
Pe. João António Pinheiro Teixeira
A felicidade aumenta a produtividade
A Bíblia é uma
auto-estrada de sentido para a vida. Contém textos que, pelas circunstâncias
que os ditaram, pelo tema que tratam ou pela significação que abrem para o presente,
estão destinados a inspirar a vida de sempre. É o caso da bem conhecida
história de Caim e Abel no capítulo 4 do Génesis.
O narrador
hebraico tinha experiência de histórias humanas escritas com sangue. Quando os
seus actores eram irmãos de sangue, essas histórias reflectiam o crime
tenebroso. Como entender o fratricídio? Para responder ao ódio mortal entre
irmãos biológicos, o autor elevou ao nível do divino as relações estruturantes
entre irmãos. Fê-las remontar ao próprio Deus, dizendo que foi Ele que as criou
nas origens de tudo, como princípio e fundamento da ideal convivência social e
familiar. A fraternidade biológica aparece aí instituída por Deus (visto como
criador em todos os relatos até Génesis 11,9). E os dois protagonistas Caim e
Abel, pelo contexto – das origens da vida humana –, pela estrutura do relato e
pela sua linguagem simbólica, não são históricos. Com a acção invasiva e o
silêncio simbólicos querem iluminar aspectos custosos da vida humana. Põem a nu
a radical contradição que pode tomar posse do coração humano, tornando o
homem lobo para o homem. De facto, a imaginada personagem
Caim não respeita o irmão, por estar humana e geograficamente muito perto, contíguo,
fazendo-lhe sombra na casa comum. A proximidade de Abel tornava-o inimigo e
levou Caim à invasão fratricida do espaço do irmão. O muito que tinha não lhe bastava.
Sentia-se constrangido, incomodado na sua vida autocentrada.
Realmente, a
fraternidade é-lhe dada por Abel. Antes de ele nascer, Caim nem tinha irmão.
Abel é que faz dele irmão. Ao sê-lo, Caim era para o
irmão, assim determinado e definido por Deus, que lhe diz: “Por que estás
zangado e de rosto abatido? Se procederes bem [tratando o irmão como irmão],
poderás voltar a erguê-lo…” Mas Caim perde de vista o bem,
cego para a fraternidade. Não tem olhos para o irmão. Perde o sentido do irmão
e da ordenação divina dos laços humanos. Não quer ter irmão, nem como vizinho:
“Não sei dele; sou porventura o guardião do meu irmão?” Com esta resposta
irónica, denota cinismo e indiferença para com o alcance da relação fraterna.
Não sente o rosto do irmão a dizer-lhe que o seu eu
não é tudo o que existe no mundo e que se deve medir com as
exigências do tu do
irmão.
É de notar que, segundo a lógica narrativa, Caim não tem nada contra a presença de Deus. Até lhe faz ofertas cultuais. O que não suporta é a existência e a presença daquele que o relato figurativo lhe aponta como irmão. Não investiu no irmão. As suas ofertas a Deus foram religião vaporosa que investiu na radical aniquilação da pessoa, ao perverter a sua essência própria, a sua estrutural relação fraterna. Investindo contra o irmão e matando-o, matou o outro de si próprio, tornando-se o deserto de si próprio: ficou só, com o seu remorso. É esse o significado da sua “expulsão da terra” por parte de Deus.
O relato
figurativo deixa ver a fraternidade biológica como decisão divina que
compromete todas as decisões existenciais que os humanos tomam e com as quais
se aceitam ou se recusam mutuamente no aglomerado familiar. Pondo Deus a pedir
contas a Caim do irmão Abel (“onde está o teu irmão?”), este relato de criação
sugere que a guarda do irmão pelo irmão é querida por Deus.
Para esta guerra contra o irmão de sangue não aparece outra razão que não seja a prepotência. O texto hebraico só diz que “Caim disse a Abel, seu irmão [as traduções antigas acrescentam: vamos para o descampado]. E aconteceu que, quando estavam no descampado, Caim se lançou sobre Abel, seu irmão, e o matou”. É uma agressão especial e extrema que simboliza o pior do ser humano enquanto aniquilador de humanidade; simboliza a sua potência maléfica, destruidora até do irmão. É a linha vermelha aonde o verdadeiro humanismo nunca deveria chegar e para além da qual não se pode dizer mais nada. O ódio de Caim pelo seu irmão, porque é seu irmão, é o excesso do ódio: é o que não deveria existir, porque o ódio infecta a alma e destrói a pessoa. Também ‘diz’ o total “falhanço/fracasso” (ḥatta’t) da vocação do ser humano, que se diz criado para ser irmão, profissionalmente integrado (Caim agricultor – Abel pastor), mas se torna “fugitivo” de si próprio e da consciência de «não realizado» humanamente. Pondo Caim a confessar a Deus “o meu crime é demasiado grave para o poder suportar”, o narrador sublinha o desespero dramático do fratricida: o ser humano não é capaz de aguentar e gerir a monstruosidade de matar o irmão, sangue do seu sangue; essa maldade radical abruma o fratricida com uma carga insuportável, excessiva em consequências: “Tenho de esconder-me da Tua presença” (os tradutores gregos e a Vulgata latina entenderam o verbo naṥa’-suportar com o possível sentido de perdoar: “a minha culpa é demasiado grave para ser perdoada”). Porque perde a humanidade, o fratricida não consegue suportar o olhar de Deus omnipresente: prova permanentemente o fel vertido pela consciência, como o livro dos Provérbios dita clamorosamente (28,1): “O malvado foge sem que o persigam”, mesmo parado.
Armindo Vaz, OCD, Boletim de Espiritualidade, Nº. 97 – Julho 2022
Ilustração: A
morte de Abel (depois de 1539) COXCIE, Michiel – Museu
do Prado, Madrid

A felicidade aumenta a produtividade

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