uma prioridade: a leitura dos ventos da história para uma nova evangelização, tão repetida que já se tornou velha, ainda que não a tenhamos verdadeiramente experimentado. Não será já tempo de pararmos para pensar?

9 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXVII

As fronteiras são ténues. A complexidade do ser humano explica que as atitudes religiosas andam por perto das atitudes supersticiosas. E sabemos que foi o cristianismo quem mais e melhor contribuiu para dar a todos um relacionamento com o divino ou transcendente marcado pela libertação do medo e pela valorização da atitude confiante. O Deus dos cristãos é um Deus próximo, Encarnado, que caminha lado a lado connosco e que «veio habitar no meio de nós». Esta proximidade convida à confiança, a ultrapassar medos e a viver «na liberdade dos filhos de Deus».

Os textos bíblicos testemunham como o ser humano carrega em si próprio uma propensão para o mistério, um anseio de transcendência, uma necessidade de Deus, confirmada pela experiência pessoal. Mas testemunha também a dificuldade de chegar ao Deus verdadeiro e libertador e a facilidade com que se deixa enganar pelos ídolos, que, às vezes sem se dar conta, o subjugam. Deus ou é Liberdade e Libertador ou então para que precisamos dele? Não andam alguns ingloriamente a tentar construir um mundo sem Deus, acabando por criar a sua própria religião, hoje chamada ateísmo ou laicismo?

Há uma mistura grande, nos crentes cristãos, de fé com superstição. O acto de Crer precisa de constante purificação. E não falta quem abuse da boa fé e da crendice fácil para fazer fortunas, explorando incautos e humilhando gente pobre e simples. Adivinhos, bruxas, cartomantes, tarólogas... aliados a seitas ou novos movimentos religiosos que pululam na sociedade actual, qual mercado religioso em que milagres e curas estão em saldo, são consequências da desorientação da cultura actual, do desencanto religioso e da pouca formação humana, apesar de tantos títulos universitários. Porque o ser humano é também mistério em confronto com o mistério de Deus, seu Criador. E há certas «dispensas» na cultura contemporânea que empobrecem cada vez mais o ser humano, deixando-o à mercê de abusadores sem escrúpulos. Por isso, eu próprio não me canso de apelar à formação de um espírito crítico e de uma prática religiosa cuidada e libertadora, em que cada um deve investir no conhecimento do seu próprio ser íntimo e do ser de Deus, conforme nos foi e continua a ser revelado na Bíblia e na Vida.

Há um ano atrás participei, com um grupo de sacerdotes, numa visita a Montalegre, guiada pelo P. António Lourenço Fontes, sacerdote bem conhecido e conotado com crendices e bruxarias, ele que foi e é a figura principal do «congresso de medicina popular», que já realizou trinta edições nos princípios de Setembro de cada ano. Já lá vão uns anos em que também lá fui, numa tarde de domingo, «espreitar» o tal Congresso e «cheirar» as ervas que «curam», bem como «penetrar» no mundo de tantos que se dizem «de poderes e de virtude». E fiquei com uma impressão negativa, tendo lamentado que um sacerdote fosse o responsável por tudo aquilo que eu interpretava como promoção da crendice popular.

Esta impressão foi «descalçada» quando tive a oportunidade de conversar, já no ano passado, com o P. Fontes. Afinal, ele não só não acredita nas «mézinhas», como faz tudo para se rir delas e as «descalçar». Só que fá-lo indo às raízes da cultura popular e, com conhecimentos de etnologia, bem como das propriedades de plantas que deram origem aos remédios naturais que os antigos utilizavam. E, neste particular, o P. Fontes é um mestre. Homem simples, mas profundo, inteligente e muito próximo dos sofrimentos alheios, ele humaniza e valoriza o humano situado no conjunto da criação, afinal o habitat natural onde cada um de nós, respeitando a criação, se pode encontrar consigo próprio e, confiado em Deus, fundamentar a esperança, que, na sociedade de consumo dos nossos tempos, se encontra ameaçada. E todos precisamos de esperança, de poder olhar o futuro com alegria e de sentir a paz que a boa harmonia entre vizinhos e irmãos consegue. E porque achei que poderia ser interessante dialogar com este homem, talvez aquele que, nas últimas décadas, mais contribuiu para o conhecimento e desenvolvimento do concelho de Montalegre que, como muitos do interior, se vê a braços com um processo de desertificação grave - que parece escapar apenas aos políticos da capital, conforme sério e bem fundamentado desabafo do presidente da câmara local, que nos recebeu com muita simpatia - é que propus que o passeio dos sacerdotes de Barcelos fosse para Montalegre. E lá fomos visitar toda uma região rica de tradições e de cultura, de que só acompanhados de um bom conhecedor da região, nos poderíamos dar conta.

Numa cavaqueira ao serão, após a célebre «queimada» que «esconjura» maus olhados e medos, apreciámos as palavras deste homem, tantas vezes solicitado para tratar de diabos que povoam as cabeças das pessoas: «como padres, gastai tempo a escutar as pessoas; elas precisam de falar do que lhes vai na alma. E o nosso ministério passa por ajudar as pessoas a confiarem mais em si e em Deus».

2 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXVI

É já parte integrante de um agir comunitário. Para alguns seria impensável não o realizar, enraizado que está no ser de alguns paroquianos. Para outros, mais críticos e mais responsáveis, mantém-se a questão, sempre a mesma questão: como levar ao coração de todos o «dever» de presença individual e familiar? Sobretudo, como «instalar» na consciência de um leigo responsável na Paróquia este «dever» de presença física, que obriga a estabelecer prioridades?

Refiro-me, certamente, ao Dia da Paróquia que celebrámos, uma vez mais, no passado domingo, 18 de Junho.

Projectado no início do ano pastoral e enquadrado na temática que se vive na Arquidiocese e no país, que celebra o Centenário das Aparições de Fátima, o Dia da Paróquia foi anunciado e dinamizado como «peregrinação» a um Santuário Mariano, escolhendo-se o da Senhora da Peneda, na Gavieira, Arcos de Valdevez, ali junto a Castro Laboreiro. Claro que, à distância, nada se garantia quanto às condições atmosféricas que se fariam sentir e que justificaram a desistência de alguns inscritos, pessoas de idade ou de saúde frágil, que não quiseram arriscar um dia de calor intenso, como estava previsto e como aconteceu. E foi o calor excessivo a causa da dor vivida quando íamos sabendo, pela comunicação social, o aumento do número de mortos na tragédia da noite em Pedrógão Grande. Impõe-se aqui uma palavra de solidariedade na dor com aquelas populações vítimas do incêndio - e da incúria dos homens ao longo dos anos -, de sufrágio por aqueles que faleceram e de gratidão e respeito por tantos e tantos bombeiros e bombeiras, que até arriscaram as suas próprias vidas para serem mais fortes que os incêndios.

É certo que a tragédia em nada afectou o normal desenvolvimento do Dia da Paróquia. Este decorreu conforme o que foi projectado.

Partimos às 8.00 em direcção à Peneda. Pelo caminho, em Valença, tomámos café. E eram tantos os autocarros... que tomei consciência de que em muitos domingos, sobretudo de primavera e verão, as «clareiras» nas igrejas têm alguma justificação. Será que o destino é também um Santuário e que a Missa faz parte do programa? Se assim for, há ainda uma vantagem: não faz mal nenhum, pelo contrário, conhecer como se vive a fé e se celebra o domingo em regiões diferentes.

A Eucaristia foi, de facto, o momento central do dia. Havia muita gente de outras comunidades, espanhóis inclusive, que enchiam o Santuário. A simpatia do seu capelão, P. César, que fez questão de nos vir saudar, foi digna de registo. A animação do canto coral, dos leitores e acólitos, deu o seu tom festivo e digno à celebração.

Não éramos muitos. Talvez umas 130 pessoas, que nos juntámos depois à mesa, preparada por uma excelente equipa de paroquianos que, ano a ano, se esmeram em preparar o apetitoso «arroz à Paróquia», bem regado pelo tinto e pelo branco fresco, nascido e crescido na Casa Clementina Rosa, e trabalhado ao longo do ano a pensar neste dia.

Merece aqui uma palavra de destaque toda a equipa que prepara o almoço. Noto que o fazem com gosto e que a equipa está adequada às necessidades. E que não faltam voluntários para ajudar. Noto também que muitas famílias já assumiram levar algo para partilhar: as sobremesas, frutas e bolos, exigem uma paragem mais longa ao final do dia, qual merenda/jantar abundante que ninguém dispensa. E não havia pressa pois a equipa tudo conjugou para que, mesmo com contratempos e imprevistos, não faltasse uma cadeira, o prato e o copo para todos. E aquelas sombras à beira rio em dia de muito sol... foram bem um dom de Deus muito oportuno.

No regresso, passámos no Barral, em S. João de Vila Chã, Ponte da Barca, onde terá aparecido também Nossa Senhora a um pastorinho de 10 anos, de nome Severino Alves, a 10 e 11 de Maio de 1917, precisamente nas vésperas das de Fátima. Ficámos a conhecer a história, muito bem explicitada por um jovem local, rezámos pela paz e evocámos a memória do Cónego Prof. Avelino de Jesus Costa que, dali natural, se tornou o grande impulsionador do Santuário da Senhora da Paz, precisamente no cinquentenário das aparições, em 1967.

O Dia da Paróquia foi oração, convívio e cultura. Como não pode deixar de ser. Aqueles que o viveram ficaram mais ricos. Oxalá muitos outros despertem para a sua importância e não encontrem argumentos fáceis para se dispensarem deste grande dia de Família Paroquial.

Uma última nota: o pedido de várias pessoas que, não sendo paroquianos, e em grande parte de parcas condições económicas, que se sentem da nossa casa e que, de ano para ano, fazem questão de dizer que esperam por este dia. É também em função deles que a Paróquia há muito decidiu que ofereceria o almoço a toda a gente. E isto já se tornou tradição a manter.

25 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXV

Não surpreende um certo desânimo nos nossos catequistas. E não só neles, mas em todos aqueles que, voluntários nas nossas paróquias, sentem cada vez mais o «peso da responsabilidade» num trabalho que só é possível quando motivado pelo amor a Jesus Cristo e à sua Igreja. De facto, que seria das nossas paróquias sem a colaboração, silenciosa e permanente, longe dos holofotes mediáticos mas de uma importância inquestionável, de tantos e tantas que, no dia a dia, procuram dar resposta a tantos compromissos e esperanças, vindos também dos não crentes e dos ditos não praticantes? E não uma resposta qualquer mas dada com convicção e com qualidade. Ao menos na intenção mais profunda, como um serviço ao jeito de Jesus.

Hoje quero olhar e ajudar a olhar de modo diferente para os nossos catequistas: foram, desde sempre, os primeiros colaboradores dos párocos, na sua missão de evangelizar. De facto, pode não haver muitos movimentos ou grupos numa Paróquia, mas a catequese da infância - a transmissão de valores e referências aos mais novos - essa nunca faltou e tornou-se «condição» da existência de uma Paróquia. Se esta se reúne à volta da mesa eucarística, não podem faltar as crianças, que são o futuro da comunidade.

Ao longo do ano, procuro estar próximo de todos os catequistas. E até passar pelos diversos grupos. Há sempre uma palavra oportuna e necessária como também sinto dever fazer sentir aos catequistas que não estão sós. É que deles também se exige, às vezes, demais. Procuramos que tenham formação adequada. Mas não ao ponto de se tornarem técnicos credenciados na transmissão da fé. Esta só se transmite adequadamente pelo testemunho de vida. Ninguém dá o que não tem.

Como até nas escolas acontece - o Estado forma e paga aos professores e até pode exigir deles o cumprimento de algumas regras - também na catequese surgem situações delicadas que é preciso resolver no respeito da criança, dos pais e dos colegas de grupo. E existem as crianças mais «difíceis», a exigirem cuidado especial. Como existem pais «exigentes» com muitos «direitos» sobre os catequistas. Apesar de, clara e determinadamente saberem que o Prior não permite qualquer falta de respeito para com os seus colaboradores e que acompanha pessoalmente o processo catequético. Numa Paróquia dinâmica, preocupada em dar respostas adequadas num tempo difícil para os cristãos, que vivem numa sociedade em processo rápido de secularização, é compreensível que alguns desanimem, outros alterem a sua envolvência na comunidade e outros até se afastem, cansados. Este «problema», nunca o esqueçamos, é um problema humano: temos de ser nós a resolvê-lo ou a minorá-lo. Mas não é só humano, porque a Igreja é conduzida pelo Espírito Santo. Claro que a experiência eclesial nos revela constantemente que as estratégias humanas são inúmeras vezes ultrapassadas. É que o «Espírito sopra onde quer». E nós não somos «patrões» na Igreja, antes servidores livres que encontram no serviço voluntário que prestam aos outros o seu «modo de ser» cristão.

Estamos no termo de um ano e outro está em programação. Os pais têm uma palavra a dizer. Sempre. Porque não vale a pena, nem a Igreja quer, fazer catequese em que os pais se põem de fora do processo. Quando isto acontece, todos perdemos. Aliás, podemos dizer que reside na falta de empenho dos pais, que pedem a catequese para os filhos, a grande causa do desânimo dos catequistas.

Preocupados com isto, os bispos portugueses reflectiram sobre o assunto e decidiram enveredar pela catequese familiar, ou seja uma nova (já não é tão novo pois várias experiências estão em curso em diversas paróquias do nosso país) maneira de fazer catequese. Esperamos que no próximo ano todos os que começam o processo catequético já beneficiem desta modalidade: ou seja, a catequese será para as crianças e para os seus pais, ou não dispensará estes de acompanharem os seus filhos no crescimento na fé.

Acrescentamos que tal já não é novidade entre nós. Já o experimentámos durante dois anos e fizemos a necessária avaliação. O reduzido número de crianças, bem como as situações familiares, levaram-nos a suspender o processo para o retomarmos em melhores condições. Parece estar a chegar a altura de o retomarmos. Por outro lado, a catequese de adultos - e é cada vez maior o número de adultos que a procura para fazerem uma descoberta pessoal de Jesus e da sua Igreja - é já uma feliz realidade na nossa paróquia. Quem não reconhece a dificuldade crescente dos pais cristãos, que querem educar os seus filhos na fé, mas sentem enormes dificuldades, não só oriundas das suas condições laborais e familiares mas também das novas solicitações próprias de uma geração com acesso a todos os meios técnicos e a viverem num mundo em que não conhecem obstáculos? Como responder-lhes às questões de sentido ou às perguntas sobre Deus? Se o meio ambiente lhes permite ao menos porem-se tais questões. Quando o «espaço» está totalmente ocupado, que resta para a «inteligência espiritual» e para fortalecer a vontade própria e livre?

18 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXIV

Passaram-se já três semanas da visita pastoral do senhor Arcebispo D. Jorge Ortiga à paróquia de Santa Maria Maior. Tempo suficiente para que, em grupo, pudéssemos fazer a avaliação da visita e dos vários momentos que a constituíram. Foi tarefa já realizada ao nível do Conselho Económico e do Secretariado Permanente do Conselho Pastoral.

Não se trata de dizer que foi positiva ou negativa. Não é nestas coordenadas que se move a Visita Pastoral a uma Paróquia. Certamente que é sempre positiva a presença do Pastor junto do seu rebanho. A questão de um «outro olhar» é, antes: aproveitou a Paróquia esta ocasião para crescer espiritual e pastoralmente? Claro que a resposta é sim. Embora me pareça que, dadas algumas circunstâncias situadas e dada a exiguidade do tempo disponível, que se poderia ter ido mais longe. Por exemplo, dou-me conta de que alguns sectores da comunidade quase não se aperceberam da hora importante que vivíamos, dado que a Visita Pastoral não é um acto de todos os dias. É sempre um momento único, que acontece mais ou menos de cinco em cinco anos e que pode - e deve - ser aproveitado para que os diversos grupos tomem consciência da pertença a um todo, que é a Paróquia. A verdade é que todos os grupos que se sentem e vivem como Paróquia foram convidados a manifestarem-se. Correu-se um risco e alguns apresentaram-se como da Paróquia, originando interrogações. Preferi tal «excesso» de abertura de portas confiando no Espírito que trabalha o «coração» também das estruturas. Mostrou-se ao Arcebispo uma Paróquia real, com anseios e esperanças, fragilidades e dificuldades.

Além dos actos mais «visíveis», outros houve mais discretos. As instituições civis foram visitadas e todas acolheram bem o senhor Arcebispo, destacando-se a dimensão de «pontífice», que o bispo desempenha na diocese. As «pontes» unem e a Igreja define-se pela construção de pontes, levando às relações humanas e institucionais a força do amor que une, no respeito pelas diferenças. Não faltou o contacto com idosos e doentes (no Hotel-Lar) ou a visita a um casal idoso retido em casa, nem a oração no cemitério junto da campa dos priores de Barcelos, nem o jantar com os sacerdotes que servem na Paróquia. Na visita que fez aos dois grupos de catequese de adultos, ficou claro que a catequese de adultos é uma feliz realidade na nossa paróquia, já lá vão muitos anos: não só o termo se tornou familiar como a formação cristã de adultos se impõe por si, sendo já procurada por vários cristãos de outras paróquias, sobretudo por aqueles que, não tendo ainda completado a iniciação cristã com o Crisma, a seguem semana a semana para um dia serem crismados. Claro que está por trás de tal procura o desejo de um dia poderem assumir o múnus de padrinho/madrinha de Baptismo. Também aqui dou graças a Deus pela caminhada difícil mas eficaz: quando procuram o Pároco para certificar a idoneidade, já é usual reconhecer a falta de Crisma como impedimento, a que se junta de imediato a manifestação da vontade de frequentar a catequese de adultos. Ou seja, já se reconhece que uma «exigência» tem sentido quando há uma resposta oferecida. É que no espaço de 12 anos foram crismados na nossa Paróquia cerca de 900 jovens e adultos. Logo... só não é crismado quem não quer porque a todos se dá oportunidade de formação para tal.

O último trabalho escrito pedido aos que se crismaram foi uma Carta ao Arcebispo. Tivemos ocasião de colocar nas mãos dele um volume encadernado com as cartas dos crismandos, a ele dirigidas.

Faz parte da Visita a «vigilância» sobre os arquivos da Paróquia, que conservam a «Memória». Pôde ele observar os livros de Assentos de Baptismos, Casamentos e Funerais, as Actas do Conselho Económico, do Conselho Pastoral e do Secretariado Permanente, bem como a evolução em números dos participantes na missa dominical, bem como da situação económico-financeira da Paróquia e da sua evolução nos últimos anos. O boletim Paroquial encadernado por anos, bem como os Programas Pastorais publicados ano a ano deram nota de objectividade ao que vai acontecendo em Barcelos.

Confesso que tive a intenção de aproveitar a ocasião para fazer o meu próprio exame de consciência sobre o «estado» da Paróquia. E nos encontros com os colaboradores mais directos referi-o várias vezes, de modo a que fique registado tal «estado» em 2017, como referência a comparar na próxima Visita Pastoral. Dir-me-ão que a Paróquia não é uma empresa e que dispensaria tal rigor. Não concordo. Porque não sendo uma empresa - refiro-o várias vezes - no seu funcionamento e na sua relação com o mundo a quem procura servir, deve fazê-lo com os meios humanos mais adequados. Se a improvisação pode indiciar confiança no Espírito, não deixa de indiciar também desleixo. Ora uma boa organização, livre e libertadora não condicionando a acção do Espírito Santo, também é necessária para a melhor e mais eficaz utilização dos meios de que dispomos para o anúncio feliz e libertador de Jesus, razão de ser da Paróquia.

11 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXIII

Tinha prometido retomar o assunto. E faço-o depois de encerrarmos o mês de Maria com uma procissão de velas, que nos trouxe à memória o que aconteceu há dois anos quando tivemos em Barcelos a Visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, em preparação do Centenário das Aparições que, agora, estamos a viver. Nessa altura, dei-me conta da «alma crente e mariana» do povo de Barcelos, que despertava de uma letargia fria e incómoda. As cinquenta mil pessoas dessa altura, naquela noite memorável de 12 de Junho, foi um «aviso» para nós, agentes de pastoral, não só para «despertarmos» nós para a tal realidade adormecida, como também para o cuidado a pôr em aproveitar o que existe para fazer avançar a Luz num meio cada vez mais laicista e hostil à vivência da fé. A religiosidade popular deve ser o ponto de partida, mas nunca o ponto de chegada. Este terá de visar sempre o encontro pessoal com Jesus Cristo e a sua mensagem, de modo a que os cristãos se sintam gente livre e feliz consigo próprios e interventivos na sociedade, como fermento na massa. Voltando ao «abanão» que o Papa Francisco nos deu em Fátima, não podemos ignorar o que já tinha acontecido com a primeira vinda do papa João Paulo II quando, em 1982, se referiu à religiosidade do povo português e desafiou os bispos e padres a trabalharem de modo diferente para uma evangelização eficaz. Disse ele: «Quanto mais observo a fé do vosso povo, sobretudo da gente simples, mais a admiro pelas raízes ancestrais que ela lança na alma dessa gente. Pela sua espontaneidade e singeleza, pelos gestos concretos que suscita e pelas atitudes que provoca nas relações com Deus e o seu Filho Jesus, com o sofrimento e com a própria morte, com as outras pessoas e com os acontecimentos, com o mundo presente e com o futuro. Por outro lado, vejo essa fé exposta ao perigo e até, como escreveu Paulo VI na Evangelii Nuntiandi, assediada por muitas forças corrosivas, ameaçada na sua integridade e até na sobrevivência; isso porque, em virtude de circunstâncias históricas, que não podemos analisar aqui, essa fé não é sempre tão sólida quanto espontânea, nem tão profunda quanto sincera. O vosso primeiro compromisso perante esta fé do vosso povo, é o de reconhecê-la e apreciá-la; de respeitar as suas manifestações autênticas; de defendê-la contra os fermentos que a põem em risco; de reforçá-la, libertando-a de eventuais elementos de crendice e superstição e dando-lhe mais conteúdo doutrinal. Numa palavra, é o compromisso de educa-la à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja, de nutri-la com uma verdadeira catequese. Reconhecendo os esforços que tendes feito e estais a incrementar, exorto-vos a prosseguir na caminhada, sobretudo no que se refere a iniciativas relacionadas com a formação cristã dos jovens e dos adultos». E João Paulo II, que se dirigia aos bispos de então, acrescentou: «Com o esforço que tendes feito e continuareis a fazer, como mestres da fé, para torná-la nos vossos fiéis mais consciente e menos condicionada, mais arraigada e menos superficial, mais compromissiva e menos individualista, mais operante e menos intimista, estais a actuar não só em benefício deles, mas também em benefício da sociedade».

Recuámos no tempo, ao ano 1982, reconhecendo que, bem informado pelos relatórios dos bispos, o Papa interpretou com mestria a situação de então e alertou para a única via a seguir: respeito pela religiosidade do povo não é deixá-la «ao deus dará», mas intervir para a fundamentar na palavra de Deus e torná-la eficaz na vida pessoal e social.

Urge que nós, cristãos responsáveis de hoje, nos interroguemos sobre a situação actual dos católicos na sociedade: estaremos melhor ou pior que há 35 anos atrás? Os que dirão sim, que estamos melhores, terão certamente em conta tantas comunidades vivas, paróquias organizadas com a colaboração de muitos leigos. Elas existem, é verdade. Os que dirão que estamos piores, certamente terão em conta a debandada de tanta gente que outrora enchia as igrejas e que hoje se passaram para o mundo das seitas ou cultos esotéricos - que vendem uma felicidade barata e sem compromisso pessoal - ou que procuram encher os vazios da vida com actividades sempre mais barulhentas, tentando não reconhecer o coração vazio.

Que direi eu, perguntar-me-ão? E eu respondo: a Igreja está hoje melhor que ontem. Fez-se muito e bom trabalho para iluminar com a Palavra de Deus a prática religiosa tradicional. Foi o suficiente? Não. Penso que deveríamos ter feito muito mais. E esta deficiência, opino eu, explica porque é que a debandada de tantos, mais acentuada nas dioceses do norte de Portugal do que nas do sul, aumentou mais ainda nas últimas décadas. «Adormecidos» não quisemos ter a ousadia de «ler» os sinais e os acontecimentos passados pela Europa fora, que nos alertavam para o que viria a acontecer em Portugal. E ainda continuamos hoje muito adormecidos, repetindo «receitas» que já nada dizem aos nossos contemporâneos. Quando acordaremos?

4 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXII

A propósito do Dia das Comunicações Sociais, que hoje celebramos, lembro a primeira missão que assumi, recém ordenado sacerdote, a de redactor do Diário do Minho, o jornal da nossa Arquidiocese, sempre presente a relatar os acontecimentos, cívicos, eclesiais e desportivos da nossa cidade de Barcelos. Da formação que então recebi, lembro o código deontológico dos jornalistas, que recomendava evitar juízos de valor, separando o acontecimento relatado e deixando aos leitores o juízo sobre os mesmos, reconhecendo-lhes inteligência e sabedoria capaz, respeitando-lhes um estatuto de adulto, sempre conveniente nas democracias ocidentais. Factos são factos, independentemente das «leituras» ou interpretações dos mesmos, sempre plurais.

A mensagem do Papa para este dia convida a destacar as notícias positivas, as notícias belas, sinal claro da atenção do Papa a um mundo mediático que, portentoso como é, corre o risco de nos fazer mergulhar numa crise de esperança, num cemitério de morte e de desgraça, a contradizer com o mundo bom e belo que saiu das mãos de Deus.

Se olharmos à nossa volta, não faltam profetas da desgraça a construir mundos de pântano, de terra queimada, de condenados ao fatalismo de um total sem remédio, de um juízo negativo e demolidor de pessoas e de instituições. Dos males de que padece Barcelos, um deles é a falta de um jornalismo (refiro-me à imprensa escrita) com ética, isento, imparcial, que separe o que é notícia daquilo que é comentário interpretativo. E que deixe ao leitor o «trabalho» de concluir.

Numa altura em que o Papa apela às notícias boas, Júlio Isidro, conhecido comunicador televisivo, convida a acreditar na inteligência do público e o bispo Pio Alves a «vencer a pressão reinante das más notícias», perguntamo-nos a quem aproveita tanto negativismo, reincidente e mal fundamentado?

Nas diversas mensagens papais tem-se apelado à formação do público leitor para saber «digerir» com inteligência aquilo que os media transmitem. Quem não tem experimentado que com meias verdades se fazem grandes mentiras? Não escondo que me refiro, entre outros, a um escrito recente de Paulo Vila em que, fundamentado em notícias publicadas - não têm por que serem ocultadas - deixa concluir, pelo menos ao leitor apressado que se fica pelos títulos, que a Paróquia de Barcelos sobrevive com os subsídios camarários. Ora nada mais falso. Quem passar além do título concluirá que todos os subsídios foram transparentes, fundamentados e votados por unanimidade pelas forças políticas que compõem o Executivo. Bastaria isto para dar razão àqueles que me aconselham a não dar importância ao assunto, até pelo parco impacte que a mesma notícia terá causado, a julgar pela posterior «ajuda» de Luís Manuel Cunha, no mesmo JB. Claro que não é de estranhar as leituras tendenciosas, bem situadas num tempo de um relativismo tal que o «pós-verdade» se impõe acriticamente como a verdade do momento. Há ideologias que, sem respeito pelo passado, querem impor-se como únicas, escondendo a força destruidora que carregam em si. Temos todos de aprender a ler os contrastes do nosso tempo, com inteligência e firmeza, reivindicando o mesmo direito à palavra publicada.

Sendo a Igreja Matriz de Barcelos classificada como Património do Estado, a este pertence cuidar da sua manutenção. Se a Paróquia, usufrutuária do edifício, não estivesse atenta e não a cuidasse, em pouco tempo ruiria. Porque o Estado há muito vai atrasando as intervenções, desde há anos, tem havido o diálogo necessário entre a Paróquia, o Município e a Direcção Regional da Cultura. E, nesta colaboração responsável se tem conseguido, pouco a pouco, fazer face à degradação de um edifício secular, o mais importante da cidade a justificar o turismo, que todos têm interesse em preservar e até desenvolver. E como poderá sobreviver o turismo sem se cuidar do património? A título de exemplo, aquando da última intervenção do Estado na cobertura da Igreja Matriz, aproveitando-se os andaimes montados, a Paróquia assumiu, em partes iguais com o Município, a despesa (60.000 euros) com toda a limpeza das paredes exteriores. Só desta vez foram 30.000 euros das esmolas dos cristãos de Barcelos... a acrescentar a muitas outras, ultrapassando os tais 165.500 de subsídios, que, só por si, a Paróquia assumiu para que a Igreja Matriz se mantenha hoje de pé, com dignidade para acolher a todos, crentes e não crentes.

Vivemos num tempo e num espaço, a nossa Europa, como um barco à deriva, sem saber para onde dirigir-se. O laicismo agressivo de há décadas impõe-se cada vez mais. E nem o fundamentalismo islâmico a faz acordar para os valores que estão nas suas raízes. E é pena. Também entre nós muitos não conseguem situar o fenómeno religioso inserindo-o no fenómeno humano. Julgam-no uma excrescência. Que pena! Afinal os fundamentalismos estão precisamente aí. Uma liberdade autêntica conduz ao diálogo sereno. Nunca à imposição de uma «leitura» por mais fundamentada que aparente ser.

         28 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXI

Todo o acontecimento Fátima, no centenário das aparições, com a presença do Papa e a canonização de Jacinta e Francisco, assumindo, pelos media, uma escala planetária, trouxe alegria e orgulho aos portugueses, desde o mais simples, fiel ou ateu, até à classe política e Governo. Não faltaram emoções nem lágrimas. Também a mim.

Confesso que fiquei muito confortado: pela atitude do papa, humilde e sábio, de pé diante da imagem de Nossa Senhora, Mãe da Humanidade («temos Mãe»), pela clareza das suas mensagens e pelo desafio, terno mas firme, que nos deixou. E destaco estas palavras que, na sua simplicidade, tocam a todos e se tornam um autêntico compêndio de teologia e um programa de acção pastoral: Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma ‘Mestra de vida espiritual’, a primeira que seguiu Cristo pelo caminho ‘estreito’ da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora ‘inatingível’ e, consequentemente, inimitável? A ‘Bendita por ter acreditado’, sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma ‘Santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço?

Quando ouvi estas palavras senti uma alegria enorme. Porquê? Porque, dias antes, na bênção de um grupo de peregrinos a pé, exortei a todos dizendo que era mais fácil chegar a Fátima a pé do que trazer Fátima para a vida de todos os dias, a iluminar pelo Evangelho. Se tanta generosidade - ir a Fátima a pé custa mesmo - não transforma a vida por dentro tornando-nos mais santos ou imitadores de Maria na sua firmeza de fé junto à cruz de seu Filho, então que rasto deixa? Só nos pés magoados ou no coração orgulhoso pelas boas condições físicas?

