
Pe. José Figueiredo do Vale Novais
09.08.1929 - 01.03.2026
«Trata bem dele» (Lc 10,35)
A compaixão como exercício sinodal de cura
Queridos irmãos
e irmãs
A doença faz
parte da nossa experiência humana. Mas pode tornar-se desumana, se for vivida
no isolamento e no abandono, se não for acompanhada pelo cuidado e pela
compaixão. Quando caminhamos juntos é normal que alguém se possa sentir mal,
que tenha de parar por causa do cansaço ou por alguma dificuldade no percurso.
É exatamente nesses momentos que se vê como estamos a caminhar: se caminhamos
verdadeiramente juntos ou vamos pela mesma
estrada, mas cada um por sua conta, dando atenção aos seus próprios interesses
e deixando que os outros “se arranjem”. Por isso, neste XXXI Dia Mundial do
Doente e em pleno percurso sinodal, convido-vos a refletir sobre o facto de
podermos aprender, precisamente através da experiência da fragilidade e da
doença, a caminhar juntos segundo o estilo de Deus que é proximidade, compaixão
e ternura.
No livro do
profeta Ezequiel, num grande oráculo que constitui um dos pontos culminantes de
toda a Revelação, o Senhor diz-nos: «Sou Eu que apascentarei as minhas ovelhas,
sou Eu quem as fará descansar – oráculo do Senhor Deus. Procurarei aquela que
se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado; cuidarei da que está
ferida e tratarei da que está doente. […] A todas apascentarei com justiça»
(34,15-16). Naturalmente as experiências de estarmos perdidos, doentes ou
frágeis fazem parte do nosso caminho: não nos excluem do povo de Deus. Pelo
contrário, colocam-nos no centro da solicitude do Senhor que é Pai e não quer
perder pelo caminho nem sequer um dos seus filhos. Trata-se, pois, de aprender
com Ele a ser verdadeiramente uma comunidade que caminha em conjunto, capaz de
não se deixar contagiar pela cultura do descarte.
A
encíclica Fratelli tutti, como sabem, propõe
uma leitura atualizada da parábola do Bom Samaritano (cf. n. 56). Escolhi-a
como charneira, como ponto de viragem para se poder sair das «sombras dum mundo
fechado» (cap. I) e «pensar e gerar um mundo aberto» (cap. III). Com efeito, há
uma profunda conexão entre esta parábola de Jesus e as múltiplas formas em que
hoje é negada a fraternidade. De modo particular, no facto de a pessoa
espancada e roubada acabar abandonada na estrada, podemos ver representada a
condição em que são deixados tantos irmãos e irmãs nossos na hora em que mais
precisam de ajuda. Distinguir quais os atentados à vida e à sua dignidade que
provêm de causas naturais e quais são aqueles que são provocados por injustiças
e violências… não é fácil. Na realidade, o nível das desigualdades e a
prevalência dos interesses de poucos já incidem de tal modo sobre cada ambiente
humano que é difícil considerar “natural” qualquer experiência. Um sofrimento
realiza-se sempre numa “cultura” e nas suas contradições.
O que importa,
no entanto, é reconhecer a condição de solidão, de abandono. Trata-se duma
atrocidade que pode ser superada antes de qualquer outra injustiça, porque para
a eliminar – como conta a parábola – basta um momento de atenção, o movimento
interior da compaixão. Dois viajantes, considerados religiosos, veem o ferido e
não param. Mas o terceiro, um samaritano, alguém que é desprezado, deixa-se
mover pela compaixão e cuida daquele estranho à beira do caminho e trata-o como
irmão. Procedendo deste modo, sem pensar sequer, muda as coisas, gera um mundo
mais fraterno.
