
Pe. João António Pinheiro Teixeira
A felicidade aumenta a produtividade
Sabem de confinamento e reclusão mais do que ninguém: as carmelitas descalças de Cádiz oferecem os seus conselhos baseados na sua experiência de vida aos que, agora, se veem obrigados a ficar em casa.
1. Atitude de liberdade
O mais importante é a atitude com que se
vive, a interpretação pessoal que se faz da situação, a consciência de que não
se trata de uma derrota. Paradoxalmente, esta pode ser uma oportunidade para
descobrir a maior e mais genuína liberdade: a liberdade interior que ninguém
pode tirar, e que procede da própria pessoa. Num contexto em que as autoridades
“obrigam” a estar em casa, a liberdade consiste na adesão voluntária, sabendo
que é por um bem superior. É livre aquele que tem a capacidade de assumir a
situação porque quer fazer o correto. Não se está encerrado em casa, antes,
optou-se por nela permanecer “livremente”.
2. Paz onde a alma se amplia
Olhe para dentro de si próprio, o espaço mais
amplo para a pessoa se expandir e ser feliz está no seu coração. Não são
necessários espaços exteriores, mas andar folgadamente no próprio mundo. Dê
asas à criatividade, escute as suas próprias inspirações, e encontre a beleza
de que é capaz. Talvez ainda não tenha descoberto que da paz da alma brota
vida… a vida é criação de mais vida, comunicação de alegria e amor. Quando se
acostumar a viver em si, já não quererá sair.
3. Não se descuide, a paz requer trabalho
Exercite virtudes que requerem concentração e
autoconhecimento, essas que normalmente se descuidam quando se está ocupado nos
mil e um afazeres “externos”. De como se encara as próprias emoções e
pensamentos, da gestão dos sentidos e paixões, depende se se vive no céu ou no
inferno. Observe-se e domine-se, porque se se deixar levar pelo medo, pela
tristeza ou pela apatia, dificilmente se sairá delas, já que não há muitas
evasões. Exerça disciplina sobre o seu coração: quando algum pensamento não lhe
fizer bem, rejeite-o. Procure inclinar-se para tudo aquilo que note que lhe dá
paz e alegria... a harmonia tem de trabalhar-se.
4. Ame
A questão de fogo destes dias será a
convivência. Perante a crise causada pela pandemia as pessoas ficam mais
suscetíveis e, inclusive, irritáveis. É preciso ser-se muito paciente e usar
muito o senso comum. Somos diferentes, cada qual tem uma sensibilidade distinta
por múltiplas circunstâncias. Aceite e respeite as opiniões e sentimentos dos
outros. É muito normal, quando se está em casa, a tendência para querer
controlar tudo… Procure não o fazer, seria causa de muitos conflitos e
frustrações. Não dê importância às diferenças, potencie as coisas que unem. O
único terreno que realmente lhe pertence é a sua própria pessoa: os seus
pensamentos, palavras e emoções; não controle, controle-se. A partir do amor
extrairá compreensão e empatia, vontade de dar e agradecimento ao receber.
Respeite, acolha a fragilidade, desdramatize, viva e deixe viver.
5. Não mate o tempo
Nada poderá criar-lhe uma sensação tão grande
de vazio e fastio como passar o tempo inutilmente. É um inimigo gravíssimo que
lhe poderá roubar a paz, e até colocá-la em depressão. Faça um plano para estes
dias, e tente vivê-lo com disciplina. Descanso e ocupação não são antagónicos,
aproveite para descansar realizando atividades que a relaxem ou que estimulem
um ânimo positivo. Dê tempo nas coisas simples: que o grão-de-bico se torne
tenro, que o assado demore a ficar cozinhado… temos tempo! Mesmo que um guisado
lhe leve duas horas, desfrute de o fazer, e empenhe-se em que as coisas que
faz, por simples que sejam, tenham valor e uma finalidade. Nada de perder tempo
sem sentido, “matar o tempo” é matar a vida.
6. Alargue as suas fronteiras
Quantas vezes se deixou de fazer o que se
devia por falta de tempo. Pois bem, agora temo-lo! Esse livro que lhe
ofereceram há três anos e que não leu, aquele que ainda não devolveu porque
ficou pela metade. Se gosta de música, procure novos artistas, descubra novos
géneros. Apetece-lhe uma viagem? Pense num país exótico e aprenda sobre a sua
cultura e tradições… temos internet também para isso. Se é pessoa de fé e oração,
talvez não saiba o que rezar porque já esgotou tudo o que sabia. Por que não
experimenta a liturgia das horas? Descarregue-a no seu telemóvel; procure os
escritos de algum santo, seguramente vai encontrar muitas coisas que lhe
encherão a alma de novas luzes. Não se conforme com o que conhece e sabe… agora
que há oportunidade, abra-se a novidades que lhe acrescentem sabedoria e a
encham de alegria.