Não é fácil chegar ao coração das pessoas sem as magoar e conseguir despertá-las para atitudes mais dignas como cristãos, discípulos de Jesus e devotos de Maria. Lembro a ousadia, depois de «passos» curtos, em catequese de adultos, para poder dizer: sou devoto de Nossa Senhora, rezo-Lhe todos os dias, até vou a Fátima a pé, mas... CREIO em Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. E expliquei a regra da fé que me diz que, no crer em Jesus Cristo, está «que nasceu da Virgem Maria». Pois Maria é modelo de fé, não objecto de fé. É humana e não divina, no sentido de que percorreu os caminhos humanos ao encontro de Deus.

Dos vários comentários que, seguramente vão surgir durante muito tempo, um deles, o do bispo de Beja, apreciei: «Hoje a Virgem Maria ou está no trono dourado da Teologia ou no andor da religiosidade natural que dá voltas e mais voltas», alerta D. João Marcos.

E lembrei a vinda do Cardeal Lustiger, arcebispo de Paris, quando, nos anos noventa, presidiu a uma peregrinação em Fátima. Ele rezava a Nossa Senhora nestes termos (fui eu que lhe traduzi a homilia): Maria ensina-nos a viver da fé, ajuda-nos a manter firme o dom da fé neste mundo conturbado. Em conversa com ele, disse-me um dia que, ao contrário dos franceses, em que bispos e padres se insurgiram, na década de quarenta, contra a religiosidade popular para darem à prática religiosa uma dimensão mais reflexiva, o que redundou num cristianismo mais seco e frio, vós portugueses conservais o calor da fé e a vossa prática religiosa ainda vai enchendo as nossas igrejas vazias...

Sabemos como a Igreja sempre optou por respeito total pela religiosidade popular, pedindo que se actue a partir dela para a purificar e dar dimensão evangélica, capaz de se tornar testemunho. Mas, que vemos nós hoje? Tantas atitudes ou práticas indignas de filhos de Deus que apenas revelam que estamos longe do Deus Pai de Misericórdia que Jesus revelou. A tais práticas, apenas repetitivas e ditas tradicionais, falta-lhes conteúdo e compromisso pessoal e comunitário. Como aquelas que reduzem a imagem de Nossa Senhora a um mostruário das vaidades e do volume de carteira de algumas autointituladas comissões de festas que, dizem, são devotas de Nossa Senhora. Há dias, alguém mais atento e chocado com crendices supersticiosas, misturadas com atitudes ditas religiosas, perguntava-me: que fazeis vós, padres, diante de tal ridículo? Claro que lhe falei das dificuldades e tentativas frustradas. E de uma catequese de adultos que, semanalmente, se foi tornando um espaço aberto à reflexão sobre o que é a fé, autêntica e libertadora, como Jesus a proclamou. E pedi-lhe: escreva, denuncie, que isso nos ajuda na purificação de excessos.

De facto, a passagem do Papa Francisco, em tão pouco tempo, foi suficiente para nos deixar profundamente inquietos sobre a acção pastoral que as nossas paróquias desenvolvem. Ficar quieto e calado é pecado que brada aos céus.

Claro que terei de voltar ao assunto.

 21 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXX

Três acontecimentos me sugerem o comentário de hoje:

1. As festas das cruzes terminaram e, com elas, foi-se o encontro humano, festivo e belo que elas proporcionaram. Foi-se também o barulho e veio a rotina diária que muitos já desejavam. Parece que vem por aí mais barulho, a pôr à prova a saúde pública e o direito ao descanso.

No coração das festas, esteve a Procissão das Cruzes, comentadas ao perto e ao longe, com destaque para os aspectos positivos, apesar de alguns negativos. Ouvi uns e outros e, como primeiro responsável pela Procissão, apreciada também por muitos outros que, em directo, a «gostaram» pela net. Dos negativos fica o registo para no ano próximo podermos corrigir. Dos positivos, fica-me a alegria de saber que muita gente já começa a ver com «outros olhos» este acto religioso e cívico que, realizado com «verdade», a todos nos honra como barcelenses. De facto, a todos tenho pedido uma apresentação digna a quem vai na procissão e a atitude de respeito a quem aprecia, de modo a que tal acto se revista da verdade que pretende dizer: a cultura de um povo, a sua religiosidade, o respeito pelo seu passado e o compromisso de empenho na harmonia social. Sei que nem todos os «olhares» seguem nesta linha. Numa sociedade plural, não há direito pequeno ou grande: todos devemos respeitar as diferenças e trabalhar pela inovação consensual. Quando as imagens seguiam em directo para todo o mundo, gerando união de todos os que, de algum modo, estão apegados à nossa terra, prestava-se um serviço: a saudade humaniza.

2. Um grupo de peregrinos de Barcelos foi a Fátima a pé. São já conhecidos e repetem-no todos os anos. Uma vez mais pediram a bênção do peregrino. Fizeram-no ao terminar a Missa no Senhor da Cruz. Tem sentido este momento, importante para eles e também para os que ficam. Insisti, desta vez com mais ênfase, na necessidade de pensarem a sua devoção a Nossa Senhora, expressa com um acto tão heróico e admirável. É que é mais fácil ir a Fátima a pé do que «fatimar» a vida, isto é «trazer Fátima» para a vida quotidiana.

3. E Fátima impôs-se ao mundo. E a Igreja, depois de muitas hesitações, acabou por compreender e aceitar que a santidade heróica também pode estar na inocência das crianças. E se isto não merece grande discussão, não se passa o mesmo com o fenómeno «Fátima» em si mesmo. Objecto das maiores discussões e debates, uns pró e outros contra, afinal, em que ficamos? Exactamente como estávamos: discutindo, como acontece há cem anos e continuará a acontecer. E parece mesmo que o povo de Deus se está «marimbando » para tais discussões: continuará com muita «fé» em Nossa Senhora.

Sobre tudo isto, e com clareza, direi que não espero muito das discussões acirradas dos últimos dias em que muitos articulistas quiseram, também eles, pronunciar-se. Certamente com toda a legitimidade. Mas falar com propriedade e sem animosidade do fenómeno religioso nunca foi fácil. Alguns ditos ateus primam pela honestidade, apresentando as suas ideias num respeito total e às vezes até com admiração por aqueles que acreditam. Outros não conseguem situar-se diante do mistério humano que a atitude religiosa revela: só condenam, manifestando uma ignorância confrangedora, apesar de um raciocínio que procura ser incontestável. Sentem-se tão iluminados que se julgam possuir a «última» verdade.

Quanto a mim, prefiro situar-me com espírito aberto mas crente. Sim, o meu crer não pode dispensar a minha razão. Mais ainda, o meu crer é iluminado por uma Palavra que me transcende. E daqui a minha insistência permanente em dotarmos a nossa prática religiosa tradicional de um olhar mais crítico, para evitarmos fundamentalismos que dão uma péssima imagem, nos nossos tempos, deste dom tão excelente que se chama fé. Sem a iluminação da Palavra de Deus facilmente surgem as mais aberrantes confusões entre o que é religioso e o que é supersticioso.

É certo que as «caricaturas» religiosas, que tantos comentaristas gostam de explorar são reais. E aceitar críticas impele a mudanças. E que a nossa prática religiosa precisa de evoluir já o Papa João Paulo II o denunciou na primeira visita, em 1982. Desde então para cá, que evolução houve nos cristãos portugueses? Não será verdade que, apesar de tanta informação e do acesso geral à cultura - também no campo da cultura religiosa - parece haver cada vez mais ignorância religiosa? Cada vez mais práticas supersticiosas? Entre crentes e não crentes?

Há comentários, artigos escritos e debates que temos todos, nós cristãos, de tomar bem a sério. Porque há comportamentos que são indignos de pessoas «atravessadas» pelo Evangelho libertador de Jesus.

 14 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXIX

Éramos 53. Um grupo demasiado numeroso. A Rota Mariana, situada nos Pirinéus, lá entre a Espanha e a França, chamava por nós. Desde há anos que, numa atitude inteligente e oportuna, cinco santuários marianos se uniram de modo a propor um itinerário de peregrinação centrado na figura de Maria. Após uma longa viagem de cerca de mil quilómetros, lá chegámos a Torreciudad, um santuário recente e imponente, que vem dos anos setenta do século passado. Construído pelo Opus Dei, ostenta uma marca especial do fundador que, concretizando os seus belos pensamentos exarados no seu livro Caminho, quis construir algo belo e rico porque «Deus merece o melhor».

Admirámos a organização, a beleza e limpeza dos espaços, o ambiente acolhedor do Santuário, o serviço de confissões, o acolhimento aos peregrinos. E rezámos numa capela cujo conforto e carácter intimista aliviou o nosso evidente cansaço físico de uma noite de viagem.

Atravessados os Pirinéus, lá chegámos a França, um pouco sem palavras diante de tamanha beleza - o belo horrível da travessia das montanhas, onde o sol brilhava tornando mais luzidia a brancura da neve - e reconhecida preservação ecológica da natureza. E, assim, chegámos a Lourdes onde a oração se respira e a fraternidade se sente. A Missa Internacional na Basílica de Pio X - que pena me dá quando os organizadores de «excursões a Lourdes» levam os excursionistas a ver grutas e os privam de participar de uma missa de rara beleza, em que gestos, palavras e músicas não deixam ninguém indiferente. Atravessando de novo as montanhas, lá chegámos a Andorra. Também ali a Senhora de Meritxell, padroeira dos andorranos, que nutrem uma devoção filial de séculos à Mãe de Deus, permanecendo como força aglutinadora de todo o povo, como o demonstra a festa de 8 de Setembro, ao congregar todo o país com as suas instituições, nos acolhia para uma visita guiada pelo P. Albano Fraga, bem conhecido das gentes de Barcelos e que agora, nas suas andanças de missionário dos portugueses da diáspora, ali os tenta congregar e lembrar o sólio pátrio como o húmus de um conjunto de valores, que a Igreja local não quer perder.

De seguida, os Virolai e a Santa Cueva, em Monserrate, situada perto de Barcelona, continuava, para nós, o convite a subir: das montanhas que nos desafiam até ao Criador das mesmas, pela sacralidade daquele lugar. Claro que, desta vez, um desvio da Rota levava-nos até Barcelona. A Sagrada Família não nos passaria ao lado: o seu esplendor admirável e a muita luz que do alto atravessa aquela Basílica, idealizada por um génio na arquitectura e na fé, António Gaudi, deixou em todos nós o desejo de voltar quando a mesma estiver terminada, lá para 2016, como se crê, no ano centenário da morte (10 de Junho) de António Gaudi. Subimos ao Tibidabo. O esforço, talvez demasiado para alguns, valeu a pena. A história daquele Santuário, onde o Santíssimo Sacramento está exposto à adoração dos fiéis dia e noite, 365 dias por ano, reporta-se aos anos da revolução industrial e do crescimento da cidade de Barcelona, impondo-se ao ateísmo da altura a força da fé de um santo, S. João Bosco. O seu nome traz-nos à memória a vaidade ilusória do demónio, segundo os relatos evangélicos, que daria a Jesus todos os reinos da terra se Ele se prostrasse de joelhos diante dele. E a verdade é que o Tibidabo sobranceiro a Barcelona se impõe mesmo ainda hoje sobre todas as fanfarronices diabólicas dos nossos tempos quando, naquela capela de adoração, os peregrinos, cansados da subida, «descansam» a alma no «consultório psiquiátrico», como lhe chamou o P. António, que nos acolheu e nos fez «descansar» também na contemplação do mistério eucarístico. Como é possível que, diante de um laicismo cada vez mais aguerrido, que tenta irradiar Deus da vida social, estas «Presenças» de Deus se mantenham com milhares de «vigilantes», os adoradores do verdadeiro Deus no mistério eucarístico, ali em Barcelona como no Sacré Coeur em Paris?

Claro que chegámos ainda a El Pilar em Zaragoza para admirarmos a «pilarica », tão arreigada nos corações dos aragoneses.

No regresso tivemos ainda tempo para apreciar a rica história de Burgos na magnífica Catedral.

Peregrinar também é cultura. E que restará desta se lhe retirarmos o património religioso? Nunca faltaram olhares mesquinhos, incapazes de perceber a história no que ela exibe de mistério do coração humano. Mas, damos graças a Deus por tanta gente heróica que resiste e não deixa cair os braços diante dos censores do nosso tempo, que compreendem a liberdade apenas para si próprios.

7 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXVIII

A Visita Pascal, como tradição religiosa de impacto social, tem resistido à propalada crise que envolve as manifestações religiosas. E, onde não existe, não faltam sinais de a recuperar ou de a instituir. De facto, desde que a mesma passou a ser presidida por leigos - dada a impossibilidade dos párocos, pelo menos quando se exige, na maioria dos casos, tempo e forças físicas capazes - a mesma ganhou em sentido, em participação e em envolvência da comunidade. Tratando-se de divulgar uma boa notícia, a de que Cristo venceu a morte, ninguém melhor que crianças e jovens, rapazes e raparigas para o fazerem. Sem que tal ponha em causa a presença do pároco, que mandata a equipa. Afinal, não é o Baptismo que gera para a missão do testemunho cristão? E não foram as mulheres as primeiras a ser convidadas a levar a notícia da ressurreição do Senhor? Felizmente que, na grande maioria das paróquias deste Minho religioso, ninguém já exige que seja o pároco, às vezes já velhinho e doente, a presidir ao Compasso. Com várias equipas organizadas até sob a responsabilidade de leigos, como é o nosso caso, o Compasso sai para a rua durante toda a tarde de domingo: o tom de festa é evidente, quer na apresentação colorida dos que o compõem, quer nos cânticos festivos com que se entra em todas as casas que se lhes abram, quer nos «verdes» e flores com que se assinalam as entradas das casas que desejam a Visita Pascal.

Neste ano não houve excepção. A excepção, a ter existido, foi que tudo correu ainda melhor, com mais entusiasmo e mais participação nas equipas, onde predominava a juventude. E quando assim é, não se pode temer pelo futuro.

Aliás, foi essa a nota destacada, precisamente na visita ao Município. Aquela sala nobre, onde habitualmente se discutem as políticas para o bem de todos, estava cheia de gente. E, nesta, crianças e jovens, com uma maneira de estar muito própria a celebrar um acontecimento único, transmitiram a todos uma nota de alegria e de paz muito sinceras, que não passou despercebida.

Os nossos discursos quanto ao futuro aparecem marcados pelo desânimo e pelo negativo. E não faltam razões objectivas para temermos o futuro. Mas se isto é verdade, não menos verdade é que há sinais de uma nova geração aberta a outros valores, que não apenas o do consumismo materialista, que caracteriza a sociedade contemporânea e lhe «mata a alma». E entre estas duas visões contrastantes, o cristão e a Igreja não podem senão privilegiar o optimismo no olhar o futuro. E porquê? Basta ler a história para se perceber como a força do Ressuscitado se impôs mesmo nas cinzas de tantos momentos cruciais na história da Humanidade. De facto, o Cristo da Cruz gerou o desaire total naqueles que O seguiram e aprenderam d’Ele. Mas o Cristo da Cruz venceu a morte e, a partir d’Ele, não mais as razões da morte se podem tornar definitivas. E a história do Cristianismo está aí para o comprovar. Ora é precisamente essa força de Vida sobre a Morte que o Compasso Pascal anuncia.

Foi gratificante ver como aqueles que compõem as equipas reconhecem que se trata de um esforço gratificante. A ponto de dizerem «para o ano conte comigo». E até de já «meterem uma cunha» para que o amigo, que até pode não estar na catequese, possa ir também no próximo ano. Como também foi bom encontrar jovens um pouco alheados da vida paroquial a perguntarem como é que se pode entrar nas equipas. O que me leva a esperar que, no próximo ano, sejam as equipas ainda mais jovens, mais alegres e mais desejadas nas famílias de Barcelos.

De destacar que começam a surgir, em todas as equipas, elementos capazes de animar com cânticos pascais, entrando em todas as casas a cantar. Que bom! Como também já surgem famílias que recebem o Compasso em festa, até com instrumentos musicais. E onde não falta a Bíblia em lugar de destaque e o «leitor» da casa preparado para ler o texto indicado.

O bom acolhimento das equipas do Compasso foi a nota repetida, no momento de balanço já costumado. Como pároco, a todos, equipas e famílias, eu agradeço.

Por último, diante de um doente internado no nosso hospital, foi bom ouvir, eu e os que me acompanhavam, com destaque para o sr. Presidente do Conselho de Administração, que «este dia de Páscoa foi diferente para mim. E estou a vivê-lo ‘por dentro’. O estar aqui neste dia para mim é um presente de Deus. Como andava ‘afastado’, estes dias têm-me feito pensar. Deus tocou-me...». Diante disto, apenas fiz silêncio e louvei o Ressuscitado.

30 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXVII

É sempre belo, profundo e sério o tempo da Quaresma. Mas também muito intenso: porque exige conversão dá trabalho e nem todos o desejam ou aproveitam. Como tempo «diferente», ele serve para «abanar as consciências», despertar os adormecidos na vida, urgindo para o hoje o que «tem sempre tempo...».

Não faltaram eventos sociais de cariz religioso a dar um carácter sacro ao tempo. Nem faltaram as procissões e vias sacras pelas ruas. De facto, a nossa história deixou marcas profundas que, numa sociedade que se ufana de um laicismo tomado como progresso, não desaparecem nem por decreto, nem pela desafeição do religioso que leva muitos a afastarem-se das igrejas.

Não faltaram também eventos religiosos que ultrapassaram de longe a repetição de tradições e costumes. São muitas, graças a Deus, as paróquias que prestam um serviço de qualidade e que congregam muitos jovens e adultos empenhados na vivência de uma fé autêntica. É verdade que não ocupam as primeiras páginas dos jornais, se é que ocupam alguma, mesmo no interior. Mas não deixam de ser reais, mesmo que não despertem o interesse dos media. Devemos evitar as conclusões apressadas quando, não constando em certa comunicação social, pensamos que não existem. Nada de preconceitos: é preciso justificar com um ver mais abrangente, até porque há hoje um acesso às notícias facilitado pela existência de diversos meios ao alcance de todos. A net parece não «filtrar», pelo que é preciso coragem e trabalho para um discernimento sério.

Entre nós, Paróquia de Barcelos, a Quaresma ficou marcada por uma caminhada seguida por 60/70 pessoas que, às quintas-feiras na Igreja Matriz, meditava os textos dominicais, apreendia o seu sentido e saboreava o ideal para onde Jesus continua a atrair.

Era por isso expectável que a Semana Santa tivesse sabor diferente, cheirando a autenticidade. Foi notório que a qualidade celebrativa foi outra e também o número de participantes aumentou, sobretudo no Tríduo Pascal, os dias que qualquer católico considera como únicos e não se pode dispensar de participar.

A coroar o Tríduo Pascal, a Vigília, que durou mais de duas horas, e incluiu o baptizado de duas meninas, gémeas de 10 anos, fez acordar para o verdadeiro sentido da Páscoa que, infelizmente muitos não quiseram ainda entender. Cerimónia única, bela e participada por todos, a Vigília Pascal é ocasião única para se entender o que Deus quer, ainda hoje, para a Humanidade que somos. Os textos litúrgicos ajudam-nos a ver o sentido da História, que se repete mas num crescendo de novidade, de que muitos já se vão apercebendo.

No hoje da vida dos cristãos, a missa dominical nunca poderá ser dispensada. Sim, a verdadeira, que nos permite o encontro alegre e festivo uns com os outros na mesma sintonia de louvor. Dispensam-se, isso sim, aquelas celebrações ditas chatas, não preparadas mas apenas para «cumprir preceito». Mas já repararam que estas, se existem ainda, é porque não as queremos mudar? Todos e não só o padre. Pois se há missas a mais, elas perderão em qualidade pelo desinteresse em dar-lhes qualidade e beleza. Se nestas investirmos, todos, elas deixarão de ser «chatas» para serem desejadas. Quando se entra na igreja já enfadado, que se pode esperar? Quem dera que os cristãos se deixassem despertar para o valor da missa dominical e, empenhando-se, se tornassem comunidades vivas! Até porque os cultos evangélicos da moda privilegiam o espectáculo em vez do silêncio contemplativo. Mas, em si mesma, a missa como ritual de culto católico, com imensas possibilidades de se lhe dar vida, é a cerimónia mais bela que se conhece e com força capaz de criar um sentimento feliz num louvor festivo àquele que deu a vida por nós.

O que se diz da missa dominical diz-se também do Baptismo. Uma grande ignorância «matou» a beleza de uma celebração e pôs em perigo a sua riqueza teológica. Mas quando se pensa bem na transformação que se opera num baptizando, sobretudo quando o próprio entende, como foi o caso, eis que tudo é diferente. Não será já tempo de acabarmos com os baptizados apressados já que, não preparados, se ficam pela dimensão mágica, se não supersticiosa? Qe sentido tem fazer entrar uma criança num corpo sem vida porque quem o pede não vive entusiasmo nem reconhece vida em tal corpo? A criança merece respeito. E pode e deve ser ocasião propícia para que os pais se reencontrem na fé, que querem para o seu filho.

23 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXVI

Vem aí a Festa das Cruzes. Ano após ano a cidade veste-se de festa para receber milhares de visitantes. É o espaço privilegiado do encontro entre pessoas e famílias que, de perto e de longe, vêm ao Senhor da Cruz de Barcelos.

Muita gente trabalhou para construir um programa de festas e muita trabalhará para o executar, seja na preparação, no acompanhamento e também no «desfazer» de estruturas provisórias para dar lugar ao comum de cada dia. Seres humanos que somos, não podemos viver sem festa. Ela é a necessária expressão de alegria e de esperança, que se sobrepõem às agruras do quotidiano, e de anseio de «libertação» daquilo que nos oprime. É também tempo de excepção (e até de excesso tolerado), pois sabe bem sair da rotina do quotidiano e «entrar» no misterioso do desconhecido, do inédito, do excesso. Dizem-me que alguns barcelenses aproveitam a ocasião para umas férias, ausentando-se da cidade. Terão certamente as suas razões respeitáveis, como o excesso de ruído, que alguns têm dificuldade em suportar. No entanto, ainda prefiro que permaneçam, pois se há quem nos visite, pertence-nos a nós cuidar de acolher quem vem. Porque a festa deve ser sempre encontro de pessoas e não fuga umas das outras. Sendo assim, bem gostaria de deixar algumas notas sobre o bom acolhimento a quem nos visita. Uma atitude de civismo, de bom tom que a todos enobrece e que, por isso mesmo, não pode ser deixada ao cuidado exclusivo seja das autoridades municipais, das equipas que organizam a festa, das autoridades policiais ou dos responsáveis pelo movimento associativo.

Receber bem diz dignidade no trato, sorriso franco e aberto, sem desconfianças, afabilidade perante os estranhos visitantes, orgulho sincero de pertença a Barcelos e da nossa história de muitos séculos, marcada pela centralidade do templo do Senhor da Cruz, situado na «sala de visitas» da cidade, e da Igreja Matriz, os dois monumentos que mais «chamam» as pessoas a visitar Barcelos. Receber bem é também dignificar os espaços de acolhimento, preservar de ruídos exagerados os espaços de culto visitados, que o deveriam ser durante todo o ano, pois que constituíram durante séculos os lugares privilegiados do encontro com Deus e uns com os outros. De facto, os espaços de culto centenários tornam-se testemunhas credíveis de um tempo efémero para todos: muitos os apreciaram mas já morreram e eles continuam de pé. Merecem, por isso, que todos os cuidemos como património carregado de história a lembrar-nos que os que nos precederam construíram para nós. Num tempo em que se concentram indústrias ruidosas fora dos aglomerados populacionais nada justifica trazer para o centro da cidade actividades ruidosas, a complicar outras actividades, o descanso das pessoas, o turismo e a prática religiosa.

Da minha parte, quando presido a uma Comissão que prepara a Procissão das Cruzes, ou a Missa solene no templo, que memoriza um acontecimento relevante da cidade, em 20 de Dezembro de 1504, a todos peço o cuidado de bem prepararmos os actos religiosos, para que eles sejam «verdadeiros» e não apenas rituais repetitivos feitos «de qualquer maneira» porque «para quem é tudo serve». Não pode ser assim: cada pessoa que nos visita merece atenção e respeito. O que se vê na maneira como programamos e como levamos a efeito o programa. Este «recado» é para todos, a começar por mim. Quando convido a integrar a procissão, a todos peço uma digna apresentação, uma postura discreta (não espampanante ou espalhafatosa) durante a procissão. Como apelo também a quem a aprecia ao lado: que acolham a mensagem dos quadros apresentados, que se deixem «envolver» pelas cruzes representativas das 89 paróquias do arciprestado, que se revejam na «sua», o que implica a pertença e identificação com a comunidade paroquial. Destoa de um acto cívico/religioso como é a procissão das cruzes o atravessá-la sem necessidade urgente e o falar em tom elevado porque a procissão «provoca» o interior enquanto facilita o apreço de uma realidade social que nos pertence. Há dias, visitando duas cidades da Galiza, perguntava eu onde se encontravam os sanitários públicos, para que as pessoas em grupo possam satisfazer as suas necessidades. E fiquei «chocado» com a sua inexistência. «Só nos cafés », diziam-me. Não deixei de retorquir nos serviços de Turismo: «Se querem que os turistas venham... Criem o mínimo de condições». E pedi que o recado chegasse ao Ayuntamiento. Claro que pensei, de imediato na nossa cidade de Barcelos. É que grupos de pessoas, às vezes em dezenas de autocarros como tem acontecido, não podem «entupir» um café, só preparado para uso individual. Às vezes são pequenas coisas, nem sequer muito onerosas, que marcam a diferença. E como estamos em tempos de promoção turística, há aspectos que não nos podem passar ao lado.

16 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXV

As nossas ruas e praças tornaram-se palcos da paixão de Cristo. Por entre vilas e aldeias, não faltaram procissões, vias sacras, encenações. A maioria corresponde a tradições cujos primórdios se perdem nos tempos, mas não faltam também criações recentes. Pessoas há que, sabendo de cor as datas dos eventos - sempre na mesma altura do calendário litúrgico - a elas acorrem por devoção ou mesmo por obrigação que se impõem a si próprios. Bem ou mal? Porque haveríamos de perder tempo com tal discussão, quando se trata de decisões livres, profundamente humanas e até manifestadoras da riqueza e diversidade do espírito criativo, mesmo que se desvie, por vezes, da interpretação correcta do relato evangélico?

Quando leio o jornal de todos os dias, abundam tais notícias «religiosas» - não falo dos jornais de Barcelos - no meio de tantas outras de «desgraças» e de «graças», ao exprimirem a vida dos povos, «agitada quanto baste» para dar à luz eventos belos, carregados de força de união e tornando-se marcas de um povo que não desiste, mas continua a acreditar na força da ressurreição.

A julgar pelas multidões concentradas nas procissões de passos seremos tentados a dizer que a religião não está em crise. E eu concordo: não é a religião que está em crise, somos nós, profundamente religiosos, que estamos em crise. Porque nos contentamos com os ritos exteriores e passageiros, que não chegam de verdade ao coração para transformarem as nossas vidas. Sim, o que está em crise, no nosso tempo, é a capacidade de sermos, de facto, gente livre, libertada, que pensa pela própria cabeça e que até discute sobre Deus porque honestamente tenta penetrar no âmago do mistério da condição humana. Porque quando se pretende saber quem é o ser humano, inevitavelmente vamos chegar à questão: quem é Deus se existe?

O ritualismo religioso é comum a todos os povos. Não se pode viver sem ritos. Porque somos envolvidos pelo mistério. Mesmo os que dizem não crer em Deus, - no contexto da dificuldade comum a todos de dizer tanto a sua existência como a sua não existência, - criam os seus rituais, diários ou semanais, sacrificando-se a deuses que se inventaram para substituírem o verdadeiro Deus.

Será que estas manifestações religiosas, em si legítimas e sinceras, serão verdadeiras? Isto é, correspondem significado e significante? Se se trata de rituais cristãos, levam-nos eles ao encontro com a Pessoa de Cristo? Está aqui o sentido do que é «verdadeiro». Jesus é a Verdade. A minha relação com Ele deve ser o arranque da verdade da minha vida. Se assim não for, as manifestações religiosas evoluem no tempo resvalando até para o ridículo, necessitando de um processo de purificação, difícil e moroso porque se trata de «ir ao coração e converter-se». O que nunca foi fácil para ninguém.

Num processo claro e rápido de laicização da sociedade, a origem dos rituais fica mais longínqua do coração das pessoas. Fazemos os rituais sem sabermos porquê e para quê mas fazemo-los. Logo, eles vão perdendo força e significado, tolerados apenas porque se tornaram tradição e cultura e fica-nos bem respeitar o passado. Só que, os nossos antepassados no-los transmitiram carregados de vida. Hoje, porque se abandonou a prática religiosa, o seu berço natural, e nos convenceram que se pode viver sem Deus, julgando-o supérfluo, tais rituais tornam-se mentirosos porque não tocam na vida de cada um. Até quando durarão eles? Talvez enquanto não faltar o dinheiro que eles implicam.

Numa sociedade de consumo, os próprios rituais religiosos têm o seu enquadramento. Não é verdade que, sobretudo no nosso país, se está a acordar para o potencial que constitui o turismo religioso? E que os agentes turísticos o exploram, certamente por razões comerciais, não podemos estranhar, nem lhes pertence a eles intervir para a «verdade» dos rituais. Mas nós, os cristãos, sim: não só conhecer-lhes a origem e o porquê de se manterem e repetirem hoje, mas também e sobretudo para nos comprometermos com o próprio Jesus.

Não deixa de ser interpelador das nossas consciências o que se adivinha para esta Semana dita Maior ou Santa, particularmente no Tríduo Pascal. Se a fé cristã assenta na morte vencida de Alguém, que, ao ressuscitar, nos deixa garantida a nossa própria glorificação final e dado que os rituais pretendem trazer ao hoje o que aconteceu no passado, é de esperar que as igrejas se encham para «sentir» o acontecimento celebrado. E é verdade que hoje temos imensas celebrações cuidadas. Pois bem, apesar de reconhecer que ultimamente tem crescido a consciência da importância do Tríduo Pascal, que se manifesta no número crescente de participantes, é bem provável assistirmos a multidões na rua a ver as procissões da Semana Santa, mas alheios ao que verdadeiramente elas exprimem. Ficam-se na dimensão do espectáculo que, mesmo religioso, não arreda do lúdico porque a vontade não leva do observado com os olhos ao coração do Celebrado, Jesus. E, apesar de tudo, dou graças a Deus ao ver um grupo cada vez mais numeroso a investir na descoberta de Deus, que traz felicidade verdadeira ao coração humano.

9 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXIV

Ninguém ficou nem ninguém pôde ficar indiferente. Pelas piores razões, Barcelos foi notícia, que ocupou toda a última semana e que poderá vir a alimentar, por muito tempo ainda, debates e devassas, muito ao gosto de certa comunicação social.

Há um crime, ou vários, e apenas um criminoso. Um só?