Irmãos, irmãs,
nunca estamos preparados para a doença. E muitas vezes nem sequer para admitir
que avançamos na idade. Tememos a vulnerabilidade e a difusa cultura do mercado
leva-nos a negá-la. Não há espaço para a fragilidade. E assim o mal, quando
irrompe e nos ataca, deixa-nos por terra, atordoados. Então pode acontecer que
os outros nos abandonem ou que nos pareça a nós que devemos abandoná-los a fim
de não nos sentirem como um peso para eles. Começa assim a solidão e
envenena-nos a sensação amarga de uma injustiça, devido à qual até nos parece
que o Céu se fecha. Na realidade, sentimos dificuldade de permanecer em paz com
Deus, quando se desfaz a relação com os outros e com nós próprios. Por isso é
mesmo importante, relativamente também à doença, que toda a Igreja se confronte
com o exemplo evangélico do bom samaritano, para se tornar um “hospital de
campanha” válido: a sua missão, com efeito, especialmente nas circunstâncias
históricas que atravessamos, exprime-se no exercício do cuidado. Todos somos
frágeis e vulneráveis; todos temos necessidade daquela atenção compassiva que
sabe deter-se e aproximar-se, que sabe cuidar e levantar. A condição dos
enfermos é, assim, um apelo que quebra a indiferença e abranda o passo de quem
avança como se não tivesse irmãs e irmãos.
De facto, o Dia
Mundial do Doente não convida apenas à oração e à proximidade com aqueles que
sofrem, mas, ao mesmo tempo, visa sensibilizar o povo de Deus, as instituições
de saúde e a sociedade civil para uma nova forma de avançarmos juntos. A
profecia de Ezequiel, já referida atrás, contém um juízo muito duro sobre as
prioridades daqueles que exercem, sobre o povo, o poder económico, cultural e
governamental: «Vós bebestes o leite, vestistes-vos com a sua lã, matastes as
reses mais gordas e não apascentastes as ovelhas. Não tratastes das que eram
fracas, não cuidastes da que estava doente, não curastes a que estava ferida;
não reconduzistes a transviada; não procurastes a que se tinha perdido, mas a
todas tratastes com violência e dureza» (34,3-4). A Palavra de Deus – não só na
denúncia, mas também na proposta – é sempre capaz de iluminar, é sempre atual.
Na realidade, a conclusão da parábola do Bom Samaritano sugere-nos como a
prática da fraternidade, que começou por um encontro tu a tu, se pode alargar
para um cuidado organizado. A estalagem, o estalajadeiro, o dinheiro, a
promessa de se manterem mutuamente informados (cf. Lc 10,34-35): tudo isto faz
pensar no ministério dos sacerdotes, no trabalho dos agentes de saúde e dos
agentes sociais, no empenho de familiares e de voluntários, graças aos quais em
cada dia, em todo o mundo, o bem se opõe ao mal.
Os anos da
pandemia aumentaram o nosso sentimento de gratidão por quem diariamente
trabalha em prol da saúde e da investigação. Mas, ao sair de uma tragédia
coletiva assim tão grande, não é suficiente louvar os heróis. A Covid-19 pôs à
prova esta grande rede de competências e de solidariedade e mostrou os limites
estruturais dos sistemas de assistência social existentes. Por isso, é
necessário que a gratidão seja acompanhada, em cada país, pela busca ativa de
estratégias e recursos a fim de serem garantidos a todo o ser humano o acesso
aos cuidados e o direito fundamental à saúde.
«Trata bem
dele» (Lc 10,35) é a recomendação do samaritano ao estalajadeiro. Mas Jesus
repete-a igualmente a cada um de nós na exortação conclusiva: «Vai e faz tu
também o mesmo». Como evidenciei na encíclica Fratelli tutti, «a
parábola mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a
partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros,
não deixam constituir-se uma sociedade de exclusão, mas fazem-se próximos,
levantam e reabilitam o caído, para que o bem seja comum» (n. 67). Efetivamente
«fomos criados para a plenitude que só se alcança no amor. Viver indiferentes à
dor não é uma opção possível» (n. 68).
No dia 11 de
fevereiro de 2023 olhamos para o Santuário de Lurdes como uma profecia, uma
lição confiada à Igreja em pela modernidade. Não tem valor só aquilo que
funciona; não conta só quem produz. As pessoas doentes estão no âmago do povo
de Deus, que avança juntamente com elas como profecia duma humanidade onde cada
pessoa é preciosa e ninguém deve ser descartado.
À intercessão de
Maria, Saúde dos Enfermos, confio cada um de vós, que estais doentes; vós que
cuidais deles em família, com o trabalho, a investigação e o voluntariado; e
vós que vos esforçais por tecer laços pessoais, eclesiais e civis de
fraternidade. A todos envio de coração a minha Bênção Apostólica.
Roma, São João
de Latrão, 10 de janeiro de 2023.
FRANCISCO
In ECCLESIA, 10.01..2023

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