7. Para as mais sensíveis
Nem todos dominam as emoções de igual
maneira. Haverá pessoas para quem, pela sua psicologia, lhes custará muito mais
este confinamento do que a outras. As emoções não só provêm do interior; também
aquilo que se vê, escuta, toca, etc. influencia. Por isso, é preciso ser-se
seletivo com aquilo que se recebe do exterior, para evitar entrar em círculos
viciosos que envolvam em desespero ou façam perder o controlo. Evite-se, na
medida do possível: conversas pessimistas, discussões, más caras, excesso de
informação, filmes de terror ou intriga, desordem dentro de casa. Como não há
muitas evasões que façam mudar de “chip”, tudo o que entra no cérebro nele
permanecerá mais tempo do que o habitual; por isso, é preciso ter cuidado para
não se ficar obcecado, ou permitir aninhar uma emotividade negativa no
interior. O excesso de ecrãs também é mau porque estimula em demasia e o
cérebro, e provoca mais nervosismo. Há que dormir bem, mas em excesso pode
causar a sensação de fracasso ou derrota. Um remédio muito bom para canalizar a
energia e relaxar é dançar. Ponha boa música e divirta-se a dançar. Nada como
rir e divertir-se para reiniciar o sistema interior.
8. Não está isolada
É importante compreender que não há motivo
para se sentir só, pois não se está. O amor e o carinho dos teus continua,
mesmo que o contacto físico se tenha distanciado. Esta é uma oportunidade para
viver a comunicação a um nível mais profundo, mais íntimo. Fale com quem está
em casa com tranquilidade, sem pressas, escute-os até que terminem, deixe que o
diálogo faça crescer a confiança e as confidências construam cumplicidade. Diga
aquilo que nunca tem tempo de dizer, conte o que sempre quis contar, fale de tudo
e de nada, mas com carinho, que é o que chega à alma e nela se aninha. Responda
àquela mensagem de Natal que não agradeceu, a carta que a emocionou e à qual
estava a preparar uma resposta, àquele “e-mail” de uma velha amizade. Procure
palavras com beleza, tente dar expressão aos seus sentimentos mais nobres… Fale
com o coração e crie laços muito mais profundos com os seus. Descobrirá que a
distância não é ausência.
9. Dia de reflexão
Para não se angustiar, também é conveniente
procurar momentos de silêncio e solidão. Na organização do tempo para estes
dias, inclua espaços de “oxigenação” individual. Quantas pessoas já alguma vez
disseram: «Como gostaria de me retirar alguns dias para um mosteiro». Pois bem,
a ocasião está aqui, em casa. Habitualmente as pessoas cansam-se por causa da
aceleração das suas horas, como se a rotina diária não desse tempo para
assimilar o que se vive. Esperamos mudanças substanciais na sociedade, «isto
não pode continuar assim». Agora temos esta oportunidade para nos metermos num
casulo como a lagarta que se converte em borboleta. Reflita, pense, medite… Que
posso mudar em mim para ser melhor depois destes dias?... A separação das
coisas que normalmente temos entre mãos ajudará a ver se realmente se está a
pôr o acento naquelas que importam, em vez daquelas que podem ser
secundarizadas, quais são as insubstituíveis, etc. Um bom discernimento para
melhorar fará com que estes dias sejam de muito proveito. Homens e mulheres
novos depois desta crise.
10. Reze
Só a oração (que é o vínculo de amizade com
Deus) pode sustentar a vida em todas as situações, especialmente nas adversas.
Oração, que como diria Santa Teresa, «ainda que a diga à sobremesa, é o
principal». Orar é abrir-se a esse “Outro” que pode sustentar-nos quando se
precisa de ajuda; mas também quando se está bem, orar é sustentar outros que
precisam. É a experiência mais universal do amor. Ore, fale com Deus, as horasa
passarão sem que se dê conta: fale-lhe de tudo, Ele não se cansa de a escutar,
desafogue-se com Ele quando necessitar, e, porque não?, deixe que também Ele se
desafogue consigo, é o seu Pai, seu Irmão, seu Amigo. Exercite a sua fé e a sua
confiança. Se deixou a relação com Deus no vestido da sua primeira comunhão,
volte a experimentá-lo, agora há tempo e serenidade para conversar com Ele.
Talvez não acredite porque nunca o experimentou. E se tentar?...
In Carmelitas Descalças de Cádiz
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: TeleMakro Fotografie/Bigstock.com
Publicado em 20.03.2020

A felicidade aumenta a produtividade

Carmen Garcia

“As ruas e as praças de Lisboa não pertencem apenas aos sindicatos e não são propriedade da extrema-esquerda. Até os Católicos se podem manifestar, porque há separação entre a Igreja e o Estado.”

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