Esta interrogação bem pode exprimir muitas outras que surgiram na avaliação dolorosa do acontecimento. Numa abordagem «outra», que procura ver para além das primeiras impressões, é natural chegarmos às «questões de sentido», sempre inevitáveis mas ignoradas pela cultura de morte e do sem sentido que caracteriza os nossos tempos. O porquê destes crimes conduz a uma outra questão, que ouvi a alguns crentes, a tal de sempre que carregamos, numa resposta que tarda e tardará sempre, porque envolve o mistério da própria existência. Esta, com Deus, diz-se assim: «onde estavas Tu naquela hora para permitires tal horror?». Sem Deus, nem se chega a pôr a questão. Ficamos sozinhos com a nossa revolta diante de uma existência sem sentido, caída no absurdo.

1. Bem cedo - contra todos os princípios da presunção de inocência e de cautela antes de um julgamento justo - nos habituamos a tratar como «monstro» o Adelino Briote. Tem nome. Tem dignidade, mesmo que não mereça que lha reconheçamos. O seu crime é hediondo. Não só se julgou «deus», senhor da vida dos outros. Matou quatro/cinco de facto, mas matou muitos milhares que sentiram o crime e o viveram, tentando conter a revolta interior e a tentação de vingança. O que seria dar continuidade da pior maneira à vingança que se diz que Briote exercera. De facto, a vingança gera vingança e a violência gera mais violência, numa espiral incontrolável. Nós, os cristãos, sabemos bem que trairíamos a nossa fé enveredando por tal caminho: só o amor que perdoa é capaz de reabilitar ofensor e ofendidos.

2. Nada pode justificar tal violência assassina, porque as perdas de vidas são irreparáveis. E com as vítimas encontramos muitas outras, familiares e amigos, para quem a dor vai persistir durante muito tempo com marcas profundas que não se apagarão facilmente da memória. Com eles, com a comunidade, paróquia e freguesia, estamos todos envolvidos, chorosos, solidários, talvez já em silêncio porque as palavras já se esgotaram. Oxalá não nos deixemos envolver em instintos primários de vingança; ao contrário, humildemente reconheceremos que todos falhamos quando um membro desta nossa Humanidade é capaz de alimentar um instinto de vingança, que nos leva, a ele e a nós como parte da Humanidade, ao nível da barbárie, do animalesco, da bestialidade. Somos humanos e, pela fé, dizemo-nos divinos. Ou seja, o nosso horizonte é de elevação, não de humilhação. Somos do céu, não da terra.

3. A compreensível revolta pode trair-nos: em vez de olharmos mais para as vítimas, gostaríamos de condenar o agressor. Até dizemos que mereceria a condenação de morrer do mesmo modo como morreram as suas vítimas. Jesus, quando fala do homem caído nas mãos dos salteadores, louva o samaritano que nem considerou o porquê da agressão, nem chamou a polícia para ir em busca dos malvados: apenas se debruçou sobre a vítima enquanto esta precisou do seu auxílio. No caso, as vítimas que morreram precisam apenas que as conservemos vivas nas nossas memórias. As que ficam, os familiares não dispensarão a nossa presença de ajuda e de simpatia (sofrer com eles).

4. Que o agressor mereça castigo, estaremos todos de acordo. Castigo que humilhe ou oprima? Ou castigo que reabilite num processo, certamente longo, de verdade sobre si próprio, capaz de ao menos tentar reparar o que parece irreparável? Será que ele o deseja? Como terá ele chegado ao ponto de gerar dúvidas sobre a sua Humanidade e até de se lhe chamar monstro? Sabemos que a Justiça fará o seu caminho e até nos contentamos que a prisão nos permita ficar descansados. Por quanto tempo? Não terão os próprios agentes da Justiça, ao mais diverso nível, desde os que fazem as leis aos que as aplicam, passando por tantos outros intervenientes «oficiais» com o dever de evitar que estas coisas aconteçam, de meterem as mãos na consciência?

5. Também eu não me posso pôr de fora, mas antes, devo «aproximar-me» do acontecimento e dos envolvidos. E aqui surgem algumas questões pertinentes, que não podemos evitar. O Adelino nasceu bom e belo, como qualquer um de nós. Quem o tornou criminoso? Em que ambiente cresceu? Que oportunidades teve? Que educação teve no berço? Que escola e que catequese teve? Que grupos frequentou? Que «tropa» teve? Que socialização e que ajuste ao meio lhe foi proposto? Que preparação para ser marido e pai teve ele?

Tantas questões que nos tornam inseguros: o Adelino será apenas monstro? Não será também vítima?

2 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXIII

Decorreu, como habitualmente na segunda semana da Quaresma a Semana da Caritas, organização sempre na primeira linha da ajuda em nome da Igreja. Os peditórios de rua e os peditórios nas igrejas são a face mais visível de uma acção discreta mas sempre necessária. Diz-se que o bem não faz barulho e o barulho não faz bem. Ao contrário de anos anteriores, neste ano a imagem da Caritas e, com ela, a da Igreja, ficou profundamente abalada e as ofertas recebidas certamente o deixarão bem claro. E porquê? Pelas notícias recentes veiculadas nos media acerca da idoneidade da instituição, pondo em causa a sua credibilidade. Também eu vi o programa e li a reportagem: o tratamento pouco digno num infantário de uma Santa Casa da Misericórdia, bem como uma pretensa herança, volumosa, destinada aos pobres, a ser gerida pela Caritas.

Algumas considerações me ocorrem e partilho-as:

1. É inquestionável que uma denúncia mediática tem um efeito claro, às vezes mesmo demolidor, não só na imagem de uma instituição, como nas motivações profundas de quem nelas trabalha, mesmo que seja em regime de voluntariado. Não estranhemos pois ao vermos que as diversas tomadas de posição procuravam, sem negar os factos, minorar os efeitos da denúncia. Nestas coisas é bom fazer o exercício de nos pormos na pele dos atingidos.

2. Isto não quer dizer que os factos tenham de ser ocultados ou que seja essa a orientação superior. A Igreja já pagou muito caro o seu «silêncio» diante da pedofilia, ao desvalorizar o sofrimento das vítimas. E, certamente, que todos nós, os cristãos, tomámos consciência do erro, mais ainda do crime. E, por isso mesmo, até admiramos a capacidade de pedido de perdão e o rigor na condenação dos culpados. Assim, acordem as instituições da Igreja e aqueles que as servem: toda a transparência na gestão de bens financeiros e patrimoniais se exige hoje em dia. E com mais rigor ainda na Igreja do que na sociedade civil, não só porque a moral evangélica, supostamente incarnada, assim o exige, como também pelo olhar de suspeita que reina na cultura do nosso tempo, «avessa» ao mundo religioso, particularmente ao católico.

3. «Não basta ser. É preciso parecer». Este ditado não pode ser esquecido pois não faltam exemplos de «hipocrisia» social em que tantos acusadores encarniçados esquecem que a sua veemência na acusação dos outros é pensada como tendo algo a esconder: «acusa tu, antes que te acusem a ti». O certo é que, passados anos, se revelam os «telhados de vidro» ocultos. Tenho para mim que a verdade é portadora de uma força que ninguém pode conter e que «a mentira tem perna curta». Mesmo «ferido» quando a Igreja é acusada, sempre prefiro a verdade dos factos às interpretações desculpabilizadoras: uns e outras levarão, acusadores e acusados, a um exame de consciência.

4. Sabemos bem que quem gere bens públicos deve dar contas públicas da gestão dos mesmos. Exagera-se hoje nesta exigência. E quando se trata da Igreja... A verdade é que quem tem direitos também tem deveres - princípio muito esquecido na prática - o que, é bom de ver, retiraria a muitos a sua força argumentativa que tudo exige sempre dos outros. A transparência deve ser norma prioritária, até porque, documentos escritos permanecem e podem ser reanalisados por outros. Basta dificultar o acesso a eles para se gerar desconfiança que, a desenvolver-se, pode chegar longe quer no apuramento da verdade, quer também na promoção de um sentimento contrário à realidade dos factos, pondo em causa tanta generosidade e vontade de servir, alimentada no Evangelho de Jesus.

5. Vivemos numa sociedade de contrastes e os cristãos devem aprender a viver nesta tensão permanente em que o espírito do mundo é tão forte que facilmente abafa as melhores intenções vindas do Espírito de Deus. Nunca se viu tanta corrupção, roubos e injustiças. E, ao mesmo tempo desenvolvesse um tecido de relações humanas tensas, vingativas, acusadoras e hipócritas. Há um politicamente correcto que esmaga e que se oculta para, de seguida, se vir a denunciar e até ampliar o que se ocultou e agora se denuncia. Não, não é, de modo algum, fruto que arranque da visão cristã do mundo e da sociedade. O Evangelho proclama a fraternidade, a relação harmoniosa entre irmãos que toleram os fracassos e pecados uns dos outros.

6. Parece-me que chegamos a um ponto de não retorno: a vigilância adiada compromete quem tem o dever de cuidar da boa ordem, não deixando que os abusos aumentem, antes tentando corrigi-los. O sentimento de «impunidade » está a minar as bases de una sociedade harmoniosa. Até mesmo a própria Igreja. A verdadeira tolerância para com o pecado humano não pode significar «olhar para o lado» ou «empurrar com as barriga» à espera que outros assumam as consequências que são nossas.

26 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXII

Já por várias vezes referi que a festa é necessária à vida humana ao pôr em evidência o que de melhor existe no coração humano, partilhando-o com outros.  Sem festa, onde está a nossa humanidade? Quando até os animais nos dão belas expressões de contentamento e celebram a vida uns com os outros. Como seres inteligentes que somos, percebemos que a vida é relação: pôr em comum é uma necessidade permanente. Sair de si mesmo para «entrar» no mundo do outro ou deixar-se «invadir» pelo outro é condição de socialização, de humanização. Não chega observar, quando as pessoas se «fecham» demasiado em si mesmas, como começamos a pensar em doença, particularmente em depressão? E como tal nos afecta, sobretudo aos que as rodeamos?

Fazer festa nada tem de contraditório com o tempo quaresmal que estamos a viver. Aliás, a Quaresma é um tempo «oportuno», favorável para a disciplina interior, que nada tem de triste porque exige valentia e tem em vista fortalecer-se interiormente para se ser bem sucedido nas grandes causas da vida, as causas pessoais mais que as colectivas. A verdadeira alegria, que deve caracterizar a vida do crente, só pode crescer no tempo da Quaresma. Mesmo que os sinais exteriores de probidade, de «pobreza» e de contenção possam levar a pensar no contrário. Claro que se torna necessário, por razões de ordem psicológica e sociológica, separar tempos e registos, aliás como acontece com a própria natureza, que se reveste de tons diferentes conforme as épocas do ano. Cada um de nós é um ser situado no tempo e no espaço e precisa de alternâncias para ser capaz de valorizar a diferença e dela tirar o melhor proveito.

Vem isto a propósito das festas que se promovem por todo o lado e em todas as épocas do ano. Felizmente que a vida é festa constante.

Mas porque é festa constante, não menos verdade é o risco que corremos em banalizar a festa, tornando-a repetitiva e monótona, para cumprir tradição sem a necessária ponderação e envolvimento pessoal. Faz-me lembrar os grandes investimentos para uma multidão amorfa, de braços cruzados que apenas aprecia o que os outros fazem mas não participam.

Procurar novas razões para a festa numa sociedade cada vez mais massificante impõe-se. Envolver as comunidades na festa é um dever. E se não podemos dizer que as autoridades não se preocupam em proporcionar festa aos cidadãos, impõe-se repensar sempre o que se faz, o modo como se faz e porque se faz. Sob pena de investirmos sem nada ficar de bom para o futuro. Divertir por divertir é necessário, mas não é tudo. A pessoa humana e a sociedade local precisa de bem mais. A diversão pode tornar-se ocasião de manipulação das consciências, de embotamento do espírito humano, de si tantas vezes preguiçoso para pensar. Juntar o útil ao agradável, promovendo uma sadia convivência humana e a expressão do que de melhor há no íntimo do ser humano é uma arte necessária mas difícil.

Há dias fui convidado a participar numa festa. Gastou-me apenas alguns minutos. Envolveu-me e procurei envolver os participantes. Logo que convidado, dei o meu sim por me parecer uma iniciativa bela, invulgar e capaz de fazer caminho, quando as gerações se «perdem» e o individualismo se impõe. Os nascidos até aos anos sessenta do século passado quiseram reunir-se, ali para os lados do Bonfim, para partilharem memórias de infância e juventude. Claro que «a vida dá muitas voltas» e até nos esquecemos daqueles «bons velhos tempos» em que, «pobretes mas alegretes» nos juntávamos nas praças e nos campos de futebol improvisados a correr atrás de uma bola de trapos, com os dedos dos pés a sangrar quando não acertavam na bola. Ou a jogar à macaca ou à corda, num tempo em que não se conheciam os brinquedos feitos pelos outros ou fruto das técnicas modernas, mas cuja ausência se tornava estímulo a criar-se sempre novas formas de nos divertirmos. Sou desse tempo e orgulho-me disso. E que bom seria que as gerações de antigamente não se envergonhassem de falar desses tempos às jovens gerações, atenuando assim o fosso inter-geracional que caracteriza os nossos tempos. Falar de outros tempos só pode enriquecer as jovens gerações, ajudando-as a serem gratas por tantas oportunidades que hoje têm e que até desprezam. Numa palavra, a geração de outrora, como a dos anos sessenta que, em bom número ali se reuniu no Bomfim, para, depois, à mesa no Prova Oral, continuar a fazer memória, divertiu-se à grande, inventou as suas diversões e ufana-se a falar de tais tempos. Mais pobres que os jovens de hoje? De modo algum: mais ricos porque se inventavam constantemente.

Parabéns aos organizadores de tal festa. E que o seu exemplo seja seguido.

19 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXI

Passou-se mais um dia 8 de Março. Foi Dia Internacional da Mulher e, como sempre, objecto de grandes notícias, reivindicações, discussões sobre a condição da mulher, numa sociedade ainda de grandes assimetrias, em que, contrariamente a uma boa interpretação da Boa Nova de Jesus, a mulher precisa ainda de lutar por um estatuto de igualdade com o homem. Esquecemo-nos do que dizia S. Paulo, já no seu tempo, quando fala da sociedade de discípulos de Cristo, na qual não há mais «homem ou mulher, escravo ou livre» porque somos todos um só em Cristo Jesus.

Que pena persistirem desequilíbrios baseados no ser homem/mulher! A igual dignidade de um e de outro, considerada a diferença biológica e psicológica, em ordem ao futuro da Humanidade, é uma riqueza de que não se pode abstrair. Diferentes e complementares, diz a Bíblia. Com uma atracção mútua querida por Deus para a comunhão em Humanidade e em Missão no conjunto da Criação.

Mas, mais importante para mim, a destacar neste dia, é a solenidade de S. João de Deus, o português que, errante desde Montemor-o-Novo, passando pelos trabalhos de campo ao serviço de um proprietário, testemunhando a honestidade e fidelidade de um bom gestor, e conhecendo também os perigos das guerras fratricidas do tempo, certamente procurando supremacias e vitórias sobre outros senhores e outros poderes, o nosso João Cidade vai chegar a Granada, onde, finalmente encontra o seu lugar nos púlpitos, não das igrejas a pregar, mas das ruas onde abundavam pobres, indefesos, doentes e loucos.

Passando, ele também, por louco - tal fora a impressão nele registada pela pregação de um outro «louco», João de Ávila, sacerdote e hoje padroeiro dos sacerdotes como S. João de Ávila, que se lhe impôs para o moderar nas suas penitências e excessos - foi no serviço humanizante aos loucos que ele encontrou a sua vocação. O seu hospital, sempre cheio de doentes e pobres, que a ele acorriam e nele encontravam sempre o lenitivo para os seus males, quer pela cura medicinal quer pela «cura» espiritual que reconheciam na sua presença e acção, foi a primeira obra e obra pioneira no tratamento humanizante dos doentes mentais. Longe estávamos dos conhecimentos da medicina e da psiquiatria que hoje conseguem uma grande qualidade de vida para os próprios e, sobretudo, para os familiares.

Quem não reconhece a enorme evolução no tratamento dos doentes do foro psiquiátrico, outrora levados à força para a «casa amarela» a fim de que os familiares pudessem ter um pouco de alívio, mesmo que sem esperança de cura? E, afinal, enquanto hoje reconhecemos nestes nossos irmãos a sua condição de doentes, igualmente humanos e dignos como nós, regozijamo-nos ao vê-los passar na rua, pacíficos e sorridentes, testemunhando até uma felicidade e paz invejáveis. É caso para dizer que o medicamento certo e na medida certa consegue o equilíbrio possível, trazendo gosto de viver aos doentes e suas famílias.

Esta realidade diariamente constatada leva-me muitas vezes a dizer, sempre que o evangelho fala das curas de «endemoninhados» ou de «espíritos» que perturbam seres humanos, que a medicina científica consegue acabar com certos «demónios» que povoam tantas cabeças! Não será já tempo de evoluirmos um pouco e de nos esforçarmos mais por um entendimento correcto do evangelho de Jesus, que, curando, reabilitava a pessoa doente por dentro, tornando-a capaz de «ir com Ele», de O seguir no caminho?

Um dia surpreendi alguns quando comecei a homilia do dia dizendo: «permitam-me que seja hoje advogado do diabo. O pobre coitado apanha com todas as culpas. Sempre que a vida não corre bem, ou que caímos na tentação e pagámos pelos nossos erros e pecados, lá vamos dizendo que tudo foi fruto da tentação do diabo». Bolas, já é tempo de o deixarmos em paz e de conceder o «espaço» todo a Deus, Esse sim que deve ocupar a nossa vida.

Quanto não devemos nós, sociedade e Igreja, a S. João de Deus e à Ordem Hospitaleira, por ele fundada! Há mais de 500 anos (1495/1550), o João Cidade português lançou as bases de um tratamento humano daqueles que todos rejeitavam. E fê-lo nos últimos 13 anos da sua vida, poucos mas suficientes para merecer o reconhecimento de todos os cidadãos de Granada, onde ele morre com fama de santidade. Não merecerá ele, bem como a Ordem Hospitaleira, público reconhecimento? Nas suas duas casas/hospitais, em Barcelos e Areias de Vilar, vive um espírito de serviço aos doentes mais doentes: pessoal médico, auxiliar e um grupo de voluntários acompanham hoje os poucos irmãos da Ordem. Que possam sentir a gratidão de todos os barcelenses.

12 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CX

Foi o Carnaval. Uma vez mais. Bom seria que o fosse apenas em três dias. Ou seja, que o «ninguém leva a mal» fosse um interregno no meio de uma vida honesta, regrada e comprometida com a verdade. Para bom entendedor: não viveremos num Carnaval durante todo o ano, em que o legítimo «precisamos de nos divertir» se impõe como única motivação?

É verdade que todos precisamos de diversão. A vida é para ser vivida com alegria. E precisamos uns dos outros para sorrir... E para aliviar a vida «carregada» que se nos impõe. E a diversão não tem de estar ligada ao pecado, ao proibido, ao excessivo.

Mas será de diversão que se precisa no nosso tempo? Parece-me que não. Aliás, é de desconfiar de tanta «generosidade» dos poderes públicos quando promovem, e pagam até fortunas para tal, diversões a torto e a direito. Haverá coragem e capacidade para pensar que «escravo divertido não conspira»?

De facto, apesar de tantos «canudos» universitários - e é sempre um bem o acesso de todos aos níveis superiores de ensino - os défices de leitura são notórios e publicitados, o espírito crítico diante dos acontecimentos e factos sociais é privilégio de alguns corajosos, o comodismo no pensar e no agir impõe-se como regra. Quem tem a coragem de uma palavra diferente, que saia fora do politicamente correcto, dos preconceitos tão facilmente assumidos, das ideologias radicais tão facilmente impostas pelos poderes públicos, incapazes que se julgam de «pensar» em políticas sérias e fundamentadas na história dos povos e abertas a horizontes de promoção da pessoa humana? Não se reconhece que governos e políticos «obedecem» cada vez mais a «ventos e marés» ocasionais, sujeitos que estão ao voto que não dispensam? E que a razão mais forte nas decisões que tomam é a de «agradar ao povo», porque criar pbjectivos ousados e promissores para o futuro é algo que dá muito trabalho e gasta muito tempo, sem aquele efeito imediato traduzível em votos?

Vivemos um pouco «escravos» das conjunturas, cada vez mais à escala mundial. Somos «mandados», ora pelos mercados, ora pelas ideologias, ora pela soberba de se ficar na história, mesmo à custa de aberrações que o futuro se encarregará de confirmar.

Precisamos, todos, de parar. Parar para contemplar. Parar para sentir. Parar para fazer balanço. Parar para saborear. Parar para decidir melhor. Parar para observar os «desvios» dos trilhos de verdade desejados. Haverá coragem para tal?

Eis que os nossos espaços de silêncio, sempre tão escassos, foram invadidos. E sem o silêncio a Palavra torna-se verborreia cansativa. Torna-se cacofonia esterilizante. A cidade está demasiado barulhenta. Não só no Carnaval. Precisamos de «ilhas» de refúgio em que se possa exprimir o melhor do coração humano. Terão os nossos autarcas preocupações de sanidade para todos, não permitindo que as actividades barulhentas ocupem o espaço público, como únicas com direito de cidadania? Se as actividades industriais e mecânicas são desviadas para parques próprios fora dos aglomerados populacionais, para que o simples acto de dormir não seja perturbado, ou se criaram parques desportivos fora das cidades, porquê se cortam ruas e se impedem actividades usuais todos os dias só para que certas modalidades desportivas se imponham sobre todos os cidadãos, insensíveis aos prejuízos desnecessariamente causados? Se não houvesse alternativas... Mas há-as e são muitas.

Todos os povos têm direito a que se respeite a sua história. E esta é fruto da construção de muitos ao longo de muito tempo. Não se compreende que alguns, sem história ou com história de prepotência, se imponham sobre os outros, porventura com menor capacidade reivindicativa, ou menor expressão numérica. Há valores que, respeitados, só dignificam aqueles que têm a missão de governar. Saber dizer não é tão válido e importante como dizer sim. Para tudo há um discernimento que só impostores ou «vendidos» evitam com a hipocrisia dos Pilatos que pululam ao longo da história.

Em tempo de Quaresma, que ninguém deixe de se disciplinar interiormente para discernir sobre passado e presente. Há diante de todos um futuro que se prepara hoje, ou se arrisca hoje, ou se destrói hoje. Perguntar-se sobre que futuro estamos a preparar só nos dignifica. Há demasiadas palavras inúteis e silêncios amordaçados que precisam de «falar». Que ninguém tenha medo de procurar a Verdade que liberta.

5 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CIX

Foi «jovem» o meu passado fim de semana. Ao serão, perguntei aos crismandos que «imagens» de Igreja se destacavam nos seus ambientes de escola. Negativas, como já esperava. Depois, dialogámos sobre a «verdade» ou «mentira» de tais imagens, isto é, reflectimos sobre o que eles próprios dizem da Igreja. E o meu objectivo era claro desde o início porquanto, tratando-se de gente a entrar no estado adulto da fé, importa que tenham ideias claras do que é ser cristão hoje, num mundo em profunda transformação e em confronto permanente, de ideologias contrastantes a reivindicarem o «espaço» outrora ocupado pelo religioso. Propus-lhes passar das imagens dos outros - tais como as que referiram: uma farsa, marcada por interesses, dinheiro, rituais, valores apenas humanos, dinheiro do Vaticano, celibato e pedofilia nos padres, outros que se aproveitam da Igreja para estatuto pessoal, para se mostrarem... - à realidade que importa que vivam. E convidei-os a olhar para a Igreja a partir de dentro: TU ÉS IGREJA. Quando isto acontece, entra-se na liberdade responsável e comprometemo-nos com o bem e o mal que nos rodeiam para transformarmos o mundo que olhamos como mau.

O diálogo foi interessante, apesar da densidade das questões e do vazio espiritual que os atinge. E os que vêm à Igreja supostamente ainda são aqueles que procuram seriedade e constroem um futuro responsável, a partir dos valores recebidos em família e continuados na Igreja. Logo de seguida, acompanhei um grupo de jovens, que se organizam e querem dar sinais de uma Igreja jovem. No meu íntimo, enquanto lhes dava uma palavra de orientação, pedida como pároco e como adulto, eu agradecia a Deus por os ver ao meu lado, num sábado à noite em que a maioria dos seus colegas de estudo estariam porventura noutros ambientes bem diferentes. Na segunda-feira eis que sou procurado por um jovem de 19 anos. Também ele vinha, justamente, com a cabeça cheia de interrogações e punha os seus porquês, muito próprios mas, ao mesmo tempo, também muito comuns aos da sua idade. E fiquei algo surpreendido perante o quadro negro, bem negro, da sua escola. Lembrei-me dos tempos em que, professor de Educação Moral e Religiosa Católica durante cinco anos, sofri a dor de ter de lutar por uma proposta de valores humanos e cristãos àqueles que, às vezes apáticos e totalmente desinteressados, já manifestavam o ambiente de desagregação familiar. Estávamos na década de oitenta. Muita coisa mudou. Para melhor, certamente em muitas coisas. Mas penso que para bem pior no que ao ambiente escolar diz respeito.

Aquele jovem, a quem foi diagnosticada uma doença de certa gravidade, questiona-se porquê a ele, que vai à missa: «a mim tudo me aparece». E, encontrando-me acolhedor e sem pressa, lá desfiou o rol das suas queixas, bem razoáveis, aliás.

Fez-me ele «acordar» para a realidade da juventude de hoje, dispersa e vazia, sem horizontes e procurando escapes, vale-lhes ao menos o estímulo de um curso universitário pelo qual lutam. Claro que lembro aqui os esforços, tantas vezes julgados erradamente inglórios, de tantos pais e mães que não desistem de uma presença permanente a cuidar do futuro dos filhos, enquanto sentem uma vontade forte de desânimo diante de uma sociedade que não educa para valores, mas que apresenta um mundo demasiado fácil em que os direitos se impõem sobre os deveres e a vida «não custa a ganhar». De facto, são muitas as situações em que os pais se sentem apenas com deveres, obrigações muito duras, que os sujeitam a muitos esforços para conseguirem um mínimo capaz de dar o «máximo» ao seu filho, que se julga no direito de tudo exigir dos pais «como os colegas de pais ricos».

No dia anterior, uma notícia de primeira página do JN (19FEV) alertava para o consumo do «comprimido da inteligência» que duplicava entre os jovens alunos, alguns deles pelos nove anos. Que défice de atenção é esse que alimenta a indústria farmacêutica? Que geração é esta que, tão cedo, se torna dependente de medicamentos, como se fossem já velhos que precisam de compensações para os seus órgãos debilitados por uma vida de canseiras e fadigas? E, não é que este jovem me confirmava o ambiente escolar de indiferença dos adultos, professores até, perante a agressividade crescente entre adultos? E de droga e de outras coisas afins? Num diálogo tão frutuoso, acabei por lhe dizer obrigado pelo que partilhou comigo e felicitá-lo por ter uma mãe que se preocupa e não o «larga».

26 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CVIII

Verticalidade. Fidelidade. Transparência. Honradez. Integridade. Verdade. Estas palavras, traduzidas em atitudes concretas no quotidiano da vida em sociedade, parecem estar em crise ou, até mesmo, correrem o risco passar, no dicionário, à categoria de arcaísmos.

Deixando de ser percebidas na vida de todos os dias, elas deixam de ser referência na educação das futuras gerações, que, deste modo, crescem e se desenvolvem num profundo desequilíbrio, que põe em risco o futuro das sociedades.

Longe vão os tempos em que os nossos antepassados faziam questão de valorizar a «palavra de rei», o respeito pela honestidade comprovada ao longo de gerações que se tornava mais sério ainda do que a assinatura de «pôr o dedo». Valia mais a palavra dada até do que a assinatura por impressão digital.

Entretanto, vivemos hoje o tempo ignóbil do «pós-verdade», expressão que entra cada vez mais no léxico, como que consagrando um reinado de um relativismo extremista, que dificultará cada vez mais a vida em sociedade pautada pela justiça e pelo respeito uns pelos outros.

Surpreende, pois, de algum modo - ou não surpreenderá? - que em tempos «sensíveis» pré-eleitorais abundem os desabafos quanto à palavra desacreditada de políticos e de candidatos - «são todos iguais», ouve-se - transferindo-se e até misturando-se os campos político, cívico, institucional, privado e público. Nem sequer a Igreja, ou as suas instituições e grupos, escapam. Neste ambiente, como é difícil - digo-o por experiência própria - isentar a Igreja e as suas instituições desse juízo negativo. Porque reconheço que os cidadãos, crentes ou não, situando-se a Igreja na praça pública como instituição de valores, têm o direito de esperar dela uma outra isenção, uma outra honradez e verticalidade que ultrapasse os discursos mas se torne vida concreta nas pessoas que até a «representam » institucionalmente. É que o Evangelho de Jesus, nos reconhecidos valores de que quer impregnar a vida pública, ou é vida ou desaparece como inútil ao igualar-se a tantas outras visões da vida quotidiana.

Quer nos escritos ou peças jornalísticas, quer nas conversas particulares, se vai notando, por um lado, um certo saudosismo dos valores acima referidos - sinal de que todos precisamos de homens e mulheres honestos, que queiram servir o bem comum e não servir-se - e, por outro, na constituição de listas eleitorais se tenha o cuidado de evitar possíveis «rabos de palha» no passado dos candidatos, que possam traduzir-se em perda de votos e não em ganho dos mesmos.

Trata-se, de facto, de um contraste evidente: por um lado, batem-se palmas a uma sociedade permissiva, tão tolerante quanto injusta e até apática perante escândalos e injustiças flagrantes, cruzando os braços diante dos «palavrosos» de discurso fácil, sempre com as suas sentenças a impor como as melhores; por outro lado, desejando que a honestidade, honradez e a verdade tenham a primazia. As próprias máquinas partidárias «gastam-se» nos cuidados a «escalpelizar» o passado dos candidatos, com medo de que o povo eleitor, na urna, deixe claro que prefere os mais honestos aos mais palavrosos.

Quem não se lembra de um primeiro-ministro que, nas vésperas de um resgate nacional, num país de «tanga», ainda acenava com debates para a construção megalómana de um aeroporto? Quando olhamos para trás até sentimos vergonha e nos interrogamos como foi possível chegar tão longe na manipulação da opinião pública.

Lendo o Livro dos Provérbios, registo uma «sabedoria» que os séculos por cima deles passados não abalou: «O Senhor abomina o procedimento do ímpio, mas ama o que segue a justiça. Mais vale pouco com temor de Deus do que um grande tesouro com inquietação. Mais vale um prato de legumes com amizade do que um vitelo gordo com ódio. (...). O temor do Senhor é escola de sabedoria, e a humildade precede a glória. Compete ao homem fazer planos no seu íntimo, mas do Senhor é que vem a decisão. O homem pensa que todos os seus caminhos são puros, mas é o Senhor que pesa os corações. (...) O Senhor abomina todo o coração altivo, certamente não o deixará impune» Prov. 15, 9, 16, 33; 16, 1-2, 5. Foi a leitura deste texto que me sugeriu este «Olhar». Ele situa-se «contextualizado» nacional e localmente.

19 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CVII

Foi há dias. Numa iniciativa que já leva anos, os membros do Conselho  Económico foram, em dia de sábado, visitar algumas igrejas na zona do Porto. Apreciar restauros, ver como se cuida da conservação das igrejas, aprender com o que os outros fazem, tirar ideias e, sobretudo para nós, onde buscar a coragem para recuperarmos o que urge recuperar nas condições económicas desfavoráveis. Ao objectivo de «estudo» junta-se também o «convívio» num contexto diferente daquele que nos une a todos quando mensalmente nos reunimos.

E lá fomos apreciando o restauro da Torre dos Clérigos, com destaque para a parte museológica. Dali seguimos para a Igreja de S. Francisco, belíssima e riquíssima em arte. E, após o almoço, ainda visitámos a igreja do Bom Jesus de Matosinhos, a de Leça da Palmeira e, por último, a de Leça do Balio, esta última mais ou menos contemporânea da nossa Igreja Matriz.

De ano para ano, vamos coleccionando ideias, regressamos cheios de vontade para nos metermos em obras... Mas esmorecemos logo de seguida. E porquê?

Porque se nos avivam as necessidades prementes de cuidar do nosso património, tão rico que nem o sabemos apreciar devidamente, que, «escondido » a ninguém aproveita. De facto, a nossa Igreja Matriz é depositária de um espólio artístico muito valioso, que os barcelenses desconhecem. Como torná-lo acessível ao público? Eis a nossa preocupação, que deixa de o ser porque nos resignamos a cruzar os braços, dado não termos os meios necessários. Se, por um lado, é necessário dinheiro, muito dinheiro - e a Paróquia está ainda a pagar a residência paroquial - por outro lado, são necessárias obras da recuperação das sacristias interiores da Igreja Matriz, onde poderemos acondicionar devidamente as alfaias e objectos religiosos que se foram guardando ao longo dos séculos. Falta-nos o dinheiro, sim, mas falta-nos também a coragem de vencer impedimentos de que não somos responsáveis - a Igreja é património do Estado, que «não faz nem deixa fazer» - e os meios humanos e técnicos para passarmos das palavras aos actos. Quem nos quererá ajudar? Falo de «técnicos» na área museológica.

A ideia e a vontade existe: por que não aproveitarmos o Ano Mariano para uma exposição das belas imagens de Nossa Senhora? Estarão os serviços do Município sensíveis?

Mas quando falamos das sacristias interiores, para, depois, falarmos de um possível museu, logo nos surge a questão das prioridades: não falta já - e dou graças a Deus por isso - quem insista que é necessário recuperarmos o órgão de tubos. E eu estou de acordo. Quem ajuda numa comissão «técnica» de estudo do que é possível fazer-se para o recuperarmos? E numa comissão de «angariação de fundos»?

Mas se o órgão de tubos é necessário, também não será mais necessário ainda cuidarmos do piso, tão irregular e perigoso da Igreja Matriz? E do seu des/conforto sobretudo no inverno em que o frio bem justifica a expressão «o santo sacrifício da Missa»? Não teremos de pensar no aquecimento? E se pensarmos no piso e no aquecimento, não teremos de pensar em bancos cómodos? E a substituição de toda a cablagem eléctrica, em claro perigo porque instalação antiga, que tem de ser substituída? É claro que todos nos damos conta de que uma «drenagem interior» para que o piso se torne seco e confortável no inverno implica uma drenagem do exterior, obra a que o Município se dedicará um dia, conforme está nos seus planos. Para quando?

E os altares em talha, a precisarem de urgente intervenção? E a capela do Santíssimo com a sua bela tribuna? E que fazer do Centro Paroquial? Afinal, são tantas as necessidades! Como compreender o «desleixo» dos barcelenses que não cuidam do património que os seus antepassados nos legaram? Eles construíram e cuidaram. Pertence-nos a nós continuar a cuidar para o transmitirmos aos vindouros. Não nos podemos distrair da Matriz, que é a mãe e foi à volta dela que se construiu e desenvolveu o burgo de Barcelos. Pertence a todos os barcelenses cuidar da sua «Matriz»: basta olhar para ela para reconhecer as suas necessidades. Não só nos dias de festa em que o bom tempo e as flores que a ornamentam «disfarçam» as suas necessidades.

12 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CVI

Leio todos os dias Actuall, periódico digital espanhol, atento ao mundo das ideias sobretudo no que às questões ditas fraturantes diz respeito. As decisões dos políticos, forçadas tantas vezes por lobbies económicos com o mundo da alta finança por trás, são passadas a pente fino. Ao mesmo tempo fornece elementos que nos ajudam a pensar no alcance de certas políticas para todo o mundo e a ler a história dos movimentos de ideias que vão fazendo o seu caminho, passando de uma rejeição natural e até abrupta, porque escandalosas e em contradição total com a realidade, até impor-se nas sociedades como algo «normal» e «moderno». Quem quiser seguir este periódico, em espanhol, pode até solicitá-lo gratuitamente (www.actuall.com ou info@actuall.com).

Há tempos quis visitar a sede deste grupo em Madrid. Visitei e conversei sobre o que fazem. E apreciei ver gente nova, entusiasta nas causas, sem medo de denunciar e até de serem caluniados, dando a cara pelos valores que defendem sobretudo levando as pessoas a pensar pela própria cabeça para não votarem «manipulados» pelas maiorias artificiais que são fruto do politicamente correcto. É claro que estas maiorias são as mais fáceis de construir porque dispensam a responsabilidade de pensar e aprofundar as situações, cada vez mais complexas da nossa sociedade. País de «brandos costumes», muitas vezes nos orgulhamos da nossa inércia, do passar ao lado e não cuidarmos responsavelmente no hoje em relação ao futuro. Que pena! Ali em Madrid vi a «balança» que alguns estabelecem ao darem a cara por «valores» que uma «esquerda radical» tenta amordaçar com os partidos tradicionais a «fazerem de conta». Lá como cá. E lembrei-me de que na América, numa manifestação de valores como o da vida, contra o aborto, os bispos são os primeiros a encabeçar uma manifestação pública. Os nossos «brandos costumes» às vezes não passam de covardia.

Em recente artigo (http://www.actuall.com/criterio/familia/pedofilos-drogadictos-locos-y-con-tendencia-al-suicidio-asi-eran-los-ideologos-de-genero/), um jovem jornalista, Javier Torres, faz uma incursão pelas origens da ideologia de género, que cada vez mais se impõe nas nossas sociedades, ávidas de experimentar todos os «progressismos», mesmo que estes ponham em causa o futuro da Humanidade. É um grito de revolta e um «tocar a rebate» diante de tanto obscurantismo imposto e irresponsável, que ameaça o futuro dos nossos filhos, para quem deveríamos preparar um futuro de liberdade responsável e de paz.

O autor analisa, com a brevidade possível, o núcleo de ideias e de comportamentos dos «precursores» da ideologia de género, a começar em Nietzsche, o filósofo de onde partem todos os ideólogos da teoria do género, ele que dizia: «tudo se pode negar porque não há nada fora de nós que seja objectivo». Esta ideia de há mais de cem anos fez o seu caminho e hoje já se fala, após o relativismo ético tantas vezes denunciado pelo papa Bento XVI, no pós-verdade. E acrescenta: «Deus morreu e se Deus morreu também morreu a natureza criada por Ele. Assim, nada define o que sou, só eu posso fazê-lo». Ora sabemos que Nietzsche acabou num manicómio. E os seus seguidores, que extremaram as suas ideias e se tornaram o fundamento da ideologia de género, não tiveram desfecho melhor. E o autor fala de Wilhelm Reich, marxista e grande precursor da revolução sexual, que foi um grande masturbador compulsivo desde os 6/7 anos e praticou a zoofilia, traumatizado com o suicídio da sua mãe,que manteve relações sexuais com um menino de 13 anos, o que o levou a culpar o pai e justificar o seu ódio ao patriarcado. Nas suas terapias abusava sexualmente das mulheres pelo que foi condenado e acabaria por morrer na prisão, diagnosticado com paranoia e esquizofrenia progressiva.

Por seu lado, Michel Foucault, homossexual e militante comunista, francês, iniciado no sadomasoquismo, consumidor de drogas, morreu de sida, depois de tentar várias vezes o suicídio. Um outro, Althusser, filósofo comunista francês, estrangulou a sua esposa e acabou internado num hospital psiquiátrico. E o articulista continua analisando a vida de outros nomes importantes na formulação da ideologia do género no artigo, que vale a pena ler, intitulado: Pedófilos, drogados, loucos e com tendência para o suicídio: assim eram os ideólogos de género.

5 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CV

Pouco falta para completar um século de vida o Escutismo Católico Português, que entrou no nosso país, vindo da Inglaterra, pela Arquidiocese de Braga, acolhido pelo Arcebispo de então, D. Manuel Vieira de Matos (em 27 de Maio de 1923).

Entre nós, em Barcelos, ele chegou há 90 anos, celebrados no ano passado, e de Barcelos – cidade espalhou-se pela generalidade do concelho, havendo hoje 31 agrupamentos que formam o Núcleo de Barcelos.

Como método pedagógico impôs-se e impõe-se hoje ainda resistindo a muitos vendavais ideológicos que se repetem. E porquê? De entre as possíveis respostas, aponto a sua “verdade” e “universalidade”. “Verdade” porque se dirige ao rapaz/rapariga como ele é, situado, concreto, nas suas circunstâncias históricas e sociais, “verdade” porque não se reduz ao que ele é mas desperta-o, anima-o, cuida-o para o que pode e deve ser. “Universalidade” porque considera as diversas dimensões do ser humano, inclusive a religiosa – o escuta orgulhe-se da sua fé e por ela orienta toda a sua vida – e, no acompanhamento que proporciona ao rapaz/rapariga, sabe aproveitar as suas energias no processo evolutivo para formar homens e mulheres disciplinados, generosos e responsáveis.

Claro que tudo isto exige muito dos chefes, que às vezes até desanimam face às dificuldades. Também eles sentem o “peso” de uma missão que a Igreja lhes confia – estamos a falar do Escutismo Católico – dado que trabalham no seio de uma sociedade em que os valores contam pouco e os “princípios” que outrora se bebiam no seio da família, às vezes não existem. É por isso mesmo que apreciei há dias – na ceia de reis, como em tantas outras actividades ao longo do ano – a presença e acompanhamento dos pais que apoiam os chefes. Cada vez mais se torna evidente que o processo educativo só pode resultar quando os vários intervenientes se dão as mãos. Chefes de escuteiros ou catequistas, e mesmo os professores, não podem dispensar a presença dos pais. Como estes não podem dispensar o contributo daqueles.

Ao longo do ano são muitos os momentos e as actividades previstas, que ocupam – lúdica e pedagogicamente – os nossos escuteiros.

É todo um programa elaborado no princípio do ano que exige muito dos chefes. Estes bem merecem o carinho e a gratidão da Paróquia. E também o estimulo e presença permanente dos pais. Como são em número insuficiente, também eles não dispensam o convite constante a outros jovens e até casais que já conhecem o Escutismo a virem ajudá-los.

Janeiro é um mês especial para o Agrupamento 13 Alcaides de Faria. Fazem 92 anos no próximo dia 25, dia da Conversão de São Paulo, patrono dos Caminheiros. Daí que a promessa de novos escuteiros na nossa Paróquia aconteça sempre no último fim de semana de Janeiro.

Acabo de ler uma entrevista do recém-eleito chefe nacional, Ivo Faria, que a todos recomendo (DM 19/1/2017). E fico feliz ao ler o seu programa, que valoriza a dimensão espiritual e se preocupa com o lugar dos jovens na Igreja e a sua missão de evangelização. Felizes os pais que encontram lugar para os filhos no Escutismo.

29 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CIV

Instado uma vez mais a pronunciar-me, volto ao assunto das confrarias da Paróquia. Por razão de ofício, a Autoridade da Igreja, leia-se o senhor Arcebispo Primaz, ao nomear os Órgãos Sociais de uma associação de fiéis, inclui, entre eles, um Órgão de Vigilância, normalmente o Pároco. Assim, o Prior é não só o Pároco da Paróquia, nem só o capelão, responsável pelo culto, mas também representa a Autoridade superior para supervisionar o agir dos restantes Órgãos Sociais. O Órgão de Vigilância é o único que não é sujeito a eleições mas vela pelo bom funcionamento dos restantes, que devem, todos eles, agir no respeito das funções que os estatutos lhes atribuem. Logo, diante de uma assembleia de irmãos convocada segundo as regras, a Mesa é chamada a dar contas, tendo elas sido revistas pelo Conselho Fiscal. Todos estes Órgãos têm as suas funções e não podem ser dispensados delas sob pena de a Confraria perder o seu carácter colegial e gerarem mal-estar entre os irmãos e na comunidade. O Prior é Órgão de Vigilância de oito confrarias. Logo, o seu modo de agir tem em conta a particularidade de cada uma dentro de um todo. E todas elas, à excepção da Irmandade do Senhor da Cruz, renovaram os seus Órgãos Sociais na devida altura, no passado Setembro.

Ao voltar ao assunto, não pretendo dizer novidade pois em diversas ocasiões deixei claro como devem ser geridas as associações da Igreja. Nunca à semelhança de associações político/partidárias. A estas apenas peço encarecidamente que respeitem a Igreja, seus grupos e associações, tal como a Igreja respeita as regras do jogo democrático e as actuações partidárias. Aliás o Cânone 318§4 tem aplicação na Igreja universal e visa claramente a não interferência dos partidos nas associações da Igreja. Diz ele: «Nas associações públicas de fiéis directamente orientadas para o exercício do apostolado não sejam moderadores os que desempenham cargos directivos em partidos políticos». Dito isto, independentemente do pronunciamento que chegar da Autoridade superior e apenas com o intuito de criar um entendimento correcto acerca do exercício de cargos nas instituições da Igreja e para que os irmãos de uma confraria saibam agir em consciência e em comunhão com a Igreja, não se deixando levar por pressões ou interesses pessoais e conjunturais - as pessoas passam mas as instituições permanecem - devo acrescentar:

1. O agir das confrarias deve estar em comunhão com outras e com outros grupos que têm a mesma finalidade apostólica na mesma paróquia. O fim é sempre o mesmo: evangelizar para construir o Reino de Deus.

2. Na Igreja o poder é sempre serviço e não fonte de prestígio ou ocasião de promoção pessoal. Sendo o ministro ordenado aquele que preside e detém o «poder» sacerdotal, é ele o primeiro servidor da comunidade. Mas esta, no seu todo, reconhece-lhe a primazia. É ridícula a discussão «quem manda mais». Todos devem esforçar-se por servir mais.

3. Toda a gestão deve ser transparente e conhecida dos irmãos. E isto não pode ser extraordinário. Antes, o agir da Confraria deve ser colegial, respeitoso de todos, dialogante sempre e sem estratégias de coação, que «destroem» o espírito comunitário, razão de ser da mesma.

4. A própria admissão de irmãos nunca pode ter como critério primeiro os amigos de quem gere, ou o partido a que pertencem, ou o clube ou ideologia que professam. Mas antes e sempre: a sua fé centrada na pessoa de Jesus e o seu empenhamento na vida e missão da Igreja. Julgo mesmo ofensivo e lesivo da história, pondo em risco o futuro de uma Irmandade, a admissão de irmãos em grupo, sem discernimento e maturidade mas apenas tendo em vista um voto futuro.

5. Os cargos são sempre provisórios. Cada vez mais as instituições, mesmo cívicas, impõem limites de mandatos. Ninguém é insubstituível e uma Confraria tudo tem a ganhar com novas ideias e modos de agir! Entre o «espírito» e a «letra», no agir cristão aquele deve prevalecer.

6. Quando chega o momento de substituição dos Órgãos Sociais, tudo deve ser feito com transparência, no respeito dos Estatutos, e os irmãos que votam têm apenas de se interrogar: os candidatos são cristãos de vida de fé testemunhada na comunidade? Têm vida digna reconhecida na sociedade? Apresentam-se com um programa claramente ao serviço do fim da Confraria? Reconhece-se neles honestidade intelectual, competência humana, comunhão com os legítimos pastores da Igreja, são humildes no trato, obedientes às decisões superiores e empenhados em levar aos irmãos o interesse pelos fins da Confraria?

7. Permitam-me uma palavra, mais pessoal, a terminar: Nos momentos difíceis da minha vida sacerdotal, confio-me a Deus, rezo e espero a «hora » de Deus, que a tenho como a «última» e a melhor. A vida ensinou-me que a verdade tem o seu caminho, anda mais devagar, mas também é mais eficaz. E dois princípios de vida me impus há muito tempo: no meio das «tempestades», o que pode acontecer de pior? Se te preparaste para o pior, tudo o que vier será vitória; só se atrapalha, só «perde a cabeça» aquele que tem algo a perder. Eu assumo que nada tenho a perder. Há muito prescindi de cuidar da «imagem». Sou profundamente livre: procuro servir como sei e posso, confiado na misericórdia de Deus para as minhas falhas. É tão belo saborear a liberdade de filhos de Deus!

22 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CIII

Já se esperava. O país viveu longos dias em suspenso e atento às notícias. Tratava-se de um dos seus heróis, reconhecido como personalidade única na política e na história do nosso país. Mário Soares morreu. E o país celebrou luto nacional. «Canonizado» já na comunicação social e, talvez, na maioria do coração dos portugueses – que belo é reconhecer, na morte, e privilegiar o que de melhor a pessoa construiu, enquanto se torna irrelevante o que poderá ter sido negativo – o tempo se encarregará de trazer à luz do dia o «filtro» de um olhar equilibrado, mais racional e menos emocional.

Ao escrever sobre o momento que o país acaba de viver não pretendo ser mais uma voz. Nem me sinto com o engenho nem com os conhecimentos históricos ou políticos para um olhar justo. Interessa-me tão só situar-me num «olhar outro» porque, como todos os portugueses, também eu vivi o acontecimento.

Reconheço o contributo único e indesmentível de Mário Soares na construção da democracia portuguesa. E que a história avança sempre que há homens que saem do nível do «politicamente correcto», os arranjistas de cada momento, sempre mais interessados em si e no seu grupo do que no bem comum. Cada um de nós apenas pode imaginar o que seria o nosso país hoje se não tivesse acontecido Camarate e continuassem, no mundo dos vivos, pessoas e políticos da têmpera de Sá Carneiro ou Amaro da Costa, o primeiro nosso ilustre conterrâneo. Mas a História não volta atrás e os saudosismos, que têm o seu lugar, não podem impedir de olhar o futuro com esperança.

Destaco a ideia da «diferença» com que Mário Soares lutou pela liberdade e pelos direitos humanos. Nenhum ser humano pode ser «encaixado» nas «redomas» circunstanciais com que tantos se impõem sobre os outros. Porque todos somos diferentes, logo, chamados a, em liberdade, acolhermos as diferenças dos outros. Destaco a luta pela liberdade religiosa pela qual ele, não se dizendo crente, lutou convictamente, no bom senso, aliás, de não repetir os erros da I República.

Discordei e discordo de atitudes e ditos do falecido Presidente. Como ele, não gosto do unanimismo. Acolher as diferenças é crescer juntos. E este é o grande desafio para cada ser humano, ao mesmo tempo que reconheço que é aqui que se encontra a maior beleza de viver em sociedade, uns com os outros e não uns contra os outros. Sempre considerei desnecessária a sua afirmação pública da sua condição de «agnóstico e laico», sobretudo quando permitia interpretar como a melhor maneira de afirmar a sua coerência de princípios, no respeito pelas diferenças. Reconheço, no entanto, que a sua coerência foi elegante ao prescindir dos rituais religiosos no seu funeral. Quem dera que muitos o imitassem para, ao menos na morte, serem coerentes com a vida que levaram.

Apreciei, também eu, a elevação e a dignidade de um funeral de Estado. Que, ainda que ao de leve, não deixou de «tocar» na «questão religiosa». Seria isso possível num Mosteiro dos Jerónimos? Lá estava o refeitório dos frades como lugar da «câmara ardente», lugar em que tantas velas arderam a iluminar a vida dos frades, que contemplavam os belos azulejos com imagens bíblicas. Como se respirava o sentimento de pesar colectivo, que levava tantos a benzer-se diante da urna que passava, enquanto certamente muitos se curvavam respeitosamente com o pensamento de «sicut transit gloria mundi» (tão transitória é a glória do mundo!). O homem grande que permanece nas nossas memórias está ali, num caixão igual a tantos outros. Mas desejamos para ele a eternidade em glória, a glória de Deus, que não é reservada apenas a alguns. Deus lhe dê o eterno descanso.

15 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CII

Hoje é dia de aniversário dos Bombeiros Voluntários da nossa cidade de Barcelos. «Carrega» esta instituição uma «pesada» história que, felizmente todos os anos, é revisitada e reapreciada pelas gentes da cidade e do concelho. Tal como outras instituições pluricentenárias, estas eclesiais, como são a Casa do Menino Deus, que ontem celebrou o seu Dia, ou a Santa Casa da Misericórdia ou a Real Irmandade do Senhor da Cruz, sem falar da Paróquia de Santa Maria Maior, bem mais antiga. É em tempo de paz que acontece o aniversário da corporação barcelense, o que permite um olhar calmo e sereno, capaz de a apreciar na sua verdade de séculos. Porque quando mais se fala dos bombeiros é no tempo de verão, marcado pelos «guerreiros incendiários», que alimentam as discussões, põem a nu as políticas de segurança do país ou a in/justiça dos Tribunais a quem as forças policiais confiam os incendiários. E nesta «guerra» sobra sempre para os bombeiros, como se estes deixassem de ser pessoas com direitos mas apenas com obrigações de fazer os impossíveis e até colmatar os buracos de outros intervenientes no processo.

Celebrar 134 anos é celebrar a maturidade de uma instituição, que não se pode dar ao luxo de, no hoje, deixar de pensar o seu passado, a quem deve ser fiel. E de uma fidelidade inovadora porque o ser humano e a sociedade onde vive evolui. Atrevo-me a dizer que, não sendo fácil hoje manter um corpo de voluntários - um certo «profissionalismo» é cada vez mais indispensável - haverá sempre lugar para o voluntariado e que, sem este, muito ficaria afectada a matriz da corporação. Uma matriz que faz parte da «alma» barcelense, que reconhece o «fim da linha», às vezes também o «princípio da linha» quando a desgraça lhe bate à porta.

Também à mesa sei o que custa - e admiro-o - ouvir o toque e, acto imediato, se deixar tudo. Com bombeiros na família, admiro a resposta pronta quando alguém está em perigo. Dizem-se voluntários, e são-no no uso mais nobre da palavra: livres na decisão, assumindo os riscos e sem pensarem em qualquer recompensa. Partem sem saberem o que, de facto, vão encontrar. Arriscam «vida por vida». Sabem quando partem mas não sabem quando e como regressam. E nada disso interfere na sua decisão imediata.

O voluntarismo dos bombeiros é muito antigo, parece não estar em crise como em tantos outros sectores da sociedade, marcada esta por calculismos e interesses pessoais ou corporativos. E sem ele, qualquer corporação amputaria da sua história o «coração» que a fez grande.

Este voluntarismo, seja na sociedade civil seja na própria Igreja, está hoje em risco. O ritmo infernal das nossas vidas sacrifica mais facilmente aquilo que não nos é imposto. Ou seja, se o voluntarismo é uma grande afirmação da liberdade pessoal, esta está hoje mais «cara» do que outrora. A capacidade de se afirmar na sua dignidade pessoal, e de assumir decisões pela sua própria cabeça, em obediência à consciência pessoal, é hoje cada vez mais difícil, tantos são os lobbys e pressões, mais agressivos ainda diante dos imediatismos e relativismos, que tudo reduzem ao sucesso de momento, mesmo que se desrespeite a história ou se esteja cego quanto ao futuro.

O que seria da nossa Igreja, das nossas Paróquias sem o voluntariado de tantos leigos que, em comunhão com os seus pastores, não desistem diante das dificuldades? Entre nós, crentes, dizemos que tudo se deve fazer «com os olhos em Deus», sem a subserviência às recompensas humanas desejadas, sonhadas ou mesmo prometidas. E aí está a verdadeira liberdade. A tal liberdade profunda que se admira na acção dos Bombeiros.

Parabéns aos nossos bombeiros da cidade nestes 134 anos de vida.

8 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CI

Falar da Paz é inevitável. Antes não o fosse. Iniciar o novo ano com um apelo à paz acontece, por parte da Igreja, pelo menos nos últimos 50 anos. De facto, foi em 8 de Dezembro de 1967 que o Papa Paulo VI instituiu o primeiro dia do ano civil como Dia Mundial da Paz, tendo lançado a sua primeira mensagem para o primeiro, celebrado a 1 de Janeiro de 1968, pelo que se completam hoje 50 anos de «abanão» das consciências para tantas guerras inúteis e tantas injustiças que os mais pobres e inocentes, sobretudo eles, pagam com a própria vida.

A urgência da paz é maior ainda nos nossos tempos. É caso para nos perguntarmos: valerá a pena nela insistir diante da ineficácia comprovada pelos constantes novos focos de guerra que surgem?

Claro que teremos de dizer que vale a pena. O cristão não pode calar-se diante das injustiças. Logo, o Papa não poderá nunca calar a sua voz de denúncia e de anúncio, encorajando os povos todos a uma tomada de consciência de que somos todos irmãos e encorajando a tomada de medidas que comprovem que a Humanidade seja cada vez mais tolerante para com os diferentes, em cultura, bens ou tradições religiosas. Mesmo aqueles que não perfilham a nossa fé cristã, ou se digam sem fé, mesmo assim todos, sem excepção, são detentores de iguais direitos, que todos devem respeitar. Até porque são filhos do mesmo pai, na visão cristã.

Quando se diz que a mensagem do Papa abana as consciências, diz-se que nunca está terminada a tarefa de cuidar do interior da pessoa humana, educando-a para a paz, ou para a justiça e respeito entre todos. Educar para a paz até foi título de uma das mensagens papais.

Enquanto isto, urge incentivar a dimensão profética da denúncia, por todas a formas possíveis, dos mecanismos de corrupção existentes e da hipocrisia espalhada um pouco por todo o mundo que, enquanto nos palcos diplomáticos se reconhece a necessidade de restabelecer a paz, continua o comércio ignóbil de armas, fornecidas aos grupos em contendas, mesmo que em contradição com decisões internacionais. Se o lobby das armas é demasiado poderoso para aceitar «imposições, mesmo que internacionais, como poderá acolher o apelo do Papa?

Apreciei que surgisse na nossa Paróquia um grito corajoso a fazer-nos saltar para a rua clamando pela paz, numa altura em que as nossas sociedades já se habituaram a cruzar os braços diante de tantas barbaridades que os media nos fazem entrar pela casa adentro. Pensamos que tudo se passa ao longe e procuramos não nos incomodar. Será possível, como cristãos, ficarmos calados diante de tantas atrocidades? Não nos demos conta ainda de que os cenários de guerra se vêm multiplicando e acontecem cada vez mais perto de nós? Quem pode dizer hoje que vivemos em total segurança? Os fenómenos recentes de terrorismo urbano revelam que ninguém se encontra totalmente seguro.

Vir para a rua gritar pela paz, além de a rezarmos porque se trata de um dom de Deus - mesmo para aqueles que não acreditam e não a consideram assim - terá certamente um efeito evidente em cada um que participar na Marcha pela Paz: o de se pensar comunitariamente e em solidariedade com todos os afectados pela guerra; o do compromisso em estar atento a tantas situações em que se torna agente de violência ou de incompreensão à sua volta; o de se assumir como irmão de todos os outros, não lhe impondo pensamentos ou atitudes que, parecendo boas, «únicas» e até inquestionáveis, nunca tem o direito de forçar a consciência do outro.

Quando um dia, já lá vão 20 anos, participei numa manifestação de repúdio pelo acto de terrorismo que matou vários monges de Tibherine (Argélia), sei o que quis exprimir e o que senti com a minha revolta, publicamente manifestada: para que nunca mais seja necessário vir para a rua para reivindicar aquilo a que todo o ser humano tem direito: a VIDA.

1 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - C

«E o Verbo fez-Se carne e veio habitar no meio de nós». Essas palavras, tão repetidas, particularmente na época natalícia, terão ainda sentido? Faço a pergunta motivado pelos tão diversificados discursos sobre o mundo complexo em que vivemos, no qual, desde a política à religião, tudo aparece valorizado e desvalorizado ao mesmo tempo, com ar de novidade e repetido ao mesmo tempo e em que muitos acreditam em tudo enquanto outros não acreditam em nada.

Quando Bento XVI denunciou, em termos muito próprios e realistas, o relativismo ético que caracteriza a sociedade contemporânea, longe estava eu de imaginar que, poucos anos depois, poderíamos ver um relativismo mais radical ainda do que o sentia na altura. Para onde nos dirigimos nós, afinal, neste tempo em que o relativismo evoluiu para um «pós-verdade », que despreza a objectividade dos acontecimentos e da realidade, ou para a ideologia LGBT, em que a realidade biológica e natural é sacrificada pelo desejo, tantas vezes imposto por grupos marginais mas poderosos, mais poderosos até que aquele poder que surge do exercício do voto democrático livremente expresso? Ou até poderemos perguntar se hoje é possível, em determinados contextos, usar da liberdade pessoal que as democracias tanto se ufanam de proclamar. Não duvido de que a liberdade de hoje é uma conquista tanto mais difícil e onerosa quanto a vertiginosa máquina da comunicação evoluiu, sem regras claras quanto ao seu uso, que balizem os abusos de alguns poderosos.

Nos discursos políticos, tudo aparece com uma honradez intocável. Um pouco de atenção, no entanto, basta para se perceber que a realidade é outra por baixo da máscara. Basta parar um pouco diante dos discursos e práticas políticas: o que a oposição condena é o mesmo que ela faz quando passa a governo. Ou seja, esquece-se a coerência, que poderia traduzir-se em honradez ou fidelidade à palavra dada, valores outrora intocáveis mas que hoje se evocam segundo as conveniências e conforme os quadrantes políticos. Diz-se mesmo que quem honra, no campo político, a palavra dada, perde sempre em eleições. E admiramo-nos nós dos populismos e radicalismos emergentes nas sociedades contemporâneas?!

Optimista como sou, espreito os sinais que, nos mais diversos quadrantes das nossas sociedades, vão surgindo a advertir que não se pode continuar sem uma ética de valores que permita de facto a justiça social e fundamente a esperança natural das jovens gerações.

Os casos prementes e chocantes dos atentados terroristas têm merecido páginas e páginas de discussões e análises quanto aos porquês. Quanto a mim, eles revelam os vazios da sociedade, os seus falhanços nas últimas décadas e a sua falta de resposta para as questões de sentido que, mesmo parecendo iludidas, se mantêm vivas no coração das jovens gerações. Pasme-se ao vermos como o laicismo francês, que quis levar até aos limites mais extremos a separação da religião e da política, a ocupar-se agora de controlar e propor uma formação dos líderes muçulmanos segundo a sua «ética republicana». Será o cúmulo da desfaçatez que, mesmo assim, impede de reconhecer que a trajectória imposta sobre os franceses, nas últimas décadas, falhou redondamente. Posto de lado o quadro de valores que deu origem à «igualdade, liberdade e fraternidade», mesmo assim permaneceu a sociedade, que tem alma e tem história, à mercê daqueles que, em nome e seguindo as próprias leis da república, delas abusam para impor outro e diferente quadro de valores totalmente desajustado da realidade histórica de uma nação fundada e desenvolvida nos valores do cristianismo. E, entretanto, volta a ser Natal. Deus fez-Se Palavra para viver no meio de nós. Será que há lugar, nas sociedades modernas, para a doçura de uma criança cuja mensagem se reduz àquilo de que todo o ser humano precisa: vive em paz com aqueles que te rodeiam, que são os teus irmãos.

25 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCIX

Fui, há dias, visitar os doentes da Paróquia. Não fiz mais que o meu dever de pároco. Ao menos duas vezes por ano. Há colegas que o fazem todos os meses. E sabemos como os que estão em casa estimam a visita do sacerdote. Ele é aquela visita que marca a diferença.

Seja pela dimensão espiritual, às vezes tão esquecida ao longo da vida, mas que a doença ou idade faz voltar. Seja pela «novidade » que a conversa traz em relação a outras visitas. Seja pela discreção e sigilo, que lhe reconhecem. Seja pela atenção personalizada e desinteressada. Seja pela confidência que experimentam. Seja pela resposta segura e esperançosa que dele esperam. De facto, o padre não é o advogado ou notário, não é o pretenso amigo para influenciar decisões, não é o médico que vai determinar o cálculo do desfecho final ou carregar com mais medicamentos ou chamar a ambulância para levar ao hospital para onde se não quer ir. Não é aquele familiar próximo cujas manhas e segundas intenções se temem. O padre é, normalmente, para um doente ou velhinho que não sai de casa, aquela visita que marca a diferença e que faz a ligação com o tempo passado e com o tempo futuro, aquele que, desligado de qualquer interesse momentâneo ou arquitectado no tempo, simplesmente está ali, ao lado, mais para ouvir do que falar, e tornar presente Aquele que se deseja mais que nunca presente, o Jesus que se ama, ou a lembrar-nos que, mesmo esquecidos por todos e alheio para todos, Deus está presente, «esquecido» do passado, acolhendo sempre e de novo. O Padre, numa palavra, é, ali, a Igreja de que tenho saudades, a comunidade crente cujo calor já não sinto, a minha Paróquia ou a Igreja que vem até mim, quando eu já não posso ir até ela.

Estas foram reflexões desta «volta aos doentes». Com elas pude dar graças a Deus pelas coisas boas que vi e que me levaram, de modo geral, a deixar a todos uma palavra de esperança e de gratidão «pelas maravilhas que Deus operou» na vida de cada um. A aproximação do Natal, este ano no contexto de uma Mãe, a Senhora da alegria que dá à luz e se manifesta grata e contemplativa, levou-me a convidá-los a serem reconhecidos pelo bem que têm, evitando lamentar-se com os bens que não têm. É que vi e apreciei o cuidado dos que os rodeiam, o apoio institucional que recebem - que bom trabalho prestam as equipas de apoio domiciliário - a ligação hoje cada vez mais facilitada ao mundo que nos rodeia através da rádio e televisão - que bom ver que tantos acompanham o terço diário da Rádio Renascença às 18.30 e outros até seguem a Canção Nova, hoje presente em quase todos os pacotes de canais de TV pagos (como seria bom que as famílias dessem essa prenda aos seus acamados!).

Dá gosto ver como aqueles que passaram a vida com hábitos de vida cristã, a missa dominical com a comunhão e a confissão, valorizam a presença sacramental do sacerdote ou a do ministro extraordinário da comunhão. Fiquei feliz ao reconhecer a necessidade que alguns sentiam de me certificarem do bom serviço daqueles que lhes levam a Sagrada Comunhão ao domingo, como também estes se sentem gratificados pelo serviço que prestam ao contemplarem os rostos agradecidos pelo «Senhor» que entra na casa deles.

Também eu aprendi e aprendo muito nestes contactos pastorais. Como acontece quando contemplo a serenidade com que o meu pai passa os seus dias nos 91 anos que conta: o envelhecimento é um processo de corte com o passado, com as coisas, com as pessoas. É sempre difícil e custoso. As «queixinhas» dos idosos revelam a criança a que voltamos e a insatisfação que carregamos. A aceitação da realidade da doença ou da velhice não é fácil para ninguém. Mas é mais fácil para quem acredita: entre o «esperar a morte inevitável» e o «esperar o encontro com Deus», vai uma grande diferença. Que muitos entendem, felizmente.

18 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCVIII

Estaremos em mudança de rumo? Apesar de genérica, a questão baila no espírito de muita gente. Que andamos em TGV, ninguém o duvida. Todos o sentimos e, os mais velhos pelo menos, nos perguntamos para onde corremos. E não sabemos. O ritmo alucinante da nossa sociedade de consumo, em que tudo se reduz à obtenção de bens materiais, fáceis, rápidos e baratos, gera muitos excluídos e obriga a sacrificar a contemplação desejada e necessária.

Creio bem que estamos a tomar consciência de que é necessário um outro modo de organização da vida pessoal e social. As chamadas crises são o sinal de alarme de que as coisas não vão bem: somos menos livres, sujeitamo-nos a ritmos que nem todas as personalidades suportam e, se queremos o pão necessário para comer, não podemos deixar de entrar na «engrenagem» que, bem depressa nos leva a sentir autómatos, «máquinas» de produção e números de consumo. A esta economia liberal tem de suceder, e rapidamente, uma outra mais humana, dizemos e desejamos muitos.

Os recentes e oportunos desafios do papa Francisco, algumas vozes concordantes pelo mundo que se ouvem cada vez com mais força, os «abanões» recentes pela nossa Europa fora, governada mais por tecnocratas do que por verdadeiros estadistas conhecedores da alma dos povos (cada povo com especificidades próprias, a serem respeitadas), as politicas falhadas e reveladoras de interesses tantas vezes abjectos que são mais fortes do que o sofrimento injusto imposto a populações numerosas, as guerras fratricidas tantas vezes alimentadas do exterior, tudo isto faz pensar que estamos a bater no fundo e só nos resta a coragem de parar para pensar e contemplar a política de terra queimada, que é preciso substituir.

O apelo repetido do Papa Francisco à contenção nos gastos para que o Natal, livre do egoísmo e da corrupção, volte aos valores que o tornam «sagrado» e único, ou o dos bispos que denunciam as campanhas «mascaradas» de solidariedade, bem poderia marcar a diferença, dando aos dias que nos separam do Natal a necessária calma de modo a podermos saborear a noite de Consoada, em conversa amena uns com os outros, «desligados» dos telemóveis em mensagens de última hora, dando atenção aos de longe e esquecendo os que estão ao lado. É que naqueles que nos rodeiam à mesa é que se encontra o verdadeiro sentido desta noite tão especial: no «outro», pai, mãe, irmãos, avós ou até o que foi encontrado sozinho na rua, está o verdadeiro Messias por quem chamámos no Advento. O Menino Jesus é, tantas vezes, o verdadeiro ausente, quando já há muito que não tem lugar à mesa da família. Não será tempo de parar para pensar: sem Ele, hão-de impor-se os violentos e os herodes, quais sanguessugas daqueles que não têm saúde, dinheiro ou inteligência suficientes para lutarem pela sua própria dignidade. Sem Ele, as sociedades tornam-se cada vez mais frias e injustas, violentas e corruptas. É que Ele, na sua candura de Menino, sem exércitos que o protejam, aparece sempre indefeso a denunciar que a força das armas nunca pode ser superior ao gesto desarmado de quem grita a sua própria liberdade.

As cidades vestem-se de luz por estes dias. E Barcelos não foge à regra. O colorido da cidade iluminada merece ser apreciado. Saberemos nós que tantos milhares de lâmpadas, grandes e pequenas, se tornam, neste mundo escuro e com os horizontes demasiado baixos, um convite a olharmos para a Luz? Sim, a do Menino de Belém, que quer chegar a todos. Mudança de rumo, dizia no início. Creio estar a ler bem os diversos sinais, espalhados um pouco por todo o mundo. Acredito que eles me dizem que é chegada a hora de reconhecer a trajectória de abismo que levamos porque, como Herodes outrora, quisemos matar o Menino de Belém. Mas, entretanto, todos os herodes morreram. E o Menino, continua vivo, sim ou não? Cada um tem a sua resposta.

11 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCVII

Nesta por muitos classificada «feira de vaidades», são muitas e diárias as surpresas. Às vezes, tais surpresas são tidas como acidentais, passageiras, não lhes dando relevância no momento. Tempos depois, porém, elas impõem-se-nos como importantes, quase até como imprescindíveis ou únicas.

Quem diria, há uns anos atrás, que certos extremismos, de esquerda e de direita, chegariam ao ponto de se nos imporem, como se não houvesse um passado a determinar uma progressão sensata e metódica, encaixada sem sobressaltos na experiência humana de séculos?

Vejamos como, no espaço de uma década, as questões fraturantes se impuseram à nação portuguesa, e a outras, e se apresentam saudadas como progressismo, modernidade ou ambições de seguir no pelotão da frente da evolução da humanidade. Que pena que seja em tais questões que Portugal, ou Espanha, se queiram posicionar na frente, quando em tantas coisas bem mais essenciais, nos encontramos na cauda.

Vem isto a propósito da anunciada tentativa de impor também a eutanásia, mesmo sem debate público, a um povo pacífico e pouco crítico, ignorando o grito da consciência colectiva, no contexto de valores a respeitar, que foram construindo, ao longo dos séculos, a identidade nacional. Para não falar já da ideologia de género, tão viva noutros países, sobretudo na vizinha Espanha, que pretende revolucionar tudo e todos, ao «impor» uma interpretação de fenómenos colectivos ou tendências extremistas capazes de criar um novo tipo de sociedade, porventura fruto de mentes delirantes e perversas. Com que então não nascemos fisicamente homem e mulher, mas antes podemos definir, segundo critérios ou tendências subjectivas, o sexo de cada um? Porque mais importante que a biologia, ou a natureza, é o gosto ou a interpretação, o desejo sem limites ou a curiosidade de tudo experimentar? A que ponto chegámos ou estamos a chegar, quando se «educa» as jovens gerações de modo a que «escolham» o sexo que querem, em vez de se aceitarem como são ou no respeito da natureza? Parece que o pretenso «desajuste» físico e/ou mental, implica «ajustá-lo» ao capricho pessoal em cada etapa do desenvolvimento humano. Que beleza e que dom de Deus este de gostar de si próprio, desde a mais longínqua consciência de si até ao momento presente!

Como se não bastasse a invasão de leis e costumes concordes com a perversa ideologia de género, eis que surge, agora, um conceito várias vezes repetido nos últimos tempos, sobretudo em ambientes de discussão política. O pós-verdade parece querer impor-se num sentido muito perigoso ao pôr em causa a objectividade dos acontecimentos. Porque estes são o que são, independentemente das interpretações ou dos diversos ângulos a partir dos quais são olhados. Não vão longe os tempos em que, em certas discussões políticas, se sabia de antemão, a postura de adversários diante do mesmo acontecimento. A «cartilha» era antiga e tudo era observado, na realidade evolutiva, pelo que estava determinado na «cartilha» do marxismo-leninismo: mesmo diante de uma derrota evidente, havia sempre quem se considerava vencedor «dando a volta ao resultado». Pobres de nós se a objectividade dos acontecimentos deixar de ser respeitada, ficando à mercê das interpretações subjectivas, sujeitas aos interesses momentâneos de cada um.

«Pós-verdade é a palavra do ano 2016 para o dicionário de Oxford. Para aquele respeitado dicionário, pós-verdade é um termo que define «circunstâncias nas quais os factos objectivos são menos influentes na opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais», leio eu hoje (30/11) no artigo de Carlos Zorrinho. E vamos, depois, queixar-nos dos populismos e outros movimentos de tendência extremista, quando reconhecemos o abandono generalizado do respeito pelos valores e identidades, construídos ao longo de séculos, como se não tivéssemos um passado de memória e de experiência partilhada no respeito de uns pelos outros! Para onde caminhamos nós, afinal? Não quebro a minha esperança e creio num futuro melhor. Mas não me dispenso de um olhar crítico e realista.

4 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCVI

A chamada «cultura de morte», como a classificou o saudoso Papa João Paulo II, ao desviar as atenções para uma vida sofregamente vivida, voltada exclusivamente para as satisfações mundanas ou materiais e biológicas, alheada ao transcendente - uma cultura que se impõe afastando Deus do quotidiano pessoal e reduzindo cada vez mais os sinais religiosos na praça pública - retirou do horizonte humano aquela certeza inquestionável de que um dia vamos morrer. Sem fé, o humano fica reduzido ao espaço e tempo, e o sentimento de solidão agrava-se cada vez mais criando terríveis desequilíbrios que confirmam que o homem precisa de se confrontar permanentemente com Alguém, mesmo que seja para O contestar. Claro que, se vamos morrer e não há mais nada para além da morte, então vale tudo e para quê ética e moral, para quê pensar em «dar contas» ou agir com responsabilidade perante si e perante os outros? A morte é para afugentar e, pela dor que supõe, inegável para todos, basta-nos viver o melhor possível estes «dois dias porque o primeiro já passou». Se nos espera o nada...

Nos finais dos anos oitenta, os bispos europeus reunidos em simpósio, chamaram a atenção para as consequências no futuro, da «privatização da morte», tornada solidão, afastando-a do contexto familiar e afugentando-a para uma cama de hospital, tida como mais confortável e rodeada de técnicos capazes de acalmar a dor.

Trazer a morte para a reflexão e, sobretudo, ajudar a conviver com a ideia da morte, diminuindo-lhe o medo que nos causa só em pensar nela, é missão do anúncio libertador que Jesus confiou à sua Igreja. Cuidar do «discurso» sobre a morte, ajudando a considerá-la à luz da fé num Deus misericordioso é tarefa urgente. E é isso mesmo que o Arciprestado de Barcelos tem feito desde há quatro anos, promovendo uma conferência sobre a morte e o além.

Na passada quarta-feira, uma vez mais o Auditório Municipal - cuja cedência agradecemos ao Município - se encheu para o ouvir o P. Doutor Manuel Matos, Vigário Geral da Diocese da Guarda, que veio, pela segunda vez, a Barcelos para expor em linguagem teológica e acessível ao auditório, o fruto das suas reflexões, editadas em livro com o título Ressuscitarão os mortos?

As 270 pessoas presentes apreciaram a clareza da sua exposição e saíram confortadas com o convite a deixarmos ser Deus, Pai de Misericórdia, a revelar-se presente no processo do morrer que acontecerá com todos.

A destacar, avaliando as perguntas que foram feitas no momento do diálogo que se seguiu à exposição, a «qualidade» das perguntas que alguns quiseram fazer. Na minha observação, elas revelaram que estamos no bom caminho dado que foram já mais elaboradas e reveladoras de que um novo «discurso» sobre os «novíssimos» se vai acolhendo, pesem embora as naturais dificuldades de um dizer o mistério - o de Deus e o dos homens, bem como a salvação eterna ou bem-aventurança em Deus - que sempre nos ultrapassa.

Pela primeira vez, entretanto, através do facebook da nossa Paróquia, cinquenta pessoas seguiram em directo a conferência e deram o seu «Gosto», o que nos faz pensar em criar as condições técnicas necessárias para uma emissão de qualidade em futuras actividades.

Que a morte inevitável possa ser «acolhida» e integrada no processo da nossa vida quotidiana, no nosso mundo de relações com os outros e com Deus. Porque o pensar a morte e trazê-la para o nosso mundo só se justifica para dar qualidade à nossa vida e Deus criou-nos para sentirmos a vida como dom, como liberdade e como compromisso de uns com os outros no amor.

27 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCV

Surpreendendo a todos – talvez só ela pressentisse o que viria a acontecer - a Rita Ricardo partiu ao encontro do Senhor. Foi a sua ressurreição, que a fé, tantas vezes por ela reflectida, nos permite afirmar. Porque ela procurava o sentido do seu viver e encontrava-o na experiência quotidiana da relação rezada e pensada com o “seu” Senhor.

Alguém me dizia que seria o funeral mais participado nos últimos tempos em Barcelinhos. Na minha atenção à assembleia numerosa, pude observar muita gente dos diversos grupos paroquiais de Barcelos em conjunto com os paroquianos de Barcelinhos, a cuja Paróquia pertencia. Sinto-me feliz por poder reconhecer que ali estavam pelas mesmas razões que eu, as do coração mais do que as da obrigação. De facto, eu senti que ali deveria estar comungando, como os outros, familiares e amigos, da mesma dor da perda e fazendo o luto, de que cada coração precisa.

As exéquias celebradas foram belas pela simplicidade e sentidas como convinha a todos os que a viram viver da fé. Convinha que assim fosse, porque a Rita era pessoa simples mas dedicada aos outros, “artista” na conciliação do seu tempo doado à família, ao trabalho e à Igreja. Admirei como ela procurava a inteligência da fé (participava semanalmente na catequese de adultos) e a conciliava com a doação generosa à Igreja, não só em Barcelos, que conhecia, como em Barcelinhos, que desconhecia.

O Pároco de Barcelinhos, que presidiu, foi feliz ao evocar a sua missão de sal da terra e luz do mundo, a missão que Jesus pede a cada um dos seus discípulos. E ela, a Rita, desempenhou-a de uma forma muito especial, bem conhecida e admirada pelos seus familiares mais diretos, mas também reconhecida por muitos outros, confirmando o que o Evangelho diz que a luz não se pode esconder mas que, quando acesa, ilumina tudo à sua volta.

Obrigado, Rita, pela tua fé e pela riqueza do teu testemunho, que não poderemos esquecer.

Partiste. Vives no Senhor. Ressuscitada, venceste a morte. Procuraste o Senhor glorioso. Encontraste-O. Nós continuamos por mais algum tempo, nesta terra que queremos transformar em Reino de Deus.

Em intensa jornada teológica vivida logo a seguir, na Universidade de Comillas, dedicada ao Céu, pude repensar todas as minhas convicções de fé à luz das mais recentes investigações teológicas acerca das experiências relatadas pelos santos e pelos místicos, bem como as representações do céu ao longo da história- e dei graças a Deus pelo dom da fé, que me faz ver mais longe e perceber que a relação com Deus torna o mundo divino, pois é no humano que Deus encarna e que, encarnando, forma neste mundo o Céu, a morada de Deus.

De facto, o Céu é pensado pelo crente como o ponto de chegada da sua caminhada no mundo. Mas, neste entretanto, assim como podemos fazer da nossa terra um inferno, também podemos fazer dela um Céu.

O anseio e a busca da eternidade perseguiram o ser humano desde os primeiros momentos de consciência humana. Na sua convicção de que a morte não é fim, mas transição e abertura definitiva para a vida, a história da humanidade foi representando de muitas e diversificadas maneiras este desejo e esta visão do “mais além”.

A Rita passou do aquém para o além, do real para o mais real, do temporal para o eterno. Porque a fé provoca e não deixa no descanso - pobres dos que pensam que a fé nos descansa em vez de inquietar, pois seria o ópio – somos convidados a CRER no hoje da Rita na glória de Deus e não no ontem, entre nós.

20 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCIV

São 13.00 de segunda-feira. Amanhã, por esta hora, abrirão as urnas para as eleições americanas. Também eu, como a maior parte dos europeus, falo do que poderá delas resultar a partir das visões que nos dão a televisão e os jornais, bem como as análises e as sondagens. Estas dão a Hillary mais de três pontos de vantagem. Por elas, todos dizemos, nesta véspera eleitoral, que a senhora Hillary Clinton será a nova presidente da América. Será mesmo?

Lembrei-me de pôr por escrito estes pensamentos que me invadem no antes para, depois, os confrontar com os resultados.

1. Temo que estejamos a ser enganados por uma visão «forjada» na Europa em relação à América. Não seria a primeira vez. Desde que, em 2004, comprovei que a comunicação social europeia é bastante tendenciosa em relação à América – talvez um complexo de inferioridade que não se assume face à potência que foi e ainda é a América, essa grande nação sempre presente e eficaz nos grandes conflitos internacionais, cuja intervenção na Europa foi decisiva para o fim da Segunda Guerra Mundial - que mantenho reservas sobre o que nos dizem da América.

2. Em 2004, a pouco mais de um mês das eleições americanas, chegava eu a Barcelos vindo da América. Trazia a visão de que os republicanos (George W. Bush) iriam ganhar as eleições. Duas semanas bastaram para me abalar as convicções que trazia. Sondagens e comentários davam a vitória certa aos democratas. Pois bem, ganharam os republicanos, confirmando a visão que trazia e constituíra no terreno.

3. Agora, face a dois candidatos qual deles o mais irresponsável e imprudente, que muitos preferiam excluí-los a ambos, interrogo-me como é possível que todo o processo eleitoral se tenha continuado pondo em causa, por parte de ambos, a dignidade de um povo e a sua grande história. Claro que a questão tem de ser situada nos dados que a comunicação social me transmite. Que, honestamente e por experiência, tenho de pôr em causa quanto à sua veracidade.

4. Se o candidato republicano é o que dele dizem, como pode ele ainda estar na corrida e, sobretudo, como pode ele ainda aproximar-se da candidata democrata, segundo o que dizem as sondagens? Então os eleitores americanos estarão de olhos tapados para não verem o que os europeus vêem? A verdade é que são os eleitores americanos, e não os europeus, que vão escolher.

5. Há umas semanas atrás, um casal amigo emigrante na América, em breve visita a Portugal, dizia-me que, apesar de tudo, se inclinava a votar em Trump. Para ele, atentos os valores que defende e atenta a hora que o mundo vive – as eleições americanas «mexem» com o mundo todo – Trump era para ele o mal menor.

6. Também eu me inclino para a vitória de Hillary. Mas, de pé atrás, estou preparado para uma surpresa. E fico-me por aqui, na esperança de poder continuar este texto na próxima quarta-feira.

*********************************

Volto, agora (23.00 de quinta-feira) a reler o texto que escrevi, volvidos quase dois dias, numa passagem de tragédia a drama, misturada com comédia, num «palco» que todos pisámos pois vivemos intensamente o momento como se os resultados dependessem de nós.

Segui a noite eleitoral e assisti à mudança de posições dos diversos comentadores, surpresos e até revoltados, obrigados que foram a tragar o que lhes era antes impossível.

Não me detenho a analisar o porquê da «surpresa». Não me sinto à altura nem esta é a minha missão. Apesar de tudo, simples cidadão de olhos abertos para o mundo, permito-me dizer uma palavra de regozijo porque a democracia funcionou e permitiu mudança (que pode legitimamente ser julgada para melhor ou para pior, mas, pela esperança que traz de novidade, a mudança já é boa em si mesma), de tranquilidade, porque as democracias funcionam na interdependência dos poderes (parece-me que melhor na América do que na Europa), de sensatez, porque a experiência nos diz que as promessas eleitorais são sempre repensadas antes de executadas. Se aceitamos que tantos políticos não cumpram as boas promessas, porque não havemos de confiar que, neste caso, as más também se não cumpram ou se transformem em boas? Uma coisa é certa: o mundo precisa e está num processo de mudança. Pertence-nos a todos fazer cada um a sua parte para que a novidade seja boa.

13 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCIII

A vida pastoral de um pároco tem muitas surpresas. Umas mais positivas que outras. E o «estado de abertura» a tais surpresas - aquelas que o Espírito de Deus faz surgir, ou também aquelas que são fruto dos entraves e das incompreensões humanas - é condição para o equilíbrio pessoal do pároco que, humildemente, vai reconhecendo que não passa de um «servo inútil» nas mãos de Deus, o Único que move os corações humanos.

Falo hoje de uma dessas surpresas que, porque tão inesperada, me fez agradecer a Deus e sorrir para mim mesmo, ao dar-me conta de que a acção de Deus, misteriosa e oculta no coração das pessoas, vai-se fazendo sentir.

Há tempos que vinha pensando chamar os padrinhos daqueles que se preparam para o Crisma. E ousei pedir aos crismandos que os convidassem para uma sessão de preparação. De facto, não esperava que viessem muitos. E até vieram poucos. Neste ponto, nada de surpresas. A surpresa chegou quando, em breve interpelação aos que vieram, lhes perguntei o que pensaram da minha ousadia de os convidar a acompanhar os afilhados, numa altura em que nos faltam ainda alguns meses para a celebração do Crisma.

Responderam que não estranharam o convite, o que me surpreendeu, pois aqueles poucos que vieram fizeram-no com gosto, acharam bem e ficaram honrados com o mesmo. Continuando o diálogo com estes padrinhos, verifiquei com muita alegria que o seu testemunho situava-se na verdade do que se espera de um padrinho/madrinha que, no acto do «fazer-se» um cristão, se compromete para a vida com o seu crescimento espiritual. Para eles, os que lá estavam, era normal acompanhá-los na preparação para o Crisma, porque foram padrinhos presentes no desenvolvimento do processo catequético. Claro que à minha agradável surpresa se juntava um certo ar de orgulho, quer por parte dos padrinhos, quer por parte dos afilhados.

Não gastei muitas palavras de reforço do que é verdadeiramente a missão de um padrinho de Baptismo. Eles testemunhavam que a sua missão estava no acompanhamento presencial e cuidado do crescimento da fé.

De onde vinha a minha agradável surpresa, tanto mais que eles próprios, os tais poucos presentes que aceitaram o convite, não hesitaram em falar do compromisso assumido anos antes?

Confesso que me dei conta de que estava a enveredar por um lugar comum, o do pessimismo que estiola e desencanta, acabando no desânimo e na frase tantas vezes repetida de que «não vale a pena» porque «o povo não quer, não está para isso». Tenho sido, ao longo dos meus 39 anos de sacerdócio, um contestatário da desculpa tantas vezes repetida: «o povo não quer» e «isso aqui não pega porque o povo não muda». Confirmei que vale a pena ousar e provocar a mudança, que exige seja bem explicada. Não é, ainda hoje, o Evangelho de Jesus uma Boa Nova? E se as pessoas não lhe «pegam», não será que nós, primeiros responsáveis da missão do anúncio, a deixámos tornar velha, insípida e incapaz de responder aos anseios de hoje? Não estaremos a «dar respostas» a perguntas que ninguém faz? Partilho com os meus leitores as preocupações de um coração de padre que também desanima e se reanima, que se questiona e reza para manter o entusiasmo que só pode vir de Deus. Mas sinto ser meu dever de justiça, neste acto de partilhar uma alegria bem vivida, reconhecer que a verdade vai fazendo o seu caminho. E que o «fermento» vai levedando a massa. Porque, apesar das incompreensões, vai aparecendo, de vez em quando, gente com uma seriedade no seu agir, desejosa de saber a verdade, que aprecia que se lhes diga que ser cristão implica exigências e até mudanças no seu estilo de vida, caminho necessário para a descoberta do rosto jovem de Jesus e da força e riqueza da sua mensagem, que dois mil anos depois se conserva jovial e capaz de atrair.

6 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCII

Foi notícia na semana passada.

Em documento oficial, Roma (Congregação da Doutrina da Fé) pronunciou-se sobre a cremação. Vale a pena ler o texto integral http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/10/25/0761/01683.html#POR) para ajuizarmos correctamente e não nos ficarmos pelos títulos dos jornais, sensacionalistas e redutores, já conhecidos de todos, destacando as proibições e as resistências aos novos tempos... que nunca passam a velhos.

Terá sido oportuno o assunto? Alguns dizem que seria melhor não falar dele. Por mim, julgo que a oportunidade existe, face à evolução da sociedade, cada vez mais alheia ao anúncio reconfortante da fé cristã, fundamentada na ressurreição de Cristo, o ponto de partida para os rituais da morte e do funeral religioso próprios da tradição cristã. Por outro lado, aproxima-se o dia da saudade, que faz acorrer aos cemitérios as multidões que ali encontram, ainda, o «lugar» da memória e da consolação, bem como um espaço único no fazer o luto. Gostei de ler, entretanto, um comentário assinado por Henrique Raposo (http://rr.sapo.pt/artigo/67151/cochichar_com_os_mortos?utm_medium=email&utm_source=newsletter), que recomendo.

A Instrução da Santa Sé é, para mim, oportuna. Tendo em conta que, desde 1963, que a Igreja permite a cremação, mas não a prefere, atitude que entrou no Código de Direito Canónico (1983) e face ao desenvolvimento cada vez maior da prática da cremação, é de toda a conveniência repensarmos o assunto e formarmos a consciência dos féis sobre os verdadeiros porquês da preferência da sepultura à cremação. Quando a Igreja anuncia, não o faz contra ninguém, nem para proibir, mas antes para ajudar a formação da consciência, apresentando um ideal e as razões para tal. Quem tem medo de uma discussão objectiva e sem pressões, baseada em fundamentos teológicos, psicológicos, culturais e tradicionais?

Claro que, na Instrução referida, não vêm outras respostas a outras questões porventura mais prementes. Ela diz respeito apenas «à conservação das cinzas no caso da cremação», dizendo que a sepultura no cemitério é «a forma mais idónea para exprimir a fé e a esperança na ressurreição corporal», pelo que «não pode permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa, seja o momento da sua fusão com a mãe natureza ou com o universo, seja como uma etapa no processo de reincarnação, seja ainda como a libertação definitiva da ‘prisão do corpo’».

Provavelmente, a acuidade mediática desta tomada de posição provém do último parágrafo do documento: «No caso do defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã, devem ser negadas as exéquias, segundo o direito».

Talvez que o mais oportuno actualmente seja mesmo reflectir sobre o funeral religioso, o modo como ele se realiza, o seu profundo significado, particularmente no respeito ao corpo e à sua dignidade, e na fé na ressurreição que o justifica. Porque, de facto, há funerais que não deveriam ser realizados com ritos religiosos, pois contradizem a vida e as convicções da pessoa que se vai a sepultar. E há pessoas que, legitimamente, se afirmaram não crentes ou não religiosos e têm «direito» a um funeral segundo as suas convicções. Haja ao menos uma preocupação de verdade no que fazemos. Sobretudo em momento tão marcante para uma família. E para a Igreja/Paróquia, chamada a anunciar a ressurreição de Cristo como justificação para a afirmação de que «a morte foi vencida em Jesus Cristo». O Crer na altura do funeral é apenas a continuidade do Crer ao longo da vida: «tal vida, tal morte», diz o povo.

30 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCI

Passei os últimos dias em retiro. Em Fátima. Como habitualmente.

Para um sacerdote o retiro espiritual é um dever. E deve ser uma necessidade. Alguns poderão estranhar: se o padre celebra a missa e reza todos os dias, ainda precisará de mais? Claro que sim. Também ele precisa de parar para reflectir, de «um olhar outro» sobre a sua própria existência, de fazer balanço sobre a sua vida pessoal e «profissional», mais que qualquer outro, dado que a sua «profissão» não se circunscreve a um conjunto de deveres e de afazeres. A sua vida é missão, fruto de um mandato do próprio Senhor que o envia e ao qual deve dar contas permanentemente. As avaliações mundanas do seu exercício nunca poderão ser prioritárias e conclusivas: «quem me julga é o Senhor», como dizia S. Paulo.

Como a de qualquer fiel baptizado, também a vida do padre deve estar constantemente referenciada a um centro, que se chama Jesus Cristo, para o qual devem tender todas as suas actividades, pensamentos e desejos. A verdade é que a dispersão que afasta do essencial toca a todos. Recentrar-se no essencial não é tarefa fácil. Toca o interior de cada um e a agitação do fazer e de tudo fazer esgota, cansa e dispersa.

O retiro é esse tempo de graça, de procura de calma interior, de tomar consciência da fragilidade, do pecado e da consequente necessidade da graça de Deus. O autodomínio e a boa gestão do tempo não são fáceis para ninguém. Mais ai daqueles, e até daquelas empresas, que não fecham para «balanço». E quanto mais vivemos em função dos outros – e o padre vive uma missão em que o Outro, contemplado nos outros, assume prioridade – mais facilmente nos esqueceremos de nós próprios. E quando dispersos interiormente, sem nos centrarmos no Senhor, menos eficaz mas mais cansativa será a acção pastoral em favor dos outros. Não é por acaso que o retiro espiritual é prática muito antiga na Igreja e sempre recomendada, não só aos padres e religiosos, como, felizmente, também aos leigos.

Gosto de o fazer em Fátima. Com padres das várias dioceses. Desta vez, éramos 24, de norte a sul de Portugal.

Todos sabemos o que Fátima é no nosso país e para a espiritualidade de cada um. O ambiente sacro, nas imediações do Santuário, favorece o recolhimento. Os grupos de peregrinos que louvam Nossa Senhora e rezam na Capelinha dão-nos a dimensão de uma Igreja universal que, nas várias línguas, elevam um clamor em uníssono da terra ao céu. Rezar com eles ajuda-nos a interiorizar que, como eles, precisamos de Deus e do seu perdão para os nossos pecados, precisamos de nos situar diante do apelo à conversão e de renovar o nosso compromisso de que somos padres para o povo de Deus e não para nós próprios.

Claro que tudo seria diferente se não me afastasse geograficamente do território de missão que é o meu habitual. A distância geográfica favorece o «corte» com as preocupações diárias, como favorece também o olhar sobre elas mais objectivo, menos intenso e, logo depois, mais intenso, porque com maior entusiasmo.

Vou-me apercebendo também de que são muitos os grupos que promovem retiros espirituais. Como também de pessoas que procuram mosteiros e conventos para uns dias de reflexão pessoal. E mesmo grupos de jovens já programam os tais dias especiais para oração e experiências de oração em grupo. São os tais momentos que constituirão no seu futuro marcos de referência a dizerem que, ali, valeu a pena ser gente, valeu a pena dizer-se cristão. E num mundo cada vez mais vazio de valores mas carregado de experiências mundanas intensas, um retiro será sempre uma ilha ou oásis de paz, ao qual se voltará muitas vezes em pensamento de memória feliz.

23 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XC

Fátima ocupa um lugar único na espiritualidade e na religiosidade de tradição católica. Ninguém o discute. E Portugal, que nos últimos cem anos, mudou muito, não se alheou de Fátima nas suas mudanças culturais, pese embora o intenso e agressivo laicismo que se impõe cada vez mais na sociedade portuguesa. Apesar de tudo, as televisões lá reconhecem que com Fátima os níveis de audiência pesam.

Cem anos depois, terá ainda sentido falar de Fátima e da sua Mensagem? Os entendidos dizem que sim. Os menos entendidos, alheios às discussões, não se dispensam de, actualmente por tudo e por nada - a autoestrada assim o permite - lá passarem para um «olhar filial» atirado para a imagem branca da Senhora, no indiscutível conforto que todos sentimos ao contemplá-la.

Historiadores registam e até insistem na influência da Mensagem de Fátima na queda de ditaduras ferozes, sobretudo do comunismo, contribuindo para uma nova reconfiguração da Europa.

Desde 1917 que a Mensagem de Fátima nos questiona e questiona os pensadores. O tal terceiro segredo de Fátima, finalmente revelado, fez correr rios de tinta. As suas «profecias», algumas delas, se não todas, já cumpridas, inserem-se no teor das grandes mensagens bíblicas, acautelando excessos de apropriação dos bens por alguns, sempre geradores de novas injustiças e guerras e lembrando que «Deus não dorme». O apelo à conversão, ao respeito pela criação e sobretudo ao respeito pelos direitos humanos, sem excepção, ocupam o núcleo da Mensagem de Fátima. Teremos ocasião de reflectir sobre tudo isto na conferência que a Ir. Ângela Coelho, médica de profissão, vai proferir em Barcelos, no Auditório Municipal, às 21.30 de quarta-feira, 26 de Outubro, numa iniciativa do Arciprestado.

E de onde vem a importância de Fátima? Certamente que a primeira resposta é a do desígnio de Deus: a Senhora veio como Mensageira de Deus deixar uma marca única neste seu Portugal, outrora bem conhecido como Terra de Santa Maria. Ela encontrou nas três humildes crianças a disposição interior capaz de uma entrega fiel e total à Mensagem que Ela queria deixar ao mundo. Depois, porque a religiosidade dos portugueses há muito que se desenvolve à volta do culto mariano. E nestes cem anos, como outrora os navegadores, foram os emigrantes que, ao partirem para longe da Pátria, não deixaram de levar com eles a Imagem de Fátima e de, à volta dela, construírem, nos países de acolhimento, a sua maneira de estar e de viver. As procissões de velas, as peregrinações a Santuários e mesmo nas igrejas onde se reúnem como comunidade portuguesa inserida na igreja local, tornaram-se marca identitária do portuguesismo no mundo.

Há ainda uma dimensão a não descurar: as fragilidades da vida, as doenças, os desafios enormes que, quer em tempos difíceis pela falta de pão ou de cultura, quer nos tempos de maior prosperidade económica, ainda que marcados por crises eventuais, levam sempre homens e mulheres a um refúgio no divino ou no transcendente. Mesmo que a religião possa ser considerada por espaço de refúgio ou, pior ainda, de alienação, o certo é que todos os povos precisam de transcendência, de religião, de resposta na sua aventura inata de se atirarem para o futuro. É verdade que a nossa religiosidade precisa de muita iluminação, ou seja de referência permanente à Palavra de Deus, que encontramos na Bíblia, não o escrito morto que alguns consideram, incapazes de saírem do seu gueto religioso ou de evoluírem para o dinamismo de uma Palavra viva e sentida quando a relação com o transcendente penetra no íntimo da alma humana. Essa Palavra acolhida, razoavelmente compreendida, torna-se luz a gerar pessoas livres e libertadas de medos que escravizam.

Os olhares de fé, que as televisões destacam nos peregrinos de Fátima, dizem o indizível da alma humana, com os seus dramas e as suas esperanças. Diríamos que é em Fátima que melhor se exprime a alma portuguesa e que Fátima é justamente olhada como o altar do mundo. Possam as celebrações do Centenário das Aparições contribuir para a redescoberta da Mensagem de Nossa Senhora, permitindo ressurgir a fé tantas vezes adormecida em tantos sectores da sociedade portuguesa.

16 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXIX

O «São Miguel» é bem mais que a referência a uma data do calendário litúrgico ou a um anjo de especial importância nas crenças religiosas ou relatos bíblicos. O 29 de Setembro situa-se no início de Outono, ligado às colheitas. E às vindimas.

A Bíblia está cheia de referências à alegria do povo que vê nas colheitas o dom de Deus e, exultante, cria rituais celebrativos para louvar a Deus. E quem não gosta de «entrar» nas vindimas para saborear aromas e frutos de um trabalho de largos meses, desde a poda ao gesto de sulfatar e cuidar da vinha até que os cachos ganhem forma e cor, convidando à colheita?

Bem, duvido que seja assim nos nossos tempos, quando as nossas crianças deixaram de saber o que é lavrar um campo, levar as vacas ao pasto ou à ordenha, semear, sachar, mondar e regar o milho, retirar o estrume para adubar as terras e outras coisas mais que marcaram a infância de muitos e hoje são lembradas com saudade. Aquela simbiose da terra com o sol, do campo com a eira, da chuva e do nabal, tudo num ritual adequado às estações, que termina sempre de igual modo: a colheita dos frutos do trabalho na consciência do louvor ao Criador que, mandando chuva e sol na justa medida, que só Ele sabe, se torna o elemento mais importante para que se possa celebrar a colheita como dom a agradecer sempre.

Quando há dias participei na vindima na Casa Clementina Rosa, a propriedade doada à Paróquia pelo Sr. Manuel Esteves e sua esposa Gracinda, lembrei-me da minha infância sempre ligada à terra e ao trabalho manual. Sempre me orgulhei de ter preenchido com o trabalho agrícola a minha vida até à ordenação sacerdotal. E até depois. E agradeci a Deus ser filho de lavrador e de poder voltar com saudade a esses tempos. Lembrei o equilíbrio pessoal entre o físico e o mental, o cansaço físico que postula um bom descanso nocturno, a contemplação dos ritmos da natureza que nos enche a alma e evita as depressões e a necessidade dos medicamentos para dormir... Nesses tempos nem se conhecia a palavra depressão. O povo das nossas aldeias cantava, juntava-se nas desfolhadas ou na apanha do sargaço e na inter-ajuda nos trabalhos do campo. E cantava-se. Mesmo ao desafio. E as canções religiosas misturavam-se com as profanas... Lembrei tudo isto há dias enquanto dava graças a Deus pela colheita de qualidade superior à quantidade. E pude louvar a Deus pelo esforço, às vezes exagerado e superior às forças físicas, do senhor Manuel Esteves, que podou, sulfatou, cuidou, preparou a vindima, cuidou do vinho. Para que, agora, esperemos alegremente o «São Martinho» para provarmos o bom vinho. Ao senhor Manuel Esteves e a todos aqueles que o ajudaram vai um agradecimento especial, que apresento em nome de todos os paroquianos, que bem se devem sentir agradecidos.

Por trás deste louvor a Deus está a grande verdade que deveríamos dar como indiscutível e que revela a sanidade secular dos povos, que se habituaram a saber esperar de Deus a bênção para o seu trabalho. Traduz-se ela nesta frase bem conhecida de todos: mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga. Na prática de todos os dias, o povo madrugava sempre porque esperava sempre, com total sentido de responsabilidade, sábio ao dizer também: «Fia-te na Virgem e não corras... Que vais ver o que te acontece», acrescento eu.

Tantas vezes olho para as árvores carregadas de fruta, sobretudo para aquelas árvores já velhinhas de décadas, que resistem a muitas intempéries e que se tornaram imunes à bicharada, dispensando químicos, e que continuam, ano a ano sem se cansarem, a dar frutos de qualidade mesmo que pouco agradáveis à vista ou correspondentes aos códigos da ASAE. Eis a natureza oferecida como dom a cada um de nós: árvores carregadas de fruta que, sem grandes gastos ou cuidados, continuam a produzir com abundância, parecendo dizer a cada um de nós: eis-me aqui, tomai-me, comei-me, criei-me para vós. Louvado seja Deus que, na natureza bela e cheia de força e de incansável dinamismo, continua a convidar-me à contemplação do DOM recebido para o tornar concedido.

9 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXVIII

Há um bulício permanente na nossa cidade de Barcelos. Projectado e desejado certamente. Com os seus exageros, pensam muitos, eu  incluído. Reconheço que o fenómeno está generalizado e que é uma das facetas pelas quais o poder local mais se faz sentir. No domingo passado, uma vez mais, assisti ao movimento dos desportistas na cidade, aos milhares, que condicionam o trânsito de tal modo que «não há nada para ninguém». E às queixas de muitos, que chegam tarde aos seus compromissos, às voltas para entrar na cidade ou para estacionar, junto as dos cristãos que não chegam à missa ou à catequese a tempo. E as minhas, obrigado a celebrar tolerando os barulhos que envolvem os templos. Apesar dos avisos públicos que a autarquia afixa, o certo é que os hábitos não contam com tais avisos prévios.

Há dias, em cima dos acontecimentos, pude encontrar-me com dois autarcas em duas ocasiões diferentes e partilhei os meus reparos dizendo que a cidade está «invadida» pelo excesso de barulho, de diversão, a perturbar os poucos residentes no centro histórico, e a permitir o abuso de algumas organizações para quem nada mais conta, apenas o seu grupo. Claro que compreendo a dificuldade em gerir tantas pretensões para o mesmo espaço, mas isto de rodear os espaços de culto de barulho toda a manhã não é tolerável pois tais espaços têm o «direito» de séculos, fazem parte da fisionomia da cidade, dão-lhe vida todos os dias do ano e não podem ser simplesmente ignorados. E os que os frequentam também são cidadãos. É que nesses espaços se educa para o respeito de todos e para uma harmonia salutar entre todos, no respeito das diferenças. Não terão os autarcas o direito/dever de promover também a sanidade do povo dando-lhe não só barulho mas também silêncio? Lembro-me de uma frase célebre que registei de um capataz que aconselhava a um outro que cuidasse de divertimentos para os seus escravos: «escravo divertido não conspira», dizia ele.

E não terão o dever, mesmo sem o apelo à sua condição de católicos, se o são e se o fazem, de cuidarem das condições para o equilíbrio espiritual, hoje reconhecido como necessário? Não é verdade que a «ausência de Deus» se tornou a grande doença do nosso tempo, como o tem denunciado várias vezes o Papa Francisco, dizendo afinal o mesmo que Jesus dissera: «nem só de pão vive o homem...»? Ainda há dias ele dizia: «Desolação espiritual? Comprimidos para dormir ou beber para esquecer não são solução». E quem não reconhece as pressões das seitas religiosas ou dos promotores de superstições e da exploração de crendices que envolvem muito dinheiro fraudulento?

Sinto o direito/dever de ajudar as pessoas a fazerem juízos críticos, particularmente hoje em que a sociedade parece evoluir para um paganismo demolidor da história e identidade dos povos. Numa procura sôfrega de diversão, qual ópio que anestesia e não deixa pensar nos problemas, dando-nos a ilusão de liberdade, apenas não passamos de escravos comandados. Onde está o espírito crítico e o pensar pela própria cabeça? Quem o promove? A massificação é um processo que aparece a olhos vistos. Quem o promove? Com que intuito? A quem interessam autómatos? E onde está a dignidade humana individual?

Claro que isto me preocupa diante das pressões e lutas entre tantos intervenientes que querem ter o seu «quinhão» de espaço público, contribuindo para o paganismo crescente na sociedade: pão e jogos, diversão e reivindicações sobre os fundos públicos, canalizados para o gozo imediato em vez de o serem para a acção aturada, persistente e difícil de formar pessoas livres.

Não nos admiremos que, nos debates em curso na opinião pública, quando se dá voz à intervenção de anónimos, seja confrangedora a ignorância da nossa história e da identidade do povo português. De facto há partidos sem história e que, portanto, não se sintam com deveres de respeitar a história do povo que dizem defender. Olham apenas para o presente, o presente que lhe dá votos imediatos. Mas que pode destruir o país. Nunca um povo se tornou grande cortando com a sua própria história.

2 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXVII

Cristina é uma jovem como muitas bem inseridas no «nosso» tempo.Em breve conversa, pude apreciar a sua inteligência viva e a sua ânsia de viver. Sem fronteiras de qualquer espécie. E a partir dela pensei em tantos jovens «modernos» sem «tempo» suficiente para «gozar» quanto mais se puder a vida «que passa tão depressa».

Foi nas «alturas» que nos encontramos. «Dependentes» da tecnologia e «confiantes» nos cérebros, certamente bem pagos, pela sua alta qualificação técnica. Como, aliás, a Cristina.

Era dos lados de Guimarães. Mas vive em Lisboa. Ou, pelo menos, ali é a sua morada «oficial». Porque, tal como acontece com muitos jovens da nossa sociedade «evoluída», as distâncias não contam. E as forças jovens, irreverentes e resistentes, permitem os «saltimbancos» de país para país, de congresso para congresso, de reunião em reunião, de aeroporto em aeroporto. Na era virtual, o real e próximo perdeu valor: não há mais «longe» que não se possa «tocar» virtualmente.

Assertivos porque inteligentes, endinheirados quanto baste, nem precisam de luxos para se afirmarem. «Simples» no vestir... até de calças que já se compram rotas... é a moda. Desenvoltos e desenrascados, nada os atemoriza pois sabem línguas... mais que duas ou três para além da materna. E assim, com toda a naturalidade, estabelecem conversa com qualquer «estranho» que, em pouco tempo, se lhe torna familiar. Curiosamente não abundam os sonhos. Será que já os realizaram quanto baste? Os seus horizontes são curtos: têm muita informação mas falta-lhes ginástica no pensamento. Não fazem muitas perguntas: a net e as redes sociais resolvem de imediato. Não conversam muito... sobretudo com os mais velhos, os «cotas». Será que é por não saberem filosofar, colocar boas questões, desenvolver um raciocínio lógico? Claro que os cursos técnicos são os que geram dinheiro imediato. Dar tempo às questões existenciais, as tais que não esgotam os «porquês», não é com eles. Pois claro, «tempo é dinheiro» e o tempo não chega para nada pois «esta vida são dois dias e o primeiro já passou».

E penso - a minha formação ajudou-me a sentir o prazer de pensar por mim próprio e de gerir as questões que surgem no quotidiano - se estamos «atrasados» e se «temos de» repensar os nossos «discursos» de «velhos» para encontrarmos uma «linguagem ajustada» à juventude de hoje. Claro que, «velho» não entendo os jovens. Será que não entendo? Será que eles não gostam que os entenda? Ou que não querem?

A vida tem-me levado a calar e a ousar um discurso «diferente» e «realista». Não virtual. Porque creio bem que eles têm direito à verdade que a experiência fundamenta. E que a nossa geração adulta demitiu-se do ser referência, dialogante mas firme, para que eles possam construir, em bases sólidas, os seus sonhos, sempre mais distantes e concretizáveis, com o esforço próprio e a ajuda de quem os ama.

É que, por vezes, fico perplexo com a superficialidade de uma conversa, a incapacidade de uma expressão inteligível, a dificuldade de manter uma conversa com nível. Superficialidade quanto baste num volume enorme de informação que não se sabe digerir.

Dou graças a Deus por tanta gente jovem que não se encaixa bem no retrato que acabo de tentar pintar. Por aqueles jovens que experimentaram uma alegria diferente e contagiante, num contexto internacional das Jornadas Mundiais da Juventude ou num ACAREG ou ACANAC, ou ACAGRUP, que movem todos os anos milhares e milhares de escuteiros. Ou em acampamentos e iniciativas de voluntariado missionário. Ou nos Caminhos de Santiago, maravilhosa experiência em grupo, que testa os limites e nos aproxima das fragilidades uns dos outros. Ou de tantos e tantos grupos que «rejuvenescem» as nossas paróquias envelhecidas. Sim, trata-se de uma juventude «outra», que estimam a graça de pais que cuidam e procuram o melhor para eles. Que desenvolvem o real próximo em vez do virtual longínquo...

Ah! Devo acabar a história da Cristina: conheci-a num avião a caminho de Lisboa, vindos do Oriente. Uma «generosidade repentina» deu-me o prazer desta história: o meu assento era ao lado de uma jovem esposa que lamentava estar «separada» do marido. Simpática e compreensiva, ainda reconheceu a minha «perda»: a troca de lugar de fácil acesso ao corredor por um lugar no meio da fila... Afinal, ganhámos os dois: ela, ao lado do marido e eu ao lado da Cristina.

Não escondi o que sou e bem cedo o tema foi para as questões religiosas: afinal a India, de onde vinha, seduz pela diferença. E, desinibia, lá despejou o costumado rol dos preconceitos anti-religiosos: «não acredito nessas coisas, pois, afinal as religiões são a fonte das guerras». Delicadamente lá contestei, com um sorriso doce, a pensar na incultura e desprezo de um olhar sereno e equilibrado da história e dos acontecimentos que hoje nos preocupam. Claro que percebi que a Cristina se tinha «doutorado» em questões religiosas aos nove anos e que não conhece outro vestido religioso senão o da Primeira Comunhão. Pobres Cristinas...

25 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXVI

Aconteceu há dias. No mesmo dia. Com pouco intervalo. Dois barcelenses me interrogaram sobre o mesmo assunto. Concluí, espero que acertadamente, que se tratava de conversa antecedente entre ambos, dado que as questões eram semelhantes. Da procura de um deles sei o porquê: eu mesmo, dias antes, em simples conversa ao cruzar-me na rua, lhe dei a coragem de aparecer e «desabafar»: assim entendi como necessidade o breve encontro antes de entrar na igreja.

O assunto foi acerca das confrarias. Actual, certamente, pois as confrarias da cidade, terminado o mandato dos órgãos sociais, procedem a novas eleições, de acordo com os estatutos.

Percebi que além do desconhecimento das regras, traziam uma certa inquietação diante do que, segundo eles, parece inadmissível quando se trata da Igreja. Nisso reconheço-lhes razão e até direito à indignação: as instituições da Igreja devem proceder de modo diferente das instituições cívicas ou partidárias. Surpreendeu-me o modo como a questão me foi feita. Não a questão em si. Ei-la, directa e sem rodeios: «senhor Prior, quem manda nas confrarias?». Parecia querer uma resposta directa, do tipo sim ou não, até pelo escasso tempo de que dispunha.

E eu expliquei, para o tranquilizar, enquanto na conversa com o outro interlocutor percebi que se tratava de matéria que mereceria este «Olhar Outro». No fim de contas, repetindo o que já por várias vezes tenho dito e escrito.

1. Devemos dar graças a Deus pelas instituições canónicas, ou associações de fiéis que, ao longo dos séculos, se tornaram a expressão mais rica do voluntariado cristão e deram à sociedade a matriz cristã que se lhe reconhece ainda hoje, ao menos pelas pessoas e entidades sensatas e honestas, respeitadoras da verdadeira história das nossas freguesias e paróquias. O que muito distingue e marca a identidade de um povo está profundamente ligado à Igreja - sempre ela viveu do voluntariado e sempre ela foi o «palco» do associativismo - e às suas instituições.

2. A gestão dos entes canónicos, tais como as confrarias e irmandades, tem regras próprias aprovadas pela Autoridade da Igreja, que as torna conformes ao Evangelho e ao Magistério da Igreja. A lei universal da Igreja é o ponto de partida para todo o corpo jurídico de cada instituição. Ou seja, as legislações diocesanas, paroquiais ou das confrarias supõem sempre o acordo com o Código de Direito Canónico. Quando este afirma no Cân. 317 que «nas associações públicas de fiéis directamente orientadas para o exercício do apostolado não sejam moderadores os que desempenham cargos directivos em partidos políticos», logo se entende que os estatutos de uma associação devem dar como suposta esta orientação geral. Foi esta a minha resposta a uma das interpelações directas. Ou seja, é princípio geral da Igreja a separação entre o que é da esfera religiosa e o que é da esfera civil. Assim, não deve haver intromissões abusivas dos partidos políticos nas instituições da Igreja.

3. Claro que entendi o alcance das perguntas directas dos meus interlocutores. E completei a resposta, mais ou menos assim:

a) As confrarias e irmandades são constituídas por irmãos, com direitos e deveres que devem conhecer quando são admitidos.

b) Constam dos Estatutos as regras de admissão, bem como as normas quanto à eleição dos corpos gerentes; sendo a base a mesma, os estatutos das sete confrarias de que o Prior é o Órgão Vigilante, mantêm, regra geral, o mesmo articulado.

d) São Órgãos Sociais a Assembleia Geral de irmãos, a Mesa Administrativa e o Conselho Fiscal, todos eles por eleição. E ainda um Órgão de Vigilância nomeado, que representa a Autoridade da Igreja e que «vigia» pelo cumprimento dos estatutos, podendo sempre intervir na defesa dos superiores interesses da instituição.

e) Há prazos para a convocatória para as eleições (quinze dias) e para o aparecimento de listas de candidatos aos Órgãos, que têm de ser previamente sujeitas à aprovação do Órgão de Vigilância, que as exporá ao conhecimento dos Irmãos. O que supõe a existência de uma lista, actualizada e acessível, de irmãos que têm direito/dever de elegerem e de serem propostos;

f) O não cumprimento das regras, sobretudo se põem em causa a transparência e «atropelam» direitos e deveres dos irmãos, pode anular o acto.

g) A Autoridade superior, que o Órgão de Vigilância representa, pode sempre, a pedido deste, nomear uma Comissão Administrativa para gerir a instituição durante um prazo necessário. Ou seja, nunca uma confraria fica sem um órgão a geri-la porque não pode haver - na legislação eclesiástica como na civil - um período de vazio em que ninguém assume responsabilidades.

h) Na nossa Paróquia os juízes ou provedores integram o Conselho Pastoral.

Achei importante recordar algumas das orientações da Igreja de modo a que não passe na opinião pública barcelense a ideia de que nas instituições da Igreja «mandam» grupos de pressão ou são «agarradas» por coutadas de amigos. Não. A Igreja é o Povo de Deus que, apesar das falhas porque constituída por seres humanos, frágeis e pecadores, procura sempre o bem comum na harmonia e na paz, nunca descurando a justiça. E o mais importante é o ponto de partida: na Igreja o poder é serviço.

18 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXV

Desta vez foi para a Índia. Alguém me entusiasmou. E valeu a pena. Já lá vão alguns anos que me deixei provocar por uma cultura muito diferente da nossa, por uma pobreza extrema, tanto mais extrema quanto a extrema riqueza no mesmo país. Ficou-me, como marca primeira, o sorriso franco e aberto de tanta gente pobre mas cativante. Na «outra» Índia, mais ao centro do grande país asiático, confirmei que há várias índias, com especificidades próprias e sempre numa variedade de culturas. Foi a Índia religiosa do Hinduísmo, completada com o Sri Lanka do Budismo, o antigo Ceilão, por onde andaram os portugueses e de cujos sinais de presença facilmente nos demos conta. Foi a índia Cristã, por onde andaram S. Tomé, cujo túmulo visitámos, ou o nosso português S. João de Brito, bem como outros célebres missionários jesuítas idos da Europa. Na velha Goa já tinha visitado o túmulo do grande apóstolo das Índias, S. Francisco Xavier, venerado por todos, cristãos, hinduístas, muçulmanos ou animistas. De facto, as grandes marcas resistem ao pó da história, mesmo que a acção recordada se tenha descontinuado. E as marcas portuguesas lá se conservam bem vivas, motivo de orgulho para nós que as fomos reconhecer. O grande Vasco da Gama, ao levar com ele um quadro de Nossa Senhora, deu origem a uma devoção num Santuário - Vallapardam - que junta milhares de pessoas, ali nos arredores de Cochim. Como nos sentimos em casa quando ali celebrámos a Eucaristia, identificados com aquele povo que, aculturado à sua história e geografia, se descalça para entrar no templo hindú, como no templo cristão. E, com o povo, os seus servidores... E lá celebrei missa, descalço, pela primeira vez em 39 anos de padre!

Como foi retemperador contemplar nichos nas ruas ou nomes cristãos, que nos faziam sentir em casa quando, repetidamente, podíamos concluir acerca das maiores devoções daquele povo cristão: ao nosso português Santo António (uma estátua gigante, na rua, fora benzida por João Paulo II), à Senhora de Fátima, de Lourdes ou do Coração de Maria, ou a S. Sebastião, entre outras. Confesso a minha dificuldade em penetrar na cultura ou religião hindú, budista, bramanista, jainista, numa palavra nas chamadas religiões orientais, onde abundam deuses criados pelo imaginário humano, representados por figuras humanas e animais. Desta vez, pelos muitos templos hindús e budistas visitados, consegui «entender» e confirmar algumas intuições:

1. De facto, o ser humano precisa de Deus. Os deuses são fruto das criações humanas. Não podemos viver sem o Transcendente. Precisamos dele, de nos transcender para viver. Vem daí o conceito de mistério, comum a todas as religiões. Que caminho belo e moroso aconteceu ao longo da história, até que, no judaísmo, se chega ao conhecimento de um só Deus, com os atributos de deuses das civilizações antigas, de que a própria Bíblia se faz eco: criador, transformador, em luta com os demónios!

2. De facto, todas as religiões exprimem as suas crenças através de rituais, de festas, de memória de acontecimentos passados, dando sentido identitário a um povo. Que mal fazem à cultura ocidental os ideólogos ateus ao «despirem» de ritos a alma dos povos, só porque não se coadunam com a deusa Razão que, ao impor-se como única, inevitavelmente ocupa o lugar da religião, mas que se torna autoritária, insensível e prepotente.

3. Vi como aquele povo reza, como se concentra na oração, mesmo em grupo. O olhar para o alto, de mãos postas como nós, não iludia ninguém: os sofrimentos e dramas humanos geram atitudes de súplica confiante em Buda (estátua) ou nas figuras humano/animais do Hinduísmo.

4. Não se conhecem fronteiras entre religião e vida. Aquilo em que se acredita tem expressão legítima e incontestável na vida pública. Quando acordaremos nós, no Ocidente, para aquela coerência de vida que Jesus ensinou, bem compatível com o princípio do «dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus»? Pobres de nós que nos justificamos facilmente para vestir sempre o «fato laico» como sinal de emancipação e modernismo, indo buscar apenas para algumas ocasiões (baptizados, casamentos e funerais) o «fato religioso»!

5. Hoje é bem visível a atenção do Ocidente às práticas e «filosofias» de vida orientais. Que pena fazê-lo sem conhecermos o que é próprio da nossa cultura de matriz cristã, onde se gerou a Declaração Universal dos Direitos Humanos! Não será tempo de investirmos nas nossas próprias raízes culturais para que o encontro de culturas não gere subserviências?!

11 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXIV

Também nos habituamos às desgraças... alheias. Perdemos a sensibilidade quando as desgraças não nos atingem directamente. Somos um pouco ao estilo do que os estrategas de mudanças radicais bem sabem: o povo primeiro estranha e depois entranha. O espectáculo infame dos incêndios, repetido ano após ano ou de uns tantos em tantos anos - é preciso que a mata se renove para voltar a ser pasto das chamas - deixou de «incomodar» a consciência colectiva. Os próprios políticos já se dão ao luxo de tirar dividendos partidários das «incompetências» repetidas porque, diz-se sempre, «há falta de coragem» para tomar as medidas adequadas. Por vezes surgem «mea culpa » tardias.

Este ano, só porque foram ultrapassadas todas as medidas e a comunicação social descansou de incomodar os políticos em férias, o espectáculo repetido chocou mais, até pelas mortes surgidas, as casas queimadas e pelos hectares ardidos.

A primeira palavra que se impõe dizer é de respeito e de gratidão por todos os bombeiros, quais heróis não reconhecidos que, apesar de tantas vezes exaustos e impotentes, lá conseguiram acabar por ser mais fortes na luta contra o fogo. Contra o fogo? Bem, contra os incendiários, melhor dito. Nem era suposto ser diferente, porquanto no meio das cinzas nem os incendiários conseguem esconder-se. Como se sentirão estes homens e mulheres, tantos deles voluntários, a quem se exigiu esquecer família e descanso, férias em família ou compromissos que tiveram de ser adiados? Além de exaustos e de satisfação do dever cumprido, certamente que lhes custa calar o grito de revolta quando sentem que o reacendimento só poderia ter mão criminosa. Depois, quando é que se terá a coragem de denunciar o sistema permissivo que permite tantas mãos criminosas agirem sabendo que dificilmente terão de pagar pelos seus actos cobardes? Não sentirão revolta homens e mulheres dedicados à investigação criminal quando levam ao juiz alguém que têm como certo ser o autor do crime e, pouco depois, o vêem solto com ligeira pena ou até pena nenhuma?!

Certamente que a «situação» há-de provocar, espera-se ao menos, sérias e aprofundadas reflexões sobre os verdadeiros porquês de mentes incendiárias, que acabam por «gozar» com o espectáculo das chamas, tudo se justificando com as suas deficiências mentais ou frustrações de ocasião ou mesmo permanentes. Estará Portugal assim tão doente? Com tantos «descompensados» ou mentes desequilibradas? E porque chegamos a este ponto? Será que tudo se pode explicar por deficiências psíquicas hereditárias? Não estaremos a pagar duramente o abandono da ética, da moral cristã de que nem se ouve falar, substituída por uns resquícios de «ética republicana»? Porque se tem medo de falar dos «negócios chorudos» ligados aos incendiários? Porquê o «medo» de falar dos «interesses» e dos lucros de empresas, a custo de um erário público já tão depauperado mas que, obrigatoriamente, tem de corresponder aos gastos exorbitantes não orçamentados (num país em crise parece que o descalabro até já prevê orçamentos para tais mordomias...)?

A este propósito tive ocasião de referir, diante da assembleia reunida em louvor a Nossa Senhora, a gravidade do crime de fogo posto, outrora classificado como pecado «reservado» que exigia intervenção especial para ser perdoado. Eram os tempos em que o povo aprendera, e assumira, que todos um dia vamos dar contas a Deus e que o que dos homens se pode esconder não se esconde nunca de Deus.

O Papa Francisco convidou o mundo inteiro a olhar com olhos novos a criação de Deus, na magnífica encíclica Laudato Si, sobre a ecologia ou o cuidado da casa comum, o cosmos onde habitamos, essa obra criada por Deus para usufruto da Humanidade. Sendo dom, é-o para todos: ninguém tem o direito de a estragar ou destruir.

Regressados os bombeiros aos quartéis, se a chuva entretanto aparecer - o que retira a «justificação e a oportunidade para os incendiários - ficam agora os juízes e tribunais, porventura as cadeias, com processos para vários anos, a onerar ainda mais o erário público. Será que continuaremos «condenados» a este triste espectáculo no próximo ano e depois... e depois? Que triste sinal de um mundo que, desprezado Deus, não encontra mais motivos fortes para viver em paz e no respeito pela natureza!

Uma última palavra a terminar, para louvar tantos gestos de solidariedade na desgraça, com as vizinhanças de mãos dadas a enfrentar um inimigo comum.

4 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXIII

Fátima foi e é o altar do mundo. Impôs-se por si mesmo, ou foi o povo, na sua intuição religiosa - o ser humano, por mais que o neguem, está naturalmente aberto ao transcendente - que o impôs. Porque dele precisa. Desta vez, o presidente da celebração do 13 de Agosto (D. Vicenzo, bispo secretário da Congregação da Educação católica) lembrou a actualidade da Senhora da Mensagem, ao olhar o nosso mundo e o classificar em guerra em pedaços (a terceira guerra mundial), dizendo que só é possível mudar o mundo a partir de dentro, com a força do Alto. Fátima impôs-se como Mensagem de paz e quanto mais esta é ameaçada mais o povo se volta para Fátima. Também entre nós Maria ocupa um lugar muito especial, que resiste a tantas e tantas outras «imposições», que querem disputar o tempo e o espaço de uma sociedade crente, mas em processo de descrença imposto. As procissões e/ou peregrinações resistem e, às vezes, até dão sinais de novo vigor. É habitual, no fim de uma peregrinação, fazerem-se comparações: este ano esteve ainda mais gente! Compreendamos o exagero.

As duas maiores peregrinações marianas do Arciprestado acabam de acontecer. Participei apenas na da Franqueira, dada a sua quase coincidência, mantida certamente em razão da distância geográfica. Pude apreciar o carinho com que os barcelenses acolheram o andor com a imagem de Nossa Senhora e a acompanharam até à Igreja Matriz. Pude apreciar a devoção, também na participação nos actos religiosos ao longo da semana. Pude apreciar o esforço sereno e feliz com que os milhares de devotos subiram à Franqueira e ali participaram no acto mais importante de todos: a Eucaristia, que foi presidida pelo senhor bispo auxiliar, o barcelense D. Francisco Senra.

Em jeito de parêntesis, deixem-me exprimir a minha mágoa quando vejo nos nossos jornais falar da «santa» ou «santinha», referindo-se a Nossa Senhora e pondo-A ao mesmo nível que outra imagem de qualquer santo. Como precisamos de uma catequese reflectida para sabermos distinguir o culto aos santos do culto a Nossa Senhora, a única que, sendo Mãe de Deus e venerada por todos como Nossa Mãe, nos aparece em várias imagens e outras tantas invocações ou «geografias» como que unindo todos os povos nas suas necessidades! Ou seja, os vários «vestidos» de Nossa Senhora não a multiplicam: é sempre a mesma Mãe de todos.

Como também me preocupa, diante da sábia e prudente atitude da Igreja, que valoriza a religiosidade popular, a insuficiente formação da fé, que leva tantos irmãos nossos, até dos mais devotos a Nossa Senhora, a não distinguir o culto a Deus do culto aos santos, situando correctamente o lugar de Maria na história da salvação, como medianeira e missionária do «fazei o que Jesus disser»: devoção a Maria que não leve ao encontro com Jesus é pobre, muito pobre e desfocada. Esta missão de educação da fé do povo nunca a devemos descurar.

O sentido gregário de vizinhança é, felizmente, ainda muito forte nas nossas aldeias. Juntam-se e interajudam-se para acções comuns e têm brio no que é da sua terra. Menos visível no contexto urbano, nem por isso ele está ausente. Louvo, por isso, o exemplo dos moradores das ruas por onde, há dias, passou a procissão/peregrinação à Franqueira. Habitualmente os moradores do Bonfim ou Rua da Madalena, fiéis à tradição, não «permitem» que a procissão não passe por lá. Temo-lo respeitado e assim será enquanto outros não reivindicarem o mesmo. É o que acontece também em Barcelinhos, aproveitando o momento único para um «olhar do coração» para a imagem da Senhora da Franqueira. Surgem também os moradores da Rua Irmã São Romão e adjacentes, que nos presentearam com um lindo tapete na passagem do andor.

Fiquei feliz quando as responsáveis me vieram dar contas do que aconteceu: felizes pela boa colaboração, até entregaram as «sobras» do seu peditório especial. Mas gostei de saber a envolvência que a passagem do andor pelas suas ruas implicou de união entre vizinhos, de sadia convivência e de gosto em trabalhar juntos «para Nossa Senhora». Vai uma merecida palavra de louvor para todos quantos se envolveram em receber bem Nossa Senhora da Franqueira: tapetes e luzes, flores e ovações, tudo contribui para dizer o coração afecto à Mãe de Deus.

20 de Agosto de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXII

Num mundo de contrastes como aquele em que vivemos, quero hoje destacar a onda festivaleira, que faz correr muitos jovens e até adultos, em busca de momentos intensos capazes de quebrarem a monotonia da vida ritmada por compromissos «inadiáveis» ao longo de todo o ano. Sem nos darmos conta, afinal, estamos a encher de tal modo o tempo de férias que ele deixa de ser de lazer, de ócio, de contemplação calma da beleza que nos rodeia. Corremos durante todo o ano, fiéis a compromissos laborais. E, chegado o tempo de férias… lá estamos nós a dar sequência à corrida. Desaprendemos de viver fruindo ou contemplando, tornámo-nos máquinas e, mesmo em férias, continuamos «mandados». Claro que chegamos ao fim das férias mais cansados ainda. Até as nossas crianças já as habituámos ao ritmo infernal dos adultos.

O mais importante, quero destacá-lo hoje, é que há muitos outros «festivaleiros» bem ocupados no tempo de férias. Refiro-me a uma riqueza enorme de voluntariado ao serviço de nobres causas. E, neste campo, urge reconhecer que é sobretudo no seio da Igreja que mais se destaca este «doar-se de coração», sem interesses económicos ou sócio-políticos.

Quem não reconhece o alcance e a marca que deixa no coração das centenas de milhar de jovens, oriundos de todas as partes do mundo, que se concentram ao lado do Papa nas Jornadas Mundiais da Juventude? E o que isso implica de organização e de voluntariado? Lembro-me de se falar, nos anos noventa, aquando das Jornadas em Paris, da «excepção» que um milhão de jovens constituiu para a polícia que, em termos de segurança, saíam furados os cálculos habituais das concentrações de jovens em festivais. Uma jornada de fé com milhares de jovens idos de todo o mundo não preocupava a polícia. Porque eram cristãos e iam para celebrar a fé, fazer fraternidade acontecer. Tratava-se de festa, de uma alegria outra, aquela que não gera violência. E toda a organização acontece a partir de um voluntariado de milhares de pessoas.

Quem não reconhece a capacidade de mobilização dos escuteiros que, em acampamento regional, consegue reunir milhares de jovens, sempre ocupados em actividades lúdicas e educativas, que acabam por marcar para sempre a vida de tantos jovens? A tal boa organização, não só do acampamento, como também de toda a actividade desenvolvida durante o ano, só pode acontecer a partir de um corpo de voluntários, em que a sua capacidade de doação, de entrega aos outros, acontece precisamente porque parte da fé em Jesus Cristo, vivida em Igreja. É o que acontece também entre nós: se temos grupo de escuteiros é porque há um grupo de chefes que se doam aos mais novos, acreditando que estão a contribuir para a formação equilibrada com a natureza e com os seres humanos dos homens e das mulheres de amanhã. Porque, de facto, o Escutismo tem dado provas mais que suficientes da excelência do método educativo: um investimento mínimo em meios materiais com um investimento máximo em doação humana permite a maravilha que é vermos grupos de escuteiros em constante actividade, formando líderes e fortalecendo vontades.

Um grupo de adolescentes da nossa catequese paroquial fez há dias os Caminhos de Santiago. Tal foi possível porque os pais puderam confiar na presença dos adultos que os acompanharam que, além do seu próprio esforço físico, se mantinham lado a lado, em total doação, organizando e realizando, ao serviço dos mais novos. As emoções fortes que, nestas circunstâncias, se vivem constituem sempre marcas fortes nos jovens de amanhã, que regressando ao baú das suas memórias, identificarão sempre estas experiências como contributos importantes, senão mesmo únicos, no desenvolvimento da sua personalidade. E quando perguntamos aos líderes que os acompanham, reconhecem que, na doação aos outros, receberam ainda mais do que deram. Claro, estamos no contexto da fé testemunhada, que reconhece o agir misterioso de Deus no coração de cada um.

Ao contemplar estas realidades tão «nossas» (tivemos participantes na JMJ, no ACAREG, nos Caminhos de Santiago), bem como a experiência maravilhosa dos encontros de Taizé, dou graças a Deus por esta juventude «outra», festivaleira também, que se preocupa em «boas» férias, aquelas que os desenvolvem por «dentro». Dou graças a Deus por tantos animadores adultos que a eles se dedicam. E faço um apelo a todos: interroguem-se sobre qual o vosso lugar na comunidade, na Paróquia. É que precisamos de líderes dos mais novos, precisamos de novos chefes para os escuteiros, precisamos de novos líderes de jovens e de catequistas. «Que posso eu dar de mim aos outros?». Esta deve ser a questão de cada crente. A Paróquia é o espaço para a resposta. Há lugar para todos. E precisamos muito de gente com coração grande.

7 de Agosto de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXI

A ignorância religiosa é o campo fértil para o sucesso das auto-proclamadas mulheres de virtude, que de virtude nada têm, a não ser a desfaçatez de abusarem dos incautos, os tais que, crendeiros em tudo, nunca têm tempo ou «cabeça» para treinarem uma postura de autonomia - pensar pela própria cabeça - e de responsabilidade. Porque estou convencido de que, na cultura actual «libertária» e democrática, desprovida de grandes referenciais e enferma de relativismo, em que as autoridades só intervêm se forem obrigadas e diante de factos evidentes ou de fácil comprovação, a única maneira eficaz de lutar contra aqueles que, abusando do nome de Deus e da religião, se apresentam com «poderes» e ganham a vida enganando os outros, é motivar as pessoas para a sua formação pessoal, vou repetindo e convidando a gastar tempo na sua própria formação.

Por outro lado, o mundo religioso é de uma complexidade enorme e dele não é fácil falar com propriedade. E a superstição sempre andou de perto dos caminhos por onde os seres humanos procuram o verdadeiro Deus. A Bíblia dá-nos muitos exemplos disso mesmo e não deixa de destacar o difícil combate das superstições, ou seja práticas ditas religiosas que, em vez de nos aproximarem de Deus, se interpõem não nos permitindo ver senão máscaras. que impedem o acesso a Deus.

Já o Livro do Deuteronómio (18,10-12) condenava práticas de bruxaria, superstição, adivinhação e outras: «Não permitam que se pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria ou faça encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos...). E considerava que tais práticas eram «concorrentes» do culto ao verdadeiro Deus.

Ora é isso mesmo que se passa nos nossos tempos com bruxas e adivinhos, médiuns, «professores» ou «pessoas de virtude». Aparecem com cara e atitudes religiosas, rodeados de «santinhos» e de «orações», e até de água benta, se a conseguem (alguns revoltam-se contra os padres «modernos» por não terem água benta acessível para as suas práticas). E até mandam rezar e ir ouvir missas para curar males. E não é que até gente dita com canudos universitários acredita?! Pois.... Um curso universitário dá uma certa competência reconhecida mas não dá equilíbrio mental, boa relação com a profundidade de si mesmo ou boa gestão do mundo religioso. Este exige «prática», conhecimento e fé. E, como tal, é dinâmico, aprofunda-se e acompanha o processo da existência.

Que fazer, então - perguntam-me e com razão - diante das donas dores, marias, bruxos... Que, com ou sem anúncios nos jornais apresentando os seus pretensos «poderes», atraem táxis para as suas portas ou «consultórios» improvisados? Diz-se que taxistas são bons propagandistas do mundo esotérico porque sempre aparecem muitos «à procura de poderes», logo bons e repetidos clientes.

É claro que não vamos para as suas portas «abrir os olhos» aos «coitadinhos » que, por livre vontade ali se deslocam em vez de irem ao médico ou pedirem um conselho a quem se reconhece competência para tal. Até porque «a gente só dá o que quer», como nas seitas em que o «dízimo» é imposição bíblica, não do pastor que «em nome de Deus» diz que a graça corresponde à oferta para Deus.

Há dias, alguém me contava que já há «videntes» nalgumas aldeias que rodeiam a cidade, que «fazem milagres» e até «já podem benzer água que distribuem aos garrafões», muito devotas de São Miguel e possuidoras dos poderes do Arcanjo. Que também elas precisam de ajuda... Mas que os padres não falam destas coisas... dos espíritos e dos demónios que atormentam. E que no meio dos transes até desmaiam tal a força dos espíritos de que se dizem médiuns... Mas nunca se aleijam...

É verdade que se trata de um mundo e de uma fenomenologia que merece atenção e não é qualquer pessoa que sobre ele se possa debruçar. Exige muito estudo, sensatez e sabedoria diante da complexidade do ser humano, que precisa de muita delicadeza para não se tornar abusivo da fragilidade. Mas, por favor, deixem-se esclarecer - e tantas vezes nas homilias diárias procuro dar respostas concretas - e reservem o acto de CRER para Deus. Ele, sim, tem poder. De todos os outros «poderes» desconfiem.

31 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXX

A julgar pelas informações divulgadas, especialmente através dos boletins paroquiais, o Dia da Paróquia torna-se cada vez mais uma realidade. Ou seja, as comunidades paroquiais sentem necessidade de um dia diferente em que se possa tornar mais evidente a relação do altar da Eucaristia semanal com os laços afectivos entre os que «comem do mesmo Pão». De facto, como os primeiros cristãos, também nós «não podemos viver sem o domingo». E desta prática semanal, a ritmar a vida do crente, sai a força do testemunho, concretizado nas relações humanas novas e diferentes porque partem do culto para a cultura, da igreja/templo para a Igreja/comunidade.

Felizmente que as comunidades paroquiais se dão conta de que é necessário fortalecer os laços da comunhão também fora do templo e em contexto de lazer. As modalidades são diversas e exprimem  os ritmos de cada uma. A nossa Paróquia de Santa Maria Maior começou a fazê-lo há uns bons anos atrás. Desde 2005 que se experimentaram já várias modalidades, conforme as possibilidades humanas e financeiras. Em todas elas, porém, uma constante se manteve: a Paróquia ofereceu sempre o almoço deste dia único e festivo. E, perante sugestões de que as pessoas deveriam todas partilhar do que trouxessem de casa, sempre acabámos por considerar melhor manter este gesto de oferta, que é completado pela partilha que também se propõe. No passado dia 3 de Julho assim aconteceu com algumas particularidades:

1. Fizemos peregrinação jubilar à igreja de Vieira do Minho, sede do Arciprestado e local de peregrinação no Ano Santo. Foi para mim ocasião de voltar ao baú das minhas memórias para lembrar emoções, encantos e desencantos, numa luta permanente para não desanimar diante de uma tarefa enorme, a de construir a nova igreja para a nova paróquia de Vieira do Minho. Recordei e partilhei. Com o gosto pessoal de recordar a década de 1981/1991 e de apresentar a obra a que outros agora dão continuidade. Fizemos a entrada na porta santa, celebrámos a Mesa da Palavra e da Eucaristia e partimos, de seguida, para a Mesa do Pão partilhado (algumas de pedra e outras de madeira que a equipa lá instalou).

2. Na refeição servida, todos comeram e ficaram saciados. Não houve «os doze cestos de sobras», como na multiplicação dos pães, o que se compreende pois o menu foi preparado com gosto e com gosto comido, acompanhado com o bom vinho da Casa Clementina Rosa (aquele vinho que o senhor Manuel Esteves cuida com esmero a pensar neste dia) e a boa pinga «amarela» preparada a partir da fresquíssima água que cai da montanha da Senhora da Fé.

3. Houve também, de facto, partilha: não só entre a equipa de trabalho - servindo com gosto a todos sem excepção - mas também nas sobremesas - frutas e bolos abundantes. Tínhamos apelado a que os participantes assumissem o encargo com a deslocação. E assim os dois autocarros e os carros particulares, num total de 170 pessoas, não constituíram encargo para a Paróquia, dada a situação actual de endividamento com as obras na residência paroquial. As pessoas compreenderam e até as ofertas no Ofertório da Missa deram para cobrir as despesas feitas, sem onerar as finanças da Paróquia. Bem hajam todos.

4. Quanto aos participantes, de destacar que a Casa do Menino Deus ali esteve com algumas meninas que frequentam a Paróquia e ali representavam a instituição, algo que bem gostaríamos de ver imitado por outras instituições e grupos. De destacar também o interesse com que alguns pedem para participar, não sendo da Paróquia. De entre eles, permitam-me destacar um número razoável de pessoas carenciadas, que a Equipa Sócio-caritativa cuida durante o ano. E outros, de muletas e com dificuldade de deslocação - o que, à partida, poderia desaconselhar a sua ida - ali estavam felizes pois também são gente. E que alegria eu senti ao contemplar a sua coragem e o gosto de ali estarem, no Dia da Paróquia, no dia que também é deles... De direito próprio à mesa da Paróquia, onde se sentem bem e a quem se reconhece o direito de ali estarem, de mãos vazias mas de coração cheio.

24 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXIX

Portugal tem vivido autênticos momentos de glória, sobretudo no que ao futebol diz respeito. E bem precisamos de levantar o ânimo e de ter quem nos faça acreditar de que somos um povo com grande história, a justificar que acreditemos que todas as crises serão vencidas. Não fazendo parte daqueles apaixonados pelo futebol – ninguém se admirará do que afirmo – tenho de reconhecer que apreciei o espectáculo e vibrei com as emoções contagiantes, que a televisão a todos permitia. Também eu me deixei ir na onda do entusiasmo, mesmo que não tenha perdido de vista um sentimento de prudência que me levava a considerar que, durante um mês, o país «esqueceu» o drama real da situação económica, mesmo com a espada das sanções europeias suspensa até altura conveniente. O que veio a acontecer. Como, infeliz e terrivelmente, também aconteceu sobre a França com o horror de um novo atentado, desta em vez em Nice.

Eis-nos de volta à triste realidade do dia a dia. Mas é legítimo evocar os momentos de glória que temos vivido como povo de campeões. Do muito que se escreveu ou disse sobre o povo que somos e sobre o futebol não posso deixar de destacar duas figuras principais que marcaram pela diferença. Dois grandes, rodeados por muitos pequenos que se julgam grandes e aparecem sempre onde as câmaras televisivas lhes permitem mostrar o seu pretenso valor, esquecidos que as câmaras só mostram o que se é, grandeza ou pequenez.

O que mais une dois homens, Fernando Santos e Marcelo Rebelo de Sousa, tão diferentes entre si mas tão verdadeiros um e outro? Marcaram a diferença precisamente pela fé assumida em público.

Sempre preferi e louvei a atitude daqueles que, sabendo-se o que são e os valores que perfilham, não precisam de se esconder numa imagem «construída» mediaticamente para parecerem o que não são. Sempre achei pequenos aqueles políticos que mudam constantemente de casaca ou aqueles que se mantêm sempre no meio da ponte para darem o passo e se decidirem no último momento para que lado se inclinam. Os «jogadores» da opinião pública… detesto-os. Foi belo, foi maravilhoso ver o silêncio do batalhão de jornalistas, de armas apontadas a Fernando Santos, quando este se antecipa para ler a sua carta em que se «expôs» como homem de fé: palavras poucas, profundas e suficientes. Silêncios ou pausas que falam por si. Descrição e humildade para agradecer e reconhecer a fonte da sabedoria que é Deus. Não estava ali com «traje religioso» mas com aquela serenidade de coração própria de quem sente, e se delicia compensado, que, uma vez mais, valeu a pena pôr a sua confiança em Deus. Nunca precisou de rótulos religiosos nem de declarar à comunicação social a sua fé profunda, o seu gosto da oração, a sua devoção a Nossa Senhora e a sua necessidade da missa e do sacrário. A sua atitude serena e nada orgulhosa constituiu o maior sermão e a mensagem mais convincente. Era a sua única resposta à pergunta previsível: como explica esta vitória? Que diferença com aqueles que se julgam grandes só porque ocupam um lugar numa Junta ou num Município, que o povo lhe atribuiu para servir e que, em nome duma neutralidade saloia, já deixam de mostrar a sua crença religiosa. Que pequenos estes que se julgam tão grandes!

Também não é novidade a fé do nosso Presidente da República que, quer na candidatura, quer no exercício do cargo, não precisou de pôr de lado a sua fé cristã e católica. Porque era cristão ou católico praticante antes – e lembro aqui aquela altura em que, em Paris, após a Missa na comunidade portuguesa a que presidi, me ter afirmado a sua mágoa ao sentir um apoio medíocre da parte dos bispos portugueses quando se bateu pelo primeiro referendo ao aborto - é-o também agora. Se antes ia à missa ao domingo, continua agora a fazê-lo com a mesma razão de sempre: porque acredita, testemunhar. De facto, estes homens marcaram a diferença. E como Portugal precisa de exemplos destes! De homens que se agigantam na vulgaridade de uma cultura massificante e sem horizontes de transcendência. Que pretende fazer de um povo, grande na sua história, um povo pequeno. Subserviente e de cócoras perante os grandes que tudo pretendem controlar, reduzindo ao que é material… A fé levanta-nos da terra e leva-nos a olhar para outros horizontes… aqueles que fizeram de nós um grande povo.

17 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXVIII

Há anos que me habituei a trabalhar com um programa de acção, reflectido e ajustado à realidade. Já não sei viver sem ele. Confesso mesmo que, se ele não existisse, me daria ao «descanso», «enredado» nas desculpas habituais diante das tentações de última hora: há sempre razão mais que justificada e convincente (pensamos nós) para não aparecer a esta ou aquela acção previamente concertada, ou para aquela reunião entre colegas, ou aquela sugestão que os leigos nos fazem, e bem, no uso da sua condição baptismal que os tornam partícipes, de direito próprio, da missão da Igreja. Sinto-me feliz ao ver que, na Igreja, e mesmo nas nossas paróquias, sacerdotes e leigos vão programando a vida pastoral. Qual a paróquia em que ao menos o grupo de catequistas não elabora o seu programa para todo o ano?

O terminar de um ano pastoral - os meses de Julho e Agosto, de merecido descanso fazem diminuir as actividades pastorais, e ainda bem - leva a fazer um exame de consciência de cada grupo empenhado: o que correu bem mas é possível melhorar, o que não correu bem e é preciso «consertar» ou excluir, o que correu «assim assim», mas deixou de ter força de testemunho ou já não corresponde às energias pastorais dispensadas.

No recomeço do ano pastoral, em Setembro, quem lidera deve apresentar um plano de acção, realista sim mas ousado, já que, na acção pastoral, nunca podemos dispensar-nos de dar espaço para a surpresa do Espírito Santo. E tal plano tem de ser amadurecido nos meses de Julho e de Agosto.

Sinto-me nessa fase, recolhendo o «exame de consciência» dos grupos, os planos da Arquidiocese e do Arciprestado, prioritários ao da Paróquia, e deixando-me «provocar» pelas «leituras» diversas da realidade pastoral, de modo a «ousar» no próximo ano.

Certamente que devo ter em conta os «avisos» de tantos colaboradores que me lembram que já não tenho os 51 anos que tinha quando cheguei a Barcelos, ou a saúde de que preciso cuidar.

O próximo ano será marcado pelo Centenário das Aparições de Fátima e o nosso Arcebispo já nos convidou a olhar para Maria como a Mulher da contemplação. Nunca é demais penetrar no mistério da Mãe de Deus para nela encontrarmos a força e a coragem para ousar dizer a Palavra salvadora do Evangelho a um mundo que se vai desabituando aceleradamente das referências religiosas, reduzindo a sua experiência humana ao consumismo de bens e de diversões. Porque, de facto, há, diante dos cristãos e da Igreja, um mundo a evangelizar que, quanto mais vazio de transcendência, mais deficiente de sentido se torna e, por isso mesmo, mais necessitado dos valores do Evangelho de Jesus.

Neste «Olhar Outro» quero ainda destacar e convidar a um olhar bem positivo o mundo e a Igreja a que pertencemos. Há uma evolução enorme na sociedade, que nem sempre se pauta pelos valores cristãos, mas que consegue hoje estar mais atenta às diversas carências sociais e se preocupa com os níveis mínimos da dignidade humana. Sejamos justos: um sexagenário como eu tem de reconhecer a mesa farta da maioria, às vezes em demasiado diante doutras mesas vazias, e a preocupação para que ninguém passe fome. Ou o acesso à cultura e à saúde que se pretende chegue a todos: oxalá estes «bens» sejam apreciados e aproveitados responsavelmente. Quanto à Igreja, lembremos a situação presente de uma passagem notória entre um regime de cristandade, que ainda vigora em muitas regiões, e um outro em que os cristãos se afirmam não pela sua pertença sociológica, mas pela sua adesão livre e cuidada à fé cristã. E, reconheçamo-lo por justiça, o investimento permanente que a Igreja e os seus agentes pastorais fazem para dar formação a todos, de modo que a prática religiosa seja cada vez mais consciente e libertadora. Já não é, felizmente, a conveniência social ou a força da tradição, que têm a prioridade e quando se pedem ou celebram os sacramentos. Quem não se dá conta de que a qualidade da vida cristã vem aumentando, talvez em medida igual à descida do número de praticantes? Demos graças a Deus.

10 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXVII

Tem sido intensa. Diz-se actividade cultural. Multifacetada e abrangente, reconheçamo-lo. Será verdadeira cultura? A pergunta é legítima e a resposta possível não pode entrar em radicalismos. Cultiva-se o povo ou diverte-se o povo? Dá-se-lhe o que o promove, o que o faz pensar na vida e ajustar-se livremente à realidade ou dá-se-lhe aquilo de que ele gosta porque o contrário o responsabiliza?

A sensibilidade hodierna, reconheçamo-lo, é avessa a pensar pela cabeça própria e muito dada a manipulações. Pensar pela própria cabeça dá trabalho, assumir posições corajosas incorre em risco... E parece-me bem que a liberdade é hoje uma conquista cada vez mais difícil e uma condição de dignidade de que muitos abdicam.

Há dias dei comigo a pensar numa «sentença» de um capataz, proprietário de escravos - era numa obra de ficção, reportada ao tempo da escravatura - que aconselhava um colega a pagar as diversões para os escravos. Não mais esqueci a frase, que me parece ajustada aos nossos tempos: «escravo divertido não conspira».

O que hoje se oferece ao povo, o que hoje se promove com uma intensidade esmagadora junto das nossas crianças, por mais «situado» no contexto cultural, em que os tempos de todos estão intensamente cheios, não deixa espaço para a liberdade autêntica, nem conduz as nossas crianças a preparem um futuro responsável, com as ferramentas capazes de agirem no mundo dos adultos. Não se reconhece a eterna adolescência, prolongada até aos trinta e mais com o refrão repetido de que «não estou preparado»... para casar ou para assumir compromissos?!

Pensava eu em tudo isto naqueles dias em que muitos grupos de crianças, à tardinha e à noite, subiam ao palco com a avidez clara de um vedetismo precoce. Cruzei a determinada altura com alguém que, responsável na Comissão de Pais de uma escola, se queixava amargamente do desinteresse e da falta de responsabilidade dos pais, incapazes de se comprometerem e de interagirem com a mesma Comissão. Ouvi-o com gosto e compreensão. E contrapus a mesma mágoa em relação aos pais das crianças da catequese, muito alheios ao processo da formação cristã dos filhos e pouco colaborantes com os catequistas.

E o meu pensamento continuou: como dar às nossas crianças, às poucas que ainda vêm à catequese, o sentido da transcendência, capaz de um pensar a vida com equilíbrio, com sentido de futuro e como origem da força necessária diante dos revezes da vida?

Numa sociedade plural, temos de saber viver com a diversidade de opções e agir com a devida tolerância. Mas não é disto que se trata. Do que se trata é que, tendo nós todos a matriz cristã que forjou a alma barcelense ao longo dos séculos, a invasão do laicismo - a nova religião sem Deus que alguns tentam impor aos outros, sem qualquer tolerância para com os que pensam diferente ou foram educados a pautar a vida por valores comprovadamente sociais e geradores de harmonia e paz no tecido social - parece pretender arrumar numa qualquer prateleira da sacristia todos aqueles a quem se exige que tenham as portas abertas das igrejas para as suas conveniências sociais ou que, de graça e a seco, trabalhem para dignificar e manter de pé aquilo que os nossos maiores nos legaram e que se tornou património de todos.

De facto, temo pelo futuro das nossas crianças a quem se lhes apresenta um mundo sem dificuldades, em que os pais tudo fazem para que não «comam o pão que o diabo amassou, como nós», carregando-as com os seus próprios sonhos e utopias falidos. Apetece dizer: deixem as crianças ser crianças! Dêem-lhes a oportunidade de conhecer Jesus e de construírem livremente a sua própria vida aberta ao mistério de Deus. Se o não fizerem, elas serão pasto fácil para a invasão das seitas fundamentalistas e dos esoterismos cada vez mais procurados e escravizantes.

3 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXVI

Era previsível e há anos vinha sendo adiada. Uma simples intervenção cirúrgica havia de, um dia, se impor ao meu ritmo acelerado de trabalho pastoral. E tornou-se uma ocasião favorável para contemplar outras facetas da vida humana, às vezes tão alheias das nossas atitudes mais profundas.

O sofrimento, como realidade misteriosa e provocante, rodeia-nos por todos os lados. A alguns, infelizmente, permeia-lhes a vida de tal maneira que lhes parece que não estão a viver mas a serem consumidos ou simplesmente a adiarem a morte.

Reconheço que Deus me tem dado boa saúde. E sou-Lhe grato. Mas, de facto, também eu sou mais fácil a discursar sobre o sofrimento dos outros, olhando-o como algo estranho a mim e objectivo nos que me rodeiam. Mas sempre que o sofrimento se aproxima de mim ou dos que me são mais chegados, eis que a minha postura habitual se altera. E uma ligeira dor sem causa aparente ou cuja causa tarda em ser conhecida, é suficiente para abalar todas as nossas seguranças. E dou-me conta de que ainda estou a falar do sofrimento… dos outros… ou a discursar sobre o sofrimento «objectivo» nos outros.

A «imposição» de um descanso, necessário para boa recuperação, permitiu-me a calma necessária para reflectir e «sentir» a vida de outro modo. Pelo menos, fazer um acto de aceitação da fragilidade humana, que a todos atinge, tarde ou cedo. Saber que está, de algum modo, nas nossas mãos o bom êxito de uma recuperação obriga a decisões e cuidados pessoais, a que não estávamos facilmente habituados. Certamente não faltará quem hesite na minha capacidade de parar, ou de reduzir o ritmo de trabalho, já que a trama da minha vida está cheia de «prioridades» e de «inadiáveis». Impus-me, desde o início, as duas semanas sem conduzir o automóvel e o descanso de que o corpo precisa. Certamente que o período de repouso não foi ocupado apenas para dormir… o livro a ler há muito adiado teve a sua oportunidade, o pensar a vida e a programação da vida paroquial teve lugar, bem como o estar em família, sem a pressa de uma reunião, teve o seu próprio lugar. E até a televisão durante um jogo de futebol, coisa que há muito não acontecia.

Não posso deixar de referir, e com apreço, o mundo da saúde e daqueles que me trataram, para um acto de profundo louvor a Deus e aos homens/mulheres que me olharam na minha fragilidade como um ser humano com direito ao melhor tratamento possível. Fiquei contente, e exprimi-o, quando me foi dito que o faziam com todos os doentes. De facto, tenho de louvar a eficiência, o brio profissional, as informações e comportamentos devidos para que tudo tivesse êxito, bem como a desdramatização da intervenção, suposto que cada doente, eu pelo menos, temos tendência a exagerar a situação, por mais banal em termos médicos que ela seja. Apreciei o acompanhamento personalizado, a naturalidade com que o pessoal agia – um dos médicos mostrava no telemóvel com orgulho a foto de um neto recém-nascido – bem como as informações dadas sobre a situação. Pude dar graças a Deus pelo Serviço Nacional de Saúde que temos e pelos investimentos públicos no campo da saúde para todos os cidadãos. Apesar de também conhecer tantas lamúrias e queixas amargas de tratamentos sanitários que deixam a desejar e de conhecer que a opinião pública é marcada por «casos» que deixam uma terrível marca negativa e até receios fortes, que levam a desconfianças, o certo é que eu só posso dizer bem do Serviço Nacional de Saúde e do nosso Hospital de Santa Maria Maior. Possivelmente em contraste com a nossa cultura do «bota abaixo», eu tenho de reconhecer que fui bem tratado e me sinto grato aos médicos e enfermeiros, bem como a todo o pessoal interveniente, do Hospital de Santa Maria Maior.

26 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXV

Vão longe os tempos em que se repetia que «um bom livro é um bom amigo» e em que se valorizava a leitura de bons livros. Havia mesmo campanhas de «boa imprensa» para a formação de jovens. E não falta ainda quem, com certo saudosismo, recorde as boas impressões, gravadas para sempre, dos bons livros lidos, sobretudo na fase da adolescência e da juventude. É verdade que há ainda muitos jovens que prezam hábitos e tempos de leitura. Penso, porém, que o digital, a net ocupa cada vez mais o espaço que poderia e deveria ser de leitura. As próprias férias, como espaço de lazer, estão hoje de tal modo «invadidas» que o livro fica de lado, e a rapidez com que as escassas quatro semanas passam deixam-nos uma sensação de frustração, ao darmo-nos conta que até fazia mesmo falta ler aquele livro que há muito espera por nós.

O meu tempo de «descanso» imposto, em recuperação de fácil intervenção cirúrgica, permitiu-me a leitura de um livro dos dois que pensava poder ler. Nada mau.

Nos últimos anos, Thomas Halik, teólogo e filósofo, psicoterapeuta e conferencista, sacerdote checo ordenado na clandestinidade, sob o regime comunista ateu que vigorou na Ex-Checoslováquia, impôs-se-me como autor preferido e desde há quatro anos que leio os seus livros, aparecidos em tradução portuguesa ao ritmo de um por ano.

Não se trata de um romancista, ou de criações literárias com enredos mais ou menos transmissores do que é moda nesta nossa cultura do supérfluo, sem grandes horizontes. Gosto dos seus livros pelo conteúdo: densos de cultura, profundos nas análises sociológicas e culturais, transversal nas diversas áreas do saber, conhecedor profundo da diversidade cultural que atravessa os últimos séculos, e sempre dando preferência a um olhar de esperança sobre o futuro. Realista, sim, mas convidativo a um olhar responsável e construtor do futuro. Confesso que ele me faz recordar muitos dos princípios e métodos em que se alicerça a cultura ocidental, particularmente no que respeita à teologia e à filosofia, as bases culturais do meu agir quotidiano.

No seu último livro Quero que tu sejas, Thomas Halik penetra com as suas reflexões profundas no sentido do verdadeiro amor - tema que ele confessa difícil de abordar - um tema inevitável depois de falar da fé e da esperança.

Aprecio o autor - apesar de frustradamente (era o seu dia de folga, a segunda-feira) ter procurado encontrá-lo em Praga, na Igreja onde celebra e atende de confissão, uma Igreja ligada à Pastoral Universitária e ponto de encontro inevitável para a multidão de turistas que atravessa a famosa Ponte Carlos - pelo seu pensamento fundamentado, que me situa naquilo que a filosofia e a teologia me concedeu, mas que, partindo daí, me permite novos questionamentos e novas intuições muito mais capazes de me ajudarem no pensar a vida, para mim e para os outros. Revejo-me particularmente nele nas suas análises da contemporaneidade e no espírito crítico com que olha para a acção da Igreja: amando-a, critica-a porque a quer ajudar numa fidelidade maior ao Espírito Santo. Há cerca de dois meses Halik esteve em Braga numa conferência  que, ansiada por mim, acabou por me desiludir. Não que o seu pensamento deixasse de ser profundo ou não se situasse à altura do que escreve, mas porque a exposição, demasiado breve para quem tinha expectativas elevadas, não «agarrou» o público nem ele se encontrava nas melhores condições nem no melhor tempo para mostrar a riqueza do seu saber.

Claro que quer Quero que tu sejas (que nos dá logo a intuição de que o amor é verdadeiro quando «liberta» e permite o ser do outro), quer os livros anteriores são muito recomendáveis a quem, dispondo de pouco tempo para a leitura, tem de cuidar as suas escolhas para não se perder no banal ou efémero.. Com os livros de Thomas Halik aprende-se e evolui-se.

19 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXIV

Aconteceu uma vez mais a Feira Medieval em Barcelos. Pelo número de visitantes de que me apercebi terá sido bem sucedida. Embora não tivesse ocasião para mergulhar dentro dela e até de conversar sobre ela, sentindo-a por dentro, a verdade é que tive de a atravessar várias vezes pois a situação da Igreja Matriz obriga a todos a darem-se conta de um edifício, esse sim verdadeiramente medieval, inconfundível e «provocante», ao lembrar a memória dos tempos e a convidar a sair do barulho para o silêncio.

Parece estarem de moda estas novas modalidades de diversão, numa incursão pela História. Trazer para o presente usos e costumes de outrora pode ser muito positivo para as jovens gerações, imersas numa cultura que olha com uma certa desconfiança para o passado e, em concreto, para a Idade Média como era de obscurantismo. Faz-nos bem revisitar a história, desde que se tenha o cuidado de não a julgar a partir dos critérios da nossa dita pós-modernidade.

À semelhança do que acontece com Braga Romana e outras manifestações idênticas por esse mundo fora, a Feira Medieval de Barcelos parece ter conquistado o seu lugar nos eventos promovidos sobretudo no centro histórico. Nunca será demais recomendar a consulta de historiadores para darem rigor às manifestações promovidas.

A começar, devo dizer uma palavra de louvor à equipa que organiza. Só com muita dedicação e muita presença, sem horas contadas, um evento desta natureza pode ser bem sucedido. E o melhor sinal será sempre o número de grupos, associações ou lojistas intervenientes, bem como o número de visitantes.

Claro que, ao escrever sobre este acontecimento, não devo pôr de lado o título e a intenção de Um olhar outro. Pois bem, o que provocou em mim o que vi?

1. A multidão barulhenta, como seria de esperar. São assim as feiras. Mas se o barulho pode incomodar, ele também gera a necessidade do silêncio. E até vi alguns dos feirantes, cansados, gozando momentos de paz, de silêncio, nos bancos da Matriz, pouco iluminada mas sempre de portas abertas. Necessidade do silêncio? Concerteza.

2. A circulação das pessoas por entre as diversas «tendas» deixa adivinhar que se tratava de famílias ou de grupos de amigos. Como faz falta hoje o sabor do encontro numa sociedade tão agitada e num ritmo infernal de trabalho de sol a sol, «obrigados» a horários, imposições e impostos a pagar! E como começa a reconhecer-se as consequências da abolição do «dia santo», o domingo que tradicionalmente era o dia de todos pararmos os trabalhos simplesmente para estarmos uns com os outros. Há, infelizmente, famílias que passam semanas sem conseguirem reunir todas os membros à mesma mesa e à mesma hora.

3. A proliferação de lojas de videntes, tarólogos e afins provoca-me sempre o  pensamento: como é possível que, mais de 500 anos após a Idade Média, as convicções populares tenham evoluído tão pouco, a ponto de continuarem as mesmas crendices afirmadas e promovidas?

De facto, o nosso tempo é de profundos contrastes. Cresceu a informação e até a escolaridade chega hoje ao nível universitário para a maioria dos nossos jovens. Mas será que cresceu a cultura, no sentido de promoção do ser humano? Será que, com tanta informação e escolaridade, a reacção aos revezes da vida evoluiu? Aflige-me sim saber que até gente com canudos universitários frequenta bruxas e adivinhos e vão esperar da leitura das cartas a tranquilidade desejada. Ficam sempre reminiscências de costumes passados tidos como obscurantistas. São marcas que até podem ser consideradas positivas porque cada geração é sempre fruto de outras que as precederam e não devemos rejeitar o passado tal como aconteceu. Trazer à luz do dia costumes do passado até pode ser bom para um maior respeito pela história, que tanta falta faz. Mas podemos fazê-lo como atitude lúdica, porque sabemos contrapor com um pensar actualizado mais rigoroso e fundamentado.

Não aceitamos nós que a medicina convencional, que tanto evoluiu nos últimos tempos, se esquece às vezes da medicina tradicional, mais à base de ervas e vegetais ou seja, em termos de hoje, mais «amiga do ambiente» e sem a carga química hoje em voga?

4. Por último, olho com preocupação o processo de substituição em curso, capaz de «obscurantizar» o presente, suposto que este, pela evolução própria das sociedades, está mais crítico, mais liberto e mais responsável. Refiro-me a tantas crendices de que se faz propaganda, substitutas de uma postura religiosa libertadora, porque fruto de uma relação pessoal de cada ser humano com o Deus Pai, revelado por Jesus Cristo. Numa palavra, Deus fica substituído pelos deuses. E com estes deixamos de ser livres para sermos escravos dominados pelo medo.

12 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXIII

Dois momentos «marianos», a terminar o mês de Maio, trouxeram-nos à memória o acontecimento da visita da Imagem Peregrina, em 12 de Junho de 2015. De facto, uma multidão de mais de três centenas de pessoas, oriundas de várias zonas da Zona Pastoral Centro, congregaram-se em caminhada para Gilmonde, honrando Maria, nos diversos títulos por que é invocada entre nós. Da Matriz partiu a Paróquia de Santa Maria Maior para a Senhora da Ajuda, a anfitriã. Os caminheiros foram acompanhados pelos seus párocos, que informaram e mobilizaram para esta Caminhada Mariana, que se vem repetindo desde que, há anos, se iniciou na Paróquia de Santa Maria Maior.

No dia seguinte, nova multidão se juntou em procissão de velas, desta vez na cidade, a partir da Quinta do Aparício em direcção à Matriz.

Os dois acontecimentos trouxeram à minha memória a multidão calculada em 50 mil pessoas, que acolheram a visita da Imagem Peregrina de Fátima.

Que pensar de tais «sinais», agora que se aproxima a grande celebração do centenário das aparições de Fátima?

1. Que a iniciativa dos bispos portugueses de fazer anteceder o Centenário das Aparições com a Visita da Imagem Peregrina pelas dioceses de Portugal foi bem decidida e constituiu, ao menos para nós aqui em Barcelos, uma ocasião de despertar um fervor religioso que há muito não se via. Parece-nos que o acontecimento despertou a alma mariana do povo português, um pouco adormecida tal é a invasão forçada do laicismo que nos quer impor uma vida colectiva sem referências religiosas.

2. Que um tal despertar não pode ser ignorado, mas antes continuado, dado reconhecer-se que ainda é Maria que atrai as multidões de filhos, tantas vezes desorientados, ao encontro de Jesus e de uma nova e recuperada relação com a Igreja/Mãe. Sabemos já que o senhor Arcebispo vai propor a Senhora da Alegria como tema para a acção pastoral no próximo ano. Certamente que os programas pastorais das paróquias e dos arciprestados vão valorizar o Centenário das Aparições e as catequeses sobre o lugar de Maria na história da salvação, bem como a sua presença materna na acção pastoral da Igreja, ao longo de 2000 anos.

3. Que nos pertence a nós, padres e agentes de pastoral - os leigos empenhados - a inteligência de sabermos aproveitar a ocasião para, no destaque da figura de Maria, procedermos a uma verdadeira catequese sobre a religiosidade popular e a sua purificação de elementos reconhecidamente não permeados pelo evangelho de Jesus. De facto, Maria não salva pois, criatura que é, participa, de um modo único, da glória de Deus e continua - afirma a Igreja - a sua missão de orientar para Jesus, o Salvador.

Na procissão de velas, referi com gratidão o empenho crescente de grupos que se organizaram para assinalar a passagem do andor de Nossa Senhora, num acolhimento belo, que deixou corações confortados pelo que fizeram. De facto, estas «coisas» só são boas e belas quando acontecem com esforços conjugados, que partem de uma única origem: a vontade de fazer algo «com os olhos em Deus», sem recompensa, mas apenas pelo gosto de fazer algo «por e para Nossa Senhora».

Bom seria que, à semelhança dos moradores da Quinta do Aparício, da Rua Irmã São Romão ou do Largo do Bonfim e ruas adjacentes, que sempre se esmeram para receberem bem a Imagem de Nossa Senhora da Franqueira, outros moradores se agrupassem noutras zonas da cidade para reforçarem os laços de sadia convivência entre vizinhos. Quando o Secretariado Permanente, que se reúne todos os meses para analisar e decidir sobre a vida da Paróquia, determina por onde vai passar uma procissão, procura diversificar para que as diversas zonas da cidade sejam contempladas, tendo em conta o desejo dos moradores. Diante de uma Igreja Matriz cheia de barcelenses, entendi ser a ocasião de repetir o apelo: respeitai a vossa história grande, que encheu a Matriz ao longos dos séculos. A Igreja Matriz é a Mãe que gera para a fé, educa a fé e acompanha a vida de fé de Barcelos. Ela deve voltar a encher-se com o empenho e a vida de fé de todas as gentes de Barcelos. A sua dimensão diz bem o povo que fomos na altura da sua construção já lá vão mais de 600 anos. À assembleia reunida deixei uma interpelação: se aqui estais todos foi porque alguém semeou em vós uma afeição especial pela Mãe de Deus. Estareis vós a transmiti-la aos vossos filhos e netos?

5 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXII

O falecimento da Celestina Magalhães, após alguns meses de tratamento hospitalar, bem como o seu funeral no dia em que os seus «meninos da catequese» celebravam a Festa da Fé, permite-me partilhar este «Olhar outro» sobre a nossa catequese paroquial.

Tradicionalmente, há um serviço que nunca pode faltar numa Paróquia: a catequese da infância e adolescência. É verdade que já se vai concretizando catequese para todos, como processo de educação da fé permanente, acompanhando todas as fases etárias. Já lá vai o tempo, felizmente, em que havia muita gente que estranhava os termos de «catequese para os jovens e adultos». Hoje é impensável falar-se de catequese reservada às crianças e adolescentes. É certo que há ainda resistências e bem gostaríamos que, ao lado, e até concomitantemente, das crianças tivéssemos catequese com os pais. Lá chegaremos.

Era tratada, carinhosamente, por «Tia Tina». Facilmente me habituei a tal tratamento, que ela permitia e até apreciava, após a estranheza inicial quando a conheci. Desde então, já lá vão quase doze anos, sempre a vi como uma catequista empenhada na missão e dedicada aos «seus meninos». Acontece que há uns meses atrás teve de ser hospitalizada, pensando-se que voltaria para o grupo, entretanto sob a animação da Coordenadora, Susana Pedras. Ainda houve pais relutantes, preferindo adiar a Festa da Fé, na esperança de que a Tia Tina reassumisse o grupo. Percebeu-se que tal desejo não seria concretizável.

Inesperadamente, a pior notícia chegou na sexta-feira à noite, 20 de Maio. E o funeral aconteceria no domingo. Na Igreja Matriz, a partir da tarde de sábado, a Tia Tina «aguardava» a festa dos «seus meninos», já no seu leito de morte. Junto deste, rezaram, entregaram uma flor e receberam uma última lição de catequese, a da esperança cristã, e a confirmação da Páscoa da Tia Tina, passagem deste mundo para a casa do Pai, para onde sempre aponta o dedo responsável de um catequista. Sim, porque a missão e o testemunho de um seguidor é levar outros a «gostar» do Caminho, da Verdade e da Vida, que Jesus é. Porque o «gosto » de Jesus só é verdadeiro quando se transmite. E a vida da Tia Tina define-se por esta transmissão, em testemunho (no fazer), e na Palavra (no dizer), marcando gerações.

O seu «até à Páscoa» revela a sua convicção profunda, assumindo o ensinamento da Igreja, de que todo o seguimento de Jesus implica centrar-se na sua Páscoa. A morte e ressurreição de Jesus constituem o centro à volta do qual gravita toda a existência cristã. Fosse qual fosse a altura do ano, a sua despedida com um sorriso «até à Pascoa», passou a ser um refrão, a que os colegas catequistas, sorrindo também, respondiam com a mesma convicção da fé. «Até à Páscoa» ou «até ao Natal » como, com graça se lhes respondia também, dizem o horizonte da fé cristã, chamada sempre a avançar na esperança de um mundo novo, os «novos céus e a nova terra», que o Espírito Santo faz acontecer.

Na mesma manhã juntou-se à celebração da Vida em Cristo pelo Baptismo de duas gémeas, a Festa da Fé de um grupo de crianças preparadas por uma catequista que, ali ao lado, na capela do Santíssimo, aguardava a hora do seu funeral. Professada a fé, um momento especial à volta do caixão quis dizer - a estas crianças que, de lágrimas nos olhos, sentiam uma perda - que a Tia Tina vive para sempre na morada de Deus e lá espera por nós. Não se pode fugir da morte mas devemos conservar na nossa memória o bem que recebemos dos que partiram. A gratidão e a esperança deverão ser as virtudes a cultivar, dando continuidade ao ensino que receberam.

«Quem virá ocupar o lugar da Tia Tina?». O repto foi lançado. E bem gostaria que surgissem várias respostas. Há generosidade suficiente adormecida no coração de muitos. E a Paróquia muito precisa de a despertar. Sabendo, no entanto, que um catequista não se improvisa pois deve preparar-se convenientemente para assumir uma missão tão especial. Apesar de serem poucas as crianças, preocupa-me também o número de catequistas, como também a falta de tantos outros servidores a integrarem os diversos grupos da Paróquia. Nesta, somos poucos e precisamos de muitos outros pois «onde todos ajudam nada custa». Apesar de pobres em meios humanos, louvamos o Senhor pelo bom número e qualidade de tantos paroquianos envolvidos na acção pastoral da Paróquia que, como a Tia Tina, a sentem como a sua «casa».

29 de Maio de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXI

A semana que findou foi particularmente fértil em tensões e apreensões. O que leva sempre a várias interrogações postas, das mais diversas formas, pelo cidadão comum.

Também eu me questiono no dia a dia sobre o que vou vendo e «lendo» na escola da vida. Partilhar o que penso ou me preocupa ocupa este espaço de «Um olhar outro».

Olhando ao longe, quem não se preocupa com as situações explosivas no Brasil ou na Venezuela, em que os políticos não se entendem e o povo é quem paga a factura? Para já não falar no terrorismo, particularmente aquele que chama mais a atenção mediática, o que deriva do fundamentalismo islâmico? Sob a propalada democracia e do respeito pelos direitos humanos, acobertam-se inúmeros ditadores, cegos e ambiciosos, incapazes de reconhecerem que mentem ao povo quando dizem que estão a servir o povo. A História regista que muitos ditadores chegaram ao poder por métodos democráticos.

Olhando à nossa volta, a cidade tem sido fértil, nos últimos tempos, em diferendos institucionais, que fazem correr muita tinta a encher jornais, ocultando, ao mesmo tempo, as consequências terríveis ao afectarem, durante muito tempo, as relações humanas, que até se poderiam classificar de fraternas. Sim, quantos amigos cortaram relações, quantos ideais ficaram para trás e quantas promessas foram esquecidas... Apenas pela ambição desmedida de alguns, sedentos de poder. Basta referir o que recentemente se passou na mudança de órgãos sociais, seja na Santa Casa da Misericórdia, seja na Cooperativa Agrícola, ou o que se está a passar no nosso Município, a gerar incertezas e preocupações quanto ao nosso futuro colectivo.

E dentro da nossa casa? Das nossas casas? Da Igreja mesmo? Sabemos como os laços são cada vez mais frágeis. As relações entre pais e filhos e entre marido e esposa são cada vez mais ténues, ameaçando roturas. (Um parêntesis se justifica para saudar todos aqueles casais que celebram 25, 50 ou 60 anos de casamento). Felizmente que tem crescido a sensibilidade para se valorizarem, na família e até na Paróquia, tais datas jubilares, como também a necessidade reconhecida de preparação cuidada para o Matrimónio, exigência hoje já não contestada, apesar das dificuldades crescentes de um mundo laboral às vezes desumano e insensível.

Olho para tudo isto e pergunto-me: como se chegou a este estado de relações tão fugazes, de posições tão extremadas e de teimosias mortíferas? Em resposta não pensada inicialmente disse a alguém: «não há casamento que resista sem espiritualidade, ou seja vida de oração em que se reconhece a Presença misteriosa de Alguém na nossa vida a segredar-me ao ouvido: o outro é teu irmão, porventura mais frágil e menos dotado. Mas é sempre Irmão, filho do mesmo Pai». Reflectida de seguida, vim a confirmá-lo. E a experiência diz-nos quanto aquela resposta tem de verdade.

Os sociólogos analisam e exprimem surpresas quando se fala do futuro, porquanto não se concretizaram as previsões de outrora, tantos os imponderáveis não tidos em conta. Que será do nosso mundo nos tempos próximos?

Abandonado Deus, parece ter aumentado o espaço para o Homem. Pura ilusão. Nunca como hoje as manifestações do egoísmo humano, os sofrimentos da solidão humana ou o desnorte ideológico com o consequente vazio na alma humana foram tão evidentes. E até reconhecemos que nem uma economia forte pode alterar os níveis de felicidade. O futuro está carregado de muitas interrogações: a verdade é que não nos habituamos a viver sem Deus, ainda que às vezes O consideremos apenas uma muleta necessária em certos momentos.

Poderá haver futuro risonho para o ser humano? Optimista, creio bem que sim. Como creio que o ateísmo prático dará lugar a uma prática religiosa, que se deseja bem mais acima das superstições cada vez mais em voga nos costumes e nos media, ávidos de lucros para quem a verdade não conta, mas apenas o que dá espectáculo.

Precisamos, todos, de redescobrir Deus na nossa vida e na nossa sociedade. Se não O deixamos entrar nas nossas vidas, outros deuses nos ocuparão e farão de nós escravos... quando Deus nos criou para a liberdade no Dom.

22 de Maio de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXX

Palavras do Prior na cerimónia de bênção

e inauguração da residência paroquial de Barcelos restaurada

Senhoras e senhores

1. Introdução. Quis o Conselho Económico da Paróquia de Santa Maria Maior de Barcelos escolher esta data, 3 de Maio, para apresentar ao público a residência paroquial dos Priores de Barcelos, após as obras efetuadas. O dia tem o seu conteúdo próprio no coração dos barcelenses, assim como esta casa ocupa um lugar especial na vida dos barcelenses. Pareceu-nos, por isso, esta a melhor data e a melhor ocasião para benzermos este edifício, situado em continuidade com a missão que tem desempenhado desde há muitos anos: residência do Prior e espaço para actividades de ordem pastoral. De facto, ao longo de muitos anos foi aqui que os párocos de Barcelos se reuniam na sua palestra mensal.

2. Justificação da obra.

a) Vem do século XVIII a primeira edificação neste local. Com sucessivas intervenções, dentro da traça original, o edifício da residência do Prior foi perdendo solidez e capacidade para novas exigências. Foi particularmente desde que houve necessidade de distribuir pelas dependências da casa vários grupos de catequese que íamos sentindo que o edifício não estava preparado para tal. Um estudo cuidado feito ao edifício, como elemento de tese de mestrado, mostrou as suas debilidades e o seu autor, Arquitecto Sérgio Costa, fez-me sentir que seria obra de intervenção urgente. Para ele a nossa gratidão, nesta hora em que podemos certificar a justeza do juízo então feito: segundo ele, o edifício tinha partes em verdadeiro risco de ruína.

b) Não era a melhor altura para nos lançarmos à obra. Tivemos necessidade de esperar porque outras prioridades estavam em curso. Terminadas estas - refiro-me ao Cartório Paroquial em edifício adquirido e recuperado, inaugurado em Setembro de 2011 – tudo justificava uma paragem no esforço financeiro pedido à Comunidade em tempos de crise social e económica. Mas face à urgência da obra, tivemos de ousar confiar uma vez mais em Deus e na generosidade dos paroquianos e benfeitores.

c) Confiámos o projecto ao senhor Arquitecto Abílio Meira. Apreciado e corrigido, aprovado superiormente, duas exigências balizaram o andamento da obra: a manutenção do seu carácter de residência e de actividades pastorais. Quanto ao edifício em si, decidiu-se manter as paredes exteriores e construir novos pilares para suportarem todo o peso da construção. Um elevador como novo elemento perfeitamente justificado pelas novas exigências – os hipotéticos residentes na casa não estão imunes ao peso da idade – bem como uma cozinha equipada e uma grande sala, sem divisões, para as diversas actividades impunham-se por si em função das actuais e previsíveis necessidades da Paróquia.

d) O ano de 2012 foi um ano de estudo do projecto, de aprovação e de orçamentação da primeira fase. Em Novembro de 2013 decidimos entregar a obra à firma M. V. Santos, que a iniciou em Março de 2014. Já no decorrer da obra, confirmaram-se os piores receios: de facto, a segurança do edifício não existia e poderia mesmo ruir.

3. Execução da Obra

a) O Conselho Económico decidiu pôr a concurso a primeira fase da obra, relativa à segurança do edifício, isto é sem os acabamentos interiores, e contratou-a pela proposta mais baixa, a qual, depois de acréscimos inevitáveis, se deu por terminada há um ano atrás, totalizando os encargos em 130.000 euros.

b) Inicialmente ponderámos suspender os trabalhos no fim da primeira fase considerando a capacidade de financiamento da comunidade. A conveniência de prosseguir as obras foi decidida por duas razões: uma de ordem pastoral, dado que as obras afectavam o normal desenvolvimento da acção pastoral e a comunidade sentia ansiedade em terminá-las; a outra, de ordem económico-financeira, afigurava-se que retomar os trabalhos mais tarde acarretaria acréscimo de despesa. Preferimos não interromper e continuar a confiar na generosidade dos paroquianos. Apesar de estarmos em dívida, consideramos hoje que foi a decisão acertada. Dois anos depois de iniciadas as obras, estas estão concluídas: cuidou-se da segurança do edifício e dotámo-lo de maior funcionalidade para os fins para que foi projectado.

4. Contas da Obra

a) Certamente que me pedem contas. E dou-as com a mesma transparência com que as dou semana a semana no boletim paroquial, quanto aos donativos chegados, e em carta aos paroquianos ou no relatório de contas enviado anualmente.

b) A primeira fase da obra foi calculada em metade da previsão inicial de 250.000 euros. Atingiu 130.000 euros. Prosseguindo as obras até final, contabilizamos agora, no final da obra uma despesa de cerca de 270.500 euros. Este é o custo real da obra.

c) Para a pagar, desde há quatro anos que vimos apelando aos paroquianos e benfeitores, que contribuíram com cerca de 106.000 euros (registo do boletim, mais campanha de Natal). A Câmara Municipal deu um contributo substancial, que muito agradecemos, considerando também o estímulo que ele constituiu para a Paróquia para se lançar à recuperação do seu património situado no centro histórico. De igual modo a União de Freguesias e as diversas confrarias da cidade, juntamente com a Comissão de Passos. Tudo isto somado, temos uma entrada de 66.250 euros. Pelo que há um saldo negativo de cerca de 98.000 euros, parte dele já coberto com as economias anuais da gestão ordinária da Paróquia. Não nos surpreende este débito, que corresponde à avaliação das capacidades financeiras da Paróquia, que continuará, deste modo, a apelar à generosidade dos paroquianos durante algum tempo mais. Esse mesmo apelo se dirige a todos os presentes.

d) Benzido que está o edifício pelo senhor Arcebispo e dita esta palavra de apresentação, resta-me apenas dizer um obrigado sincero a quantos colaboraram para que este momento se tornasse possível. Particularizando-a, dirijo-a pessoalmente a todos os membros do Conselho Económico, a todo